Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulos 7 e 8

Neste post, São Jerônimo continua a falar sobre o argumento usado por Helvídio para explicar a expressão “até que”.

Capítulo VII

A Palavra de Deus diz em Gênesis: “Entregaram a Jacó todos os deuses estranhos que tinham em suas mãos, e as argolas que penduravam em suas orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém , e continuam perdidos até o dia de hoje”. Igualmente lemos no final do Deuteronômio: “Assim, Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab, conforme a palavra do Senhor. E foi sepultado no vale, na terra de Moab, defronte de Beth-Peor; até o dia de hoje ninguém sabe o lugar da sua sepultura”. Certamente devemos identificar a expressão “até o dia de hoje” com o tempo da composição da história, podendo vocês preferirem o ponto de vista que afirma que Moisés foi o autor do Pentateuco ou que Esdras o reeditou. Não faço qualquer objeção em ambos os casos. A questão agora é saber se as palavras “até o dia de hoje” se referem à época da publicação ou composição desses livros e, caso o sejam, por que [Helvídio] não mostra – agora que muitos e muitos anos se passaram desde aquele dia – que os ídolos escondidos sob o carvalho ou a sepultura de Moisés foram descobertos, já que ele sustenta, com demasiada teimosia, que certa coisa não pode ocorrer dentro de um espaço de tempo delimitado pela expressão “até que” mas, para que venha a ocorrer, é necessário que atinja aquele ponto delimitado por “até que”?

Ele faria bem se prestasse atenção ao idioma da Sagrada Escritura e compreendesse como nós – já que se encontra mergulhado na lama; certas coisas parecem ambíguas quando não claramente declaradas, emboras outras coisas sejam deixadas assim para exercitar o nosso intelecto. Ora, se ainda quando o evento permanecia fresco na memória daqueles homens que viram e conviveram com Moisés já se desconhecia o local da sepultura, quanto mais agora depois que tantos anos se passaram!

E da mesma forma devemos interpretar o que se conta a respeito de José. O Evangelista apontou uma circunstância que poderia causar escândalo, ou seja, que Maria não foi conhecida por seu marido até dar à luz, e ele (o Evangelista) agiu assim para que tivéssemos a certeza de que ela – de quem José se absteve enquanto havia lugar para dúvidas sobre a importância da visão – não foi conhecida depois de seu parto.

Capítulo VIII

Em resumo: o que eu gostaria de saber é por que José teria se privado [de Maria] até o dia de ter ela dado à luz? Helvídio certamente responderia: “Porque ele ouviu o que o anjo disse: ‘pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo’”. Nós, então, responderíamos a seguir que [José] certamente ouviu o que o [anjo] disse: “José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua esposa”. A razão pela qual ele estava proibido de repudiar sua esposa era porque não achava que ela fosse adúltera. Seria então verdade que o [anjo] ordenara que não tivesse relações sexuais com sua esposa? Não está suficientemente claro que a advertência feita foi para que não se separasse dela? E poderia o homem justo pensar em se aproximar dela tendo ouvido que o Filho de Deus estava em seu ventre? Ótimo! Vamos então acreditar que o mesmo homem que deu tanto crédito a um sonho, não se atreveu a tocar em sua esposa, mesmo depois, quando ele ouviu dos pastores que o anjo do Senhor desceu dos céus e lhes disse: “Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que o será também para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, o Cristo Senhor”; e após, quando a multidão celeste se juntou ao anjo e entoaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”; e ainda quando o justo Simeão abraçou a criancinha e exclamou: “Podeis levar agora para ti este teu Servo, Senhor, pois os meus olhos viram a tua salvação, conforme a tua palavra”; e também quando [José] viu a profetisa Ana, os Magos, a Estrela [de Belém], Herodes, os anjos…

Eu diria então: quer Helvídio nos fazer acreditar que José, muito bem inteirado de tamanhas maravilhas, ousaria tocar o templo de Deus, a morada do Espírito Santo, a mãe do seu Senhor? Maria mantinha todos esses eventos “guardados em seu coração”. Vocês não podem cair na vergonha de dizer que José desconhecia tudo isso, pois Lucas nos diz: “Seu pai e sua mãe ficavam maravilhados das coisas que diziam a Seu respeito”.

E vocês ainda afirmam, arrogantemente, que a leitura dos manuscritos gregos é corrupta, embora seja exatamente isso que todos os escritores gregos fizeram constar em seus livros, e não apenas eles, mas também muitos escritores latinos interpretaram as palavras da mesma forma… E nem precisaremos considerar as variações existentes nas cópias, pois todos os registros existentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, se encontram assim desde que foram traduzidos para o Latim; portanto, devemos crer que a água da fonte brota mais pura que a [água] do rio.

Veja Também:: Capítulos 1 e 2 | Capítulos 3 e 4 | Capítulo 5 e 6

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulos 5 e 6

Neste post, São Jerônimo começa a derrubar um argumento usado por Helvídio para explicar a expressão “até que”. Interessante conhecer esta resposta, pois até hoje muitos irmãos protestantes utilizam este argumento para contestar a Virgindade de Nossa Senhora.

Capítulo V

Vamos agora abordar outros tópicos. A passagem que discutiremos agora é: “E José despertou de seu sono e fez conforme o anjo lhe ordenara, tomando-a como sua esposa; e não a conheceu até que deu à luz a um filho, e ele lhe colocou o nome de Jesus”. Aqui, antes de mais nada, é absolutamente inútil para o nosso oponente querer demonstrar, de forma tão elaborada, que essas palavras se referem à cópula sexual, especialmente na compreensão intelectual: qualquer um pode negar isso e toda pessoa de bom senso pode imaginar a estupidez da refutação que Helvídio se esforçou por sustentar. Ele quer nos ensinar que o advérbio “até que” implica um tempo fixo e definitivo que, ao se completar, ocorre o evento que até então não se realizara; como neste caso: “e não a conheceu até que deu à luz um filho”.

Segundo ele, é claro que ela [Maria] foi conhecida depois, e que apenas aguardara o tempo necessário para o nascimento de seu filho. Para defender sua posição, [Helvídio] amontoa textos e mais textos sem qualquer critério, comportando-se como um gladiador cego que fica movimentando sua espada a esmo, dizendo asneiras com sua língua barulhenta e terminando sem ferir ninguém, a não ser a si próprio.

Capítulo VI

Nossa resposta é brevemente esta: as palavras “conhecer” e “até que”, na linguagem da Sagrada Escritura, possuem duplo significado. Do primeiro [quanto a "conhecer"], ele mesmo [Helvídio] nos ofereceu uma dissertação para mostrar que pode se referir a relação sexual, como também ninguém duvida que pode ser usada para significar percepção (entendimento, saber), como, por exemplo: “o menino Jesus permaneceu em Jerusalém e seus pais não tinham conhecimento disso”.

Já que privamos que ele seguiu o uso da Escritura neste caso, com relação à expressão “até que” será completamente refutado pela autoridade da mesma Escritura, pois várias vezes significa um certo tempo sem limitação, como quando Deus diz a certas pessoas pela boca do profeta: “Até à vossa velhice Eu sou o mesmo”; acaso Ele deixará de ser Deus após essas pessoas envelhecerem? E, no Evangelho, o Salvador diz aos Apóstolos: “Estarei convosco até a consumação do mundo”; será que quando chegar o fim dos tempos o Senhor abandonará Seus discípulos e estes, quando estiverem sentados sobre os doze tronos para julgar as doze tribos de Israel, estarão privados da companhia de seu Senhor?

Também Paulo, ao escrever aos Coríntios, declara: “[Cada um, porém, na sua ordem:] Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio e toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés”. Certos de que a passagem relata a natureza humana de Nosso Senhor, não temos como negar que as palavras são Daquele que sofreu [morte] na cruz e que mais tarde se sentou à direita [de Deus]. O que Ele quer demonstrar ao dizer que “é necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés”? O Senhor reinará apenas até colocar todos os seus inimigos sob os seus pés e, depois disso, deixará de reinar? É óbvio que seu reino estará começando quando seus inimigos estiverem sob os seus pés.

Também Davi, na Quarta Canção da Ascensão, fala assim: “Olhai: assim como os olhos dos servos olha para a mão de seu mestre; assim como os olhos da moça olham para a mão de sua senhora; assim também os nossos olhos olham para o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós”. Será então que o profeta, olhando para Deus com o intuito de obter misericórdia, irá desviar seu olhar para o chão assim que obtiver misericórdia? [Certamente que não,] ainda que ele, em algum lugar, diga: “Meus olhos quedam pela tua salvação e pela palavra da tua justiça”.

Eu poderia acrescentar inúmeras passagens como estas que, atestam esse uso, e cobriria com uma nuvem de provas a verbosidade do nosso contendente. Porém, acrescentarei mais algumas passagens e deixarei que o leitor descubra outras semelhantes por si mesmo.

Continua…

Veja Também:: Capítulos 1 e 2 | Capítulos 3 e 4 |

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulos 3 e 4

Olá! Continuamos a ler e estudar o texto de São Jerônimo sobre a Virgindade Perpétua de Maria. Nestes dois capítulos que seguem, São Jerônimo começa “destruir” os argumentos de Helvídio. Aqui ele começa a falar sobre o casamento da Virgem Maria e o papel de São José.

Capítulo 3

Sua primeira declaração [argumento de Helvídio para refutar a Virgindade Perpétua de Maria] : “Mateus diz: ‘O nascimento de Jesus Cristo foi assim: quando sua mãe Maria estava prometida a José, antes de coabitarem, encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. E José, seu marido, sendo um homem justo e não desejando denunciá-la publicamente, pensou em repudiá-la em segredo. Mas enquanto pensava essas coisas, um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse: ‘José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espirito Santo’. Notem” – continua ele – “que a palavra empregada é ‘prometida‘ e não ‘confiada‘, como vocês dizem; é óbvio que a única razão para estar prometida é porque deveria se casar um dia. E o Evangelista não iria dizer ‘antes de coabitarem’ se eles não viessem a coabitar no futuro, já que ninguém usaria a frase ‘antes de jantar’ se certa pessoa não fosse jantar. Também o anjo a chama ‘tua esposa’ e se refere a ela como unida a José. A seguir, somos chamados a ouvir a declaração da Escritura: ‘E José despertou do seu sono e fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado, tomando-a para si como esposa; e não a conheceu até que deu à luz a seu filho’”.

Capítulo IV

[São Jerônimo começa a argumentar e destruir Helvídio] Consideremos cada um desses pontos, pois seguindo o caminho dessa impiedade mostraremos que ele [Helvídio] está se contradizendo. Admite que [Maria] estava “prometida” e que o próximo passo seria se tornar esposa daquele homem a quem estava prometida. Novamente, ele a chama de “esposa” e diz que a única razão para estar prometida seria pelo fato de casar-se um dia. E, temendo que não o compreendêssemos suficientemente bem, ainda diz: “a palavra usada é ‘prometida’ e não ‘confiada’, isto é, ela ainda não se tornara esposa, nem mesmo havia sido unida pelo contrato de casamento”.

Mas quando ele continua: “o Evangelista jamais usaria tais palavras se eles não viessem a se juntar futuramente, já que não se usa a frase ‘antes de jantar’ se certa pessoa não for jantar”. Sinceramente não sei se devo lamentar ou rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se isto, supondo que uma pessoa dissesse: “Antes de jantar no porto, naveguei para a África”, significasse que tais palavras obrigatoriamente demonstrassem que essa pessoa alguma vez já jantou no porto. Se eu preferisse dizer: “o apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso em Roma”, ou (como também acho provável) “Helvídio, antes de se arrepender, morreu”; acaso teria Paulo obrigatoriamente estado na Espanha [após a prisão], ou Helvídio se arrependeria após a morte, ainda que a Escritura diga: “No Sheol quem vos dará graças?”?

Não podemos entender a preposição “antes” – ainda que muitas vezes signifique ordem no tempo – como também ordem de pensamento? Portanto, não há necessidade que nossos pensamentos se concretizem, se alguma causa suficiente vier a evitá-los (sua concretização). Logo, quando o Evangelista diz “antes que coabitassem”, indica apenas o tempo imediatamente precedente ao casamento, e mostra que estava em estado bem adiantado, pois ela já estava prometida, a ponto de estar próximo o momento de se tornar esposa. Conforme diz [o Evangelista], antes de se beijarem e se abraçarem, antes da consumação do casamento, ela se encontrou grávida. E ela foi determinada para pertencer a ninguém mais a não ser José, que guardou com zêlo o ventre cada vez maior de sua prometida, com olhar inquieto mas que, a esta altura, quase que com o privilégio de um marido.

Ainda que possa parecer – conforme o exemplo citado – que ele teve relações sexuais com Maria após o seu parto, o seu desejo poderia ter desaparecido pelo fato dela já ter concebido anteriormente. E, embora encontremos que foi dito a José em um sonho: “Não temas em receber Maria por tua esposa” e, de novo: “José despertou do seu sono e fez conforme o anjo lhe ordenara, tomando-a por sua esposa”, não devemos nos preocupar com isto, pois ainda que seja chamada “esposa”, ela somente deixou de ser prometida, pois sabemos que é usual na Escritura dar esse título para aqueles que são noivos.

A seguinte evidência, retirada do Deuteronômio, assim o indica: “Se um homem” – diz o Escritor [sagrado] – “encontra uma mulher prometida no campo e a violenta, deve ser morto porque humilhou a esposa do seu próximo”; e, em outro lugar: “Se uma virgem é prometida a um marido, e um homem a encontra na cidade e a violenta, então deveis trazê-los para fora do portão da cidade e os apedrejareis até à morte; a mulher porque não gritou, estando na cidade, e o homem porque humilhou a esposa do seu próximo. Fareis isto para eliminar o mal do meio de vós”; e também, em outra parte: “Que tipo de homem é este que possui uma esposa prometida e ainda não a recebeu? Que volte para sua casa, para que não morra na batalha, e que outro homem a despose”.

Mas se alguém guarda dúvidas do porquê a Virgem concebeu após estar prometida [a José], uma vez que não estava prometida a mais ninguém, ou, para usar os termos da Escritura, estava sem marido, deixe-me explicar três razões: [1ª] Pela genealogia de José, Maria possuía parentesco com ele, e a origem de Maria também precisava ser demonstrada; [2ª] Porque ela não poderia ser enquadrada na Lei de Moisés para ser apedrejada como adúltera; [3ª] Porque em sua fuga para o Egito ela precisava de segurança, o que poderia ser obtido com a ajuda de um guardião, de preferência um marido.

Quem, naquele tempo, acreditaria na palavra da Virgem, de que teria concebido pelo poder do Espírito Santo, e que o anjo Gabriel lhe teria aparecido para anunciar o propósito de Deus? Todos não a chamariam de adúltera, como fizeram com Suzana? Ainda nos tempos presentes, quando praticamente toda a terra abraçou a Fé, não vêm os judeus afirmar que as palavras de Isaías: “Eis que a ‘Virgem’ conceberá e dará à luz um filho” são equívocas porque o termo hebraico almah que aparece na frase, significa mulher jovem, enquanto que o termo bethulah, que significa virgem não é usado? Tal posição, abordaremos com mais detalhes adiante.

Finalmente, com exceção de José, Isabel e da própria Maria – e talvez de mais alguns poucos que podemos supor ouviram a verdade da boca deles – todos supunham que Jesus era filho de José. E de tal modo era essa a suposição que até mesmo os Evangelistas, expressando a opinião corrente – que é a regra correta para qualquer historiador – o chamavam de pai do Salvador, como, por exemplo: “Movido pelo Espírito, ele (isto é, Simeão) veio ao Templo. Então os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as prescrições da Lei a seu respeito”; e, em outro lugar: “E seus pais iam todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa”; e, mais adiante: “Tendo completado os dias, eles retornaram, mas o menino Jesus permaneceu em Jerusalém, e seus pais não sabiam disso”.

Note-se que a própria Maria respondeu ao [anjo] Gabriel com as seguintes palavras: “Como se sucederá isso, se não conheço varão?”, dizendo isto a respeito de José; e, mais: “Filho, por que fizeste isto conosco? Teu pai e eu estávamos à tua procura”. Não fazemos uso aqui, como muitos fazem, do discurso dos judeus ou dos escarnecedores. Os Evangelistas chamam José de “pai” e Maria confessa que ele era pai. Não – como já disse antes – que José fosse realmente o pai do Salvador, mas, preservando a reputação de Maria, todos o viam como sendo o pai [de Jesus], pois ouvira a advertência do anjo: “José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo”, pois pensava em repudiá-la em segredo; tudo isto bem demonstrando que o filho não era dele.

Ao dizermos tudo isto, mais com o objetivo de oferecer uma instrução imparcial do que responder a um oponente, mostramos o porquê José era chamado de pai de Nosso Senhor e o porquê Maria era chamada de esposa de José. Isto também responde ao porquê de certas pessoas serem chamadas de “seus irmãos”. Entretanto, este último ponto encontrará seu lugar apropriado mais adiante.

Continua…

Veja Também:: Capítulos 1 e 2 |

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulos 1 e 2

Acabei de encontrar aqui uma relíquia da fé católica que precisa ser digerida aos poucos. Estes escritos que tem cerca de 26 partes ou capítulos, foram redigidos por São Jerônimo, aquele mesmo que gastou boa parte da sua vida traduzindo a Bíblia para o latim. Este tratado que vamos publicando aos poucos a partir de agora, surgiu por volta do ano 383 dC, quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, no tempo do papa Dâmaso.

A questão deste tratado era o seguinte: teria a Mãe de Nosso Senhor permanecido virgem após o nascimento de seu Filho? Helvídio afirmava que os Evangelhos mencionando os irmãos e irmãs do Senhor provavam que Maria teria tido outros filhos, baseando sua opinião nos escritos de Tertuliano e Vitorino. Com sabedoria, São Jerônimo vai rebatendo as teorias de Helvídio. Repito: Vamos mostrar este texto e capítulos. Sei que muitos de vocês ficarão com água na boca. Mas vale a pena ler este texto aos poucos, estudando cada capítulo postado e aproveitando para analisar a forma com que este grande santo em defende a Igreja de Cristo.

E fica uma pergunta: Se o homem que traduziu a bíblia para o latim defende biblicamente Nossa Senhora, como nossos queridos irmãos protestantes ousar usar da palavra de Deus para atacá-la?

Introdução – Capítulo 1

Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos para responder a um panfleto escrito por um tal Helvídio. Demorei para fazê-lo, não porque fosse tarefa difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem cultura, que dificilmente tomou contato com os primeiros graus do saber, mas porque fiquei preocupado em oferecer uma resposta digna, que desmoronasse os seus argumentos.

Havia ainda a preocupação de que um discípulo confuso (o único sujeito do mundo que se considera clérigo e leigo; único também, como se diz, que pensa que a eloqüência consiste na tagarelice, e que falar mal de alguém torna o testemunho de boa fé) poderia passar a blasfemar ainda mais, caso lhe fosse dada outra oportunidade para discutir. Ele, então, como se estivesse sobre um pedestal, passaria a espalhar suas opiniões em todos os lugares.

Também temia que, quando caísse na realidade, passasse a atacar seus adversários de forma ainda mais ofensiva.

Mas, mesmo que eu achasse justos todos esses motivos para guardar silêncio, muito mais justamente deixaram de me influenciar a partir do instante em que um escândalo foi instaurado entre os irmãos, que passaram a acreditar nesse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar pela raiz essa árvore estéril, e tanto ela quanto suas folhagens sem frutos devem ser atiradas no fogo, de tal maneira que Helvídio – que jamais aprendeu a falar – possa aprender, finalmente, a controlar a sua língua.

Capítulo 2

Invoco o Espírito Santo para que Ele possa se expressar através da minha boca e, assim, defenda a virgindade da bem-aventurada Maria. Invoco o Senhor Jesus para que proteja o santíssimo ventre no qual permaneceu por aproximadamente dez meses, sem quaisquer suspeitas de colaboração de natureza sexual. Rogo também a Deus Pai para que demonstre que a mãe de Seu Filho – que se tornou mãe antes de se casar – permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.

Não desejamos entrar no campo da eloqüência, nem usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida.

Continua…

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Primeira Conferência dos Padres do Deserto

Acabei de achar uma pérola da Fé Católica. Um diálogo entre um Abade chamado Moisés e dois monges Cassiano e Germano. Eles falam sobre é a vida de um monge (início, auge e morte). Um diálogo rico e cheio de ensinamentos que nos mostram como era a ascese dos primeiros cristãos. Vale muito a pena ser lido. Se preferir, copie o texto e vá lendo aos poucos. Repito: Uma riqueza para para a nossa fé.

Diálogo entre o Abade Moisés e os monges Cassiano e Germano

CASSIANO:

No deserto de Scete moravam os mais ilustres Pais de monges e de toda a perfeição. Entre todas aquelas exímias flores, rescendia de modo mais suave, tanto pela ascese quanto pela contemplação, o abade Moisés.

Desejoso de ser formado à sua escola, fui à sua procura no deserto, em companhia do santo abade Germano. Com este, desde os primeiros exercícios da milícia espiritual, vivi em tão estreita companhia, tanto no mosteiro como no deserto, que todos diziam, para significar a nossa amizade e comum propósito, que éramos um só espírito e uma só alma em dois corpos.

