Feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda

Do Evangelho Quoditiano

Os discípulos de João informaram-no de todos estes fatos. Chamando dois deles, João mandou-os ao Senhor com esta mensagem: És Tu o que está para vir, ou devemos esperar outro? Ao chegarem junto dele, os homens disseram: João Batista mandou-nos ter contigo para te perguntar: ‘És Tu o que está para vir, ou devemos esperar outro?’Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres; e feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda. (Lc 7,18-23)

Comentário feito por Santo Hilário (c. 315-367), Bispo de Poitiers e Doutor da Igreja

Ao ver os discípulos dirigirem-se a Jesus, João ficou preocupado com a ignorância deles, não com a sua, pois ele tinha proclamado que Alguém viria para a remissão dos pecados. Mas para lhes dar a conhecer que não tinha proclamado outro senão Aquele, enviou os discípulos a observar as Suas obras, para que estas dessem autoridade ao seu anúncio e que nenhum outro Cristo fosse esperado para além d’Aquele a Quem as suas obras tinham testemunhado.

E, como o Senhor Se tinha revelado completamente pelas Suas ações miraculosas, dando a vista aos cegos, a marcha aos coxos, a cura aos leprosos, a audição aos surdos, a palavra aos mudos, a vida aos mortos, a instrução aos pobres, Ele disse: Feliz de quem não tiver em Mim ocasião de queda. Será que, da parte de Cristo, terá jamais havido algum ato que possa ter escandalizado João? Seguramente que não. Ele permanecia realmente na sua própria linha de ensinamento e ação. Mas é preciso estudar o conteúdo e o caráter específico do que o Senhor diz: que a Boa Nova é recebida pelos pobres. Trata-se daqueles que perderam a vida, que tomaram a sua cruz para O seguirem (Lc 14, 27), que se tornaram humildes de coração e para os quais o Reino dos Céus já está preparado (Mt 11, 29; 25, 34). Porque o conjunto destes sofrimentos convergia para o Senhor e a Sua cruz ia ser um escândalo para um grande número, Ele declarou bem-aventurados aqueles cuja fé não sofresse nenhuma tentação causada pela Sua cruz, pela Sua morte e pela Sua sepultura.

Dominus Vobiscum

A transmissão da palavra de Deus: Oral e escrita

Quando falamos da transmissão da palavra de Deus, um aspecto importante que devemos salientar é que, no Evangelho de São João, vemos algo interessante: Que Jesus fez muitas outras coisas que não constam nesses escritos e que seria impossível escrever tudo.

Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.
(Jo 21,25)

Deus quis usar de duas formas de transmissão da sua palavra, que até hoje caminham juntas: A escrita e a oral.  A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus, que fora redigida sob a moção do Espírito. Precisamos ter consciência que naquele tempo, diversos livros e escritos narravam coisas do povo de Deus (Antigo Testamento) e do próprio Cristo e dos seus Apóstolos (Novo Testamento). Coube a Igreja discernir quais desses livros foram de fato escritos sob a moção do Espírito. Assim surgiu a Bíblia.

A Sagrada Tradição Apostólica é tudo aquilo que nos foi transmitido desde o início pelos Apóstolos e seus Sucessores. Como vimos acima, nem tudo que Jesus e os primeiros apóstolos fizeram constam na Bíblia, mas muitas coisas nos foram passadas pela Tradição. Essas coisas são dignas de fé. Os primeiros cristãos não tinham um Novo Testamento. Mas eram assistidos pelo Espírito Santo e essas experiências também eram passadas para o povo. E eram passadas de forma verbal. Boca a boca.

A Igreja Católica é guiada pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição Apostólica, devidamente discernida pelo Magistério da Igreja. Não somos sacis. Não caminhamos com um pé só.

Existem irmãos que baseiam sua fé unicamente na palavra de Deus. Esquecem-se da Tradição. Renunciam o Magistério. Apostam sua fé unicamente na Palavra, que segundo eles, Deus dará o total entendimento como se fosse um passe de mágica. Isso é um erro. Não existe nenhum versículo na própria bíblia dizendo que os cristãos deveriam basear sua fé unicamente na palavra. Ao contrário disso, vemos que ainda no início, o Cristo falava da sua Igreja.

Porém ai surge uma outra questão: Os apóstolos não iriam durar para sempre. Não seriam imortais. Então, quando eles morressem, a quem deveriam confiar a missão que o próprio Jesus os confiara? Quem seria responsável, depois da morte dos primeiros apóstolos por manter intacta a Fé Católica que é baseada na Escritura e na Tradição?

“Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles ‘transmitindo seu próprio encargo de Magistério.” Com efeito, “a pregação apostólica, que é expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos”.
(CIC§77)

Sobre isso falaremos em breve. Por enquanto fico por aqui! Pax Domini