Da Correção dos Rústicos (pagãos) – São Martinho de Panóia

Além de combater o arianismo, ele quem criou a nomeclatura dos dias da semana: Segunda-feira, terça-feira...

Martinho de Dume, Martinho Dumiense ou ainda Martinho de Braga (ou Martinho Bracarense) são os vários nomes por que é conhecido Martinho da Panónia, um bispo de Braga e de Dume santo da Igreja Católica. Martinho nasceu na Panónia, atual Hungria, no século VI. É tido como o apóstolo dos Suevos, responsável maior pela sua conversão do arianismo ao catolicismo. Neste texto que publicaremos aqui, São Marinho da Panóia vem alertar os cristãos sobre as superstições populares que rondavam os cristãos da época. Apesar de ser um texto do século VI, é um texto bastante atual, sobretudo para nós brasileiros que somos diariamente assolados pelo sincretismo religioso. Um texto importante e muito rico, sobretudo para aqueles que estão se voltando agora para a fé católica e para aqueles que tem que conviver com pessoas que tem práticas pagãs. Quem de nós não conhece alguém assim? Portanto é um texto longo que vale a pena ser lido e estudado. 

Da Correção dos Rústicos (De Correctione Rusticorum ) – São Martinho de Braga

Ao digníssimo senhor e para mim muito querido irmão em Cristo, o bispo Polémio, Martinho, bispo.

Recebi de sua santa caridade uma carta na qual me escreve que, para admoestação das gentes rurais, que continuam presas a antigas superstições de pagãos e prestam culto e veneram mais os demônios do que a Deus, te dirigisse por escrito algumas considerações, ao menos um resumo do muito que se poderia dizer, sobre a origem dos ídolos e das suas perversidades. Porém, porque se trata de proporcionar a jeito de exemplo, uma informação que para eles seja pertinente, ainda que breve, começando na criação do mundo, tornou-se-me necessário, em exposição condensada, de ligeiro resumo, abranger a floresta ingente dos momentos do passado e do que então aconteceu e preparar para gente rural alimento em linguagem rústica. Por isso mesmo, com a ajuda de Deus, será este o exórdio da tua pregação:

Desejaríamos, filhos caríssimos, apresentar-vos, em nome do Senhor, algo de que ou nunca ouvistes falar, ou que, se porventura ouvistes, votastes ao esquecimento. Dirigimo-nos, por isso, à vossa caridade a fim de que, quanto vos é proposto para vossa salvação, o escuteis com a devida atenção. É verdade que é largo o desenvolvimento que segue pela via das Sagradas Escrituras, mas, para que retenhais ao menos alguma coisa na memória, dentre muitos ensinamentos confiamos-vos o pouco que se segue.

Depois de, no princípio, ter Deus feito o céu e a terra, fez, naquela morada celeste, criaturas espirituais, isto é, os anjos, para estarem na sua presença e O louvarem. Um de entre eles, que, por ser o primeiro de todos, fora feito arcanjo, ao ver-se em tamanha glória, não prestou honra a Deus, seu criador, mas proclamou-se igual a Ele; foi por causa desta arrogância que, juntamente com outros anjos que lhe deram assentimento, foi derribado daquele assento celestial para o firmamento que fica debaixo do céu; e ele que antes era arcanjo perdeu a luz da sua glória e tornou-se diabo tenebroso e horrível. De igual modo os outros anjos que lhe tinham dado assentimento foram com ele atirados para fora do céu e, perdendo o esplendor da sua glória, foram transformados em demônios. Porém, os restantes anjos, que se mantiveram submissos a Deus, continuam, na glória da sua claridade, na presença do Senhor, e são chamados anjos santos, enquanto aqueles que, com o seu príncipe Satã, pela sua arrogância foram expulsos, recebem o nome de anjos transviados ou demônios.

Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que, se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, o diabo (ou os seus ministros, os demônios) que o homem tinha sido criado com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.