Juntos, rogamos com muitas lágrimas ao mesmo abade uma conversa de edificação. Bem conhecíamos o seu rigor e sabíamos que não consentia em abrir as portas da perfeição senão àqueles que a desejavam com fé e a procuravam de coração contrito. Pois não devia acontecer que a mostrasse a quem não a queria ou que só mornamente a desejasse, expondo, assim, a indignos, que as acolheriam com fastio, aquelas realidades necessárias que só devem ser reveladas a quem tem sede de perfeição, pois, do contrário, pareceria ele incorrer no vício de vanglória ou mesmo no crime de traição.

Cansado de nossos rogos, ele, afinal, começou a falar.

MOISÉS:

Toda arte e toda a disciplina tem um escopo, ou fim particular, e um “telos”, isto é, um fim próprio. É fixando neste os olhos, que o zeloso pretendente de qualquer arte sustenta, sem perturbação e de boa vontade, todos os trabalhos, perigos e prejuízos.

O lavrador, por exemplo, arrostando os raios ardentes do sol ou geadas e neves, infatigavelmente rasga a terra e com o vai-e- vem do arado amanha as glebas bravias. Assim fazendo, ele conserva o seu escopo, que é purgar a terra de todas as sarças e libertá-las de ervas daninhas, até que a torne, pelo seu trabalho, fina e solta como areia. Ele não espera conseguir de outro modo o seu fim, que consiste em searas copiosas e colheitas abundantes, para que possa, daí em diante, levar uma vida segura ou aumentar o seu patrimônio. De bom grado, esvazia o celeiro cheio de grãos e com instante trabalho os semeia nos sulcos amolecidos. Contemplando as futuras searas, ele não sente a diminuição de agora.

Também os que vivem do comércio, não temem os azares do mar nem se apavoram com qualquer perigo, quando, alçados pela esperança do vôo ligeiro, são provocados ao lucro, que é o seu fim.

O mesmo acontece com os que se inflamam com a ambição da carreira militar, ao divisar ao longe o seu fim, que são as honras e o poder. São insensíveis aos perigos e às mortes das campanhas e não se deixam abater pelos sofrimentos e riscos atuais, nem pelas aflições e guerras do momento, pois ambicionam a dignidade, que é o fim que se propõem.

Assim também, a nossa profissão. Ela tem igualmente o seu escopo e o seu fim próprio. Por este fazemos todos os trabalhos, sem cansaço e até com alegria. Para obtê-lo, não nos fatiga a privação dos jejuns, achamos prazer na lassidão das vigílias, não nos enfastia a contínua leitura e meditação das Escrituras, nem nos deixamos assustar pelo trabalho incessante, pela nudez e privação de tudo, nem pelo horror desta vastíssima solidão.

É, sem dúvida, por causa deste mesmo fim, que abandonastes o afeto dos pais e desprezastes a pátria e as delícias do mundo, atravessando tantas regiões para chegar até nós, homens rústicos e ignorantes, que vivemos na aspereza deste ermo.

CASSIANO:

Como insistisse em nossa resposta, dissemos que tudo isso tolerávamos por causa do reino dos céus.

MOISÉS:

Muito bem, disse ele, falastes corretamente sobre o fim. Mas, antes de mais nada, deveis saber qual é o nosso escopo, isto é, a firme determinação a que devemos aderir sem cessar, para podermos atingir o nosso fim.

Em toda arte e disciplina, como já disse, tem precedência um certo escopo, isto é, um propósito da alma, uma incessante intenção da mente. Se alguém não o guardar com perseverante empenho, não poderá chegar ao fim desejado.

Pois, como eu disse, o lavrador, tendo por fim próprio viver do proveito de colheitas abundantes com segurança e largueza, exerce o seu escopo ou determinação ao purgar de sarças e ervas inúteis o seu campo, só confiando em atingir o fim almejado, a opulência, se, antes de obtê-lo já de algum modo o possua em seu trabalho e sua expectativa.

Igualmente o mercador. Não abandona o desejo de adquirir mercadorias, pois é por seu intermédio que pode mais rendosamente acumular riqueza. Em vão cobiçaria o lucro, se não tomasse o caminho que a ele conduz.

Os que ambicionam as honras deste mundo, através de determinadas dignidades, escolhem antes os cargos e carreiras a que devem dedicar-se para poder chegar, pelo caminho certo, ao fim que é a desejada dignidade.

Assim, o fim último da nossa via é o reino de Deus. Mas, qual seja o escopo, deve-se cuidadosamente procurar. Se não o soubermos com clareza, em vão nos cansaremos em nossos esforços, pois os que viajam sem caminho certo, só conseguem o labor da jornada, não o avanço.

O fim último da nossa profissão, como já dissemos, é o reino de Deus ou dos céus. Quanto ao nosso escopo, é a pureza de coração sem a qual é impossível alguém alcançar aquele fim.

Portanto, fixando neste escopo o olhar que nos dirige, orientamos a nossa corrida por uma linha certa, de modo que se o nosso pensamento se desviar um pouquinho, nós o retificamos, voltando logo a contemplá-la, como a uma norma. Revertendo os nossos esforços a esse signo único, ele nos avisará imediatamente, caso o nosso espírito se desvie ainda que pouco da direção proposta.

É como os que são hábeis no manejo de armas de arremesso. Quando querem demonstrar sua perícia diante de um rei deste mundo, esforçam-se por lançar dardos ou flechas em pequenos escudos onde são pintados os prêmios. Estão certos de não poder alcançar o seu fim, o prêmio cobiçado, senão visando diretamente ao alvo. Ganharão o prêmio se puderem realizar o escopo proposto. Se este lhes for subtraído da vista, seja qual for o desvio que afaste o olhar imperito da direção correta, eles não perceberão que se apartaram daquela linha, porque lhes falta o sinal certo que lhes aprove a correção do tiro ou acuse a sua falha.

E assim, ao lançarem no ar e no vácuo seus inúteis arremessos, estão impedidos de distinguir por que erraram ou se enganaram, pois carecem de qualquer indicação do desvio, e o seu olhar confuso não pode ensinar como, desde então, corrigir ou recuar a linha acertada.

Assim também a nossa profissão. seu fim, segundo o Apóstolo, é a vida eterna, conforme, suas próprias palavras: “Tendes por fruto a santidade, e por fim a vida eterna”. Rom. 6, 22

Quanto, porém, ao nosso escopo, é a pureza de coração, que ele merecidamente chama de santidade, sem a qual aquele fim não poderia ser atingido. É como se dissesse em outras palavras: `Tendes o vosso escopo na pureza de coração, e o vosso fim na vida eterna’.

Falando, aliás, desse escopo, o mesmo Apóstolo emprega o próprio termo, isto é, escopo, de modo bem significativo: “Esquecendo o que está para trás, e lançando-me para frente, eu sigo sem parar até o fim, para a recompensa a que fui chamado do alto”. Fil 3,13-14

O texto grego é mais claro ainda, trazendo: “katá skopón diwko”, isto é: “eu sigo até o fim, segundo o escopo”, vale dizer, segundo a determinação que me propus, como se dissesse: “Por este propósito, pelo qual esqueço o que ficou para trás, isto é, os vícios do velho homem, eu me esforço por chegar ao meu fim, que é a recompensa celeste”.

Assim sendo, devemos abraçar com toda a energia o que pode nos encaminhar ao escopo da pureza de coração, e evitar tudo que dela nos separa, como pernicioso e nocivo.

É ela a razão de tudo que fazemos e suportamos. É por ela que abandonamos parentes, pátria, honrarias, riqueza, delícias e qualquer prazer deste mundo, para guardar continuamente a pureza de coração.

Se nos propomos esta intenção, os nossos atos e pensamentos sempre irão direto à sua conquista. Mas se ela não estiver constantemente diante dos nossos olhos, não só os nossos trabalhos se tornarão vazios e instáveis e sem nenhum proveito, mas também se levantarão pensamentos de toda sorte e contrários entre si.

Pois é inevitável que a alma, não tendo a que voltar e a que se fixar de preferência, mude a cada hora e a cada minuto, ao sabor da variedade dos impactos que sofre, e logo se transforme, em virtude das influências de fora, na disposição que primeiro lhe ocorra.

Daí vem que já vimos que muitos, depois de ter deixado as maiores riquezas, não só em quantias de ouro e prata, mas igualmente em propriedades magníficas, se deixam perturbar, depois disso, por causa de um canivete, um estilete, uma agulha, uma pena de escrever. Se tivessem mantido o olhar invariavelmente fixo naquela pureza de coração, jamais teriam admitido em coisas tão pequenas o que radicalmente rejeitaram em bens consideráveis e preciosos.

Pois acontece muitas vezes que não poucos guardam com tanto ciúme um volume, que não permitem a ninguém sequer de leve o ler ou tocar. E assim encontram ocasião de impaciência e de morte onde eram estimulados a ganhar a recompensa de paciência e de caridade. Depois de terem distribuído todos os seus bens por amor de Cristo, eles retém em coisas mínimas o antigo afeto do seu coração e se deixam por elas, muitas vezes, encher-se de fortes cóleras, como os que, não tendo a caridade do Apóstolo, se tornam de todo infrutuosos e estéreis. O santo apóstolo o previa, em espírito, quando disse: “Ainda que eu distribuísse todos os meus bens para o alimento dos pobres, e entregasse meu corpo às chamas, se eu não tiver a caridade, de nada me serve”. I Cor 13,3

Prova-se, assim, com clareza, que não se alcança de imediato a perfeição pelo simples despojamento e pela renúncia de toda riqueza e honraria, senão houver aquela caridade cujos membros descreve o Apóstolo, pois é só na pureza de coração que ela consiste.

Pois o que é não invejar, não se encher de orgulho, não se irritar, não agir mal, não ir atrás do próprio interesse, não ter prazer com a injustiça, não levar em conta o mal (I Cor. 13,4ss) e o resto, senão oferecer sempre a Deus um coração perfeito e sincero, e guardá-lo imune de quaisquer perturbações?

É, portanto, pela pureza do coração que tudo devemos fazer e apetecer. Por ela, temos de ir atrás da solidão. Por ela, saibamos que nos cumpre assumir jejuns, vigílias, trabalhos, despojamento, leitura e outras virtudes, para, graças a isto, tornar e conservar livre de más paixões o nosso coração, galgando por estes degraus a perfeição da caridade.

E se eventualmente não pudermos, em virtude de alguma legitima e necessária ocupação, realizar o ritual dos nossos rigores costumeiros, não vamos por motivos de tais observâncias cair na tristeza ou na ira ou indignação, pois é para vencer tais coisas que teríamos feito o que foi omitido. Não é tão grande o lucro do jejum, quanto os dispêndios da ira; nem tanto o fruto que se colhe com a leitura, quanto o dano que sofremos com o desprezo de um irmão.

Convém, portanto, fazer por causa do nosso escopo principal, isto é, a pureza do coração, que é a caridade, todas aquelas coisas secundárias, jejuns, vigílias, anacorese, meditação das Escrituras, e não desbaratar por causa delas esta virtude principal, pela qual, se a guardarmos intacta em nós, nada nos poderá fazer mal, ainda que se omita por necessidade algo secundário.

De resto, não nos servirá de nada fazer todas as coisas, se nos deixarmos privar daquela que chamamos principal e para cuja aquisição tudo deve ser feito.

Se alguém, com efeito, se apressa a arranjar e preparar as ferramentas de qualquer arte, não é para as possuir ociosas nem para fundar na mera posse dos instrumentos o fruto deles esperado, mas sim para adquirir realmente, por seu serviço, a maestria e o produto daquela arte, de que são eles os meios.

Assim, os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, o despojamento e a privação de todos os recursos não constituem a perfeição, mas são instrumentos da perfeição, pois se não é neles que está o fim dessa disciplina, é por eles que se chega ao fim.

É, portanto, em pura perda que alguém multiplicará tais exercícios, se neles detiver a intenção do seu coração, como se fossem o sumo bem, deixando de fixar no fim pelo qual se justificam aquelas práticas, todo o esforço da sua virtude. Possuiriam os instrumentos daquela disciplina, mas ignorariam o seu fim, no qual consiste todo o fruto.

Tudo, pois, que pode perturbar a pureza e a tranqüilidade da mente, ainda que pareça útil e necessário, deve ser evitado como prejudicial. Com esta norma poderemos escapar à dispersão dos pensamentos extravagantes e atingir, seguindo a justa direção, o fim querido.

Este, portanto, deve ser para nós o principal esforço, esta a invariável intenção do coração, para que a mente sempre esteja fixa em Deus e nas coisas divinas. Tudo o que disto se afasta, mesmo que seja grande, deve ser julgado secundário ou mesmo ínfimo, ou por certo nocivo. De modo muito belo, o Evangelho traça uma figura deste espírito e deste modo de agir, no episódio de Maria e Marta.

Enquanto Marta prestava um serviço absolutamente santo, pois era ao próprio Senhor e a seus discípulos que ela ministrava, e Maria, somente atenta à doutrina espiritual, estava fixa aos pés de Jesus, que ela, beijando, ungia com o perfume duma boa confissão, é ela a preferida pelo Senhor, por ter escolhido a melhor parte, e uma parte que não lhe podia ser tirada.

Marta, com efeito, toda ocupada nos piedosos cuidados do seu serviço doméstico, vendo-se incapaz de cumpri-lo sozinha, pede ao Senhor a ajuda da irmã: “Não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude”. Lc. 10,40

Não era a uma obra vil, mas a um louvável ministério, que ela chamava Maria. E, no entanto, que resposta ouviu do Senhor? “Marta, Marta, estás preocupada e te perturbas por muitas coisas. Não há necessidade senão de poucas, e até mesmo uma só basta. Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada”. Lc. 10, 41-42

Vedes, portanto que o Senhor colocou o bem principal só na “theoria”, isto é, na contemplação divina. Segue-se que as outras virtudes, ainda que as proclamemos necessárias e úteis e boas, nós a julgamos de segundo grau, porque todas são praticadas para a obtenção desta só. Dizendo o Senhor: “Estás preocupada e te perturbas por muitas coisas; não há necessidade senão de poucas e até mesmo uma só basta”;

ele colocou o sumo bem não na ação, embora louvável e abundante de frutos, mas na contemplação dEle mesmo, que é, na verdade, simples e una. Ele afirmou que poucas coisas são necessárias para a perfeita bem-aventurança, isto é, aquela “theoria” que começa pela consideração do exemplo de uns poucos santos.

Elevando-se desta contemplação, aquele que ainda se acha em progresso, chegará também a esse único assim chamado, isto é, à visão de Deus só, com a sua graça. Ultrapassando, com efeito, os atos e ministérios maravilhosos dos santos, ele já passa a nutrir-se da beleza e do conhecimento de Deus: “Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada”.

É preciso considerar isto mais cuidadosamente. Quando Ele disse: “Maria escolheu a boa parte”, embora se cale a respeito de Marta e não pareça censurá-la, ao louvar aquela, declara esta inferior. E quando diz “que não lhe será tirada”, mostra que desta pode-se tirar a sua parte, um serviço corporal não pode perseverar sempre com o homem, ao passo que a ocupação de Maria, esta, como Ele ensina, em tempo algum pode findar.

CASSIANO:

Ficamos muito perturbados com esta palavra. Pois que, dissemos nós, então o labor dos jejuns, a solicitude da leitura, as obras de misericórdia, de justiça, de piedade e afeição humana, nos serão tiradas e não permanecerão com os seus autores? Mas, sobretudo, não foi o próprio Senhor que prometeu o reino dos céus em retribuição a tais obras, ao dizer: “Vinde, benditos do meu Pai, entrai na posse do reino que está preparado para vós desde a origem do mundo. Pois tive fome, e me desde de comer; tive sede, e me deste de beber”. Mt. 25, 34-35

E o resto? Como enfim, será tirado o que introduz no reino os seus praticantes?

MOISÉS:

Eu não disse, respondeu o abade Moisés, que o prêmio da boa obra nos deva ser tirado, porque o mesmo Senhor declara: “Aquele que der a um desses pequeninos um cálice de água fresca, porque é um dos meus discípulos, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa”, Mt. 10, 42

mas sim que lhe será tirada a ação, atualmente exigida pela necessidade corporal, pelos ataques da carne ou pelas desigualdades deste mundo.

A assiduidade da leitura e as aflições do jejum para purificar o coração e castigar a carne, só tem utilidade na vida presente, enquanto “a carne tem concupiscência contra o espírito”. Gal. 5, 17

Vemos, aliás, que não raro esse exercício já nesta vida cessa para aqueles que estão esgotados pelo excessivo trabalho, ou pela doença e pela velhice, e não podem ser perpetuamente praticados.

Quanto mais cessarão no futuro, quando “este corpo corruptível se revestir de corruptibilidade”, I Cor. 15, 53

e esse corpo agora “animal” ressuscitar “espiritual” (I Cor. 15, 44), e a carne começará a não mais ter concupiscência contra o espírito?

Sobre isto, igualmente, o Apóstolo se pronuncia com clareza: “O exercício corporal tem utilidade limitada, mas a piedade, (é a caridade, sem dúvida, que deve-se entender), é útil para tudo, pois ela tem a promessa da vida presente e futura”. I Tim. 4, 8

Dizer que tem uma utilidade limitada, é declarar claramente que ela nem se pratica todo o tempo, nem pode por si só conferir, a quem se esforça, a suma perfeição. O limite, com efeito, pode referir-se às duas coisas, vale dizer, tanto à brevidade do tempo, já que o exercício corporal não pode ser co-eterno ao homem nem na vida presente nem na futura; como, igualmente à pouca utilidade obtida pelos exercícios corporais, porque a maceração corporal produz um certo começo de progresso, mas não a própria perfeição da caridade, e é esta que tem a promessa da vida atual e futura.

Julgamos, pois, necessário o exercício dessas obras, porque sem elas é impossível subir ao cume da caridade.

As obras de caridade e misericórdia, como as chamais, são também necessárias neste tempo, enquanto ainda reina a desigualdade. Mas dessas obras nem mesmo seria de esperar a sua prática, se não houvesse, aqui em baixo, um numero muito grande de pobres, necessitados e enfermos, produzido pela injustiça dos homens, daqueles, quero dizer, que retiveram para o seu uso exclusivo, sem contudo, realmente servir-se delas, as coisas que o criador comum concedeu a todos.

Enquanto, pois, grassar neste mundo uma tal desigualdade, aquela ação tão necessária aproveitará a quem a exercer, dando ao bom coração e à benevolência fraterna o prêmio da herança eterna. Mas no século futuro, reinando a igualdade, ela cessará. Já não mais haverá ali diferenças que exijam a sua prática, mas todos passarão da multiplicidade da ação à caridade de Deus e à contemplação das coisas divinas, numa perpétua pureza de coração.

É a isto que, desde este século, se dedicam com todas as forças, aqueles que só querem cuidar da ciência e da purificação de sua mente. Consagrando-se, enquanto se acham na condição carnal e corruptível, ao ofício em que haverão de permanecer depois de a ter deixado, eles atingem aquela promessa ao Senhor, nosso Salvador, que diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Mt. 5, 8

Por que vos admirais da transitoriedade daqueles serviços acima enumerados? O próprio Apóstolo nos descreve como passageiros até os mais sublimes carismas do Espírito Santo. Somente a caridade, como ele nos indica, permanece sem fim: “As profecias serão abolidas, as línguas cessarão; a ciência será destruída”. I Cor. 13, 8

Mas, quanto à caridade, diz ele: “A caridade não passará jamais”. I Cor. 13, 8

Todos os dons, com efeito, nos são dados em razão da utilidade e da necessidade, por algum tempo, devendo, sem dúvida, desaparecer logo que se consumar a presente economia. A caridade, porém, não será jamais interrompida. Não é só neste mundo que ela opera em nós de modo útil, mas também no futuro. Depois de deposto o fardo das necessidades corporais, ela permanecerá ainda mais eficaz e mais excelente, para que, sempre imune de qualquer desgaste, possa aderir a Deus, na eterna incorruptibilidade, de modo ainda mais ardente e mais intenso.

GERMANO:

Quem é que pode, na fragilidade da carne, ser sempre tão preso a essa contemplação que nunca pense na chegada de um irmão, na visita de um doente, no trabalho manual, ou na hospitalidade devida aos peregrinos ou às pessoas que chegam? E, afinal, quem não é solicitado a prover às necessidades e cuidados do corpo? Muito gostaríamos de aprender como e em que medida pode a mente unir-se a esse Deus invisível e incompreensível.

MOISÉS:

Unir-se a Deus sem interrupção e ficar-lhe inseparavelmente unido pela contemplação, como dizeis, é impossível ao homem na fragilidade da carne.

Mas precisamos de saber onde devemos ter fixa a intenção da nossa mente e para qual objetivo reconduzir constantemente o olhar da nossa alma. Se a mente puder guardá-la, alegre-se; se se deixar distrair, deplore e suspire.

E saiba que decaiu do bem supremo, todas as vezes que se surpreender esquecida daquela contemplação. Julgue ser uma prostituição todo afastamento, ainda que momentâneo, da contemplação do Cristo. Quando, pois, o nosso olhar se desviar dele um pouco, voltemos de novo para ele os olhos do coração e reapliquemos como em linha reta a força da mente.

