Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [O autêntico significado do conceito acadêmico de “verossímil”]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao tema “verossímil” em relação ao conceito Acadêmico.

Quinta Discussão

O autêntico significado do conceito acadêmico de “verossímil”

25 – O dia seguinte não amanheceu menos agradável e sereno. Todavia, foi difícil desembaraçar-nos das ocupações domésticas, pois consumimos grande parte do dia escrevendo cartas. Quando já restavam apenas duas horas, fomos ao campo, pois convidava-nos a extrema limpidez do céu e não queríamos perder o pouco tempo que ainda tínhamos. Depois que chegamos à arvore costumeira e todos se tinham acomodado, comecei:

                – Rapazes, como hoje não podemos tratar de uma grande questão, gostaria que me recordassem como ontem Alípio respondeu à perguntinha que vos perturbou.

                Respondeu Licêncio:

                – A resposta foi tão curta, que não há problema em recordá-la. Mas cabe a ti julgar o seu peso. Parece-me que, sendo clara a questão, ele te impediu de levantar uma discussão de palavras.

                – Percebestes bem, tornei eu, o sentido e o alcance dessa resposta?

                Licêncio:

                – Creio ter entendido o que significa, mas peço-te que a expliques um pouco mais. Pois muitas vezes te ouvi dizer que numa discussão é vergonhoso deter-se em questões de palavras, quando já não há dúvida quando às coisas em si. Mas isso é demasiado sutil para que se me peça uma explicação a mim.

 26 – Ouvi, pois, continuei, de que se trata. Os Acadêmicos chamam provável ou verossímil agir sem assentimento. Quando digo sem assentimento, quero dizer de tal modo que sem ter por verdadeiro o que fazemos e julgando ignorar a verdade, não deixamos de agir. Por exemplo, se na noite passada, com o céu tão desanuviado e puro, alguém nos perguntasse se hoje nasceria um sol tão radioso, creio que teríamos respondido: não sabemos, mas parece que sim. Tal me parece ser, diz o Acadêmico, tudo o que julguei dever chamar provável ou verossímil.  Se quiseres chama-lo com outro nome, não me oponho. Basta-me saber que entendeste bem o que digo, isto é, a que coisas dou estes nomes. “Pois o sábio não deve ser um artífice de palavras, mas um investigador da realidade”. Compreendestes como me foram arrancados das mãos os brinquedos com que vos exercitava?

Ambos responderam que sim, mas a expressão do rosto deles pedia uma resposta minha. Disse lhes então:

- Por acaso pensais que Cícero, de quem são estas palavras, era tão ignorante da língua latina que desse nomes pouco adequados às coisas que tinha em mente?

27 – Trigécio:

                – Agora que a questão real está clara, não queremos levantar nova discussão de palavras. Vê, antes, o que tens a responder àquele que nos libertou, em vez de tentar novamente atacar-nos.

                Licêncio:

                – Um momento, por favor, pois me vem à mente uma luz pela qual vejo que não se deveria ter-te arrebatado um argumento tão forte. Depois de refletir um momento em silêncio, continuou:

                – Nada me parece mais absurdo que alguém dizer que segue o verossímil quando ignora a verdade. E neste ponto nem a tua comparação me perturba. Se me perguntarem se a presente condição do tempo não ameaça chuva para amanhã, respondo que não é verossímil, porque não nego que conheço alguma verdade. Pois sei que esta árvore não pode subitamente tornar-se uma árvore de prata e há muitas outras coisas que sem temeridade afirmo conhecer, às quais vejo serem semelhantes às que chamo verossímeis. Mas tu, Carnéades, ou outra peste grega, para não falar dos nossos – pois por que hesitarei em passar para o partido de quem sou prisioneiro por direito de vitória? – quando dizes não conhecer nenhuma verdade, donde saber que segues o verossímil? Efetivamente não posso dar-lhe outro nome. O que discutir com um homem que não pode sequer falar?

 28 – Tomou a palavra Alípio:

                – Não temo os desertores. E muito menos os teme Carnéades, contra quem, levado por uma leviandade, não sei se juvenil ou pueril, julgaste dever lançar maldições em vez de um argumento. Pois, para confirmar a sua opinião que sempre se apoiou somente no provável, lhe seria fácil e suficiente alegar contra ti que nos encontramos tão longe de encontrar a verdade, que tu mesmo podes ser uma prova decisiva disso, visto que de tal modo foste abalado por uma simples pergunta, que não sabias da certeza que há pouco afirmavas ter em relação à arvore, deixemo-lo para outra ocasião. Embora já tenhas escolhido outro partido, contudo deves instruir-te diligentemente sobre o que eu disse um pouco antes. Pois parece-me que ainda não penetramos no âmago da questão de saber se é possível encontrar a verdade. Mas achei que no umbral da minha defesa devia ser proposta a questão em relação à qual eu te vira abatido e prostrado. Isto é, se não se deve procurar o verossímil ou o provável – ou outro nome que se lhe queira dar – com que se dão por satisfeitos os Acadêmicos. Pois se tu já te consideras um perfeito conhecedor da verdade, pouco me importa. Se depois não fores ingrato ao meu patrocinador, talvez me ensinarás essas coisas.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Caráter substancial e não meramente verbal da controvérsia sobre o “verossímil”]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao tema do “verossímil”. Apesar de ser um tanto curto, o objeto deste é incutir o conceito da verossimilhança.