Ora, teve o primeiro homem o nome de Adão e sua mulher, que Deus criou da carne dele, recebeu o de Eva. Foi a partir destes dois seres humanos que se propagou o gênero humano. Esquecidos eles de Deus, seu Criador, praticaram muitos crimes e exasperaram a Deus até a indignação. Por tal motivo, Deus enviou o dilúvio e exterminou-os a todos, exceto a um homem justo, chamado Noé, a quem salvaguardou com seus filhos, para restabelecer o gênero humano. Ora, desde o primeiro homem, Adão, até ao dilúvio, decorreram dois mil duzentos e quarenta e dois anos.

Após o dilúvio, de novo o gênero humano foi restabelecido pelos três filhos de Noé, preservados juntamente com suas mulheres. E, corno começasse a crescer a multidão, os homens, esquecendo-se outra vez de Deus criador do mundo, abandonaram o criador e começaram a prestar culto às criaturas. Uns adoravam o sol, outros a lua ou as estrelas, uns o fogo, outros a água profunda ou as fontes de água, julgando que todas estas coisas não tinham sido criadas por Deus para os homens delas se servirem, mas que elas próprias, criadas por si mesmas, eram deuses.

Então o diabo e os seus ministros, os demônios, que tinham sido lançados fora do céu, vendo que os homens, na sua ignorância, haviam abandonado o seu Criador e andavam errantes pelas criaturas, começaram a aparecer-lhes em diversas formas, a falar com eles e a reclamar-lhes que lhes oferecessem sacrifícios no cimo dos montes e nas florestas frondosas e lhes prestassem culto como a Deus, disfarçando-se com nomes de homens criminosos, que tinham passado a sua vida em toda a sorte de crimes e delitos, de tal modo que um se dizia Júpiter, o qual tinha sido mago e tinha cometido tantos incestos que tivera por sua esposa a própria irmã, que se dizia Juno, violou as suas filhas, Minerva e Vênus, e, na sua torpeza, cometeu também incestos com netas e com todos os seus aparentados, enquanto que outro demônio se deu o nome de Marte e foi instigador de litígios e de discórdia. De seguida, outro demônio quis tomar para si o nome de Mercúrio, o qual foi um inventor astucioso, em tudo o que era de furto e de fraude; a este, qual deus do lucro, os homens gananciosos ao passarem pelas encruzilhadas, atiram pedradas e oferecem-lhe montões de pedras em sacrifício. Outro demônio ainda aplicou a si próprio o nome de Saturno, o qual, vivendo de todo o gênero de crueldades, devorava até os seus filhos logo ao nascerem. Outro demônio fingiu também que era Vênus, que tinha sido uma meretriz que não só se prostituiu com um sem número de homens, mas também com Júpiter, seu pai, e com Marte, seu irmão.

Aí está quem foram, naquele tempo, esses homens desgraçados, aos quais, por seus expedientes mais que perniciosos, homens ignorantes dos campos honraram e cujos nomes, pois, os demônios se puseram a si próprios para lhes prestarem culto, como se fossem deuses, e imitarem as ações daqueles cujos nomes invocavam. Persuadiram-nos também os demônios a construírem-lhes templos, a colocarem aí imagens ou estátuas de homens criminosos e a levantarem-lhes altares onde lhes derramassem sangue não só de animais, mas até de seres humanos. Além disso, aliás, muitos demônios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Netuno, nos rios o de Lâmias nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Dianas, que tudo são demônios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz. Todavia, não lhes fazem mal sem permissão de Deus, porque Deus está irado com eles. E eles não crêem na fé de Cristo com todo o coração, mas vivem de tal forma equivocados que até para cada dia da semana invocam nomes de demônios, chamando-lhes dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vênus, de Saturno, que nunca fizeram dia algum, mas foram homens muito maus e criminosos entre as gentes dos Gregos.

