Epístola de São Zeferino I aos Bispos do Egito

Papa Zeferino I (198 a 217 d.C.)

Zeferino foi o primeiro Papa do século III e décimo quinto da Igreja, sucedendo a Vítor I. Natural de Roma, foi eleito em 199. O seu pontificado se caracterizou por duras lutas teológicas que levaram, por exemplo à excomunhão de Tertuliano. Ele foi o primeiro Pontífice que desejou criar uma catacumba na Via Ápia, cujos cuidados foram por ele confiados ao diácono Calisto (e, por isso, chamada de catacumba de Calisto).

Zeferino estabeleceu que os fiéis católicos, depois dos 14 anos, comungassem, pelo menos na ocasião da Festa da Páscoa. Determinou o uso da patena e dos cálices sagrados, até então confeccionados em madeira, que deveriam ser feitos ao menos de vidro.

É dele a carta que vamos postar agora, dirigida aos bíspos do Egito (217 d.C.). Nela, o papa expõe brevemente dois temas: primeiro, exorta a alguns bispos da região que tinham problemas em suas dioceses para que permanecem firmes e fiéis, confiando nas promessas do Altíssimo e sofrendo com paciência as injustiças que estavam sofrendo; numa segunda parte, o papa Zeferino oferece breves instruções para a ordenação dos presbíteros e diáconos.

A intenção de postar estes textos aqui no blog é para que você amigo leitor perceba que a Igreja Primitiva é a Igreja Católica. Alguns teólogos não católicos tentam disassociar uma da outra, dizendo que Constantino ao se declarar cristão instituiu uma outra religião diferente da que os cristãos viviam.Veja o texto e tire suas conclusões…

Epístola aos Bispos do Egito – São Zeferino I de Roma

Zeferino, Bispo da cidade de Roma, aos mui queridos irmãos que servem ao Senhor no Egito.

Recebemos uma grande responsabilidade do Senhor, fundador desta Santa Sé e da Igreja apostólica, e do bem-aventurado Pedro, chefe dos apóstolos: a de que possamos trabalhar com amor infatigável pela Igreja universal, que foi remida pelo Sangue de Cristo, e, assim, com autoridade apostólica, apoiar os que servem ao Senhor, bem como ajudar a todos os que vivem fielmente. Todos os que vivem piedosamente em Cristo devem resistir à condenação dos ímpios e dos estranhos; estes devem ser desprezados como estúpidos e loucos. Assim se farão melhores e mais puros aqueles que renunciam às boas coisas temporais com o fim de conquistar as da eternidade. Porém, o desdém e a burla daqueles que os afligem e os desvalorizam se voltarão sobre eles mesmos quando sua abundância tornar-se necessidade e seu orgulho [tornar-se] confusão.

Capítulo I – Sobre o despojo ou expulsão de alguns bispos

A sé dos apóstolos foi informada por vossos delegados que alguns de nossos irmãos bispos estão sendo expulsos de suas igrejas e sés, privados de seus bens, e chamados a juízo, sendo, ainda por cima, destituídos e maltratados; isto é um absurdo, já que as constituições dos apóstolos e de seus sucessores, assim como os estatutos dos imperadores e a regulamentação das leis, assim como a autoridade da sede dos apóstolos, proíbem fazê-lo. Com efeito, os antigos estatutos ordenam que os bispos que foram expulsos e despojados de suas propriedades recobrem suas igrejas e que, antes de mais nadas, tenham repostas todas as suas propriedades; logo, em segundo lugar, se é que alguém deseja acusá-los de forma justa, o fará com risco semelhante; os juízes devem ser discretos e os bispos retos devem estar em comunhão com a Igreja, devendo prestar testemunho sem ser oprimido; não devem responder a nada, porém, até que sejam reconduzidos, por lei, [à função] e às suas igrejas, sem qualquer detrimento.