Boa leitura!

Caráter substancial e não meramente verbal da controvérsia sobre o “verossímil”

24 – Alípio:

                – Agora prosseguirei com segurança, pois vejo que serás menos um acusador que um auxiliar. Assim, para não nos afastarmos demasiado do assunto, peço-te que tratemos antes que esta discussão, em que tomo o lugar daqueles que cederam perante ti, não degenere em controvérsia de palavras, o que, por insinuação tua e apoiados na autoridade de Túlio, muitas vezes declaramos ser totalmente ignóbil. Com efeito, se não me engano, tendo Licêncio dito que lhe agradava a opinião dos Acadêmicos sobre a probabilidade, perguntaste-lhe – ele confirmou que sim – se sabia que eles também a chamavam de verossimilhança. E bem sei, por tê-lo aprendido de ti mesmo, que as opiniões dos Acadêmicos não te são desconhecidas. Se, como eu disse, isso está gravado no teu espírito, não entendo por que te prendes a questões de palavras.

                Respondi:

                – Não se trata, acredita-me, de uma simples querela de palavras, mas de uma importante controvérsia sobre a própria realidade das coisas. Não julgo que os Acadêmicos tenham sido homens que não saibam das os nomes certos às coisas. Parece-me que escolheram tais palavras para, ao mesmo tempo, ocultar a sua doutrina aos medíocres e revela-la aos espíritos mais penetrantes. Explicarei o porquê e como da minha opinião depois de discutir o que se lhes atribui e  os faz considerar como inimigos do conhecimento humano. Assim, estou muito feliz que hoje a nossa conversação tenha chegado a um ponto em que aparece claramente qual a questão discutida entre nós. Parece-me que os Acadêmicos foram homens absolutamente sérios e prudentes. E se há algo que agora discutiremos, será contra aqueles que julgaram que os Acadêmicos se opunham à descoberta da verdade. Mas não vás imaginar que eu tenha medo deles. Não terei dúvida em investir também contra eles, se o que lemos nos seus livros o sustentaram por convicção e não para ocultar a sua opinião a fim de evitar que certos aspectos sagrados da verdade fossem expostos a espíritos corrompidos e, por assim dizer, profanos. É o que eu faria hoje, se o acaso do sol não nos obrigasse a voltar para casa. Aqui terminou a discussão daquele dia.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade a discussão da temática abordada nos capítulos anteriores.

Boa leitura!

Discussão entre Agostinho e Alípio

Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade

22 – Alípio:

                – Gostaria, pois, que dissesses bom acusador dos Acadêmicos, qual é o teu papel, ou seja, em favor de quem os atacas. Receio que, ao refutar os Acadêmicos, queiras mostrar-te um Acadêmico.

                Respondi:

                – Bem sabes, creio que há duas espécies de acusadores. Pois se Cícero disse com excessiva modéstia que era acusador de Verres, para ser defensor dos Sicilianos, daqui não se segue que quem acusa alguém necessariamente esteja defendendo um outro.

Alípio:

                – Tens pelo menos algum fundamento onde apoiar a tua opinião?

                Respondi:

                – É fácil responder a esta pergunta, sobretudo porque ela não me colhe de surpresa. Já refleti muito e longamente sobre todas essas questões. Por isso, Alípio, ouve o que, segundo creio, já sabes muito bem. Não quero que esta discussão prossiga só pelo prazer de discutir. Bastam o que ensaiamos com estes jovens, quando a filosofia, por assim dizer, brincou livremente conosco. Deixemos de lado as fábulas infantis. Trata-se da nossa vida, dos costumes e da alma. Esta espera supera os perigos de todas as falácias e depois de abraçada a verdade, como que voltando a região da sua origem, triunfar sobre as paixões e assim, desposando a temperança, reinar, mais segura de voltar ao céu. Entendes o que quero dizer. Abandonemos tudo isso. “É preciso preparar as armas para um valente guerreiro”. Não há nada que eu tenha desejado menos que ver surgir entre os que tanto tempo conviveram e conversaram entre si algo que dê origem a um novo conflito. Mas por causa da memória, que é guarda infiel das coisas que pensamos, quis que fossem recolhidas por escrito as questões que frequentemente tratamos entre nós para que estes jovens aprendam a refletir sobre estes assuntos e, ao mesmo tempo, se exercitem no ataque e na defesa.

23 – Não sabes, pois, que ainda não tenho nada como certo e que os argumentos e disputas dos Acadêmicos em impedem de procura-lo? Pois não sei de que modo me fizeram admitir como provável, para não fugir da sua expressão, que o homem não pode encontrar a verdade. Isso me deixara preguiçoso e indolente e eu não ousava buscar o que homens tão inteligente e doutos não conseguiram encontrar. Se não conseguir convencer-me da possibilidade de descobrir a verdade tão fortemente quanto os Acadêmicos estavam convencidos do contrário, não ousarei procurar e não tenho nada a defender. Portanto, deixa de lado a tua pergunta, por favor. Discutamos, antes, entre nós, com toda a perspicácia, se é possível encontrar a verdade. De minha parte, creio ter já muitos argumentos contra a doutrina dos Acadêmicos. Por hora a nossa diferença de opinião se reduz a isto: Eles acham provável que não se pode encontrar a verdade e eu julgo provável que se pode encontra-la. Pois a ignorância da verdade me é particular, se eles fingiam, ou então é comum a mim e a eles.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao entendimento do capítulo anterior ( Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga ). Aqui, São Agostinho inicia a demonstrar como a nova e a velha Academia são “quase” a mesma coisa.