Ora, foi Deus onipotente, quando fez o céu e a terra, quem criou então a luz; e foi para diferenciar as obras de Deus que esta foi posta a perfazer sete revoluções. De fato, na primeira, fez Deus a luz, que recebeu o nome de dia; na segunda, foi feito o firmamento do céu; na terceira, a terra foi separada do mar; na quarta, foram feitos o sol, a lua e as estrelas; na quinta, os quadrúpedes, os voláteis e os animais aquáticos; na sexta, foi plasmado o homem; ao sétimo dia, porém, depois de completado o mundo todo e o seu ornamento, deu-lhe Deus o nome de descanso. Uma Única e mesma luz, pois, que foi a primeira a ser criada nas obras de Deus, ao fazer a revolução sete vezes, para diferenciar as obras de Deus, recebeu o nome de semana. Que loucura é, pois, essa que um homem batizados na fé de Cristo não cultua o dia de domingo, em que Cristo ressuscitou, e afirma cultuar o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vênus e de Saturno, que não são senhores de qualquer dia, antes foram adúlteros, magos e iníquos e morreram com má reputação na sua pátria? Pelo contrário, como dissemos, sob o disfarce desses nomes é prestada honra e veneração a demônios, por homens estultos.

De igual modo, outro embuste se intrometeu em homens ignorantes dos campos para pensarem que o início do ano são as calendas de Janeiro, o que é uma falsidade total e completa. Na verdade, segundo diz a Escritura santa, o início do primeiro ano ocorreu a oito das calendas de Abril no equinócio. Assim, com efeito, se lê: e fez Deus a divisão entre a luz e as trevas. Ora, toda a divisão perfeita pressupõe igualdade, tal como acontece a oito das calendas de Abril em que o dia tem tantas horas como à noite. E por isso é falso que o começo do ano sejam as calendas de Janeiro.

Já agora, que há que dizer, não sem mágoa, de um estultíssimo erro que leva a observarem os dias das lagartas e dos ratos e, se é que é permitido dizê-lo, leva um homem cristão a venerar ratos e lagartas em vez de Deus? Se com o resguardo de uma cuba ou de uma gaveta, não se lhes subtrai um pão ou um pano, de forma alguma, por lhes serem dedicados uns dias de festa, eles pouparão o que encontrarem. Sem razão, aliás, arranja esse pobre homem tais prognósticos, como o de que, por no começo do ano ter em tudo fartura e prosperidade, assim também lhe tocará todo o ano. Todas essas observâncias dos pagãos são maquinadas por estratagemas dos demônios. Mas ai daquele homem a quem Deus não for favorável e não houver dado abastança de pão e segurança de vida! Eis que estas vãs superstições vós as praticais quer às ocultas quer às claras. E nunca cessais de fazer estes sacrifícios dos demônios. Então, porque não vos proporcionam que tenhais sempre fartura, segurança e prosperidade? Porque é que, quando Deus se indigna, esses sacrifícios são inúteis para vos defenderem de gafanhotos, ratos e outras muitas atribulações que Deus vos manda na sua indignação?

Não está claro para a vossa compreensão que os demônios vos mentem nessas vossas observâncias que em vão praticais e que vos enganam com os augúrios a que prestais atenção com tanta frequência? Na verdade, como diz Salomão em sua grande sabedoria: adivinhações e augúrios são coisas vãs; e quanto mais andar inquieto o homem com elas, tanto mais vive no engano o seu coração. Não lances neles o teu coração porque arruinaram a muitos. Eis que é a Escritura Sagrada que o diz, e é bem verdade assim, pois que os demônios tantas vezes persuadem os homens na sua infelicidade através do piar das aves que, por coisas frívolas e vãs perdem a fé de Cristo, e, sem se aperceberem, caem no abismo da sua morte. Não mandou Deus que o homem conhecesse o futuro, mas que, vivendo sempre no seu temor, esperasse d ‘Ele orientação e auxílio para a sua vida. Só a Deus pertence saber algo antes que isso aconteça; aos homens insensatos, porém, os demônios enganam-nos com diversos argumentos até os levarem a ofender a Deus e arrastarem consigo as almas deles para o inferno, como desde o início fizeram por inveja da sua parte, para o homem não entrar no reino dos céus, do qual eles foram expulsos.