Tudo, na verdade, se tem na profundeza da alma. Se daí foi expulso o demônio, e se os vícios não mais aí reinam, conseqüentemente se funda em nós o reino de Deus, como diz o Evangelista: “O reino de Deus não virá de modo visível. Não dirão: ei-lo aqui ou ali. Em verdade, eu vos digo, o reino de Deus está dentro de vós”. Lc. 17, 20-21

Ora, dentro de nós não pode existir senão o conhecimento ou a ignorância da verdade e o amor dos vícios, pelos quais preparamos em nosso coração um reino para o demônio ou para o Cristo. O Apóstolo, por sua vez, assim descreve a qualidade desse reino: “O reino de Deus não é comida ou bebida, mas justiça, paz e alegria no Espirito Santo” Rom. 14, 17

Se, portanto, o reino de Deus está dentro de nós, e se ele é justiça, paz e alegria, quem mora nessas virtudes, está, sem dúvida, no reino de Deus. E, pelo contrário, quem vive na injustiça, na discórdia e na tristeza que produz a morte, está no reino do demônio, no inferno e na morte, pois é por esses indícios que se discerne o reino de Deus ou do diabo.

E, de fato, se, elevando o olhar da mente, considerarmos aquele estado em que vivem as potências celestes que estão verdadeiramente no reino celeste, como é que devemos julgá-lo, senão a perpétua e continua alegria? Que é, pois, mais próprio e mais conveniente à verdadeira bem-aventurança, do que a tranqüilidade constante e a alegria eterna?

E para aprenderdes com maior certeza que assim é como dizemos, não por minha conjetura, mas pela autoridade mesma do Senhor, escuta-o descrevendo claramente a natureza e o estado daquele mundo: “Eis que eu crio novos céus e uma nova terra; as coisas antigas não serão mais lembradas, nem subirão mais ao coração. Mas gozareis de uma alegria e exultação eterna no que eu criar”. Is. 65, 17-18

E ainda: “Nela se encontrarão o gozo e a alegria, ação de graças e cantos de louvor. E isto será de mês a mês, de sábado a sábado”. Is. 51, 3; 66, 23

E mais uma vez: “A alegria e a exultação eles terão, a dor e o gemido fugirão”. Is. 35, 10

Se desejais conhecer com clareza ainda maior o que são a vida e a cidade dos santos, prestai atenção ao que diz a voz do Senhor, falando a Jerusalém: “Eu te darei por visita a paz e como autoridade a justiça. Não se ouvirá mais falar de iniqüidade em tua terra, nem de devastações e de ruínas em tuas fronteiras, e a salvação cobrirá teus muros e o louvor as tuas portas. Para ti não haverá mais o sol para luzir durante o dia, nem o esplendor da lua te iluminará, pois o próprio Senhor será a tua luz eterna, e Deus a tua glória. Teu sol não se porá, e a tua lua não diminuirá, e terminarão os dias do teu luto”. Is. 60, 17-20

Por isto o santo Apóstolo não declara que qualquer alegria, de um modo geral e simplesmente, seja o reino de Deus, mas somente aquela que é no espírito, como ele assinala e específica (Rom. 14, 17). Ele sabe que existe uma outra alegria, que é censurável, da qual se diz: “Este mundo se alegrará”. Jo. 16, 20

E ainda: “Ai de vós que rides, porque chorareis”. Lc. 6, 25

O reino dos céus, sem dúvida, deve ser entendido em três sentidos. Ou que os céus, isto é, os santos, hão de reinar sobre os outros homens submetidos a eles, conforme esta palavra: “Tu governarás cinco cidades, e tu a dez”, Lc. 19, 17-19

e esta outra dirigida aos discípulos: “Assentai-vos-eis sobre doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel”. I Cor. 15, 28

Outro sentido é que os próprios céus tornar-se-ão o reino de Cristo, quando tudo lhe for submetido e Deus começar a “ser tudo em todos” (I Cor. 15, 28). Ou, enfim, que os santos reinarão nos céus com o Senhor.

Por este motivo, saiba cada um desde agora, enquanto se acha neste corpo, que lhe caberá aquele lugar e ministério do qual na vida presente ele se mostrar um membro devotado. E não duvide, também, que no século ele terá a mesma sorte daquele cujo serviço e companhia tiver agora preferido. É a sentença do Senhor que diz: “Se alguém me quer servir, me siga, e onde eu estou, lá estará o meu ministro”. Jo. 12, 26

Quanto à contemplação de Deus, esta pode entender-se de muitos modos.

Pois Deus, nós o conhecemos não só pela admiração da sua essência incompreensível, que ainda se acha escondida na esperança da promessa, mas também pela grandeza das suas criaturas, ou se consideramos a sua justiça ou do auxílio cotidiano da sua providência. Assim é quando repassamos, de mente muito pura, tudo o que ele fez por seus santos ao longo de cada geração. É quando admiramos, de coração a tremer, a força com que governa, modera e rege todas as coisas, bem como a imensidade da sua ciência e o seu olhar ao qual não escapa nem o segredo dos corações. Ou quando pensamos que o numero das areias e das ondas do mar ele contou e conhece. E quando contemplamos, cheios de estupefação, que são presentes ao seu conhecimento as gotas das chuvas, os dias e as horas dos séculos, o passado e o futuro. E quando vemos, num transporte de admiração, a inefável clemência com que suporta, sem que a sua longanimidade se canse, os crimes inumeráveis cometidos a cada momento diante dos seus olhos. E a vocação a que nos chamou, pela graça da sua misericórdia e sem quaisquer méritos precedentes. E ainda quantas ocasiões de salvação ele concede aos que vai adotar como filhos!

Pois ele nos fez nascer de tal modo que, desde o berço, a sua graça e o conhecimento da sua lei nos fossem dados. E, vencendo em nós ele próprio o adversário, ao preço apenas do consentimento da nossa boa vontade, nos agracia com a eterna bem-aventurança e prêmios sem salvar, o plano de sua incarnação, e dilatar entre os povos as maravilhas dos seus méritos.

São, aliás, inumeráveis outras contemplações do mesmo gênero, que podem nascer em nossas faculdades, segundo a qualidade da nossa vida e a pureza do coração, e nas quais Deus é visto ou possuído em puras intuições. Ninguém, no entanto, as poderia reter perpetuamente, se nele ainda vive algo dos afetos carnais. Porque “não poderás ver a minha face”, diz o Senhor, “nenhum homem pode me ver e viver”, Ex. 33, 20

Isto é, para este mundo e as afeições terrenas.

GERMANO:

Como é que pensamentos supérfluos, mesmo contra a nossa vontade e até mesmo sem sabermos, se insinuam em nós de modo tão sutil e escondido, que temos não pequena dificuldade não só para os repelir, mas também para os conhecer e descobrir? Pode a mente ver-se, um dia, livre deles e não ser mais atacada por ilusões desta espécie?

MOISÉS:

É impossível, sem dúvida, que a mente não seja perturbada por pensamentos. Mas a quem se empenha, é possível os acolher ou rejeitar. Se, de um lado, o seu nascimento não depende inteiramente de nós, já a sua aprovação e acolhida está em nossas mãos.

E se dizemos ser impossível à mente não ser assaltada por pensamentos, nem por isso se deve tudo atribuir às suas investidas ou aos espíritos malignos que nos tentam sugeri-los. Se assim não fosse, nem sobraria ao homem o livre arbítrio, nem nos restaria o empenho da nossa própria correção.

Eu digo, ao contrário, que depende de nós, em grande parte, melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, e influir na sua formação em nossos corações, se santos e espirituais ou carnais e terrenos.

É a este fim, portanto, que se prendem a leitura freqüente e a constante meditação das Escrituras: proporcionar a memória das coisas espirituais.

Este o motivo do canto repetido dos Salmos: alimentarmos a continua compunção, e afinarmos de tal modo a mente, que ela perca o sabor das coisas terrenas e possa contemplar as celestes. Se, voltando atrás, e levados por uma sorrateira negligência, cessarmos tais exercícios, é inevitável que a mente obscurecida pela impureza dos vícios se incline logo para o lado da carne e aí se precipite.

Este exercício do coração bem se pode comparar à mó que as águas dum canal, tombando, fazem rodar com rapidez. Sempre a dar voltas ao impulso das águas, ela não pode, de nenhum modo, cessar o seu trabalho. Entretanto, está no poder daquele que se acha à testa do moinho, escolher o que vai moer, se o trigo, a cevada ou o joio. O que é fora de dúvida, é que só mói aquilo que o responsável tiver fornecido.

Ora, o mesmo acontece com a alma. Posta em movimento pelas torrentes de tentações que a investem de todos os lados através dos choques da vida presente, ela não poderá ficar vazia da maré dos pensamentos. A seu zelo e diligência cabe ver quais deve admitir ou procurar.

Se, pois, como dissemos, recorremos à meditação assídua da Escrituras e levantamos a nossa memória à lembranças das coisas espirituais, ao desejo da perfeição e à esperança da futura bem aventurança, é inevitável que os pensamentos daí nascidos sejam espirituais e farão que nossa mente se detenha naquilo que meditamos.

Se, pelo contrário, vencidos pela preguiça ou pela negligência, nos deixamos invadir pelos vícios e conversas ociosas, ou nos embaraçamos com cuidados mundanos e preocupações supérfluas, a espécie de cizânia que daí nasce sobrecarregará o nosso coração com um trabalho nocivo. E segundo a sentença do nosso Salvador, onde estiver o tesouro das nossas obras e de nossa intenção, lá permanecerá necessariamente o nosso coração (Mt. 6, 21).

Uma coisa importante devemos, antes de tudo, saber. Três são os princípios dos nossos pensamentos, isto é, Deus, o demônio e nós mesmos.

São, com efeito, de Deus, quando ele se digna de nos visitar por alguma iluminação do Espírito Santo, elevando-nos a progresso mais alto; também, quando ele nos castiga por uma compunção salutar, se avançamos menos ou nos deixamos vencer, agindo com relaxamento; ou, ainda, ao descobrir-nos os celestes mistérios e quando atrai a nossa vontade e propósito a atos ainda melhores (Est. 6, 1ss).

É como aconteceu com o rei Assuero quando, castigado pelo Senhor, foi levado a consultar os anais e estes lhe trouxeram à memória os benefícios de Mardoqueu. Ele então o exalta com as maiores honras e revoga de imediato a crudelíssima sentença de morte contra o povo judeu.

O mesmo se dá com o profeta, ao recordar: “Escutarei o que me fala o Senhor Deus”. Sl. 84, 9

E este outro que afirma: “Assim falou o anjo que falava em mim”, Zac. 1, 14

ou como quando o filho de Deus promete vir com o Pai e fazer em nós a sua morada (Jo. 14, 23).

Ou ainda quando ele diz: “Não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós”, Mt. 10, 20

e também quando diz o vaso da eleição, S. Paulo: “Procurais uma prova de que é Cristo que fala em mim”. II Cor. 13, 3

Do demônio, por outro lado, nasce uma série de pensamentos, quando se esforça por derrubar-nos tanto pela atração dos vícios, como por ocultas ciladas, pondo em ação a sua sutilíssima esperteza para nos apresentar fraudulentamente o mal como bem e transfigurar-se a nossos olhos em anjo de luz (II Cor. 11, 14).

Ou, como conta o evangelista: “E acabada a ceia, como já o demônio tinha posto no coração de Judas, filho de Simão, o Iscariota, o propósito de trair o Senhor”, Jo. 13, 2

e, logo a seguir: “Depois do bocado, entrou nele Satanás”. Jo. 13, 27

O mesmo disse Pedro a Ananias: “Por que Satanás tentou o teu coração, para mentires ao Espírito Santo?” At. 5, 3

Acrescentemos ainda o que lemos no Evangelho, mas que muito antes o Eclesiastes predizia: “Se o espírito do que tem o poder se levanta contra ti, não deixes teu lugar”. Ecl. 10, 4

Igualmente, o que pela boca do espírito imundo se diz a Deus contra Acab, no Terceiro Livro do Reis: “Eu sairei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas”. III Reis 22, 12

Quanto aos pensamentos que vêm de nós, são os que nascem quando nos lembramos naturalmente de tudo que estamos fazendo, ou fizemos ou ouvimos. É a estes que se refere o bem aventurado Davi, quando diz: “Eu pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos, e meditei, de noite, quando me exercitava no meu coração e examinava o meu espírito”. Sl. 76, 6-7

E também: “Os pensamentos dos justos são justiça”. Pr. 12, 5

E, nos Evangelhos, diz o Senhor aos Fariseus: “Porque pensais o mal em vossos corações?” Mt. 9, 4

Devemos, portanto, sempre ter em vista esta causa tríplice dos nossos pensamentos e examinar com sagaz discernimento todos os que emergem em nosso coração.

É preciso indagar desde o princípio as suas origens, causas e autores, a fim de podermos considerar, segundo o mérito do que sugerem, como os devemos acolher. Assim nos tornaremos cambistas peritos, segundo o preceito do Senhor (Mt. 25, 27).

Sua arte e perícia, com efeito, consiste em reconhecer o que é ouro puríssimo e o que foi menos purificado pelo fogo no cadinho. No seu bem atilado discernimento, ele não se deixa enganar, se uma peça vil de cobre tenta imitar, com as aparências de ouro brilhante, uma moeda preciosa. Pois não só sabe reconhecer as peças cunhadas com a efígie de tiranos, mas também discernir com a perícia mais sagaz as que. embora trazendo a imagem dum rei verdadeiro, são dinheiro falsificado. Finalmente, investigam cuidadosamente, ao exame da balança, se nada lhes falta do legítimo peso.

Tudo isto nós também devemos observar espiritualmente, como nos mostra em exemplo, com este nome de cambista, a palavra do Evangelho.

Assim é que nos cumpre, em primeiro lugar, examinar com maior cuidado tudo o que se introduz sorrateiramente em nossos corações, ou qualquer preceito que nos seja apresentado, a ver se não é, acaso, algo ligado à superstição judaica ou proveniente da orgulhosa filo do século, que apresenta uma piedade de mera superfície. Isto poderemos fazer, se cumprimos aquela palavra do Apóstolo: “Não creias em qualquer espírito, mas provai os espíritos se são de Deus”. I Jo. 4, 1

Nesta espécie de erros caíram, enganados, aqueles que, depois de ter feito profissão de monge, se deixaram iludir por belas palavras e certas sentenças de filósofos que, à primeira vista, lhes soavam com sentido piedoso e de acordo com a religião. Enganadoras em seu brilho exterior de ouro, elas deixaram para sempre nus e miseráveis aqueles a quem seduziram por sua aparência, como moedas de cobre vil e falsificadas, seja fazendo-os voltar ao barulho do mundo, seja por arrastá-los a erros heréticos ou a opiniões orgulhosas.

Foi o que sofreu Acor, como lemos no livro de Josué, filho de Nave. Tomado pela cobiça, ele furtou um lingote de ouro do acampamento dos Filisteus, merecendo por isto ser punido de anátema e condenando à morte eterna.

Em segundo lugar, convém observar com todo cuidado que, ligado ao ouro puríssimo das Escrituras, uma falsa interpretação não nos engane por causa do metal precioso. Foi neste ponto que o demônio, muito esperto, tentou enganar o nosso Salvador, como se se tratasse de um simples homem. Corrompendo com uma interpretação maliciosa o que deve ser entendido das pessoas dos justos em geral, ele tenta explicá-lo de modo especial àquele que não precisava da guarda dos anjos: “Ele ordenou a seus anjos por causa de ti, que guardem em todos os teus caminhos; e eles te transportarão em suas mãos, para que não batas o teu pé contra as pedras”. Mt. 4, 6; Sl. 90, 11-12

Como se vê, ele assim transmuda, por uma astuta interpretação, as preciosas palavras da Escritura, torcendo-as num sentido contrário e nocivo, para nos apresentar, sob as cores do ouro falso, a imagem dum tirano usurpador.

O mesmo acontece, quando ele se esforça por nos iludir com moedas falsas, aconselhando, por exemplo, alguma obra de piedade que não provem da cunhagem legitima dos antigos e, sob pretexto de virtude, nos leva ao vício. São jejuns imoderados e inoportunos, vigílias excessivas, orações desordenadas, leituras inconvenientes com que nos logra e arrasta a um fim desgraçado.

Outras vezes, ele nos persuade a fazer intervenções e visitas piedosas, a fim de nos tirar da clausura espiritual do mosteiro e do segredo duma paz amiga. Ou também nos leva a assumir os cuidados e assuntos de religiosas destituídas de recursos, para que o monge, prisioneiro desses laços de que não pode soltar-se, se veja dividido por preocupações perniciosas. Embora tais coisas sejam contrárias à nossa salvação e profissão, como, no entanto, se cobrem de certo véu de misericórdia e piedade, facilmente enganam os inexperientes e incautos.

Elas imitam as moedas do rei verdadeiro, pois, parecem, à primeira vista, cheias de piedade, mas não foram cunhadas pelos legítimos moedeiros, isto é, os padres católicos e aprovados, nem procedem da oficina do seu firme e autorizado ensinamento. São moedas clandestinas, fabricadas em fraude pelos demônios e passadas, com grande dano, aos inexperientes e ignorantes.

Conquanto pareçam no momento úteis e necessárias, se, contudo, começam depois a ser contrárias à solidez da nossa profissão e a pôr em risco, de certo modo, todo o corpo do nosso propósito, importa à nossa salvação cortá-las e lançá-las fora, como a um membro que, embora necessário, nos escandaliza, mesmo que nos pareça exercer a função de mão ou pé direito. É preferível, de fato, ter um membro a menos, isto é, privar-se da realização e do fruto de um preceito, e continuar são e firme quanto aos outros, para depois entrar amputado no reino dos céus, a cair, com todos os mandamentos completos, em algum escândalo. Transformado em pernicioso hábito, ele nos separaria da regra de austeridade e da disciplina do projeto de vida que abraçamos para lançar-nos numa tal ruína que, sem poder compensar os danos futuros, exporá ao fogo do inferno todos os nossos frutos passados e o corpo inteiro das nossas obras (Mt. 18, 8).

Deste gênero de ilusões o livro dos Provérbios fala bem a propósito: “Há caminhos que parecem retos ao homem, mas o seu final é o fundo do inferno”. Pr. 16, 25

E também: “O maligno prejudica quando se une ao justo”. Pr. 11, 25

Vale dizer, o demônio engana, quando se cobre com as cores da santidade. “Ele odeia a palavra que protege”, Pr. 11, 25

isto é, o vigor da discrição que procede das palavras e conselhos dos antigos.

Agora, a última tarefa do cambista perito. Dissemos acima que é o exame do peso. Ela se cumprirá, se o nosso pensamento refletir sobre as coisas que tivermos a fazer, revolvendo-as com o maior escrúpulo para que, depois de colocá-las na balança do nosso coração, as possamos pesar com a mais perfeita exatidão. Assim apuraremos se são completas segundo a dignidade da nossa regra comum, se são de peso em razão do temor de Deus e irrepreensíveis quanto ao sentido; ou se são levianas por ostentação humana ou alguma novidade presunçosa, e se a vanglória não lhes teria diminuído ou arruinado o peso de seu mérito.

Desta maneira, nós as examinamos numa balança autorizada, conferindo-as com os atos e os ensinamentos dos profetas e dos Apóstolos, de modo que possamos ou guardá-las, se são coisas integras e perfeitas e de peso igual a tais ensinamentos, ou recusá-las com toda a cautela e diligência, se defeituosas e nocivas e não conformes ao mesmo padrão.

É, pois, preciso examinar, sem cessar, as profundezas do nosso coração e, com o farol mais sensível, seguir o rastro dos que ali entram, para não acontecer que alguma fera espiritual, leão ou dragão, passando por lá, deixe em segredo a marca de seus passos perniciosos e permita, pela negligência quanto aos ensinamentos, o acesso de outros ao santuário intimo da nossa alma.

( Tradução: Timóteo Amoroso Anastácio - Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Exortação sobre o discernimento das paixões vãs e os pensamentos vacilantes – Evágrio Pôntico

O homem não pode expulsar as lembranças apaixonadas se não presta atenção a concupiscência e a cólera, dissipando a primeira com jejuns, velando e durmindo no chão, e acalmando a segunda com atos de suportação, paciência, perdão e de misericórdia.

Fiquei muito feliz em saber que muitas pessoas gostaram dos textos de Evágrio Pôntico que publiquei no blog. Achei mais esse texto do mesmo autor, onde ele vai nos falar sobre nosso pensamento e também sobre o discernimento que devemos ter.

Entre os demônios que se opõe a prática das virtudes, os primeiros que adotam uma atitude de combate são aqueles que ostentam as paixões pelo comer, os que insinuam o amor ao dinheiro, e os que nos estimulam na busca da glória que provém dos homens. Todos os demais vêm depois destes e recebem os que são feridos por eles. Realmente, é pouco provável que se caia nas mãos dos espíritos da fornicação senão cair antes na gula. E não há quem, tendo sido perturbado pela ira, não tenha previamente caído nos prazeres de uma boa mesa, pelas riquezas e pela glória. E não há modo de fugir do demônio da tristeza, se não suporta a privação de todas essas coisas. Assim como nada pode fugir do orgulho, ninhada do diabo; se não há erradicado antes a raiz de todos os males, que é o amor pelo dinheiro, sim é verdade, como disse Salomão, que a indigência faz o homem humilde (Pr 10,4).

Resumindo: não sucede que o homem tropece com o Demônio, sem antes não ter sido ferido por esses três principais males. E também diante do Salvador, o Diabo o tentou primeiramente com estes três pessamentos: primeiramente exortando-o a converter as pedras em pães, depois prometendo-o que o mundo se prostaría a seus pés, adorando-o, e como terceira coisa, o tenta com a possibilidade de que a glória o cobriria se, caindo do ponto mais alto do templo, os anjos O pegariam e o salvariam, como Filho de Deus que é. Porém nosso Senhor, se mostra superior a tudo isto, ordena ao Diabo que se afaste dEle, ensinando assim que é impossível rejeitar o Diabo sem depreciar estes três pensamentos.