Outro ponto interessante, será o convite de Trigécio a Alípio para que entre na discussão a fim de defender a Academia e tentar derrubar as afirmativas de São Agostinho.

Boa leitura!

Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro

16 – Tomei então a palavra:

                – Licêncio, até quando continuarás parado nesta conversa que já se prolonga mais do que eu esperava? Ouviste quem são os teus Acadêmicos?

                Sorrindo envergonhado e um tanto perturbado pela minha interpelação, disse ele:

                – Arrependo-me de ter sustentado com tamanha ênfase contra Trigécio que a vida feliz consiste na busca da verdade. Pois esta questão de tal modo me perturba que se não chego a ser infeliz, certamente devo ser considerado digno de pena por vós, se tendes algum sentimento de humanidade. Mas por que me atormento tolamente? Por que me abalar se me apoio numa causa tão boa? Só cederei à verdade.

                – Agradam-te os novos Acadêmicos? – disse eu.

                – Muitíssimo – respondeu Licêncio.

                – Logo te parecem dizer a verdade? Retruquei.

                Licêncio já estava para concordar, mas, ao ver o sorriso de Alípio, tornou-se mais cauteloso, hesitou um pouco e disse:

                – Repete a pergunta!

                Respondi:

                – Crês que os Acadêmicos dizem a verdade?

                Depois de novo prolongado silêncio, Licêncio respondeu:

                – Não sei se é a verdade, mas é provável. Já não vejo mais o que seguir.

                Disse eu:

                – Sabes que eles chamam o provável de verossímil?

                Licêncio:

                – Assim parece.

                – Portanto, a opinião dos Acadêmicos é verossímil? Indaguei eu.

                – Sim, respondeu ele.

                Continuei eu:

                – Presta atenção ao seguinte: se alguém, ao ver teu irmão, afirma que ele é semelhante ao teu pais, que não conhece, não te parece que tal pessoa é louca ou tola? Licêncio permaneceu calado certo tempo e por fim respondeu: – Isso não me parece absurdo.

17 – Quando ia começar a responder-lhe, ele atalhou:

                – Espera um pouco. E sorrindo:

                – Dize-me, já estás certo da tua vitória?

                – Suponhamos que sim, disse eu. Mas nem por isso deves abandonar a tua causa, tanto menos que a nossa discussão foi travada com a finalidade de exercitar-te e de aperfeiçoar o teu espírito.

Licêncio:

                – Porventura li eu os Acadêmicos, ou fui formado em todas estas disciplinas com as quais me enfrentas?

                – Nem aqueles que por primeiro defenderam esta opinião tinham lido os Acadêmicos. E se te falta a informação e a riqueza de muitos conhecimentos, nem por isso a tua inteligência há de ser tão impotente que logo sucumba ao ímpeto das minhas poucas palavras e perguntas. Já estou começando a recear que Alípio venha a substituir-te antes que eu queria, adversário contra o qual não avançarei com tanta segurança.

Licêncio:

                – Então, oxalá seja eu vencido logo para que finalmente vos ouça e mais do que isso, vos veja disputando, pois nada me daria mais prazer que esse espetáculo. Preferistes recolher esses discursos a espalhá-los, pois o estilo recolhe o que sai da boca, para que nada caia por terra, como se diz. Com isso também poderei ler-vos. Mas, não sei por que, quando se têm diante dos olhos os adversários que discutem entre si, uma boa disputa penetra o espírito, se não com mais proveito, certamente com mais agrado.

18 – Agradecemos-te, disse eu. Mas a tua súbita alegria fez com que deixasses escapar imprudentemente a opinião de que nenhum espetáculo te poderia ser mais agradável. Que seria, então, se visses indagando a verdade e discutindo conosco teu pai, a quem, depois de tão prolongada sede, ninguém superaria no ardor para abeberar-se nas fontes da filosofia? Se já para mim isso seria o cúmulo da felicidade, o que não sentirias e dirias tu?

                A estas palavras Licêncio não conteve as lágrimas. Quando pôde falar, ergueu as mãos, olhou para o céu e exclamou:

                – Quando, meu Deus, verei isso? Mas não há nada que não se possa esperar de ti!

Estávamos quase todos com os olhos rasos d’água, a ponto de esquecer a discussão, quando eu, lutando comigo mesmo, mal me contendo, disse:

                – Coragem, recobre tuas forças! Já muito antes eu te advertira que te preparasses em vista de tua futura defesa da Academia. Não creio, pois, que “antes do som da trombeta o tremor se apodere de teus membros”, ou que o desejo de ver os outros combaterem te faça tão rapidamente querer ser prisioneiro.

                Então Trigécio, ao ver-nos de semblantes já serenados, disse:

                – Por que este homem tão virtuoso não desejaria que Deus lhe conceda este favor antes de tê-lo pedido? Acredita-me, Licêncio, como não encontras o que responder e ainda desejas ser vencido, parece ter pouca confiança.