Foi também por esta razão que, quando Deus viu os homens na sua infelicidade de tal modo enganados pelo diabo e seus anjos maus que, esquecidos do seu Criador adoravam os demônios por Deus, enviou Ele o seu Filho, isto é, a sua Sabedoria e o seu Verbo, a fim de retirá-los do engano diabólico para o culto do verdadeiro Deus. E como a divindade do Filho de Deus não podia ser vista pelos homens, tomou carne humana do seio da Virgem Maria, concebida não da união com um homem, mas do Espírito Santo. Tendo, pois, o Filho de Deus nascido em carne humana, escondendo por dentro a Deus invisível, enquanto por fora ficava visível o homem, pregou aos homens; ensinou-lhes que abandonassem os ídolos e as obras más, saíssem do poder do diabo e voltassem ao culto do seu Criador. Depois de ter completado o seu ensino, quis deixar-se morrer pelo gênero humano. Sofreu a morte voluntariamente, sem ser forçado; foi crucificado pelos judeus, a julgamento de Pôncio Pilatos, que, sendo originário do Ponto, naquela altura estava à frente da província da Síria; deposto da cruz, foi colocado num sepulcro; ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos e durante quarenta dias conviveu com os seus doze discípulos, e, para demonstrar bem que era verdadeira a carne que tinha ressuscitado, comeu perante os seus discípulos depois da ressurreição. Passados, porém, quarenta dias, ordenou aos seus discípulos que anunciassem a todos os povos a ressurreição do Filho de Deus e os batizassem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para remissão dos pecados, e ensinassem os que tivessem sido batizado a afastarem-se das más ações, i.e., dos ídolos, de homicídio, de furtos, de perjúrio, de fornicação, e que aquilo que não queriam que lhes fizessem a eles não o fizessem aos outros. E depois de ter ensinado isto, à vista dos seus discípulos, subiu ao céu e aí está à direita do Pai, e daí, no final deste mundo, há-de vir com a mesma carne que levou consigo para o céu.

Quando, porém, vier o fim deste mundo, todos os povos e todo o homem cuja origem procede dos primeiros seres humanos, isto é, de Adão e Eva, todos ressuscitarão tanto bons como maus; e todos hão de vir ante o tribunal de Cristo. E, nessa altura, aqueles que durante a sua vida foram bons fiéis serão separados dos maus e entrarão no reino de Deus com os santos anjos. E as almas deles ficarão, com a sua carne, no descanso eterno, para não morrerem mais. Aí já não haverá para eles nem fadiga nem dor nem tristeza, não haverá fome ou sede, nem calor ou frio, nem trevas ou noite, mas, viverão sempre na alegria e na abundância. Em luz e glória, serão semelhantes aos anjos de Deus, pois mereceram ter entrada naquele lugar de onde caiu o diabo com os anjos que a ele deram assentimento. Aí, pois, permanecem eternamente todos aqueles que ficaram fiéis a Deus. Com efeito, os que não tiveram fé ou os que não foram batizado, ou por outro lado os que, tendo-o sido realmente, depois do batismo de novo voltaram aos ídolos e a homicídios, ou a adultérios e augúrios ou a perjúrios e outras más ações e morreram sem penitência, todos os que assim forem encontrados serão condenados com o diabo, e com todos os demônios a quem cultuaram e cujas obras fizeram, e são metidos, com a sua carne, em fogo eterno, no inferno, onde um braseiro inextinguível está perpetuamente vivo e onde essa carne, já recebida da ressurreição, por entre gemidos, é atormentada eternamente. Deseja morrer de novo, para não sentir os castigos, mas não é permitido morrer, a fim de sofrer torturas eternas. Eis o que diz a lei, o que dizem os profetas, o que o Evangelho de Cristo, o que o Apóstolo e o que a Escritura Santa toda atestam, e é isto que nós agora vos resumimos ao mínimo e com termos simples. A vós, filhos caríssimos, a partir daqui pertence recordar o que por nós acaba de ser dito e, ou, agindo bem, esperar o repouso futuro no reino dos céus, ou (que isso não aconteça!), agindo mal, aguardar que haverá um fogo perpétuo. Com efeito, quer a vida eterna, quer a morte eterna são deixados ao arbítrio do homem. O que cada um escolher para si próprio, isso terá.