Todos os pensamentos demoníacos introduzem na alma concepções relativas a objetos sensíveis, e o intelecto, se compenetrando deles, imprime em si mesmo as formas desses objetos. A alma reconhece, então, o demônio que se associa ao próprio objeto. Por exemplo: se em minha mente se apresenta a fisionomia de quem me tem insultado ou ofendido, é evidente que surgirão em mim pensamentos de rancor. Se surgir a lembrança das riquezas e da glória, recordará claramente do objeto, o qual é o motivo da minha angústia. O mesmo acontece com os outros pensamentos: pelo objeto descubrirá quem é que vem a sugeri-los. Sem embargo, não quero dizer que todas as lembranças de tais objetos venham dos demônios. Porque é o intelecto mesmo, acionado pelo homem, que produzem as imagens dos acontecimentos. Provêm dos demônios aquelas lembranças que sucitam a ira ou a concupiscência anormais.

O homem não pode expulsar as lembranças apaixonadas se não presta atenção a concupiscência e a cólera, dissipando a primeira com jejuns, velando e durmindo no chão, e acalmando a segunda com atos de suportação, paciência, perdão e de misericórdia. Das paixões ditas anteriormente surgem quase todos os pensamentos demoníacos que empurram o intelecto a ruína e a perdição. Porém é impossível superar estas paixões se não se depreciam totalmente os banquetes, as riquezas e a glória e ainda o próprio corpo, com fundamento daqueles pensamentos que tão pouco o flagelam. É absolutamente necessário, pois, imitar aqueles que se encontram no mar, em perigo, que atiram para a borda as coisas, a causa da violência dos ventos e das ondas. Porém chegados a este ponto, devemos nos guardar de desprender das coisas para sermos vistos pelos homens, já teremos recebido nossa recompensa, e logo outro naufrágio mais terrível que o primeiro nos afligirá, e então soprará o vento contrário, o do demônio da vanglória. Portanto, também Nosso Senhor dos Evangelhos, impulsionando em nosso intelecto que é o capitão do barco, nos disse: Cuidado que não faça vossas justiça diante dos homens, para ser vistos por eles: de outra maneira não terias recompensa de vosso Pai que está no Céu (Mt 6,1). E disse mais: E quando rezeis, não sejam hipócritas, porque eles gostam de orar nas sinagogas e nos cantos das ruas, de pé para serem vistos pelos homens: em verdade os digo, que já tiveram seu pagamento (Mt 6,5-16).

Porém neste ponto devemos prestar atenção ao médico das almas e observar como ele cura a cólera com a esmola, e como a oração purifica o intelecto, e ainda mais, o jejum disseca a concupscência: deste modo surge o novo Adão, o qual se renova a imagem dAquele que o criou, no qual não existe – com motivo da impassibilidade – nem homem nem mulher, e – baseados na única fé – nem grego nem judeu, nem circunciso nem incircunciso, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem liberto, senão que tudo está em Cristo.

(Tradução de Roberto Gortiz – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Notícia:: Famoso ateu Richard Dawkins admite que não está seguro da inexistência de Deus

Da ACI Digital

Um dos mais famosos ateus do mundo, o britânico Richard Dawkins, admitiu durante um debate na Universidade de Oxford, que não pode ter certeza de que Deus não existe. No debate sobre a natureza e a origem do homem, Dawkins disse ao máximo líder anglicano, o arcebispo Rowan Williams, que prefere declarar-se agnóstico antes que ateu.

O debate, que fechou uma semana no qual se falou muito sobre a liberdade religiosa e a vida pública na Grã-Bretanha, realizou-se no Sir Christopher Wren’s Sheldonian Theatre e foi transmitido ao vivo através da Internet. Em um momento do diálogo, o arcebispo disse ao catedrático que se sentia “inspirado pela elegância” de sua explicação sobre a origem da vida com a qual concordava em vários aspectos.

Conforme assinala o Daily Telegraph, o professor Dawkins disse ao arcebispo que “o que não posso entender é por que você não é capaz de ver a extraordinária beleza da idéia da vida começando de um nada. Isso é algo elegante, formoso. Por que quer poluí-lo com uma idéia confusa como Deus?”

Williams respondeu que estava “de acordo completamente com o elemento da beleza” no argumento de Dawkins mas precisou: “não estou falando de Deus como um extra mas como o centro disso”.

Dawkins surpreendeu logo a todos afirmando que não estava 100% seguro de que não existisse um criador. Então o filósofo Sir Anthony Kenny, que mediu no debate perguntou: “por que você não diz então que é um agnóstico?”, e Dawkins respondeu que era assim.

Incrédulo Anthony Kenny replicou: “Mas se diz que você é o ateu mais famoso do mundo…”, ao qual Dawkins respondeu que está “6,9 de sete” seguro daquilo que acreditava.

“Acredito que a possibilidade de que exista um criador sobrenatural é muito, mas muito baixa”, acrescentou Dawkins.

Logo o debate se deu em torno da possibilidade de que o homem tivesse evoluído de ancestrais não humanos, mas que chegaram à realidade atual de seres “à imagem e semelhança de Deus”, conforme afirmou o arcebispo.

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AVISO:: Estamos assumindo aqui no blog Dominus Vobiscum uma campanha de oração pela Jornada Mundial da Juventude. A proposta é que todo católico reze um terço por dia de hoje até o evento que acontecerá em 2013 no Rio de Janeiro. Você topa o desafio?

Sermão sobre a Natividade de Maria – São João Damasceno

João de Damasco ou João Damasceno (Damasco, 675 – 749) foi um monge árabe cristão. O maior teólogo de seu século, João de Damasco escreveu a Exposição da Fé Ortodoxa, um dos primeiros tratados do que se chama hoje teologia sistemática. Participou ativamente na querela da iconoclasia, defendendo a veneração das imagens como meio de alcançar a divindade. Morreu em 749. A obra que publicamos hoje é um dos seus discursos (ou sermões) dedicados a Santíssima Virgem Maria, datados eles do século VIII.

Sermão sobre a Natividade de Maria – São João Damasceno

Do humilde monge e presbítero João Damasceno, discurso para o nascimento de Nossa Senhora Santíssima, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.

Capítulo I

Vinde, todas as nações, vinde, homens de todas as raças, línguas e idades, de todas as condições: com alegria celebremos a natividade da alegria do mundo inteiro! Se os gregos destacavam com todo o tipo de honras – com os dons que cada um podia oferecer – o aniversário das divindades, impostos aos espíritos por mitos mentirosos que obscureciam a verdade, e também o dos reis, mesmo se eles fossem o flagelo de toda a existência, que deveríamos nós fazer para honrar o aniversário da Mãe de Deus, por quem toda a raça mortal foi transformada, por quem o castigo de Eva, nossa primeira mãe, foi mudada em alegria? Com efeito, uma ouviu a sentença divina: «Darás à luz no meio de penas»; a outra ouviu, por seu turno: «Alegra-te, oh Cheia de Graça». À primeira disse-se: «Inclinar-te-ás para o teu marido», mas à segunda: «O Senhor está contigo». Que homenagem ofereceremos então nós à Mãe do Verbo, senão outra palavra? Que a criação inteira se alegre e festeje, e cante a natividade de uma santa mulher, porque ela gerou para o mundo um tesouro imperecível de bondade, e porque por ela o Criador mudou toda a natureza num estado melhor, pela mediação da humanidade. Porque se o homem, que ocupa o meio entre o espírito e a matéria, é o laço de toda a criação, visível e invisível, o Verbo criador de Deus, ao se unir à natureza humana, uniu-se através dela a toda a criação. Festejemos assim o desaparecimento da humana esterilidade, pois cessou para nós a enfermidade que nos impedia a posse dos bens.

Capítulo II

Mas porque nasceu a Virgem Maria de uma mulher estéril? Àquele que é o único verdadeiramente novo debaixo do sol, como coroamento das Suas maravilhas, deviam ser preparados os caminhos por maravilhas, para que lentamente as realidades mais baixas se elevassem de modo a serem as mais altas. E eis uma outra razão, mais alta e mais divina: a natureza cedeu o lugar à graça, pois ao vê-la tremeu, e não quis mais ter o primeiro lugar. Como a Virgem Mãe de Deus devia nascer de Ana, a natureza não ousou prevenir o fruto da graça, mas permaneceu ela própria sem fruto, até que a graça trouxesse o seu. Era necessário que fosse primogênita aquela que deveria gerar «o Primogênito de toda a criação, no Qual tudo subsiste». Oh Joaquim e Ana, casal venturoso! Toda a criação está em dívida para convosco, porque através de vós ela pôde oferecer ao Criador o dom – entre todos o mais excelso – de uma Mãe venerável, a única digna d’Aquele que a criou. Ditosos os rins de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, graças ao qual se desenvolveu lentamente, onde se formou e de onde nasceu uma tão santa criança! Oh entranhas que levastes um céu vivo, mais vasto que a imensidade dos céus! Oh moinho onde foi amassado o Pão vivificante, segundo as próprias palavras de Cristo: «Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só». Oh seio que aleitaste aquela que alimentou o Aquele que alimenta o mundo! Maravilha das maravilhas, paradoxo dos paradoxos! Sim, a inexprimível Encarnação de Deus, cheia de condescendência, devia ser precedida por estas maravilhas. Mas como prosseguirei? O meu espírito está fora de si, dividido que estou entre o temor e o amor; o meu coração bate e a minha língua move-se: não posso suportar a alegria, as maravilhas deitam-me por terra, o ardor apaixonado aprisionou-me num arrebatamento divino. Que o amor vença, que o temor desapareça e que cante a cítara do Espírito: «Alegrem-se os céus, exulte a terra»!

Capítulo III

Hoje as portas da esterilidade abrem-se, e uma porta virginal e divina avança: a partir dela, por ela, o Deus que está acima de todos os seres deve «vir ao mundo» «corporalmente», segundo a expressão de Paulo, ouvinte dos segredos inefáveis. Hoje, da raíz de Jessé saiu uma vergôntea, de onde surgirá para o mundo uma flor substancialmente unida à divindade.

Hoje, a partir da natureza terrena, um céu foi formado sobre a terra por Aquele que outrora o tornara sólido separando-o das águas, elevando o firmamento nas alturas. É um céu verdadeiramente mais divino e mais elevado que o primeiro, porque Aquele que no primeiro céu criara o sol Se elevou a Si próprio neste novo como um sol de justiça. Sim, há n’Ele duas Naturezas, apesar da loucura dos Acéfalos, e uma só Pessoa, mesmo que os Nestorianos se encolerizem! A Luz eterna, proveniente da Luz eterna antes de todos os séculos, o Ser, imaterial e incorpóreo, tomou um corpo desta mulher, e como um esposo que sai para fora de seu tálamo, assim fez Deus, tornando-se como tal filho da raça terrena. Como um gigante Ele alegra-Se de percorrer os caminhos da nossa natureza, de Se encaminhar, pelos Seus sofrimentos, para a morte, de atar o homem forte e lhe arrancar os seus bens, isto é, a nossa natureza, e de reunir na terra celeste a ovelha errante.

Hoje, o «Filho do Carpinteiro», O Verbo universalmente ativo d’Aquele que tudo construiu por Ele, o Braço Poderoso do Deus Altíssimo, querendo afiar pelo Espírito – que é como o seu dedo – a lâmina embotada da natureza, construiu para Si uma escada viva, cuja base está firmada na terra, com o cimo a tocar os céus: Deus repousa sobre ela. É dela a figura que Jacob contemplou, e por ela Deus desceu da Sua imobilidade, ou melhor, inclinou-Se com condescendência, tornando-Se assim «visível sobre a terra, e conversando com os homens». Estes símbolos representam a Sua vinda ao meio de nós, o seu abaixamento condescendente, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento d’Ele próprio, dado a todos aqueles que estão sobre a terra. A escada espiritual, a Virgem, está fixa na terra, pois na terra ela tem a sua origem, mas a sua cabeça eleva-se até ao céu. A cabeça de toda a mulher é o homem, mas para ela, que não conheceu homem, Deus Pai ocupa o lugar de sua cabeça: pelo Espírito Santo, Ele concluiu uma aliança e, como semente divina e espiritual, enviou o Seu Filho e Verbo, força onipotente. Em virtude do beneplácito do Pai, não é por uma união natural, mas é superando as leis da natureza, pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós. É por aqui que se vê que a união de Deus com os homens se cumpre pelo Espírito Santo.

«Quem puder entender, que entenda»; «Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça». Descartemos as representações corporais: a divindade jamais sofreu mudança, oh homens! Aquele que sem alteração gerou Seu Filho a primeira vez segundo a natureza, sem alteração O gera agora de novo segundo a economia. Disto é testemunha a palavra de David, antepassado de Deus: «O Senhor disse-me: “Tu és Meu Filho, Eu hoje te gerei”». Ora este «hoje» não tem cabimento na geração antes de todos os séculos, pois esta deu-se fora do tempo.

Capítulo IV

Hoje é edificada a Porta do Oriente, que dará a Cristo «entrada e saída», e «essa porta estará fechada». Nela está Cristo, «a Porta das Ovelhas», e «o Seu nome é Oriente»: por Ele obtivemos acesso ao Pai das Luzes. Hoje sopraram as brisas anunciadoras duma alegria universal. Alegre-se o céu nas alturas, que debaixo dele «exulte a terra», que os mares do mundo bramam, porque no mundo acaba de ser concebida uma concha, a qual pelo clarão celeste da divindade conceberá em seu seio, gerando a pérola inestimável, Cristo. Dela sairá o «Rei da Glória», revestido da púrpura de sua carne, para «visitar os cativos», e «proclamar a libertação». Que a natureza transborde de alegria: a cordeirinha vem ao mundo, graças à qual o Pastor revestirá a ovelha, tirando-lhe as túnicas da antiga mortalidade. Que a virgindade forme os seus coros de dança, pois nasceu a Virgem que, segundo Isaías, «conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, o que quer dizer “Deus conosco”». Aprendei, oh Nestorianos, e fugi à vossa derrota: «Deus conosco»! Não é nem só um homem, nem um mensageiro, mas o Senhor em Pessoa que virá e nos salvará.

«Bendito o que vem em nome do Senhor», «o Senhor é Deus, e iluminou-nos»; «Celebremos uma festa» para o nascimento da Mãe de Deus. Rejubila, Ana, «estéril que não davas à luz; ri de alegria e de júbilo, tu que não tiveste as dores de parto»! Rejubila, Joaquim: de tua filha «um menino nos nasceu, um filho nos foi dado (…) e ser-lhe-á dado este nome: Anjo do grande Conselho (quer dizer, Salvação do Universo) Deus Forte». Que Nestório fique vermelho e meta a mão sobre a boca. A criança é Deus; portanto, como não seria ela a Mãe de Deus, ela que O colocou no mundo? «Se alguém não reconhece por Mãe de Deus a Santa Virgem, está separado da divindade». A frase não é minha, mas no entanto pertence-me: recebi-a como precioso tesouro e herança teológica do meu pai Gregório, o Teólogo.

Capítulo V

Oh, Joaquim e Ana, casal bem-aventurado e verdadeiramente sem mancha! Pelo fruto do vosso seio fostes reconhecidos, segundo a palavra do Senhor: «Pelos seus frutos os reconhecereis». A vossa conduta foi agradável a Deus e digna daquela que nasceu de vós. Tendo levado uma vida casta e santa, engendrastes a jóia da virgindade, aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo. Convinha, de fato, que a virgindade saída da castidade produzisse a Luz única e monógena, corporalmente, pela benevolência d’Aquele que A gerou sem corpo – o Ser que não gera, mas que é eternamente gerado, para Quem ser gerado é a única qualidade própria da Sua Pessoa. Oh que maravilhas, e que alianças estão neste menino! Oh Filha da esterilidade, virgindade que engravida, nela se unirão divindade e humanidade, sofrimento e impassibilidade, vida e morte, para que em todas as coisas o menos perfeito seja vencido pelo melhor! E tudo isto para minha salvação, oh Mestre! Amas-me tanto que não realizaste esta salvação nem pelos anjos, nem por nenhuma outra criatura, mas tal como já a minha criação, também a minha regeneração foi Tua obra pessoal. Assim, eu exulto, faço despertar a minha alegria e o meu júbilo, volto à fonte das maravilhas, e embriagado de uma torrente de alegria, toco de novo a cítara do espírito e canto o hino divino da natividade.

Capítulo VI

Oh Joaquim e Ana, casal castíssimo, «par de rolas» no sentido místico! Observando a lei da natureza, a castidade, merecestes os dons que ultrapassam a natureza: gerastes no mundo uma Mãe de Deus sem esposo. Depois de uma existência santa e piedosa numa natureza humana, gerastes uma filha superior aos anjos e que agora reina sobre eles. Oh Filha graciosíssima e dulcíssima, oh lírio nascido entre os espinhos, da descendência nobilíssima e real de David! Por ti a realeza encheu-se com o sacerdócio; por ti foi cumprida «a mudança da Lei», e revelado o espírito escondido sob a letra, pois que a dignidade sacerdotal passou da tribo de Levi à de David. Oh Rosa nascida dos espinhos do judaísmo, que enche o universo de um perfume divino! Oh filha de Adão e Mãe de Deus! Ditosos os rins e o seio de onde surgistes! Ditosos os braços que te levaram, os lábios que experimentaram os teus castos beijos, os lábios de teus pais, para que em tudo tu fosses eternamente virgem. Hoje é para o mundo o início da salvação. «Aclamai o Senhor, terra inteira, cantai, exultai, tocai instrumentos». Elevai a vossa voz, «fazei-a escutar sem temor», porque na Santa Probática nos nasceu uma Mãe de Deus, de quem quis nascer o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Tremei de alegria, oh montanhas, naturezas racionais, voltadas para o cume da contemplação espiritual: a montanha do Senhor, refulgente, vem ao mundo, ultrapassando todas as montanhas e todas as colinas, isto é, os anjos e os homens; dela, sem intervenção da mão do homem, Cristo quis desprender-Se, Ele que é a Pedra Angular, Pessoa Una, que aproxima em Si aquilo que está distante: a divindade e a humanidade, os anjos e os homens, os gentios e o Israel carnal num só Israel espiritual. «Montanha de Deus, montanha de abundância, montanha que Deus escolheu para Seu repouso. Os carros de Deus vêm aos milhares, com seres refulgentes» da graça divina, querubins e serafins. Oh cume mais santo que o Sinai, não coberto nem por fumo, nem por trevas, nem por tempestades, nem sequer por fogo perecível, mas pelo esplendor que ilumina do Santíssimo Espírito. No Sinai, o Verbo de Deus tinha gravado a Lei sobre tábuas de pedra, pelo Espírito, dedo divino; aqui, pela acção do Espírito Santo e pelo sangue de Maria, o próprio Verbo encarnou, dando-se á nossa natureza como um remédio de salvação mais eficaz. Antes, era o maná; aqui, está Aquele que deu o maná e a sua doçura.

Que a morada célebre que Moisés construiu no deserto com matérias preciosas de todo o tipo, e ainda antes dela a morada do nosso pai Abraão, se apaguem diante da morada de Deus, viva e espiritual. Ela foi o repouso, não só da energia divina, mas da Pessoa do Filho, que é Deus, presente substancialmente. Que a arca recoberta de ouro reconheça que não tem nada de comparável com Maria, e da mesma forma a urna de ouro com o maná, o candelabro, a mesa e todos os objetos do culto antigo: eles foram honrados porque todos a prefiguravam, como sombras do verdadeiro protótipo.

Capítulo VII

Hoje, o Criador de todas as coisas, Deus Verbo, fez um livro novo, saído do coração do Pai para ser escrito, como se fosse por uma cana, pelo Espírito, que é a língua de Deus. Esse livro foi dado a um homem que conhecia as letras, mas que não o lia. José, com efeito, não conheceu Maria, nem a significação do mistério em si. Oh filha toda santa de Joaquim e de Ana, que escapaste aos olhares dos Principados e das Potestades e aos «assédios inflamados do maligno», e que viveste no tálamo do Espírito, para seres guardada intacta e te tornares esposa de Deus e Mãe de Deus por natureza! Oh filha toda santa, que apareceste nos braços de tua mãe, tu és o terror das potências de rebelião! Oh filha toda santa, alimentada do leite maternal, e rodeada das legiões angélicas! Oh filha amada de Deus, honra de teus pais, gerações de gerações te proclamam bem aventurada, como tu própria o afirmaste com verdade! Oh filha digna de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe! Por teu nascimento, aquela que tombara foi redimida. Oh filha toda santa, esplendor do sexo feminino! Se a primeira Eva, com efeito, foi culpada de transgressão, e se por sua causa «a morte fez a sua entrada no mundo» (porque ela se colocou ao serviço da serpente contra o nosso primeiro pai), Maria, que se fez a serva da vontade divina, enganou a serpente enganadora e introduziu no mundo a imortalidade.