Todos rimos. E Licêncio retrucou:

- Fala, então, tu que és feliz sem encontrar a verdade, e certamente sem procurá-la.

19 – Divertiu-nos a jovialidade dos rapazes. Prossegui eu:

                – Volta à minha pergunta e segue com mais firmeza e vigor, se puderes.

                Licêncio:

                – Estou pronto em quanto posso. Pois bem, se o homem que viu meu irmão soube por ouvir dizer que ele é parecido com o pai, pode ser considerado louco ou tolo, se acreditar?

                – Mas pelo menos pode ser considerado insensato? Perguntei

                Licêncio:

                – Não, desde que não afirme sabe-lo.  Pois se considera provável o que ouviu repetir, não pode ser acusado de temeridade.

                Continuei:

                – Examinemos um pouco a questão em si e representemo-la aqui ante nossos olhos. Suponhamos que o tal homem de que falamos está presente aqui. Aparece teu irmão. Nosso homem indaga:

                – De quem é filho este rapaz?

                – De certo Romaniano, respondem-lhe.

                – Como é parecido com o pai! Exclama o homem. Era bem verdade o que me dissera.

Então tu ou algum outro pergunta:

                – Então conheces Romaniano?

                Responde o homem:

                – Não o conheço, mas parece-me que seu filho é parecido com ele.

                Poderá alguém conter o riso diante disso? Licêncio:

                – Certamente que não.

                – Logo, já vês a consequência que daqui segue, continuei.

                Licêncio:

                – Já faz tempo que a vejo. Todavia gostaria de ouvir de ti a conclusão, pois é necessário que comeces a alimentar a quem aprisionaste.

                Respondi eu:

                – Por que não o faria eu? A própria evidência clama que de maneira semelhante devemos rir dos teus Acadêmicos que afirmam seguir na vida o que se assemelha à verdade, quando ignoram a própria verdade.

Intervenção de Trigécio e convite a Alípio para que tome as defesas dos Acadêmicos

20 – Tomou a palavra Trigécio:

                – A precaução dos Acadêmicos parece-me muito diferente da tolice do homem de que falaste. Pois é através de raciocínios que eles chegam ao que dizem ser verossímil, enquanto aquele insensato seguiu a fama, cuja autoridade é a coisa mais desprezível.

                – Como se não fosse mais tolo, intervim eu, se ele dissesse: não conheço o pai dele nem soube por ouvir dizer quão semelhante é o filho ao pai, contudo acho que é parecido.

                Trigécio:

                – Sem dúvida, seria mais tolo. Mas a que vem isso?

                – Tais são, respondi, aqueles que dizem: não conhecemos a verdade, mas o que vemos é semelhante ao que não conhecemos.

                Trigécio:

                – Provável, dizem eles.

                Repliquei: Como dizes isso? Negas que eles falam de verossímil?

                Trigécio:

                – Só quis dizer isso para excluir a comparação. Pois me parece que a noção da fama ou ouvir dizer foi indevidamente introduzida em nossa questão, visto que os Acadêmicos não se fiam nem dos olhos humanos, muito menos do mil fantásticos olhos da fama, no dizer dos poetas. Mas afinal serei eu o defensor da Academia? Ou nesta questão tendes inveja da minha segurança? Aqui está Alípio. Oxalá sua chegada nos dê folga. Já há tempo sabemos que não é sem razão que o temes.

21 – Segue-se um silêncio, e os dois fixaram o olhar em Alípio, que disse:

                – Eu quisera, certamente, na medida das minhas forças, ajudar, a vossa causa, se vossa sorte não me fosse motivo de temor. Mas, se não me enganar a esperança, facilmente afugentaria este temor. Consola-me ao mesmo tempo o fato de que o atual adversário dos Acadêmicos quase assumiu o encargo de Trigécio vencido, e agora segundo admitis, é provável a sua vitória. O que mais receio é não poder evitar a acusação, por um lado, de negligência por abando o do meu ofício e, por outro, de presunção por invadir uma função alheia, pois creio que não esquecestes  de me terdes confiado o papel de juiz.

                Trigécio:

                – São duas coisas diferentes. Por isso te pedimos aceitar ser desonerado por um momento do encargo de juiz.

                – Não me recusarei, respondeu Alípio, para que não aconteça que, desejando evitar a presunção e a negligência, caia no orgulho, o mais horrível dos vícios, se conservasse mais tempo que o permitis, a honra que me concedestes.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, de uma forma direta, resumir as posturas defendidas entre a antiga e nova Academia. São Agostinho nos coloca alguns novos “personagens” que julgo necessário uma breve introdução:

- Arcesilau de Pitana, filósofo acadêmico cético e fundador da chamada “segunda” ou “média” Academia.

- Antíoco de Ascalona, fundou uma escola denominada de Academia “antiga”, em contraposição à Academia cética

- Filo de Larissa, escolarca (podemos entender como um reitor) da Academia de Atenas.

Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga

14 - Depois que nos alimentamos o suficiente para satisfazer a fome, voltamos ao campo. Retomou Alípio:

   - Obedecerei ao teu desejo, nem ousaria recusar-me. Se nada omitir, será graças ao teu ensinamento, como também à minha memória, e se talvez cometer algum erro, tu me corrigirás, para que no futuro eu não tema assumir tarefa semelhante.