Vós, pois, homens crentes, que tivestes acesso ao batismo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, considerai que pacto fizestes com Deus nesse mesmo batismo. Com efeito, quando cada um de vós deu o nome junto das fontes, por exemplo, Pedro ou João ou qualquer outro nome, foi-vos perguntado assim pelo sacerdote: «Como te chamas?» Respondeste ou tu, se já podias responder, ou, ao menos quem por ti testemunhou, quem estava a acolher-te da fonte, dizendo: «Chama-se João». E perguntou o sacerdote: «João, renuncias ao diabo e aos seus anjos, aos seus cultos e ídolos, a roubar e a enganar que são coisas dele, à fornicação e à embriaguez que vêm dele, e a todas as suas obras más?» E respondeste: «Renuncio». Depois desta renúncia ao diabo, de novo foste interrogado pelo sacerdote: «Crês em Deus Pai onipotente?» respondeste: «Creio». «E em Jesus Cristo, seu único Filho, Senhor nosso, que nasceu, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai de onde há-de vir julgar os vivos e os mortos, crês?» E respondeste: «Creio». E de novo te foi perguntado: «Crês no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na remissão de todos os pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?» E respondeste: «Creio». Eis, pois! Tende em conta que pacto fizestes com Deus no batismo: prometestes renunciar ao diabo e aos seus anjos e a todas as suas obras más, e confessastes que acreditáveis no Pai e no Filho e no Espírito Santo e que esperáveis no fim dos séculos a ressurreição e a vida eterna.

Eis qual o vosso penhor e confissão que se guarda junto de Deus! Como é que alguns de vós, que renunciaram ao demônio e aos seus anjos, e aos seus cultos e às suas obras más, agora voltam ao culto do diabo? Pois acender velinhas a pedras, a árvores e a fontes e pelas encruzilhadas, o que é isso senão culto ao diabo? Observar adivinhações, augúrios e dias dos ídolos, que outra coisa é senão cultuar o diabo? Observar Vulcanálias e Calendas, ornar mesas, pôr louros, fazer observância do pé e derramar grãos e vinho no fogo, sobre um tronco, ou atirar com pão para a fonte, que outra coisa é senão culto do diabo? As mulheres invocarem Minerva no tear, e observarem o dia de Vênus para o casamento, e atenderem ao dia em que se sai para viajar, que outra coisa é senão culto do diabo? Fazer encantamentos de ervas para malefícios e invocar os nomes dos demônios com encantamentos, que outra coisa é senão culto ao diabo? E há muito mais que seria demorado enumerar. Eis que tudo isto fazeis depois de renúncia ao diabo, após o batismo, e, tornando ao culto dos demônios e às más ações da idolatria, já violastes a vossa fé e já rompestes com o pacto que fizestes com Deus. Deixastes de lado o sinal da cruz que recebestes no batismo e apegais-vos a outros sinais do diabo, por aves e espirros e muitas outras coisas. Porque é que a mim, ou a qualquer outro cristão praticante, não faz mal um augúrio? Porque, onde tiver primazia o sinal da cruz, o sinal do diabo não é nada. Porque vos faz mal a vós? Porque desprezais o sinal da cruz e receais aquilo que vós próprios preparastes como sinal. Do mesmo modo pusestes de lado o encantamento sagrado que é o símbolo que no batismo recebestes e que é Creio em Deus Pai onipotente e a oração dominical, i. é, Pai nosso que estás nos céus, e atendes-vos a encantamentos e ensalmos do diabo. Quem quer que despreze o sinal da cruz de Cristo e volte a olhar para esses sinais, já perdeu o sinal da cruz que recebeu no batismo. O mesmo se passa com aquele que se atém a outros sortilégios congeminados por magos e homens de mal; ao sortilégio do símbolo santo e da oração dominical que recebeu com a fé de Cristo, já o perdeu e calcou aos pés a fé de Cristo, pois não se pode cultuar ao mesmo tempo a Deus a ao diabo.