Oh, filha sempre Virgem, que pode conceber sem intervenção humana, porque Aquele que concebeste tem um Pai Eterno! Oh filha da raça terrena, que levas em teus braços divinamente maternais o Criador! Os séculos rivalizavam entre si para saber qual deles se honraria de te ver nascer, mas o desígnio fixado antecipadamente de Deus, «que fez os séculos» colocou fim a essa rivalidade, e os últimos tornaram-se os primeiros, eles a quem foi atribuída a felicidade da tua Natividade. Na verdade, tu és mais preciosa que toda a criação, pois só de ti o Criador recebeu em partilha as primícias da nossa matéria humana. A Sua Carne foi feita da tua carne, o Seu Sangue do teu sangue; Deus alimentou-Se do teu leite, e os teus lábios tocaram os lábios de Deus. Oh maravilhas incompreensíveis e inefáveis! Na presciência da tua dignidade, amou-te o Deus do universo; porque te amou, predestinou-te, e nos «últimos tempos», chamou-te à existência, e constituiu-te Mãe para gerar um Deus e alimentar o Seu próprio Filho e Verbo.

Capítulo VIII

Diz-se que os contrários servem de remédio contra os contrários, mas os contrários não nascem uns dos outros. Mesmo se cada ser é na sua natureza um tecido de contrários, ele próprio provém da predominância da causa que o fez nascer. De fato, da mesma forma que o pecado, ao operar para mim a morte por meio do bem, mostra em extremo a sua natureza pecaminosa, da mesma forma o Autor dos bens, pelo meio dos contrários desses bens, opera para nós o bem que Lhe é natural, porque «onde abundou o pecado, superabundou a graça». Se tivéssemos conservado a nossa primeira comunidade com Deus, não teríamos merecido a Segunda, maior e mais extraordinária. De fato, pelo pecado, fomos julgados indignos da primeira união, porque não conservamos o dom recebido. Mas pela compaixão de Deus fomos perdoados e tomados sob a Sua guarda, para que a comunhão fosse assegurada, porque nos quer conservar unidos a Ele, sem nenhuma beliscadura, Aquele que nos recebeu sob a Sua proteção.

Sim, toda a terra pejava de fornicações, e o povo do Senhor, possuído «pelo espírito de fornicação», errava longe do Senhor seu Deus, longe d’Aquele que o tinha adquirido «com mão forte e braço poderoso», que com sinais e prodígios o tinha feito sair da «casa da escravidão» do Faraó, o tinha conduzido através do Mar Vermelho e guiado «por uma nuvem de dia, e noite inteira por um luzeiro de fogo». O seu coração voltava-se para o Egito, e o povo do Senhor tornou-se «aquele que não é o povo do Senhor»; aquele que obtinha misericórdia, tornou-se aquele que não a merecia, e aquele que era amado, tornou-se aquele que não era amado.

Eis então a razão pela qual uma Virgem vem agora ao mundo, como adversária da ancestral fornicação; ela foi dada como esposa ao próprio Deus, e gerou a misericórdia de Deus. Assim foi estabelecido como povo de Deus aquele que até aí não era o Seu povo; excluído da Sua misericórdia, obteve misericórdia; não amado, é agora amado. Dela nasce o Filho Bem-Amado de Deus, no Qual Ele colocou as Suas complacências.

Capítulo IX

«Uma vinha de belos sarmentos» foi gerada no seio de Ana, e ela produziu um fruto cheio de doçura, fonte de um néctar abundante de vida eterna para os habitantes da terra. Joaquim e Ana fizeram-se semeadores de justiça, e recolheram um fruto de vida. Eles foram iluminados pela luz do conhecimento, procuraram o Senhor, e daí lhes veio um fruto de justiça. Que a terra tenha confiança! «Filhos de Sião, alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque o deserto ficou verdejante»: aquela que era estéril deu o seu fruto; Joaquim e Ana, como montanhas místicas, fizeram brotar vinho doce. Permanece na alegria, oh Ana venturosa, por teres dado à luz uma mulher, porque essa mulher será a Mãe de Deus, porta da luz, fonte de vida, e reduzirá nada a acusação que pesava sobre a mulher.

Os homens nobres do povo desejarão vê-la, e diante dessa mulher os reis das nações prostrar-se-ão, oferecendo-lhe presentes. Entregá-la-ás a Deus, rei universal, adornada da beleza das suas virtudes como de «brocados de ouro», ornada da graça do Espírito, de cuja glória ela se reveste. A glória da mulher é o homem, e é-lhe dada a partir de fora; mas a glória da Mãe de Deus é interior, e é fruto do seu seio.

Oh, mulher amabilíssima, três vezes bem-aventurada! «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre»! Oh mulher, filha do Rei David e Mãe de Deus, Rei do Universo! Oh divina e vivente obra-prima, na qual Deus Criador Se alegrou, de quem o espírito é governado por Deus e atento somente a Ele, e de quem todo o desejo se eleva apenas Àquele que é o único amável e desejável, que não te encolerizas senão contra o pecado e contra aquele que o fez nascer! Terás uma vida superior à natureza, porque não é para ti que a terás, já que também não é para ti que tu nasceste. Terás antes a tua vida para Deus, e é por causa d’Ele que vieste à vida, por causa de Quem servirás à salvação universal, para que o antigo desígnio de Deus, a Encarnação do Verbo e a nossa divinização, se cumpra através de ti. A tua vontade é alimentares-te das palavras divinas e fortificares-te com a sua seiva, como «oliveira fecunda na casa de Deus», como «árvore plantada à beira das águas» do Espírito, como árvore da vida, que deu o seu fruto no tempo que lhe foi destinado: o fruto que é o Deus Encarnado, Vida eterna de todos os seres. Guardas todos os pensamento gostoso e útil para a alma, mas todo aquele que é supérfluo e que seria um perigo para a alma tu o rejeitas ainda antes de o provar. Os teus olhos «estão sempre voltados para o Senhor», olhando a luz eterna e inacessível. Teus ouvidos escutam a palavra de Deus e deleitam-se com a cítara do Espírito; foi por eles que o Verbo entrou para Se fazer Carne. Tuas narinas respiram deliciadas o aroma dos perfumes do Esposo, que é Ele próprio um perfume, espontaneamente derramado para perfumar a Sua humanidade: «O teu nome é um perfume que se espalha», diz a Escritura. Os teus lábios louvam o Senhor, e estão ligados aos Seus lábios. A tua língua e o teu palato discernem as palavras de Deus e saciam-se com a suavidade divina. Oh coração puro e sem mácula, que vê e deseja o Deus imaculado!

É neste seio que o Ser ilimitado veio habitar; do seu leite se alimentou Deus, o Menino Jesus. Oh porta de Deus, sempre virginal! Eis as mãos que suportam Deus, e esses joelhos que são um trono mais elevado que os querubins: por eles «as mãos fracas e os joelhos trêmulos» foram fortalecidos. Os seus pés são guiados pela lei de Deus como por uma lâmpada que brilha, e correm após Ele sem se voltarem, até que tenham feito chegar aquela que ama junto do Bem-Amado. Em todo o seu ser ela é o tálamo do Espírito, a Cidade de Deus Vivo, que «alegra os canais do rio», isto é, as correntes dos carismas do Espírito: «Toda bela, toda próxima de Deus». Dominando os querubins, mais alta que os serafins, próxima de Deus: é a ela que esta palavra se aplica!

Capítulo X

Oh, maravilha que ultrapassa todas as maravilhas: uma mulher é colocada mais alto que os serafins, porque Deus surgiu abaixado «um pouco inferior aos anjos»! Que o sapientíssimo Salomão se cale, e não torne a dizer: «Nada de novo debaixo do sol». Oh Virgem cheia da graça divina, templo santo de Deus, que o Salomão espiritual, o Príncipe da Paz, construiu e habita, o ouro e as pedrarias não te dão mais beleza, mas mais que o ouro, é o Espírito que te dá o teu esplendor. Por pedrarias, tens a pérola preciosíssima, Cristo, a Brasa da divindade. Suplica-Lhe que toque os nossos lábios, para que, purificados, Lhe cantemos, com o Pai e o Espírito, a natureza única da Divindade em três Pessoas: «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos».

Santo é o Pai, que quis que em ti e por ti se cumprisse o mistério que predeterminara antes de todos os séculos. Santo é o Forte, o Filho de Deus, e Deus Monógeno, que hoje te faz nascer, primogênita de uma mãe estéril, para que, sendo Ele próprio Filho Único do Pai e «Primogênito de toda a criatura», possa nescer de ti, como Filho único de uma Virgem-Mãe, «Primogênito de uma multidão de irmãos», semelhante a nós e por ti participante da nossa carne e do nosso sangue. Apesar disso, não te fez nascer de um só pai ou de uma só mãe, para que ao único Monógeno fosse reservado em perfeição o privilégio de Filho Único: Ele é, com efeito, Filho Único, somente Ele de um Pai só, somente Ele de uma Mãe só.

Santo é o Imortal, o Espírito de toda a santidade, que pelo orvalho da Sua Divindade te guardou intocada pelo fogo divino: é isto que significou antecipadamente a sarça ardente.

Capítulo XI

Eu te saúdo, oh Porta das Ovelhas, morada santíssima da Mãe de Deus. Eu te saúdo, oh Porta da Ovelhas, domicílio ancestral da tua rainha, antigamente redil das ovelhas de Joaquim, mas hoje tornada Igreja do rebanho espiritual de Cristo e imitação do céu. Outrora recebias uma vez por ano um anjo de Deus, que agitava as águas e devolvia a saúde a um só homem, livrando-o do mal que o paralisava; agora recebes multidões de potências celestes que celebram conosco a Mãe de Deus, Abismo de Maravilhas, fonte da cura universal. Tu recebeste, não um anjo servidor, mas o «Anjo do Grande Conselho», descido sem ruído algum sobre o velo de lã como uma chuva de bondade, Aquele que renovou toda a natureza, doente e a ponto de se perder, com uma saúde inalterável e uma vida sem velhice: por Ele, o paralítico que em ti jazia saltou como um veado. Eu te saúdo, oh preciosa Porta das Ovelhas, e que se multiplique a tua graça! Eu te saúdo, Maria, filha dulcíssima de Ana. De novo para ti o amor me impele. Como descrever o teu caminhar cheio de seriedade, os teus vestidos, a graça de teu rosto, a maturidade do discernimento num corpo juvenil? A tua forma de estar foi modesta, distante de todo o luxo e de toda a indolência; o teu caminhar era grave, sem precipitação, sem preguiça; o teu caráter era sério, temperado de júbilo, de uma perfeita reserva a propósito dos homens – disto é testemunho a inquietação que te surgiu a quando da proposta inesperada do anjo. A teus pais dócil e obediente, tinhas humildes sentimentos nas mais altas contemplações, palavra amável, provinda de uma alma pacífica. Em resumo: que outra digna morada senão tu para Deus? Com razão todas as gerações te proclamam bem-aventurada, oh glória insigne da humanidade! Tu és a honra do sacerdócio, a esperança dos cristãos, a planta fecunda da virgindade, porque é através de ti que o renome da virgindade se estendeu aos confins do mundo. «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o Fruto do teu ventre». Aqueles que confessam a tua maternidade divina são benditos, e malditos aqueles que a negam.

Capítulo XII

Joaquim e Ana, casal abençoado, recebei de mim estas palavras de aniversário. Oh filha de Joaquim e de Ana, oh Soberana, acolhe a palavra deste teu servo pecador, mas inflamada pelo amor, e para quem tu és a única esperança de alegria, a protetora da vida e, junto de teu Filho, a reconciliadora e firme garantia da salvação. Possa tu aliviar-me do fardo dos meus pecados, dissipar a névoa que obscurece o meu espírito e o peso que me agarra à matéria. Possas tu deter as tentações, governar felizmente a minha vida e conduzir-me pela mão até à felicidade do Alto. Concede ao mundo a paz, e a todos os habitantes ortodoxos desta cidade uma alegria perfeita e a salvação eterna, pelas orações de teus pais e de todo o Corpo da Igreja. Assim seja, assim seja! «Salve, oh cheia de graça, o Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre», Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Ele a Glória, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Da Correção dos Rústicos (pagãos) – São Martinho de Panóia

Além de combater o arianismo, ele quem criou a nomeclatura dos dias da semana: Segunda-feira, terça-feira...

Martinho de Dume, Martinho Dumiense ou ainda Martinho de Braga (ou Martinho Bracarense) são os vários nomes por que é conhecido Martinho da Panónia, um bispo de Braga e de Dume santo da Igreja Católica. Martinho nasceu na Panónia, atual Hungria, no século VI. É tido como o apóstolo dos Suevos, responsável maior pela sua conversão do arianismo ao catolicismo. Neste texto que publicaremos aqui, São Marinho da Panóia vem alertar os cristãos sobre as superstições populares que rondavam os cristãos da época. Apesar de ser um texto do século VI, é um texto bastante atual, sobretudo para nós brasileiros que somos diariamente assolados pelo sincretismo religioso. Um texto importante e muito rico, sobretudo para aqueles que estão se voltando agora para a fé católica e para aqueles que tem que conviver com pessoas que tem práticas pagãs. Quem de nós não conhece alguém assim? Portanto é um texto longo que vale a pena ser lido e estudado. 

Da Correção dos Rústicos (De Correctione Rusticorum ) – São Martinho de Braga

Ao digníssimo senhor e para mim muito querido irmão em Cristo, o bispo Polémio, Martinho, bispo.

Recebi de sua santa caridade uma carta na qual me escreve que, para admoestação das gentes rurais, que continuam presas a antigas superstições de pagãos e prestam culto e veneram mais os demônios do que a Deus, te dirigisse por escrito algumas considerações, ao menos um resumo do muito que se poderia dizer, sobre a origem dos ídolos e das suas perversidades. Porém, porque se trata de proporcionar a jeito de exemplo, uma informação que para eles seja pertinente, ainda que breve, começando na criação do mundo, tornou-se-me necessário, em exposição condensada, de ligeiro resumo, abranger a floresta ingente dos momentos do passado e do que então aconteceu e preparar para gente rural alimento em linguagem rústica. Por isso mesmo, com a ajuda de Deus, será este o exórdio da tua pregação:

Desejaríamos, filhos caríssimos, apresentar-vos, em nome do Senhor, algo de que ou nunca ouvistes falar, ou que, se porventura ouvistes, votastes ao esquecimento. Dirigimo-nos, por isso, à vossa caridade a fim de que, quanto vos é proposto para vossa salvação, o escuteis com a devida atenção. É verdade que é largo o desenvolvimento que segue pela via das Sagradas Escrituras, mas, para que retenhais ao menos alguma coisa na memória, dentre muitos ensinamentos confiamos-vos o pouco que se segue.

Depois de, no princípio, ter Deus feito o céu e a terra, fez, naquela morada celeste, criaturas espirituais, isto é, os anjos, para estarem na sua presença e O louvarem. Um de entre eles, que, por ser o primeiro de todos, fora feito arcanjo, ao ver-se em tamanha glória, não prestou honra a Deus, seu criador, mas proclamou-se igual a Ele; foi por causa desta arrogância que, juntamente com outros anjos que lhe deram assentimento, foi derribado daquele assento celestial para o firmamento que fica debaixo do céu; e ele que antes era arcanjo perdeu a luz da sua glória e tornou-se diabo tenebroso e horrível. De igual modo os outros anjos que lhe tinham dado assentimento foram com ele atirados para fora do céu e, perdendo o esplendor da sua glória, foram transformados em demônios. Porém, os restantes anjos, que se mantiveram submissos a Deus, continuam, na glória da sua claridade, na presença do Senhor, e são chamados anjos santos, enquanto aqueles que, com o seu príncipe Satã, pela sua arrogância foram expulsos, recebem o nome de anjos transviados ou demônios.

Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que, se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, o diabo (ou os seus ministros, os demônios) que o homem tinha sido criado com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.

Ora, teve o primeiro homem o nome de Adão e sua mulher, que Deus criou da carne dele, recebeu o de Eva. Foi a partir destes dois seres humanos que se propagou o gênero humano. Esquecidos eles de Deus, seu Criador, praticaram muitos crimes e exasperaram a Deus até a indignação. Por tal motivo, Deus enviou o dilúvio e exterminou-os a todos, exceto a um homem justo, chamado Noé, a quem salvaguardou com seus filhos, para restabelecer o gênero humano. Ora, desde o primeiro homem, Adão, até ao dilúvio, decorreram dois mil duzentos e quarenta e dois anos.

Após o dilúvio, de novo o gênero humano foi restabelecido pelos três filhos de Noé, preservados juntamente com suas mulheres. E, corno começasse a crescer a multidão, os homens, esquecendo-se outra vez de Deus criador do mundo, abandonaram o criador e começaram a prestar culto às criaturas. Uns adoravam o sol, outros a lua ou as estrelas, uns o fogo, outros a água profunda ou as fontes de água, julgando que todas estas coisas não tinham sido criadas por Deus para os homens delas se servirem, mas que elas próprias, criadas por si mesmas, eram deuses.

Então o diabo e os seus ministros, os demônios, que tinham sido lançados fora do céu, vendo que os homens, na sua ignorância, haviam abandonado o seu Criador e andavam errantes pelas criaturas, começaram a aparecer-lhes em diversas formas, a falar com eles e a reclamar-lhes que lhes oferecessem sacrifícios no cimo dos montes e nas florestas frondosas e lhes prestassem culto como a Deus, disfarçando-se com nomes de homens criminosos, que tinham passado a sua vida em toda a sorte de crimes e delitos, de tal modo que um se dizia Júpiter, o qual tinha sido mago e tinha cometido tantos incestos que tivera por sua esposa a própria irmã, que se dizia Juno, violou as suas filhas, Minerva e Vênus, e, na sua torpeza, cometeu também incestos com netas e com todos os seus aparentados, enquanto que outro demônio se deu o nome de Marte e foi instigador de litígios e de discórdia. De seguida, outro demônio quis tomar para si o nome de Mercúrio, o qual foi um inventor astucioso, em tudo o que era de furto e de fraude; a este, qual deus do lucro, os homens gananciosos ao passarem pelas encruzilhadas, atiram pedradas e oferecem-lhe montões de pedras em sacrifício. Outro demônio ainda aplicou a si próprio o nome de Saturno, o qual, vivendo de todo o gênero de crueldades, devorava até os seus filhos logo ao nascerem. Outro demônio fingiu também que era Vênus, que tinha sido uma meretriz que não só se prostituiu com um sem número de homens, mas também com Júpiter, seu pai, e com Marte, seu irmão.

Aí está quem foram, naquele tempo, esses homens desgraçados, aos quais, por seus expedientes mais que perniciosos, homens ignorantes dos campos honraram e cujos nomes, pois, os demônios se puseram a si próprios para lhes prestarem culto, como se fossem deuses, e imitarem as ações daqueles cujos nomes invocavam. Persuadiram-nos também os demônios a construírem-lhes templos, a colocarem aí imagens ou estátuas de homens criminosos e a levantarem-lhes altares onde lhes derramassem sangue não só de animais, mas até de seres humanos. Além disso, aliás, muitos demônios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Netuno, nos rios o de Lâmias nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Dianas, que tudo são demônios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz. Todavia, não lhes fazem mal sem permissão de Deus, porque Deus está irado com eles. E eles não crêem na fé de Cristo com todo o coração, mas vivem de tal forma equivocados que até para cada dia da semana invocam nomes de demônios, chamando-lhes dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vênus, de Saturno, que nunca fizeram dia algum, mas foram homens muito maus e criminosos entre as gentes dos Gregos.

Ora, foi Deus onipotente, quando fez o céu e a terra, quem criou então a luz; e foi para diferenciar as obras de Deus que esta foi posta a perfazer sete revoluções. De fato, na primeira, fez Deus a luz, que recebeu o nome de dia; na segunda, foi feito o firmamento do céu; na terceira, a terra foi separada do mar; na quarta, foram feitos o sol, a lua e as estrelas; na quinta, os quadrúpedes, os voláteis e os animais aquáticos; na sexta, foi plasmado o homem; ao sétimo dia, porém, depois de completado o mundo todo e o seu ornamento, deu-lhe Deus o nome de descanso. Uma Única e mesma luz, pois, que foi a primeira a ser criada nas obras de Deus, ao fazer a revolução sete vezes, para diferenciar as obras de Deus, recebeu o nome de semana. Que loucura é, pois, essa que um homem batizados na fé de Cristo não cultua o dia de domingo, em que Cristo ressuscitou, e afirma cultuar o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vênus e de Saturno, que não são senhores de qualquer dia, antes foram adúlteros, magos e iníquos e morreram com má reputação na sua pátria? Pelo contrário, como dissemos, sob o disfarce desses nomes é prestada honra e veneração a demônios, por homens estultos.

De igual modo, outro embuste se intrometeu em homens ignorantes dos campos para pensarem que o início do ano são as calendas de Janeiro, o que é uma falsidade total e completa. Na verdade, segundo diz a Escritura santa, o início do primeiro ano ocorreu a oito das calendas de Abril no equinócio. Assim, com efeito, se lê: e fez Deus a divisão entre a luz e as trevas. Ora, toda a divisão perfeita pressupõe igualdade, tal como acontece a oito das calendas de Abril em que o dia tem tantas horas como à noite. E por isso é falso que o começo do ano sejam as calendas de Janeiro.