Parece-me que a dissidência que deu origem à nova Academia não se dirigia tanto contra a doutrina antiga como contra os estóicos. Nem se pode considerá-la como uma dissidência, porque se tratava apenas de refutar e discutir uma nova opinião introduzida por Zenão. Pois não foi sem razão que se pensou que a doutrina do não conhecimento da verdade, ainda que não fosse objeto de controvérsias, não era estranha aos antigos Acadêmicos. Isso pode ser facilmente provado pela autoridade do próprio Sócrates, de Platão e dos outros antigos. Estes acreditaram poder guardar-se do erro na medida em que não dessem seu assentimento temerariamente. Todavia não introduziram nas escolas a discussão dessa questão nem pesquisaram especificamente se era ou não possível conhecer a verdade. Este foi o novo problema bruscamente lançado por Zenão, afirmando que só se podia conhecer aquilo que tal modo é verdadeiro que se distingue do falso por marcas de dessemelhança, e que o sábio não devia opinar. Tenho ouvido isso, Arcesilau negou que o homem pode encontrar algo do gênero, dizendo que a vida do sábio não devia ser exposta ao naufrágio da opinião. Donde concluiu que não se deve dar assentimento a nada.

15 - Mas quando a Academia antiga parecia mais favorecida que combatida, surgiu Antíoco, discípulo de Filo, que, na opinião de muitos, mais ávido de glória que de verdade, pôs em conflito as doutrinas das duas Academias.

Dizia que os novos Acadêmicos tinham tentado introduzir uma doutrina insólita e muito afastada da dos Acadêmicos antigos. Em favor da sua posição, aduziu o testemunho dos antigos físicos e de outros filósofos. Atacava também os Acadêmicos, que afirmavam seguir o verossímil, quando confessavam ignorar a própria verdade. Também havia reunido grande número de argumentos, que julgo poder omitir aqui. Todavia não defendia nada com mais afinco que a opinião de que o sábio pode conhecer a verdade. Acho que foi esta a controvérsia entre os antigos e os novos Acadêmicos. Se não for assim, rogo-te que informes com toda a exatidão a Licêncio, o que te peço em meu e seu nome. Se, ao contrário, as coisas são como expus, prossegui na discussão que iniciastes.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Não cantará o galo, antes de Me teres negado três vezes!

pedro e o galoDo Evangelho Quotidiano

Naquele tempo, estando Jesus à mesa com os discípulos, sentiu-Se intimamente perturbado e declarou: Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar! Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem se referia. Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito. Simão Pedro fez-lhe sinal para que lhe perguntasse a quem se referia. Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, perguntou: Senhor, quem é? Jesus respondeu: É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado. E molhando o bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. Jesus disse-lhe, então: O que tens a fazer fá-lo depressa. Nenhum dos que estavam com Ele à mesa entendeu, porém, com que fim lho dissera. Alguns pensavam que, como Judas tinha a bolsa, Jesus lhe tinha dito: ‘Compra o que precisamos para a Festa’, ou que desse alguma coisa aos pobres. Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite. Depois de Judas ter saído, Jesus disse: Agora é que se revela a glória do Filho do Homem e assim se revela nele a glória de Deus. E, se Deus revela nele a sua glória, também o próprio Deus revelará a glória do Filho do Homem, e há-de revelá-la muito em breve. Filhinhos, já pouco tempo vou estar convosco. Haveis de me procurar, e, assim como Eu disse aos judeus: ‘Para onde Eu for vós não podereis ir’, também agora o digo a vós. Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais? Jesus respondeu-lhe: Para onde Eu vou, tu não me podes seguir por agora; hás-de seguir-me mais tarde. Disse-lhe Pedro: Senhor, porque não posso seguir-te agora? Eu daria a vida por ti! Replicou Jesus: Darias a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo, antes de me teres negado três vezes! (Jo 13,21-33.36-38)

Comentário feito por São Francisco de Sales (1567-1622), bispo de Genebra, doutor da Igreja – Obras Completas, vol. 10

São Pedro, Apóstolo, foi muito injusto para com o seu Senhor porque O negou, jurando que não O conhecia e, não contente com isso, foi maldizente e blasfemo, asseverando não saber Quem Ele era (Mt 26,69 ss). Este incidente magistral partiu o coração de Nosso Senhor. Que fazeis e que dizeis vós, pobre São Pedro? Não sabeis quem Ele é, não O conheceis?, vós que fostes chamado pela Sua própria boca ao Apostolado e que haveis confessado ser Ele o Filho do Deus vivo? (Mt 16,16) Ah, homem miserável, como ousais dizer que não O conheceis? Não foi Ele Quem vos lavou outrora os pés (Jo 13,6), Ele Quem vos alimentou com o Seu Corpo e o Seu Sangue? [...]

Portanto, que ninguém presuma das suas boas obras e pense não ter nada a temer, uma vez que São Pedro, que tantas graças recebeu, que prometeu acompanhar Nosso Senhor até à prisão e até à morte, se prontificou a negá-lo ao mais pequeno reparo duma criada.