Se, pois, filhos muito amados, compreendestes tudo isto que vos acabamos de dizer, se alguém reconhece que, depois de recebido o batismo, fez estas coisas e rompeu com a fé de Cristo, não desespere de si nem diga no seu coração: «Como fiz tantas coisas más depois do batismo, talvez Deus não me perdoe os meus pecados». Não duvides da misericórdia de Deus. Basta que tu, no teu coração, faças com Deus um pacto de nunca mais cultuar o que é próprio do demônio e não adorar nada a não ser o Deus do céu nem cometer homicídio nem adultério ou fornicação, não praticar furto e não fazer perjúrios. E quando tu de todo o coração prometeres isto a Deus e daí em diante não cometeres estes pecados, espera confiadamente o perdão de Deus, pois assim disse o Senhor pelo texto do Profeta: qualquer que seja o dia em que o pecador esquecer as suas iniquidades e praticar a justiça, também eu esquecerei todas as suas iniquidades. Deus, pois, espera por penitência. Esta é, porém, a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu, mas peça indulgência para os pecados anteriores e se acautele quanto ao futuro para não voltar de novo a eles, mas, antes, pelo contrário, pratique boas obras e dê esmola aos pobres, restaure as forças ao estranho cansado e tudo quanto gostaria que lhe fosse feito a ele por outro ele o faça a outrem e o que não gostaria que lhe fizessem a ele não o faça a outrem, porque nesta palavra se cumprem os mandamentos de Deus.

Por isso vos rogamos, irmãos muito queridos, que retenhais na memória estes preceitos que Deus, por nós, humílimos e exíguos, se digna dar-vos e penseis como haveis de salvar as vossas almas, de tal modo que não trateis unicamente das coisas transitórias, ainda que úteis, deste mundo, mas antes recordeis aquilo em que no símbolo prometestes acreditar, isto é, na ressurreição da carne e na vida eterna. Se, pois, acreditastes e continuais a acreditar que haverá ressurreição da carne e vida eterna no reino dos céus entre os anjos de Deus, como já acima vos dissemos, pensai o mais que puderdes nisso e não sempre na miséria do mundo. Preparai o vosso caminho com boas ações. Sede assíduos a orar a Deus, na igreja ou em locais dedicados aos santos. O dia do Senhor, que, por isso mesmo se chama domingo, dado que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nele ressuscitou dos mortos, não o desrespeiteis mas cultuai-o com reverência. Trabalho servil, i. é, cuidar do campo, do prado, da vinha, ao menos enquanto se trata de trabalho pesado, não o façais em dia de domingo, excetuando apenas o que respeita aos afazeres da cozinha para satisfazer as necessidades do corpo e a necessidade de uma longa viagem. No dia do Senhor é permitido ir a sítios próximos, mas não para ocasiões de pecado, antes de boas ações, como seja, ir a locais santos, visitar um irmão ou amigo, assistir um doente ou levar um bom conselho a um atribulado ou ajuda para boa causa. É assim, pois, que convém que o homem cristão venere o dia do Senhor. Na verdade seria por demais iníquo e vergonhoso que aqueles que são pagãos e ignoram a fé de Cristo, porque prestam culto aos ídolos dos demônios, cultuem o dia de Júpiter ou de qualquer outro demônio, e se abstenham de trabalhos quando é sabido que nunca os demônios criaram qualquer dia ou ele lhes pertence e nós, que adoramos o verdadeiro Deus e cremos que o Filho de Deus ressuscitou dos mortos, quanto ao dia da sua ressurreição, ou seja, o domingo, não o respeitássemos minimamente! Não façais, pois, injúria à ressurreição do Senhor, mas homai-a e cultuai-a com reverência, pela esperança que temos relativamente a ela. Na verdade, assim como Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que é a nossa cabeça, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos na sua carne, assim também nós, que somos seus membros, esperamos vir a ressuscitar na nossa carne, no fim do mundo, a fim de cada qual receber ou o descanso eterno ou a pena eterna; consoante procedeu com o seu corpo neste século, assim receba.

Eis como nós, tomando como testemunhas a Deus e os santos anjos que nos ouvem, pelo uso que agora fazemos da palavra, satisfazemos a nossa dívida para com a vossa caridade, e como, da riqueza do Senhor, tal como nos está preceituado, vos fazemos penhor. Cabe-vos a vós agora pensar e procurar como cada um a quanto recebeu irá apresentá-lo com juros quando o Senhor vier no dia de juízo. Rogamos, pois, à clemência do Senhor, que vos proteja de todo o mal e vos faça dignos companheiros dos seus santos anjos, no seu reino. Isso vos conceda Aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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