Não é estranho, irmãos, que vos persigam pois perseguiram até a morte a vossa Cabeça, Cristo nosso Senhor. As perseguições, entretanto, devem ser enfrentadas com paciência, para que sejais conhecidos como discípulos [de Cristo], por quem vós também sofreis. Ele mesmo o diz: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça” (Mt. 5,10). Animados por este testemunho, não devemos temer a condenação dos homens, nem tampouco deixar-nos derrotar por seus vitupérios, pois o Senhor nos deu este mandamento por meio do profeta Isaías: “Ouvi-me, vós que conheceis o justo, povo meu, em cujo coração habita a minha lei: não temais a reprovação dos homens e não vos assusteis com suas injúrias” (Is 51,7); e, considerando o que está escrito no Salmo: “Não é Deus que deve perscrutar isto, já que Ele conhece os segredos os coração?” (Sal. 44, 21), “e os pensamentos daqueles homens não são mais que coisas vãs [vanidad]” (Sal. 94, 11). Apenas dizem coisas vãs contra o seu próximo; com lábios enganosos em seus corações, falam com um coração malvado. Porém, o Senhor deve arrancar de todo lábio enganoso a língua que diz coisas orgulhosas, como esta: “Nossos lábios são nossos; quem é o Senhor perante nós?” (Sal. 12, 2-4); pois, se recordassem disto constantemente, jamais cairiam em tal impiedade, pois não fazem isso por caridade ou instrução paternal, mas para que possam descarregar seus sentimentos de vingança contra os servos de Deus. Eis que está escrito: “O caminho do tolo é reto perante os seus olhos” (Prov. 12,15) e “Há caminhos que parecem retos, porém, ao final, são caminhos que conduzem à morte” (Prov. 14,12).

Nós, que sofremos agora estas coisas, devemos deixá-las ao juízo de Deus, que dará a cada homem segundo suas obras. Ele está entronizado sobre os Seus servos; por isso diz: “Cabe a Mim a vingança; Eu o recompensarei” (Rom. 12,19). Assim, ajudai-vos uns aos outros de boa-fé, por meio de atos e com coração sincero; não permitais que ninguém afaste o seu irmão de ajudar ao próximo, “pois nisto – diz o Senhor – conhecerão todos que são Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo. 13,35). Disso fala também por meio do profeta, dizendo: “Vede como é bom e agradável conviver todos os irmãos em unidade!” (Sal. 133, 1). [Conviver] em uma morada espiritual – este é o meu entender – e na concórdia que está em Deus, que, com efeito, estão mais piedosamente representadas em Aarão e nos sacerdotes paramentados com honra e ungidos com óleo sobre a cabeça, nutrindo o mais alto entendimento e guiando até a sabedoria plena, já que nesta vivência o Senhor prometeu a bem-aventurança e a vida eterna.

Aprendendo, portanto, a importância deste anúncio do profeta, declaramos esta palavra fraternal, por amor; de maneira alguma buscamos ou queremos buscar o nosso próprio benefício. É por isso que não é bom pagar destratação com destratação ou, de acordo com o provérbio comum, combater o mal com o mal. Que isto não ocorra entre nós, pois tal comportamento não é nosso. Que seja Deus, pois, que o proíba. Pelo justo juízo de Deus às vezes os pecadores têm o poder para perseguir os santos, a fim de que aqueles a quem o Espírito Santo ajuda e sustém possam chegar a ter maior glória através da provação de seus sofrimentos. Para aquelas pessoas que vos perseguem, vos reprovam e vos injuriam, haverá muita aflição, sem dúvida alguma.

Desgraçados… Desgraçados aqueles que injuriam os servos de Deus, pois o prejuízo contra eles atinge Aquele a cujo serviço e ofício estão dedicados. Rezamos para seja colocada sobre os seus lábios uma porta de clausura pois não desejamos que ninguém pereça ou se corrompa em virtude de seus próprios lábios, e que não pensem ou tornem pública alguma palavra dura com sua boca. Por isso também diz o Senhor por meio do profeta: “Digo a mim mesmo: cuidarei dos meus modos, para que não venha a pecar com a minha língua” (Sal. 39,1).

Que o Deus todo-poderoso e seu único Filho e Salvador nosso, Jesus Cristo, vos guie para que, com todos os meios ao vosso alcance, possais auxiliar a todos os irmãos que passam por tribulação, que sofrem durante seus trabalhos, estimando seus sofrimentos. Que sejam dados a eles toda a assistência possível, por atos e palavras, de forma a que sejais reconhecidos como verdadeiros discípulos dAquele que nos mandou amar aos irmãos como a nós mesmos.

Capítulo II – Sobre a ordenação de presbíteros e diáconos

A ordenação de presbíteros e levitas (=diáconos) deve ser feita de maneira solene na ocasião conveniente e na presença de muitas testemunhas. Para este serviço, sejam apresentados homens provados e sábios, para que sejais favorecidos por sua amizade e auxílio.

Depositai sem cessar a confiança dos vossos corações na bondade de Deus e dizei estas e as outras palavras divinas às gerações seguintes: “Porque este é o nosso Deus pelos séculos dos séculos, Ele nos conduzirá à eternidade” (Sal. 48,15).

Dado aos sete de novembro, durante o consulado dos ilustríssimos Saturnino e Galiciano.

(Tradução de Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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