Ao cantar do galo, São Pedro lembrou-se do que acabara de fazer e do que lhe havia dito o seu Bom Senhor; então, reconhecendo a sua falta, saiu a chorar tão amargamente que só por isso recebeu indulgência plenária e remissão de todos os seus pecados. Bem-aventurado São Pedro, que através de tal contrição recebestes o perdão de tão grande deslealdade. [...] Bem sei que foi o sagrado olhar de Nosso Senhor que lhe calou fundo no coração e lhe abriu os olhos para reconhecer o seu pecado (Lc 22,61) [...], pois a partir daí não deixou jamais de chorar, em especial sempre que ouvia o galo cantar. [...] Assim, de grande pecador tornou-se um grande santo.

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Por que consagrar-se a Deus? Beato João Paulo II responde…

giovanni-paolo-ii-divina-misericordia-2Do Evangelho Quotidiano

Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume. Nessa altura disse um dos discípulos, Judas Iscariotes, aquele que havia de o entregar: Porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres? Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava. Então, Jesus disse: Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura! De fato, os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim não me tendes sempre. Um grande número de judeus, ao saber que Ele estava ali, vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Os sumos sacerdotes decidiram dar a morte também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, os abandonavam e passavam a crer em Jesus. (Jo 12,1-11)

Comentário feito por Beato João Paulo II (1920-2005), papa – Exortação apostólica Vita Consecrata, §§ 104-105

Diversos são aqueles que hoje se interrogam perplexos: Porquê a vida consagrada? Porquê abraçar este género de vida, quando existem tantas urgências [...] às quais se pode responder igualmente sem assumir os compromissos peculiares da vida consagrada? A vida consagrada não será uma espécie de desperdício de energias humanas que podiam ser utilizadas, segundo critérios de eficiência, para um bem maior da humanidade e da Igreja? [...] Sempre existiram interrogações semelhantes, como demonstra eloquentemente o episódio evangélico da unção de Betânia: Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume (Jo 12,3). A Judas que, tomando como pretexto as necessidades dos pobres, se lamentava por tão grande desperdício, Jesus respondeu: Deixa-a fazer! (Jo 12,7).

Esta é a resposta, sempre válida, à pergunta que tantos, mesmo de boa fé, colocam acerca da atualidade da vida consagrada: [...] Deixa-a fazer!

Para aqueles a quem foi concedido o dom de seguir mais de perto o Senhor Jesus, é óbvio que Ele pode e deve ser amado com coração indiviso, que se Lhe pode dedicar a vida toda e não apenas alguns gestos, alguns momentos ou algumas atividades. O perfume de alto preço, derramado como puro ato de amor e, por conseguinte, fora de qualquer consideração utilitária, é sinal de uma superabundância de gratuidade, como a que transparece numa vida gasta a amar e a servir o Senhor, a dedicar-se à Sua Pessoa e ao Seu Corpo Místico. Mas é desta vida derramada sem reservas que se difunde um perfume que enche toda a casa. A casa de Deus, a Igreja, é adornada e enriquecida hoje, não menos que outrora, pela presença da vida consagrada. [...] A vida consagrada é importante precisamente por ser superabundância de gratuidade e de amor, o que se torna ainda mais verdadeiro num mundo que se arrisca a ficar sufocado na vertigem do efêmero.

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Evangelho:: São Gregório Magno fala da força da Cruz do Senhor!

jesus na cruzDo Evangelho Quotidiano

Naquele tempo, muitos dos judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fari- seus convocaram então o Conselho e diziam: Que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação. Mas um deles, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira. Ora ele não disse isto por si mesmo; mas, como era Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos. Assim, a partir desse dia, resolveram dar-lhe a morte. Por isso, Jesus já não andava em público, mas retirou-se dali para uma região vizinha do deserto, para uma cidade chamada Efraim e lá ficou com os discípulos. Estava próxima a Páscoa dos judeus e muita gente do país subiu a Jerusalém antes da Páscoa para se purificar. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: Que vos parece? Ele virá à Festa? (Jo 11,45-56)

Comentário feito por São Leão Magno (?-c. 461), papa, doutor da Igreja – Oitava homilia sobre a Paixão, 7; SC 74 bis

Uma vez levantado da terra, atrairei todos a Mim (Jo 12,32). Admirável poder da cruz! Indescritível glória da Paixão! Aí se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo e a vitória do Crucificado. Sim, Tu atraíste todos a Ti, Senhor, e quando estendias continuamente as mãos para um povo incrédulo e rebelde (Is 65,2; Rom 10,21), o mundo inteiro percebeu que devia glorificar a Tua majestade. [...] Tu atraíste todos a Ti, Senhor, porque, quando o véu do templo se rasgou (Mt 27,51), a imagem do Santo dos Santos manifestou-se na verdade, a profecia foi completamente cumprida, e a Lei antiga foi substituída pelo Evangelho. Tu atraíste todos a Ti, Senhor, para que o culto de todas as nações seja celebrado em plenitude pelo mistério que, até então envolto em símbolos num só templo na Judeia, seja finalmente expresso abertamente. [...]