Já agora, que há que dizer, não sem mágoa, de um estultíssimo erro que leva a observarem os dias das lagartas e dos ratos e, se é que é permitido dizê-lo, leva um homem cristão a venerar ratos e lagartas em vez de Deus? Se com o resguardo de uma cuba ou de uma gaveta, não se lhes subtrai um pão ou um pano, de forma alguma, por lhes serem dedicados uns dias de festa, eles pouparão o que encontrarem. Sem razão, aliás, arranja esse pobre homem tais prognósticos, como o de que, por no começo do ano ter em tudo fartura e prosperidade, assim também lhe tocará todo o ano. Todas essas observâncias dos pagãos são maquinadas por estratagemas dos demônios. Mas ai daquele homem a quem Deus não for favorável e não houver dado abastança de pão e segurança de vida! Eis que estas vãs superstições vós as praticais quer às ocultas quer às claras. E nunca cessais de fazer estes sacrifícios dos demônios. Então, porque não vos proporcionam que tenhais sempre fartura, segurança e prosperidade? Porque é que, quando Deus se indigna, esses sacrifícios são inúteis para vos defenderem de gafanhotos, ratos e outras muitas atribulações que Deus vos manda na sua indignação?

Não está claro para a vossa compreensão que os demônios vos mentem nessas vossas observâncias que em vão praticais e que vos enganam com os augúrios a que prestais atenção com tanta frequência? Na verdade, como diz Salomão em sua grande sabedoria: adivinhações e augúrios são coisas vãs; e quanto mais andar inquieto o homem com elas, tanto mais vive no engano o seu coração. Não lances neles o teu coração porque arruinaram a muitos. Eis que é a Escritura Sagrada que o diz, e é bem verdade assim, pois que os demônios tantas vezes persuadem os homens na sua infelicidade através do piar das aves que, por coisas frívolas e vãs perdem a fé de Cristo, e, sem se aperceberem, caem no abismo da sua morte. Não mandou Deus que o homem conhecesse o futuro, mas que, vivendo sempre no seu temor, esperasse d ‘Ele orientação e auxílio para a sua vida. Só a Deus pertence saber algo antes que isso aconteça; aos homens insensatos, porém, os demônios enganam-nos com diversos argumentos até os levarem a ofender a Deus e arrastarem consigo as almas deles para o inferno, como desde o início fizeram por inveja da sua parte, para o homem não entrar no reino dos céus, do qual eles foram expulsos.

Foi também por esta razão que, quando Deus viu os homens na sua infelicidade de tal modo enganados pelo diabo e seus anjos maus que, esquecidos do seu Criador adoravam os demônios por Deus, enviou Ele o seu Filho, isto é, a sua Sabedoria e o seu Verbo, a fim de retirá-los do engano diabólico para o culto do verdadeiro Deus. E como a divindade do Filho de Deus não podia ser vista pelos homens, tomou carne humana do seio da Virgem Maria, concebida não da união com um homem, mas do Espírito Santo. Tendo, pois, o Filho de Deus nascido em carne humana, escondendo por dentro a Deus invisível, enquanto por fora ficava visível o homem, pregou aos homens; ensinou-lhes que abandonassem os ídolos e as obras más, saíssem do poder do diabo e voltassem ao culto do seu Criador. Depois de ter completado o seu ensino, quis deixar-se morrer pelo gênero humano. Sofreu a morte voluntariamente, sem ser forçado; foi crucificado pelos judeus, a julgamento de Pôncio Pilatos, que, sendo originário do Ponto, naquela altura estava à frente da província da Síria; deposto da cruz, foi colocado num sepulcro; ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos e durante quarenta dias conviveu com os seus doze discípulos, e, para demonstrar bem que era verdadeira a carne que tinha ressuscitado, comeu perante os seus discípulos depois da ressurreição. Passados, porém, quarenta dias, ordenou aos seus discípulos que anunciassem a todos os povos a ressurreição do Filho de Deus e os batizassem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para remissão dos pecados, e ensinassem os que tivessem sido batizado a afastarem-se das más ações, i.e., dos ídolos, de homicídio, de furtos, de perjúrio, de fornicação, e que aquilo que não queriam que lhes fizessem a eles não o fizessem aos outros. E depois de ter ensinado isto, à vista dos seus discípulos, subiu ao céu e aí está à direita do Pai, e daí, no final deste mundo, há-de vir com a mesma carne que levou consigo para o céu.

Quando, porém, vier o fim deste mundo, todos os povos e todo o homem cuja origem procede dos primeiros seres humanos, isto é, de Adão e Eva, todos ressuscitarão tanto bons como maus; e todos hão de vir ante o tribunal de Cristo. E, nessa altura, aqueles que durante a sua vida foram bons fiéis serão separados dos maus e entrarão no reino de Deus com os santos anjos. E as almas deles ficarão, com a sua carne, no descanso eterno, para não morrerem mais. Aí já não haverá para eles nem fadiga nem dor nem tristeza, não haverá fome ou sede, nem calor ou frio, nem trevas ou noite, mas, viverão sempre na alegria e na abundância. Em luz e glória, serão semelhantes aos anjos de Deus, pois mereceram ter entrada naquele lugar de onde caiu o diabo com os anjos que a ele deram assentimento. Aí, pois, permanecem eternamente todos aqueles que ficaram fiéis a Deus. Com efeito, os que não tiveram fé ou os que não foram batizado, ou por outro lado os que, tendo-o sido realmente, depois do batismo de novo voltaram aos ídolos e a homicídios, ou a adultérios e augúrios ou a perjúrios e outras más ações e morreram sem penitência, todos os que assim forem encontrados serão condenados com o diabo, e com todos os demônios a quem cultuaram e cujas obras fizeram, e são metidos, com a sua carne, em fogo eterno, no inferno, onde um braseiro inextinguível está perpetuamente vivo e onde essa carne, já recebida da ressurreição, por entre gemidos, é atormentada eternamente. Deseja morrer de novo, para não sentir os castigos, mas não é permitido morrer, a fim de sofrer torturas eternas. Eis o que diz a lei, o que dizem os profetas, o que o Evangelho de Cristo, o que o Apóstolo e o que a Escritura Santa toda atestam, e é isto que nós agora vos resumimos ao mínimo e com termos simples. A vós, filhos caríssimos, a partir daqui pertence recordar o que por nós acaba de ser dito e, ou, agindo bem, esperar o repouso futuro no reino dos céus, ou (que isso não aconteça!), agindo mal, aguardar que haverá um fogo perpétuo. Com efeito, quer a vida eterna, quer a morte eterna são deixados ao arbítrio do homem. O que cada um escolher para si próprio, isso terá.

Vós, pois, homens crentes, que tivestes acesso ao batismo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, considerai que pacto fizestes com Deus nesse mesmo batismo. Com efeito, quando cada um de vós deu o nome junto das fontes, por exemplo, Pedro ou João ou qualquer outro nome, foi-vos perguntado assim pelo sacerdote: «Como te chamas?» Respondeste ou tu, se já podias responder, ou, ao menos quem por ti testemunhou, quem estava a acolher-te da fonte, dizendo: «Chama-se João». E perguntou o sacerdote: «João, renuncias ao diabo e aos seus anjos, aos seus cultos e ídolos, a roubar e a enganar que são coisas dele, à fornicação e à embriaguez que vêm dele, e a todas as suas obras más?» E respondeste: «Renuncio». Depois desta renúncia ao diabo, de novo foste interrogado pelo sacerdote: «Crês em Deus Pai onipotente?» respondeste: «Creio». «E em Jesus Cristo, seu único Filho, Senhor nosso, que nasceu, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai de onde há-de vir julgar os vivos e os mortos, crês?» E respondeste: «Creio». E de novo te foi perguntado: «Crês no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na remissão de todos os pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?» E respondeste: «Creio». Eis, pois! Tende em conta que pacto fizestes com Deus no batismo: prometestes renunciar ao diabo e aos seus anjos e a todas as suas obras más, e confessastes que acreditáveis no Pai e no Filho e no Espírito Santo e que esperáveis no fim dos séculos a ressurreição e a vida eterna.

Eis qual o vosso penhor e confissão que se guarda junto de Deus! Como é que alguns de vós, que renunciaram ao demônio e aos seus anjos, e aos seus cultos e às suas obras más, agora voltam ao culto do diabo? Pois acender velinhas a pedras, a árvores e a fontes e pelas encruzilhadas, o que é isso senão culto ao diabo? Observar adivinhações, augúrios e dias dos ídolos, que outra coisa é senão cultuar o diabo? Observar Vulcanálias e Calendas, ornar mesas, pôr louros, fazer observância do pé e derramar grãos e vinho no fogo, sobre um tronco, ou atirar com pão para a fonte, que outra coisa é senão culto do diabo? As mulheres invocarem Minerva no tear, e observarem o dia de Vênus para o casamento, e atenderem ao dia em que se sai para viajar, que outra coisa é senão culto do diabo? Fazer encantamentos de ervas para malefícios e invocar os nomes dos demônios com encantamentos, que outra coisa é senão culto ao diabo? E há muito mais que seria demorado enumerar. Eis que tudo isto fazeis depois de renúncia ao diabo, após o batismo, e, tornando ao culto dos demônios e às más ações da idolatria, já violastes a vossa fé e já rompestes com o pacto que fizestes com Deus. Deixastes de lado o sinal da cruz que recebestes no batismo e apegais-vos a outros sinais do diabo, por aves e espirros e muitas outras coisas. Porque é que a mim, ou a qualquer outro cristão praticante, não faz mal um augúrio? Porque, onde tiver primazia o sinal da cruz, o sinal do diabo não é nada. Porque vos faz mal a vós? Porque desprezais o sinal da cruz e receais aquilo que vós próprios preparastes como sinal. Do mesmo modo pusestes de lado o encantamento sagrado que é o símbolo que no batismo recebestes e que é Creio em Deus Pai onipotente e a oração dominical, i. é, Pai nosso que estás nos céus, e atendes-vos a encantamentos e ensalmos do diabo. Quem quer que despreze o sinal da cruz de Cristo e volte a olhar para esses sinais, já perdeu o sinal da cruz que recebeu no batismo. O mesmo se passa com aquele que se atém a outros sortilégios congeminados por magos e homens de mal; ao sortilégio do símbolo santo e da oração dominical que recebeu com a fé de Cristo, já o perdeu e calcou aos pés a fé de Cristo, pois não se pode cultuar ao mesmo tempo a Deus a ao diabo.

Se, pois, filhos muito amados, compreendestes tudo isto que vos acabamos de dizer, se alguém reconhece que, depois de recebido o batismo, fez estas coisas e rompeu com a fé de Cristo, não desespere de si nem diga no seu coração: «Como fiz tantas coisas más depois do batismo, talvez Deus não me perdoe os meus pecados». Não duvides da misericórdia de Deus. Basta que tu, no teu coração, faças com Deus um pacto de nunca mais cultuar o que é próprio do demônio e não adorar nada a não ser o Deus do céu nem cometer homicídio nem adultério ou fornicação, não praticar furto e não fazer perjúrios. E quando tu de todo o coração prometeres isto a Deus e daí em diante não cometeres estes pecados, espera confiadamente o perdão de Deus, pois assim disse o Senhor pelo texto do Profeta: qualquer que seja o dia em que o pecador esquecer as suas iniquidades e praticar a justiça, também eu esquecerei todas as suas iniquidades. Deus, pois, espera por penitência. Esta é, porém, a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu, mas peça indulgência para os pecados anteriores e se acautele quanto ao futuro para não voltar de novo a eles, mas, antes, pelo contrário, pratique boas obras e dê esmola aos pobres, restaure as forças ao estranho cansado e tudo quanto gostaria que lhe fosse feito a ele por outro ele o faça a outrem e o que não gostaria que lhe fizessem a ele não o faça a outrem, porque nesta palavra se cumprem os mandamentos de Deus.

Por isso vos rogamos, irmãos muito queridos, que retenhais na memória estes preceitos que Deus, por nós, humílimos e exíguos, se digna dar-vos e penseis como haveis de salvar as vossas almas, de tal modo que não trateis unicamente das coisas transitórias, ainda que úteis, deste mundo, mas antes recordeis aquilo em que no símbolo prometestes acreditar, isto é, na ressurreição da carne e na vida eterna. Se, pois, acreditastes e continuais a acreditar que haverá ressurreição da carne e vida eterna no reino dos céus entre os anjos de Deus, como já acima vos dissemos, pensai o mais que puderdes nisso e não sempre na miséria do mundo. Preparai o vosso caminho com boas ações. Sede assíduos a orar a Deus, na igreja ou em locais dedicados aos santos. O dia do Senhor, que, por isso mesmo se chama domingo, dado que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nele ressuscitou dos mortos, não o desrespeiteis mas cultuai-o com reverência. Trabalho servil, i. é, cuidar do campo, do prado, da vinha, ao menos enquanto se trata de trabalho pesado, não o façais em dia de domingo, excetuando apenas o que respeita aos afazeres da cozinha para satisfazer as necessidades do corpo e a necessidade de uma longa viagem. No dia do Senhor é permitido ir a sítios próximos, mas não para ocasiões de pecado, antes de boas ações, como seja, ir a locais santos, visitar um irmão ou amigo, assistir um doente ou levar um bom conselho a um atribulado ou ajuda para boa causa. É assim, pois, que convém que o homem cristão venere o dia do Senhor. Na verdade seria por demais iníquo e vergonhoso que aqueles que são pagãos e ignoram a fé de Cristo, porque prestam culto aos ídolos dos demônios, cultuem o dia de Júpiter ou de qualquer outro demônio, e se abstenham de trabalhos quando é sabido que nunca os demônios criaram qualquer dia ou ele lhes pertence e nós, que adoramos o verdadeiro Deus e cremos que o Filho de Deus ressuscitou dos mortos, quanto ao dia da sua ressurreição, ou seja, o domingo, não o respeitássemos minimamente! Não façais, pois, injúria à ressurreição do Senhor, mas homai-a e cultuai-a com reverência, pela esperança que temos relativamente a ela. Na verdade, assim como Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que é a nossa cabeça, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos na sua carne, assim também nós, que somos seus membros, esperamos vir a ressuscitar na nossa carne, no fim do mundo, a fim de cada qual receber ou o descanso eterno ou a pena eterna; consoante procedeu com o seu corpo neste século, assim receba.

Eis como nós, tomando como testemunhas a Deus e os santos anjos que nos ouvem, pelo uso que agora fazemos da palavra, satisfazemos a nossa dívida para com a vossa caridade, e como, da riqueza do Senhor, tal como nos está preceituado, vos fazemos penhor. Cabe-vos a vós agora pensar e procurar como cada um a quanto recebeu irá apresentá-lo com juros quando o Senhor vier no dia de juízo. Rogamos, pois, à clemência do Senhor, que vos proteja de todo o mal e vos faça dignos companheiros dos seus santos anjos, no seu reino. Isso vos conceda Aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Exortação sobre o Rancor de um Monge – São Pacômio de Tabenesi

Exortação pronunciada por nosso mui venerável santo padre Pacômio, o santo arquimandrita, em motivo de um irmão que guardava rancor contra outro (datada de 346 d.C.). Em tempos do abade Ebonh, que havia levado aquele irmão a Tabennesi, [Pacômio] lhe dirigiu estas palavras na presença de outros padres anciãos, para sua grande alegria, na paz de Deus!

Desçam sobre nós suas santas bênçãos e as de todos os santos! Que todos possamos ser salvos! Amém.

Filho meu, escuta e seja sábio (Prov. 23,19), recebe a verdadeira doutrina. Existem, com efeito, dois caminhos.

Seja obediente a Deus como Abraão, que deixou sua terra, marchou ao exílio e viveu sob uma tenda com Isaac na terra prometida, como em terra estrangeira; obedeceu, humilhou-se a si mesmo, recebeu uma herança; inclusive foi posto à prova com respeito a Isaac: foi valente na prova e ofereceu a Isaac em sacrifício a Deus. Por isso Deus o chamou: “Meu amigo” (Tg. 2,23).

Receba aquele exemplo de bondade de Isaac, quando escutou a seu pai, e lhe esteve submetido até o sacrifício, como cordeiro inocente. Receba assim mesmo o exemplo da humildade de Jacó, sua obediência, sua perseverança, até converter-se em luz que vê ao Pai do universo; foi chamado Israel. Recebe aquele exemplo da sabedoria de José e sua submissão. Luta na castidade e nesse serviço até reinar.

Filho meu, imita a vida dos santos e pratica suas virtudes. Desperta, não sejas negligente, incita a teus concidadãos, dos quais te constituíste o garante (Prov. 6,3); levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Ef. 5,14), e a graça se infundirá dentro de ti.

A paciência, com efeito, te revela todas as graças. Os santos foram pacientes e conseguiram as promessas. O orgulho dos santos é a paciência. Sê paciente para sejas contado nas filas dos santos, confiando que receberás uma coroa incorruptível.

Um mau pensamento? Suporta-o com paciência, até que Deus te dê a calma. O jejum? Persevera com firmeza. A oração? Sem descanso, na tua habitação entre tu e eu. Um só coração com teu irmão; a virgindade em todos os membros, virgindade em teus pensamentos, pureza de corpo e pureza de coração; a cabeça inclinada e o coração humilde, bondade no momento da cólera.

Se um pensamento te oprime, não te desalentes; suporta-o com valor dizendo: “Todos me rodearam, porém eu, em nome do Senhor, os rechacei” (Sal 117,11). De improviso te chega o auxílio de Deus; os alijas de ti; Deus te protege e a glória divina caminha contigo, porque a coragem caminha com o que é humilde e tu serás saciado como o deseja tua alma (Is 58,11). Os caminhos de Deus são a humildade de coração e a bondade. Pois está escrito: “A quem cuidarei senão ao humilde e ao pacífico?” (Is 66,2). Se caminhas pelas sendas do Senhor, ele te custodiará, te dará força, te acumulará de ciência e de sabedoria, pensará em ti em todo tempo, te liberará do diabo e, em tua morte, te dará a graça em Sua paz.

Filho meu, te rogo: vigia, seja sóbrio, para conhecer aqueles que montam armadilhas contra ti. O espírito da maldade e da incredulidade teimam em caminhar juntos; o espírito da mentira e da fraude caminham juntos; o espírito da avareza, da cobiça e o do perjúrio, aquele da desonestidade e o da inveja caminham juntos; o espírito da vaidade e o da voracidade caminham juntos; o espírito da fornicação e o da impureza caminham juntos; o espírito da inimizade e o da tristeza caminham juntos. Desgraçada a pobre alma em que habitarem (estes vícios) e a dominarem! A essa alma, a apartam de Deus, porque ela está em seu poder, vai daqui para ali até que cai no abismo do inferno.

Filho meu, obedece-me: não sejas negligente, não concedas o sonho a teus olhos, nem repouso a tuas pálpebras, para que possas escapar das armadilhas como uma gazela (Prov. 6,4-5). Filho meu: muitas vezes, desde minha juventude, quando estava no deserto, todos os espíritos me molestavam, me afligiam a tal ponto que meu coração se deprimia, ao extremo de pensar que não podia resistir às ameaças do dragão. Me atormentavam de todas as formas. Se eu prosseguia, excitava contra mim a (seus espíritos) que me faziam a guerra; sem motivo me retirava, me afligia com sua insolência; muitas vezes meu coração se perturbou, ia de um lado a outro e não encontrava quietude. Sim, em troca, fugia para perto de Deus derramando grimas com humildade, com jejuns e noites de vigílias; então o adversário e todos seus espíritos caíam impotentes frente a mim; o ardor divino vinha a mim e de repente reconhecia o auxilio de Deus, porque em sua clemência dá a conhecer aos filhos dos homens sua força e sua bondade.

Filho meu: não condenes a nenhum homem; se vês que algum é elogiado, não digas: “Este já recebeu sua recompensa”. Cuida-te deste pensamento pois é muito malvado. Deus não ama a quem louva a si mesmo e odeia a seu irmão. Pois quem diz a si mesmo: “Eu sou”, quando nada é, se engana a si mesmo (Gál. 6,3). Quem poderá ajudá-lo se é orgulhoso, se apresenta do mesmo modo em que se apresenta a Deus dizendo: “Nada é como eu” (Ex. 9,14)? Ouvirás em seguida tua própria reprovação: descerás aos infernos, serás arrojado com os mortos; debaixo de ti estará a podridão e te cobrirão os vermes (Is. 14,11.15.19). Enquanto ao homem que adquiriu a humildade, se julga só a si mesmo, dizendo: “Meus pecados sobrepassam os dos demais”, não julga a nada, não condena a nada. Quem és tu para julgar a um servo que não é teu? Ao que está caído, com efeito, seu Senhor tem o poder de fazê-lo levantar (Rom. 14,4). Vigia sobre ti mesmo, filho meu, não condenes a nenhum homem, gosta de todas as virtudes e custodia-as.

Se és estrangeiro, permanece a parte, não busques refúgio próximo de alguém e não te mescles em seus assuntos. Se és pobre, não te desanimes por nenhuma coisa, para que não te seja dirigido a reprovação: “A pobreza é má na boca do ímpio” (Se. 13,24-30). Nem deves ouvir que se te diz: “Se padecem de fome se entristecerão e amaldiçoarão ao chefe e aos anciãos” (Is 8,21). Cuida para que não te façam a guerra porque te falta qualquer coisa a respeito das necessidades do corpo, com motivo da comida. Não te desanimes, sê paciente.