Porque a Tua cruz é a fonte de todas as bênçãos, a causa de toda a graça. Da fraqueza da cruz os crentes recebem a força; da sua vergonha, a glória; de Tua morte, a vida. Agora, de facto, acabaram os múltiplos sacrifícios: a oferenda única do Teu corpo e do Teu sangue leva ao seu cumprimento todos os sacrifícios oferecidos nas diferentes partes do mundo, porque Tu és o verdadeiro Cordeiro de Deus, que tira o pecado o mundo (Jo 1,29).

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Evangelho:: São Gregório Magno explica o termo usado por Jesus: Eu Sou!

icone de JesusDo Evangelho Quotidiano

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá. Disseram-lhe, então, os judeus: Agora é que estamos certos de que tens demónio! Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: ‘Se alguém observar a minha palavra, nunca experimentará a morte’? Porventura és Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Afinal, quem é que Tu pretendes ser? Jesus respondeu: Se Eu me glorificar a mim mesmo, a minha glória nada valerá. Quem me glorifica é o meu Pai, de quem dizeis: ‘É o nosso Deus’; e, no entanto, não o conheceis. Eu é que o conheço; se dissesse que não o conhecia, seria como vós: um mentiroso. Mas Eu conheço-o e observo a sua palavra. Abraão, vosso pai, exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz. Disseram-lhe, então, os judeus: Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: antes de Abraão existir, Eu sou! Então, agarraram em pedras para lhe atirarem. Mas Jesus escondeu-se e saiu do templo. (Jo 8,51-59)

Comentário feito por São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja – Homilias sobre o Evangelhos, nº 18

Abraão, vosso pai, exultou pensando em ver o Meu dia; viu-o e ficou feliz. Abraão viu o dia do Senhor quando recebeu em sua casa os três anjos que representam a Santíssima Trindade: três hóspedes a quem se dirigiu como se fossem um só (cf Gn 18,2-3). [...] Mas o espírito terra-a-terra dos ouvintes do Senhor não eleva o olhar acima da carne [...], e eles dizem-Lhe: Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?  Então, o nosso Redentor desvia suavemente o seu olhar do corpo de carne para o elevar à contemplação da Sua divindade, declarando: Em verdade, em verdade vos digo: antes de Abraão existir, Eu sou! Antes indica o passado e Eu sou o presente. Uma vez que a Sua divindade não tem passado nem futuro, mas existe desde sempre, o Senhor não diz: Antes de Abraão, Eu era mas sim: Antes de Abraão existir, Eu sou!. Foi por isso que Deus declarou a Moisés: Eu sou Aquele que sou. [...] Assim dirás aos filhos de Israel: “Eu sou” enviou-me a vós! (Ex 3,14).

Abraão teve um antes e um depois; veio a este mundo [...] e deixou-o, levado pelo decurso da sua vida. Mas é próprio da Verdade existir sempre (Jo 14,6), pois nem começa num primeiro tempo nem termina num tempo seguinte. Mas esses descrentes, que não conseguiam suportar as Suas palavras de vida eterna, foram recolher pedras para lapidar Aquele que não conseguiam compreender. [...]

Jesus escondeu-Se e saiu do templo. É espantoso que o Senhor tenha escapado aos Seus perseguidores escondendo-Se, embora pudesse exercer o poder da Sua divindade. [...] Então porque Se escondeu? Porque, uma vez feito homem entre os homens, o nosso Redentor diz-nos umas coisas através da Sua palavra e outras através do Seu exemplo. E, pelo Seu exemplo, que nos diz Ele senão para fugirmos humildemente da cólera dos orgulhosos, mesmo quando podemos oferecer resistência? [...] Por isso, que ninguém proteste ao ouvir afrontas, que ninguém pague o insulto com o insulto. Pois é mais glorioso evitar uma injúria calando-se, como fez Deus, que tentar ganhar a discussão respondendo.

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Síntese da Doutrina Acadêmica]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje ler o início da quarta discussão. Nesta alguns pontos outrora debatidos serão novamente expostos num contexto mais incisivo. Boa leitura!!!

Quarta discussão – Discussão entre Agostinho e Licêncio

Síntese da doutrina acadêmica

10 – Após a discussão anterior, que apresentamos no primeiro livro, fizemos uma pausa de quase sete dias, repassando os três livros de Virgílio que seguem o primeiro, estudando-os segundo a conveniência do momento. Mas nesse trabalho, Licêncio tanto se aperfeiçoou ao estudo da poesia, que me pareceu necessário refreá-lo um pouco. Não se deixava facilmente afastar desta ocupação por nenhuma outra. Mas, finalmente, quando exaltei o quanto pude a luz da filosofia, consentiu em retomar a questão dos Acadêmicos que havíamos adiado. Por acaso o dia amanheceu tão bonito que nada parecia mais propício para dar serenidade aos nossos espíritos. Levantamo-nos mais cedo que de costume e tratamos com os camponeses os trabalhos mais urgentes. Alípio começou:

– Antes de ouvir a vossa discussão sobre os Acadêmicos, gostaria que me fosse lido o que foi tratado na minha ausência, pois como a presente disputa é ocasionada pela anterior, de outro modo não posso evitar de errar ou em todo caso de ter de fazer grandes esforços ao ouvir-vos.

Assim foi feito e nisso passamos quase toda a manhã. Depois resolvemos terminar o passeio no campo e voltar para casa. Interveio Licêncio:

– Se não te aborrecer a repetição, pediria que, antes do almoço, me expusesses brevemente toda a doutrina dos Acadêmicos, para que não me escape nada do que favorece a minha posição.

– Faça-o, respondi eu, e isso com tanto mais prazer que absorto nisso comerás menos.

Licêncio:

– Não te fies nisso, pois observei que muitos, e especialmente meu pai, têm tanto mais apetite quanto mais sobrecarregados estiverem de preocupações. Além disso, não observastes que, quando eu estava pensando nessas questões de métrica, a minha concentração não dava segurança à mesa? Costumo perguntar-me: por que comemos com mais apetite quando estamos com a mente absorta em outras coisas? Ou o que é que nos urge tanto quando estamos com as mãos e os dentes ocupados?

– Ouve antes, atalhei eu, o que me pediste a respeito dos Acadêmicos, para eu, ocupado tu com essas questões de medida, não tenha eu de suportar a tua falta de medida não só na comida, mas também nas tuas questões. Se eu ocultar algo no interesse da minha causa, Alípio o denunciará.

– É necessária a tua boa-fé, disse Alípio, pois, se tivéssemos de temer que nos ocultasse algo, creio que seria difícil surpreender o homem de quem aprendi essas coisas, como sabem todos os que me conhecem. Tanto mais que, ao expor a verdade, não atenderás menos à retidão do teu coração que ao desejo da vitória.

11 – Agirei de boa-fé, pois tens direito de exigi-lo. Os Acadêmicos afirmavam que o homem não pode alcançar a ciência das coisas referentes à filosofia – Carnéades recusava ocupar-se de qualquer outra coisa – mas que pode ser sábio e que todo o dever do sábio, como tu mesmo Licêncio, o expuseste naquela discussão, consiste na busca da verdade. Daqui resulta que o sábio não deve dar seu assentimento a nada, pois necessariamente erraria o que para o sábio é um crime, se desse seu assentimento a coisas incertas. Não se limitavam a afirmar que tudo é incerto, mas também apoiavam sua tese com numerosos argumentos. Parece que tiraram sua doutrina de que a verdade é inacessível de uma definição do estoico Zenão, segundo a qual só pode ser percebida como verdadeira uma representação que é impressa de tal modo na alma pelo objeto de onde se origina que não pode sê-lo por um objeto donde não se origina. Ou mais breve e claramente: o verdadeiro pode ser reconhecido por certos sinais que o falso não pode ter. Os Acadêmicos empenharam-se com todas as forças em demonstrar que esses sinais não podem encontrar-se jamais. Os desacordos entre os filósofos, as ilusões dos sentidos, os sonhos e os delírios, os sofismas e os sorites, tudo isso foi usado em defesa da sua tese. E como tinham aprendido do mesmo Zenão que não há nada mais desprezível que a opinião, deduziram com muita habilidade que se nada podia ser percebido e opinar era totalmente desprezível, o sábio nunca devia aprovar nada.

12 – Isso desencadeou uma grande hostilidade contra eles, pois parecia implicar que quem nada aprova nada devia fazer. Assim, parecia que os Acadêmicos condenavam o seu sábio, que, segundo eles, nada aprova, ao perpétuo sono e ao abandono de todos os seus deveres. Então, pela introdução de certo sistema de probabilidade, que também chamavam de verossimilhança, afirmaram que o sábio de modo algum deixa de cumprir os seus deveres, pois tem o princípio de conduta. Mas a verdade, segundo eles, permanece oculta ou confusa, seja por causa da semelhança enganosa das coisas. E acrescentavam que mesmo a recusa ou suspensão do assentimento era uma grande atividade do sábio.

Creio que em poucas palavras expus todo o sistema, como pediste, e que não me afastei da regra que havias fixado, Alípio, ou seja, agi de boa-fé, como se diz. Se disse alguma coisa inexata ou talvez omiti algum ponto, não o fiz voluntariamente. Portanto, pelo testemunho da minha consciência, houve boa-fé. O homem que se engana deve ser ensinado, o que engana evitado. O primeiro necessita de um bom mestre, o segundo de um discípulo precavido.

13 – Tornou Alípio:

– Agradeço-te por teres satisfeito o desejo de Licêncio e dispensado a mim do encargo que me fora imposto. Não tinhas de temer mais a omissão de alguma coisa de tua parte, com a intenção de provar-me – pois que outra razão poderias ter tido? – que eu de ser obrigado a corrigir-te. Assim, menos para preencher uma lacuna da tua exposição que para cumprir a tarefa que incumbe ao que interroga, aborrece-te explicar a diferença entre a velha e a nova Academia?

– Confesso que me aborrece, respondi eu. Não posso negar que o ponto que tocaste é da máxima importância para a nossa questão. Assim me farias um favor se distinguisses estes dois nomes e explicasses a origem da nova Academia, enquanto eu descanso um pouco.

Respondeu Alípio:

– Isso me levaria a crer que também a mim queres afastar do almoço, se não recordasse que há pouco Licêncio te atemorizou e seu pedido não nos tivesse imposto a obrigação de lhe esclarecer antes da refeição todas as dificuldades da questão.

E quando ele ia prosseguir, nossa mãe – pois já tínhamos chegado à nossa casa – começou a chamar-nos com tal insistência para o almoço, que não houve mais lugar para nenhum discurso.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I |Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.III

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!