Certamente Deus trabalha no segredo. Pensa em Habacuc na Judéia e Daniel na Caldéia. A distância que os separava era de quarenta e cinco estádios; e ademais Daniel, entregue como alimento às feras, estava no fundo da fôsso, e contudo (o profeta) o proveu com comida. Pensa em Elias no deserto e na viúva de Sarepta; esta estava oprimida pelo flagelo da carestia e o tormento da fome, e em tal indigência não foi pusilânime; lutou, venceu e obteve o que Deus lhe havia prometido; sua casa desfrutou de abundância em tempo de carestia. Não é certamente prodigalidade dar pão em tempo de abundância e não é pobreza estar desalentado na indigência. Está escrito, com efeito, sobre os santos: “Estavam necessitados, atribulados e afligidos” (Heb. 11,37), porém, se davam gloria em suas atribulações. Se és perseverante na luta segundo as Escrituras, não sofrerás nenhuma escravidão, como está escrito: “Que nada os engane em questão de comida e de bebida ou a respeito das festas, novilúnios ou sábados. Estas coisas são as sombras daquelas futuras” (Col. 2,16-17).

Medita em todo momento as palavras de Deus, persevera na fadiga, da graças em todas as coisas, fuja dos aplausos dos homens, ama a quem te corrige no temor de Deus. Que todos te sejam de proveito, para que tu sejas de proveito a todos. Persevera em tua obra e em palavras de bondade. Não dês um passo adiante e outro atrás, a fim de que Deus não deixe de amar-te. A coroa, com efeito, será para quem haja perseverado. Obedece sempre mais a Deus, e ele te salvará.

Quando te encontres no meio de teus irmãos não provoques a brincadeira. Sadrac, Mesac e Abed-Negó rechaçaram as diversões de Nabucodonosor; por isso este não pôde convencê-los com as melodias de seus instrumentos, nem enganá-los com as comidas de sua mesa. E assim eles sufocaram aquela chama que se elevava a uma altura de quarenta e nove cotovelos; não foram dissolutos com quem era dissoluto, e sim foram retos com quem era reto, quer dizer, com Deus. Por isso Deus os constituiu senhores de seus inimigos. Também Daniel, por sua parte, não obedeceu ao malvado pensamento dos Caldeus, por isso se converteu em um grande eleito e foi considerado vigilante e sábio, e fechou as bocas dos leões selvagens (Heb. 11,33).

Agora, filho meu, se pões a Deus como tua esperança, Ele será teu auxílio na hora da angústia. Quem se acerca a Deus deve crer que Ele existe e que recompensa aqueles que o buscam (Heb. 11,6). Estas palavras foram escritas para nós, para que creiamos em Deus, para que jovens e anciãos, lutemos com jejuns, orações e outras obras religiosas. Nem sequer a saliva que se seca em tua boca durante o jejum, esquecerá de Deus, e certamente encontrarás tudo isto na hora da angústia. Humilha-te em tudo, controla-te no falar, inclusive se compreendeste todas as coisas; não te acostumes a insultar, e sim suporta com alegria toda prova. Se conhecerás a honra que resulta das provas não rezarias para ser livrado, porque é bom para ti orar, chorar, suspirar, até ser salvo, antes de relaxar teu coração e cair prisioneiro. Ó homem, que fazes em Babilônia? Envelheceste em terra estrangeira (Bar. 3,10), porque não te submeteste à prova e não trabalhas com retidão adiante de Deus. Por isto, irmão, não relaxes teu coração.

Talvez, sejas um pouco negligente, porém teus inimigos não costumam dormir, nem são negligentes em colocarem armadilhas noite e dia. Por isso não busques coisas grandes para não serdes humilhado e alegrar assim a teus inimigos. Busca a humildade, porque quem se gaba será humilhado e quem se humilha será exaltado (Mat. 23,12; Luc. 18,14). E se não estás em condições de bastar-te a ti mesmo, uni-te a outro que trabalhe segundo o evangelho de Cristo e avançarás com ele. Escuta o bem, submete-te a quem escuta; sede forte, para serdes chamado Elias; o bem obedece a quem é forte, a fim de ser chamado Eliseu, que por haver obedecido a Elias recebeu dupla parte de seu espírito.

Se queres viver em meio dos homens, imita a Abraão, Lot, Moisés e Samuel. Se desejas viver no deserto, eis aqui todos os profetas que te precederam. Imita àqueles que vagaram pelo deserto, pelos vales e as cavernas da terra (Heb. ll,38.37), pobres, atribulados e afligidos. Está escrito também: “A sombra de quem está sedento e o Espírito dos homens que suportaram a violência te abençoarão” (Is. 25,4). Ademais, o ladrão sobre a cruz proferiu uma palavra, o Senhor perdoou seus pecados e o recebeu no paraíso. Então, que grande honra receberás se és paciente na prova, ou diante do espírito de fornicação, ou diante do espírito de orgulho, ou bem frente a qualquer outra paixão! Tu lutas contra as paixões diabólicas, não para segui-las, e Jesus te dará o que te há prometido. Cuida-te da negligência, porque ela é a mãe de todos os vícios.

Filho meu, fuja da concupiscência, porque escurece a mente e não permite conhecer o mistério de Deus. Seja estranho à linguagem do espírito: te impede levar a cruz de Cristo, e não deixa que teu coração esteja sóbrio para louvar a Deus. Cuida-te dos apetites do ventre, que te fazem alheio aos bens do paraíso. Cuida-te da impureza: ela provoca a ira de Deus e de seus anjos.

Filho meu, volta-te até Deus e ama-o; fuja do inimigo, e odeia-o; assim as bênçãos de Deus descerão sobre ti, e poderás herdar a benção de Judá, filho de Jacó. Está escrito, com efeito: “Judá, teus irmãos te abençoarão, tuas mãos estarão sobre a espada de teus inimigos, e os filhos de teu pai te servirão” (Gen. 49,8). Cuida-te do orgulho, porque é o princípio de todo o mal. O começo do orgulho é afastar-se de Deus e o que lhe segue é o endurecimento do coração. Se te cuidas disto, teu lugar de repouso será a Jerusalém celestial. Se o Senhor te ama e te dá glória, cuida-te de exaltar teu coração; antes bem, persevera na humildade e habitarás na glória que Deus te deu. Vigia sobre ti, porque “ditoso quem seja encontrado velando; será constituído sobre os bens de seu Senhor” (Mat. 24,46-47), e entrará cheio de alegria no Reino. Os amigos do esposo o amaram porque o encontraram cuidando da vinha.

Filho meu, seja misericordioso em todas as coisas, porque está escrito: “Esforça-te por apresentar-te diante de Deus como um homem provado, um trabalhador irrepreensível” (2Tim. 2,15). Volta-te até Deus como o que semeia e colhe, e armazenarás em teu silo os bens de Deus. Não ores ostensivamente como aqueles hipócritas, e sim renuncia a teus desejos, trabalha para Deus obrando assim por tua própria salvação. Se te fere uma paixão: amor pelo dinheiro, inveja, ódio e outras paixões, vela sobre ti, tenha um coração de leão, um coração valente, combate as paixões, destrua-as como a Sijón, Hog e todos os reis dos Amorreus. O Filho amado, o Unigênito, o rei Jesus, combate por ti para que possas herdar as cidades inimigas. Rechaça todo orgulho longe de ti e seja valente. Olha: quando Jesus, o filho de Navé, foi valoroso, Deus lhe entregou em suas mãos os seus inimigos. Se és pusilânime, te fazes estranho a lei de Deus; a pusilanimidade te abarrota de pretextos para ceder à preguiça, à incredulidade e à negligência, até que pereças. Tenha um coração de leão, grita também tu: “Quem nos separará do amor de Deus?” (Rom. 8,35), e: “Ainda que meu homem exterior se desmorone, o interior se renova dia a dia” (2Cor 4,16).

Se habitas no deserto, luta com orações, jejuns e mortificacões. Se vives em meio dos homens, seja prudente como as serpentes e singelo como as pombas (Mat. 10,16). Se alguém te maldiz, suporta-o de bom ânimo, espera em Deus que realizará o que é bom para ti. Tu não maldigas à imagem de Deus, pois Deus te disse: “A quem me glorifique, eu o glorificarei, a quem me maldizer eu o maldirei” (1Sam. 2,30). E se te louvam, não te alegres, porque está escrito: “Pobres de vocês se todos os homens os louvam” (Luc. 6,26). Também foi dito: “Ditosos vocês quando os insultem, os persigam, e rechacem seu nome como maldito” (Luc. 6,22). Do mesmo modo, nossos padres Barnabé e Paulo, depois de serem louvados, rasgaram suas vestes e se entristeceram, porque aborreciam a glória dos homens. Também Pedro e João, depois de haver sofrido ultrajes no Senádrio, saíram plenos de alegria porque haviam merecido ser ultrajados pelo santo nome do Senhor. Tinham sua esperança na glória dos céus.

Porém tu, filho meu, foge das comodidades deste mundo, para estardes na alegria do mundo futuro; não sejas negligente desejando passar dia após dia, não seja que te venham a buscar antes de que tu o advirtas e conheças a angústia; e os servidores do anjo da morte te rodeiem, te raptem cruelmente e te levem a suas moradas de trevas, plenas de terror e angústia. Não te aflijas quando fores ultrajado pelos homens, e sim aflija-te e suspira quando pecardes – este é o verdadeiro ultraje – e quando sejas persuadido por teus pecados.

Te rogo insistentemente a odiar a vaidade. A vaidade é a arma do diabo. Deste modo foi enganada Eva. (O diabo) lhe disse: “Comam do fruto da árvore, se abrirão teus olhos e serão como deuses” (Gen. 3,5). Ela escutou pensando que era verdade, buscou ter a glória da divindade e lhe foi tirada inclusive aquela glória humana. Ou mesmo tu, se segues a vaidade, ela te fará alheio à glória divina. Porém, para Eva não havia nada escrito a fim de adverti-la sobre esta guerra, antes que o diabo a tentasse; para isto vem o Verbo de Deus e tomou carne da Virgem Maria: para liberar a estirpe de Eva. Tu, em troca, em respeito a a esta guerra, te instruíste nas Santas Escrituras, pelos santos que te precederam. Por isso, irmão meu, não digas: “Não havia ouvido falar, não me haviam informado nem ontem nem antes de ontem”, pois está escrito, com efeito: “O clamor de sua voz se difundiu por toda a terra, suas palavras chegaram até os confins do mundo” (Sal. 18,15; Rom. 10,18). Agora, pois, se és louvado, refreia teu coração e dá gloria a Deus. E se, em troca, te insultam, dá glória a Deus e agradece-lhe de ser digno da sorte de seu Filho e de seus santos. Se clamaram “impostor” a teu Senhor, “loucos” aos profetas, “tontos” a outros, quanto mais nós, (que somos) terra e cinza, não devemos entristecer quando somos caluniados. Este é o caminho para que tenhas vida. Se, em troca, és tu negligência a que te precipita, então chora e geme. Com efeito: “Aqueles que se criavam entre púrpura, agora estão cobertos de sujeira” (Lam. 4,5), porque descuidaram da lei de Deus e seguiram seus caprichos. Agora, filho meu, chora diante de Deus em todo tempo, porque esta escrito: “Ditoso o que elegeste e tomaste contigo!” (Sal. 64,5). “Puseste teu coração e teus pensamentos no vale do pranto, lugar que tu preparaste” (Sal 83,6-7).

Adquire a inocência, seja como essas ovelhas inocentes, que se lhes tosquiam a lã e não dizem nenhuma palavra. Não vás de um lugar a outro dizendo: “Aqui ou lá encontrarei a Deus”. Deus disse: “Eu sou pleno no céu, Eu sou pleno na terra” (Jer. 23,24). E de novo: “Se passardes através da água, Eu estarei contigo” (Is. 43,2). E: “Os rios não te submergirão” (Is. 43,2). Deves saber, filho meu, que Deus vive dentro de ti, para que permaneças em sua lei e em seus mandamentos. O ladrão estava na cruz e entrou no paraíso. Judas, ao contrário, era um dos apóstolos e traiu ao seu Senhor. Rajab nascia na prostituição e foi contada entre os santos; Eva, em troca, no paraíso foi enganada. Jó sobre a sujeira foi comparado a seu Senhor; Adão no paraíso se desviou do preceito. Os anjos estavam no céu e foram precipitados ao abismo; Elias e Henoc foram conduzidos ao reino dos céus. Em todo lugar, portanto, busquem a Deus, busquem em todo tempo sua força (1Cron. 16,11; Sal. 104,4). Buscai-o como Abraão que obedeceu a Deus, ofereceu em sacrifício seu filho e por isto foi chamado “meu amigo”. Buscai-o como José, que lutou contra a impureza até reinar sobre seus inimigos. Buscai-o como Moisés, que seguiu a seu Senhor; ele o constituiu legislador e lhe fez conhecer sua imagem. Buscou Daniel e (Deus) lhe deu a conhecer grandes mistérios e o salvou das bocas dos leões. O buscaram os três santos e o encontraram no forno ardente. Jó se refugiou nele, e ele lhe curou suas feridas. O buscou Susana, e (Deus) a salvou das mãos dos ímpios. O buscou Judite, e o encontrou no toldo de Holofernes. Todos estes o buscaram, e ele os salvou, e também salvou aos outros.

E quanto a ti, filho meu, até quando serás negligente? Qual é o limite de tua negligência? Este ano é como o ano passado e hoje é como ontem. Enquanto sejas negligente, não fará nenhum progresso para ti. Seja sóbrio, eleva teu coração. Deverás comparecer diante do tribunal de Deus e render contas do que tenhas feito no segredo e do que fizeste publicamente. Se vais a um lugar onde se combate a guerra, a guerra de Deus, e se o Espírito de Deus te exorta: “Não adormeças neste lugar, porque existem insídias”, e o diabo por sua parte te sussurra: “Qualquer coisa que te suceda, é a primeira vez, ou se vistes isto ou aquilo, não te aflijas”; não escutes seus astutos discursos. Não seja que o Espírito de Deus se retire de ti e te desanime, que perdas a força como Sansão, que os estrangeiros te atem com cadeias e te levem à roda de moer, quer dizer, ao ranger de dentes, e te convertas para eles em um objeto irrisório, é dizer que se enganem de ti e que já não conheças mais o caminho até tua cidade, porque te tiraram os olhos por haver aberto teu coração a Dalila, é dizer ao diabo que te capturou com o engano, porque não escutaste os conselhos do Espírito. Visto também o que lhe sucedeu a um homem valente como David; felizmente em seguida se arrependeu a respeito da mulher de Urias. Está escrito assim mesmo: “Viram minha ferida, temam” (Jó 6,21).

É aqui que aprendeste que Deus não lhes poupou (provas) aos santos. Vigia, então, sabes as promessas que fizestes, fuja da arrogância, arranca de ti mesmo ao diabo para que ele não te arranque os olhos da tua inteligência e te deixe cego, de modo que não conheças mais o caminho da cidade, o lugar onde vives. Reconhece de novo a cidade de Cristo, dá-lhe glória porque morreu por ti.

Por que quando um irmão te fere com uma palavra, te enojas, te comportas como uma hera? Acaso não recordas que Cristo morreu por ti? E quando teu inimigo, isto é o diabo, te sussurra alguma coisa, inclinas teu ouvido até ele para que te derrame sua maldade, lhe abres teu coração e absorves o veneno que te deu. Desditado! Este é o momento de transformar-te em uma fera ou ser como o fogo, para queimar toda sua maldade! Devias ter náuseas e vomitar a fédida iniquidade; que o veneno não penetre dentro de ti e pereças! Ó homem, não suportaste uma pequena palavra dita por teu irmão. Porém, quando o inimigo busca devorar tua alma, então, que fizeste? Com ele tiveste paciência?

Não, querido meu, não se deverá lamentar tua situação, posto que em vez de um ornamento de ouro sobre a cabeça, se te raspará a cabeça a causa de tuas obras (Is. 3,24). Vigia mais bem sobre ti, suporta alegremente a quem te despreza, seja misericordioso com teu irmão, não temas os sofrimentos do corpo.

Filho meu, presta atenção às palavras do sábio Paulo quando disse: “Me esperam cadeias e tribulações em Jerusalém, porém não justifico minha alma com nenhuma palavra sobre o modo de acabar minha carreira” (At. 20,23-24); e: “Estou disposto a morrer em Jerusalém por ele, em nome do meu Senhor Jesus Cristo” (At 21,13). Nem o sofrimento, com efeito, nem a prova, impedirão aos santos alcançar ao Senhor. Tem confiança! Sê valente! Acaba com a covardia diabólica! Corre melhor depois da coragem dos santos. Filho meu, por que foges de Adonai, o Senhor Sabaoth, e recais na escravidão dos Caldeus? Por que dás de comer a teu coração em companhia dos demônios?

Filho meu, cuida-te da fornicação, não corrompas os membros de Cristo. Não obedeças aos demônios. Não faças dos membros de Cristo, membros de uma prostituta (1Cor. 6,15). Pensa na angústia do castigo, põe diante de ti o juízo de Deus, foge de toda concupiscência, despoja-te do homem velho e de suas obras e reveste-te do homem novo (cf. Col. 3,9). Pensa na angústia (que experimentarás) no momento de sair deste corpo.

Filho meu, refugia-te aos pés de Deus! É ele quem te criou e por ti padeceu estes sofrimentos. Disse, com efeito: “Ofereci minhas costas aos que me feriam e minhas faces aos que me golpeavam, não retirei minha cara à ignomínia dos que me cuspiam” (Is. 50,6). “Ó homem, de que te serve fazer o caminho até o Egito para beber a água de Geón, que está contaminada?” (Jer. 2,18). Em que te beneficiam estes pensamentos turbulentos, até o extremo de sofrer tais penas? Converta-te, melhor, e chora sobre teus pecados. Está escrito, com efeito: “Se fazem uma oferta por seus pecados, suas almas terão uma descendência que viverá por muito tempo” (Is. 53,10).

Ó homem, tens visto que a transgressão é uma coisa má, e quanto sofrimento e angústia engendra o pecado. Pronto, foge, ó homem, do pecado, pensa em seguida na morte. Está escrito: “O homem sensato trata duramente o pecado” (Prov. 29,8), e: “O rosto dos ascetas resplandecerá como o sol” (Mat. 13,43; Dan. 12,3). Ajusta-te também de Moisés: “Preferiu sofrer com o povo de Deus, antes que gozar das delícias momentâneas do pecado” (Heb. 11,25). Se amas o sofrimento dos santos, eles serão teus amigos e intercessores diante de Deus e ele te concederá todas tuas justas petições, pois levaste tua cruz e seguiste ao teu Senhor.

Não busques um posto de honra entre os homens, para que Deus te proteja contra as tempestades que tu não conheces e te estabeleça em sua cidade, a Jerusalém celestial. “Examina tudo e permaneça com o que é bom” (1Tes. 5,21). Não sejas altaneiro frente à imagem de Deus. Vigia sobre tua juventude, para velar sobre tua velhice. Que não devas experimentar vergonha ou reprovações no vale de Josafá, ali onde todas as criaturas de Deus te verão e te repreenderão, dizendo: “Sempre havíamos pensado que eras uma ovelha e aqui, em troca, constatamos que és um lobo! Vês agora ao abismo do inferno, arroja-te no seio da terra” (Is. 14,15). Que grande vergonha! No mundo eras louvado como um eleito, porém quando chegaste ao vale de Josafá, ao lugar do juízo, te viram desnudo, e todos contemplaram teus pecados e tua imundície expostos diante de Deus e dos homens. Pobre de ti naquela hora! Para onde voltarás teu rosto? Abrirás acaso tua boca? Que dirás? Teus pecados estão impressos sobre tua alma negra como um silício. Que farás então? Chorarás? Tuas lágrimas não serão recebidas. Suplicarás? Tuas súplicas não serão recebidas, porque não tem piedade aqueles aos quais te entregaram. Pobre de ti naquela hora, quando ouvir a voz severa e terrível: “Os pecadores, vão ao inferno” (Sal. 9,18), e também: “Apartem-se de mim malditos, ao fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos” (Mat. 25,41). E também: “Aos que cometeram transgressões eu os detestei” (Sal. 100,3). “Apagarei da cidade do Senhor a todos aqueles que fazem o mal” (Sal. 100,8).

Filho meu, usa deste mundo com circunspecção, avança considerando-te nada, segue ao Senhor em todas as coisas para estar seguro no vale de Josafá. Que o mundo te olhe como a um daqueles que foram depreciados; a fim de que no dia do juízo, em troca, tu sejas encontrado revestido de glória! E não confies a nada teu coração no que tocar ao descanso de tua alma, e sim confia todos teus desejos ao rei e ele te sustentará (Sal. 54,23). Veja a Elias, confiou no Senhor na torrente de Querit e foi alimentado por um corvo.

Cuida-te atentamente da fornicação. Esta feriu e fez cair a muitos. Não te faças amigo de um jovem. Não corras atrás das mulheres. Fuja da complacência do corpo, porque as amizades inflamam como chamas. Não corras atrás de nenhuma carne, porque se a pedra cai sobre o ferro, a chama se inflama e consome todas as substâncias. Refugia-te sempre no Senhor, senta-te à sua sombra, porque “quem vive sob a proteção do Altíssimo, habitará à sombra de Deus do céu” (Sal. 90,1), e “não vacilará nunca” (Sal. 124,1). Adere ao Senhor e que suba ao teu coração o pensamento da Jerusalém celestial; estarás sob a bênção do céu e a glória de Deus te custodiará.

Vigia com toda solicitude teu corpo e teu coração. “Busca a paz e a pureza” (Heb. 12,14), que estão unidas entre si, e verás a Deus. Não tenhas disputas com nada, porque quem está em alguma disputa com seu irmão, é inimigo de Deus e quem está em paz com seu irmão está em paz com Deus. Não aprendeste agora que nada é maior que a paz que conduz ao amor mútuo? Inclusive, se estás livre de todo pecado, porem és inimigo de teu irmão, te fazes estranho a Deus; está escrito, com efeito: “Busquem a paz e a pureza” (Heb. 12,14), porque estão unidas entre si. Está escrito assim mesmo: “Ainda que tivesse toda a fé como para mover montanhas, se não tenho a caridade do coração, de nada me serviria” (1Cor. 13,2-3). A caridade edifica (cf. 1Cor 8,1). “Que coisa poderia ser purificada da impureza?” (Eclo. 34,4). Se sentes em teu coração ódio ou inimizade, onde está tua pureza? O Senhor disse por Jeremias: “Diriges a teu próximo palavras de paz, porém há inimizade em teu coração; falas amavelmente a teu próximo, porém há inimizade em teu coração ou alimentas pensamentos de inimizade. Contra isto não deverei encolerizar-me? – diz o Senhor. De um pagão como este minha alma não deverá vingar-se?” (Jer. 9,5-9). É como se dissesse: “O que é inimigo de seu irmão, esse é um pagão, porque os pagãos caminham nas trevas, sem conhecer a luz”. Assim, quem odeia a seu irmão caminha nas trevas e não conhece a Deus. O ódio e a inimizade, com efeito, cegaram seus olhos e não vê a imagem de Deus.

O Senhor nos mandou amar a nossos inimigos, abençoar aos que nos maldizem e fazer o bem aos que nos perseguem. Em que perigo nos encontramos então, se nos odiamos uns aos outros, (se odiamos) a nossos membros-irmãos unidos a nós, os filhos de Deus, renovados da verdadeira vida, ovelhas do rebanho espiritual reunidas pelo verdadeiro pastor, o Unigênito de Deus, que se ofereceu em sacrifício por todos nós! Por esta obra grandiosa o Verbo vivente padeceu esses sofrimentos. E tu, ó homem, a odeias por inveja e vaidade, por avareza ou por arrogância? Assim, o inimigo te desencaminhou para fazer-te estranho a Deus. Que defesa apresentarás diante de Cristo? Ele te dirá: “Odiando a teu irmão, odeias a mim”. Irás, pois, ao castigo eterno, porque alimentaste a inimizade até teu irmão; em troca, teu irmão entrará na vida eterna, porque se humilhou diante de ti por causa de Jesus.

Busquemos então os remédios para este mal antes de morrer. Queridíssimos, dirijamo-nos ao evangelho da verdadeira lei de Deus, o Cristo, e o ouviremos dizer: “Não condenem para não ser condenados, perdoem e serão perdoados (Luc. 6,37). Se não perdoas, tampouco serás perdoado. Se estás em guerra com teu irmão, prepara-te para o castigo por tuas culpas, tuas transgressões, tuas fornicações realizadas ocultamente, tuas mentiras, tuas palavras obscenas, teus maus pensamentos, tua avareza, tuas más ações que renderás conta ao tribunal de Cristo, quando todas as criaturas de Deus te contemplarão e todos os anjos do exército angélico estarão presentes com suas espadas desembainhadas, obrigando-te a justificar-te e a confessar teus pecados; e teus vestidos estarão todos manchados e tua boca permanecerá cerrada; estarás aterrado sem ter nada que dizer! Desventurado, de quantas coisas deverás render contas? Impurezas inumeráveis, que são como um câncer para tua alma, desejos dos olhos, maus pensamentos que entristecem ao Espírito e afligem a alma, palavras inconvenientes, língua fanfarrona que mancha todo o corpo, brincadeiras, más diversões, maledicências, ciúmes, ódios, burlas, ofensas contra a imagem de Deus, condenações, desejos do ventre que te excluíram dos bens do paraíso, paixões, blasfêmias que são vergonhosas de mencionar, maus pensamentos contra a imagem de Deus, cólera, disputas, obscenidades, arrogância dos olhos, desejos perversos, falta de respeito, vaidades. Sobretudo isto serás interrogado, porque lutaste com teu irmão e não resolveste o pleito, como deverias, no amor de Deus. Nunca ouviste dizer que “a caridade cobre uma multidão de pecados” (1Prov. 4,8)? “E seu Pai que está nos céus fará com você ou mesmo se não se perdoam mutuamente em seus corações” (Mat. 18,35). Seu Pai que está nos céus não lhes perdoará seus pecados.

Eis aqui, queridos meus, que vós sabeis que estamos revestidos de Cristo, bom e amigo dos homens. Não nos despojemos de Cristo por causa de nossas más obras. Temos prometido a pureza a Deus, temos prometido a vida monástica, cumpramos as obras que são: jejum, oração incessante, a pureza de corpo e a pureza de coração. Se temos prometido a Deus a pureza, não nos ocorra que sejamos surpreendidos na fornicação, a qual assume formas variadas. Se há dito, com efeito: “Se prostituíram de múltiplas formas” (Ez 16,25). Meus irmãos, que não nos surpreendam em obras deste gênero, que não nos encontrem inferiores a todos os homens!

Temos prometido a nós mesmos ser discípulos de Cristo; mortifiquemo-nos, porque a mortificação maltrata a impureza. Esta é a hora da luta. Não nos retiremos, pelo temor de suceder escravos do pecado. Temos sido constituídos luz do mundo; que nada se escandalize por causa nossa. Revistamo-nos de silêncio, pois muitos, com efeito, lhe devem sua salvação.

Velem sobre vós mesmos, irmãos! Não sejamos exigentes entre nós, por temor a que o sejam conosco na hora do castigo. A nós, virgens, monges, anacoretas, certamente se nos dirá: “Dá-me o meu com os interesses”. Nos increparão e nos dirão: “Onde está o vestido de bodas? Onde está a luz das lâmpadas? Se és meu filho, onde está minha glória? Se és meu servo, onde está o temor a mim? (Mal. 1,6). Se me odiaste neste mundo, agora aparta-te de mim porque não te conheço (Mat. 7,23). Se odiaste a teu irmão, te fizeste estranho a meu reino. Se estiveste em lutas com teu irmão e não o perdoaste, te ataram as mãos atrás das costas, te ataram os pés e te arrojaram às trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes (Mat. 22,13). Se golpeaste a teu irmão, serás entregue aos anjos sem piedade e serás fustigado com o flagelo das chamas eternamente. Não tivestes respeito por minha imagem, me insultando, me despreciastes e desonrastes, por isso eu não terei respeito por ti na aflição de tua angústia. Não fizestes as pazes com teu irmão neste mundo, eu não estarei contigo no dia do grande juízo. Insultastes o pobre; é a mim a quem insultastes. Golpeastes ao desgraçado; assim te fizeste cúmplice de quem me golpeou em minha humilhação sobre a cruz. Acaso te deixei faltar alguma coisa desde minha saída do mundo? Não te fiz o dom de meu corpo e de meu sangue como alimento da vida? Não padeci a morte por tua causa, a fim de salvar-te? Não te manifestei o mistério celestial, para fazer de ti meu irmão e meu amigo? Não te dei o poder de pisar serpentes e escorpiões e todo poder sobre o inimigo (Luc. 10,19)? Não te dei múltiplos remédios de vida com os quais podes salvar-te: meus portentos, meus signos, meus milagres, com os quais me revesti no mundo como com uma armadura de guerra? Te dei para que te cinjas e derrotes a Golias, quer dizer o diabo. Que coisa te falta agora, por que me converteste num estranho? Só tua negligência te precipita no abismo infernal!”

Filho meu, estas coisas e outras piores nos dirão se somos negligentes e não obedecemos (o mandamento) de perdoar-nos mutuamente. Vigiemos sobre nós mesmos e quais são as potestades de Deus, que virão em nosso auxílio no dia da morte; aquelas que nos guiarão em meio da dura e terrível guerra, aquelas que farão ressurgir nossas almas de entre os mortos.

Se nos deram, diante de tudo, a fé e a ciência para expulsar de nós mesmos a incredulidade, se nos deram, depois, a sabedoria e a prudência para discernir os pensamentos do diabo, fugir e detestá-los. Se nos predicou o jejum, a oração, a temperança, que outorgam a calma ao corpo e a quietude às paixões. Se nos deram a pureza e a vigilância, graças às quais Deus habitará em nós. Se nos deram a paciência e a mansidão. Se custodiamos todas, herdaremos a glória de Deus.

Se nos deram a caridade e a paz, poderosas na luta, o inimigo, com efeito, não se acerca do lugar onde se encontram estas. Respeito à alegria, se nos ordenou combater com ela a tristeza. Se nos deram a generosidade e a disposição para o serviço. Se nos deram a santa oração e a perseverança que cumulam de luz a alma. Se nos deram a modéstia e a simplicidade, que desarmam a maldade. Foi escrito para nós que devemos abster-nos de julgar, para vencer a mentira, perverso vício que está no homem, porque se não julgarmos não seremos julgados no dia do juízo. Se nos deram a paciência para afrontar o sofrimento e as injustiças, para que não nos oprima o desalento.

Nossos pais transcorreram suas vidas na fome, na sede e em inumeráveis mortificações, até conquistar a pureza, sobretudo, fugido do hábito do vinho, que nos cumula de todos os males. As perturbações, os tumultos e as desordens em nossos membros são causados pelo abuso do vinho. Esta é uma paixão cheia de pecados; é a esterilidade e a podridão dos frutos. A insaciável voluptuosidade escurece o entendimento, torna impúdica a consciência e rompe o freio da língua. Existe alegria plena quando não se entristece ao Espírito Santo e não está atordoada a vontade. “O sacerdote e o profeta” – está escrito – “foram atordoados pelo vinho” (Is. 28,7). O vinho é licencioso, insolente a ebriedade. Quem se abandona a ele não estará limpo de pecado (Prov. 20,1). Coisa boa é o vinho, se bebido com moderação. “Se voltas teus olhos às taças e aos cálices, caminharás desnudo como um néscio” (Prov. 23,31). O que se haja preparado para fazer-se discípulo de Jesus, que se abstenha do vinho e da ebriedade.

Nossos pais, conhecendo quantos males provêm do vinho, se bastaram. Bebiam pouquíssimo, em caso de enfermidade. E se lhe foi concedido um pouco a Timóteo, esse grande trabalhador, isso sucedeu porque seu corpo estava cheio de enfermidades. Porém, a quem ferve de vícios na flor da juventude, em quem se acumulam as impurezas das paixões, que lhe direi? Tenho medo de dizer-lhe que não beba (vinho) por temor de que algum, depreciando a própria salvação, murmure contra mim. Em nossos dias, com efeito, para muitos, esta linguagem é dura. Ademais, queridos meus, é bom vigiar e é útil mortificar-se, porque quem se mortifica colocará num lugar seguro sua nave, no bom e santo porto da salvação, e saciará dos bens do céu.

Porém, o que é todavia maior que tudo isto: nos foi dada a humildade; ela vela sobre todas as outras virtudes, tal é a grande e santa força da qual se revestiu Deus quando veio ao mundo. A humildade é o baluarte das virtudes, o tesouro das obras, a armadura da salvação, o remédio para toda ferida. Depois de haver fabricado as telas finas, os ornamentos preciosos e todos os adornos para o tabernáculo, o revestiu com uma tela de silício. A humildade é coisa mínima diante dos homens, porém, preciosa e estimada diante de Deus. Se a adquirimos pisaremos todo o poder do inimigo (Luc. 10,19). Está escrito, com efeito: “A quem olharei, senão ao humilde e ao manso?” (Is. 66,2).

Não concedamos repouso a nosso coração neste tempo de carestia, porque se multiplicada a jactância e a vaidade, se multiplica a avidez, reina a fornicação por causa da fartura da carne, prevalece o orgulho. Os jovens não obedecem mais aos anciãos, os anciãos não se preocupam mais pelos jovens, cada um caminha segundo os desejos de seu coração. Este é o tempo de gritar como o profeta: “Ai de mim, ó alma minha! O homem que teme a Deus desapareceu da terra e o que é reto entre os homens não vive mais segundo o Cristo; cada um oprime a seu próximo” (Miq. 7,1-2).

Queridíssimos meus, lutem porque o tempo está próximo e os dias se reduziram. Já não há um pai que ensine a seus filhos, não há um filho que obedeça a seu pai, desapareceram as virgens retas; os santos padres morreram. Desapareceram mães e viúvas. Chegamos a ser como órfãos; se pisa sobre os humildes e se golpeia a cabeça dos pobres. Por isto, mais um pouco e se verá a ira de Deus, e estaremos na aflição sem que haja nada para consolar-nos. Tudo isto nos sucedeu porque não quisemos mortificarmo-nos.

Queridos meus, lutemos para receber a coroa que foi preparada. O trono está listo, a porta do reino está aberta; ao vencedor darei o maná escondido. Se lutamos e vencemos as paixões, reinaremos para sempre; porém, se somos vencidos, teremos remorsos e choraremos com lágrimas amargas. Combatamo-nos a nós mesmos enquanto está a nosso alcance a penitência. Revistamo-nos com a mortificação e assim nos renovaremos na pureza. Amemos aos homens e seremos amigos de Jesus, amigo dos homens.

Prometemos a Deus a vida monástica, a caridade, a virgindade; porém, não só do corpo, e sim aquela virgindade que é (escudo) contra todo pecado. No evangelho, com efeito, algumas virgens foram rechaçadas por causa de sua preguiça; aquelas, em troca, que vigiavam valorosamente entraram na sala de bodas. Que cada um de nós possa entrar nesse lugar para sempre!

O amor ao dinheiro, por sua causa somos combatidos. Se queres misturar riquezas, que são a isca para o anzol do pescador, sobretudo mediante a avareza ou com o comércio, ou bem com a violência ou com o engano, ou com um trabalho excessivo, ao extremo de não ter tempo para servir a Deus, ou por qualquer outro meio; se desejou misturar ouro e prata, recorda aquilo que se diz no evangelho: “Insensato! Esta noite te será quitada a vida e aquele que foi encolerizado para quem será?” (Luc. 12,20). E também: “Amontoa tesouros, sem saber para quem os amontoa” (Sal. 38,7).

Luta, querido meu, combate contra as paixões e diga: “Farei como Abraão, levantarei minhas mãos até o Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra (para testemunhar) que não tomarei nada do que é teu, nem um filho, nem a correia de uma sandália” (Gen. 14,22-23); são bens essenciais para um humilde estrangeiro. E (diga também): “O Senhor ama ao prosélito, para provê-lo de pão e vestimenta” (Deut. 10,18). Igualmente a propósito da preguiça, por causa da qual se nos combate: “Acumula riquezas em vistas à esmola e para os necessitados” (Eclo. 18,25). Recorda que está escrito: “Serão malditos teus celeiros e tudo o que eles contenham” (Deut. 28,17). A propósito do ouro e da prata, São Tiago disse: “Tua ferrugem se levantará em testemunho contra ti; a ferrugem devorará tua carne como o fogo” (Tg. 5,3); e: “É superior o homem justo que não tem ídolos” (Bar. 6,72) e vê a sua ignomínia. Purifica-te da maldição, antes que o Senhor te chame. Puseste esperança em Deus, porque está escrito: “Que seus corações sejam puros e perfeitos diante de Deus” (1Rs. 8,61).

Querido meu, te saúdo no Senhor. Na verdade puseste em Deus teu auxilio; ele te ama; caminhaste com todo o coração segundo os mandamentos de Deus. Que Deus te bendiga, que tuas fontes se tornem rios e teus rios um mar! Verdadeiramente, és carro e auriga da temperança. A lâmpada de Deus arde diante de ti, que refletes a luz secreta do Espírito e dispões tuas palavras com juízo. Que Deus te conceda a graça da força atlética dos santos, que não se encontrem ídolos em tua cidade. Que possas por teu pé sobre o colo do príncipe das trevas, ver ao generalíssimo do exército do Senhor a tua direita, submergir ao faraó e seus exércitos e fazer atravessar a teu povo o mar salgado; é dizer, esta vida. Assim seja!

Te rogo ainda não dar repouso a teu coração! Esta é a alegria dos demônios: fazer que o homem conceda repouso a seu coração e arrastá-lo à rede antes que o advirta. Não sejas negligente em aprender o temor do Senhor; cresce como as jovens plantas e agradarás a Deus, como um jovem búfalo que levanta no alto seus cornos. Seja um homem forte nas obras e palavras; não receies como os hipócritas, para que tua sorte não seja como a deles. Não perdas nem sequer um dia de tua existência, conhece que coisa dás a Deus cada dia. Vive só, como um general prudente. Discerne teu pensamento, seja que vivas na solidão, seja no meio de outros. Cada dia, em suma, julga-te a ti mesmo. É melhor, com efeito, viver no meio de um milhar de homens com toda humildade, que só, em uma guarida de hienas, com orgulho. De Ló, que vivia no meio de Sodoma, se atesta que era um excelente homem de fé. Escutamos, em troca, a respeito a Caim, com o qual não havia sobre a terra senão três seres humanos, que foi um malvado.

Agora se te propõe a luta. Examina o que te ocorre cada dia, para saber se estás no número dos nossos ou no daqueles que nos combatem. Somente a ti os demônios costumam apresentar-se por tua direita, aos demais homens se lhes aparecem pela esquerda. Também eu, em verdade, fui assaltado pela direita; me levaram ao diabo atado como um asno selvagem, porém, o Senhor me socorreu; eu não confiei neles e não lhes entreguei meu coração. Muitas vezes fui tentado por insídias diabólicas a minha direita, e (o diabo) se pós a caminhar diante de mim. Se atreveu inclusive a tentar ao Senhor, porém, este o fez desaparecer junto com seus enganos.

Filho meu, revista-te de humildade, toma como conselheiros teus a Cristo e a seu Pai bom; seja amigo de um homem de Deus, que tenha a lei de Deus em seu coração, seja como um pobre que leva sua cruz e ama as lágrimas. Permanece de lástima também tu, com um sudário na cabeça. Que tua cela seja para ti uma tumba, até que Deus te ressuscite e te dê a coroa da vitória.

Se alguma vez chegas a litigar com um irmão que te fez sofrer com uma palavra sua, ou se teu coração fere a um irmão dizendo-lhe: “Não mereces isto”, ou bem se o inimigo te insinua contra alguém: “Não merece essas louvações”, se recebes a sugestão ou o pensamento do diabo; se cresce a hostilidade de teu pensamento; se estas em disputa com teu irmão, sabendo que não há bálsamo em Galaad, nem médico na velhice (Jer. 8,22), refugia-te em seguida na solidão com a consciência em Deus, chora a sós com Cristo e ele, o Espírito de Jesus, falará a teu entendimento e te convencerá da plenitude do andamento. Por que deves lutar só, igual a uma fera selvagem, como se este veneno estivesse dentro de ti?

Pensa que tu também caiu amiúde. Não escutaste dizer o Cristo: “Perdoa a teu irmão setenta vezes sete” (Mat. 18,22)? Não derramaste lágrimas muitas vezes suplicando: “Perdoa-me meus inumeráveis pecados” (Sal. 24,18)? Se tu exiges o pouco que teu irmão te deve, em seguida o Espírito de Deus põe diante de ti o juízo e o temor de seus castigos. Recorda que os santos foram considerados dignos de ser ultrajados. Recorda que Cristo foi esbofeteado, insultado e crucificado por tua causa; e ele acumulará imediatamente teu coração com a misericórdia e o temor; então te prostrarás em terra chorando, e dizendo: “Perdoa-me, Senhor, porque fiz sofrer a tua imagem”. Imediatamente te levantarás com o consolo do arrependimento e te arrojarás aos pés de teu irmão com o coração aberto, com o rosto radiante, o sorriso sobre os lábios, irradiando paz e, sorrindo, pedirás a teu irmão: “Perdoa-me, irmão meu, por haver feito sofrer”. Que abundem tuas lágrimas; depois das lágrimas vem uma grande alegria. Que a paz exulte entre vocês dois e o Espírito de Deus, por sua parte, se gozará e exclamará: “Ditosos os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus” (Mat. 5,9). Quando o inimigo ouve o som desta voz, fica confundido, Deus é glorificado e sobre ti desce uma grande benção.

Irmão meu, este é o tempo de fazer-nos a guerra a nós mesmos; tu sabes que por todas partes se levantam as trevas. As Igrejas estão repletas de litigantes e excitados, as comunidades monásticas se tornam ambiciosas, reina o orgulho. Não há ninguém que se ponha a servir ao próximo: em troca, todos oprimem a seu próximo (Miq. 7,2). Estamos imersos na dor. Não há mais profeta nem sábio. Não há nenhum que possa convencer a outro, porque abunda a dureza de coração. Quem compreende permanece em silêncio pois os tempos são maus. Cada um é senhor de si mesmo, se deprecia o que não se deveria depreciar.

Agora, irmão meu, vive em paz com teu irmão. E reza também por mim, porque não posso fazer nada, e sim que estou atribulado por meus desejos. Vigia sobre ti em todas as coisas, esforça-te, cumpre tua obra de pregador. Permanece firme na prova, leva a termo o combate da vida monástica com humildade, paciência e temor ante as palavras que escutarás. Custodia a virgindade, evita os excessos e essas abomináveis palavras pouco oportunas; não te alijes dos escritos dos santos, e sim que seja firme na fé de Cristo Jesus nosso Senhor. A ele seja a glória, a seu bom Pai e ao Espírito Santo! Assim seja! Abençoa-nos.

(Tradução de Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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