Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 7

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste começaremos a ler o embate entre São Jerônimo e Vigilâncio. São Jerônimo irá nos “armar” de argumentos contra os vigilâncios atuais.

Capítulo VII

Contudo, quanto a questão das velas, ao contrário do que você (Vigilâncio) em vão nos acusa, nós não as acendemos durante o dia, mas para conforto podemos alegrar a escuridão da noite, enquanto aguardamos o amanhecer, para que não sejamos cegos como você e cochilemos nas trevas. E se algumas pessoas, leigos simples e rudes, ou quase sempre mulheres religiosas – de quem podemos realmente dizer: “Eu admito que eles tem zêlo por Deus, ainda que não seja conforme a razão” (Romanos 10,2) -, adotam tal prática em honra dos mártires, que mal isto causa a você? Já houve uma vez que os próprios Apóstolos suplicaram que o ungüento não fosse desperdiçado e acabaram sendo repreendidos pela voz do Senhor. Cristo não precisava do ungüento assim como os mártires não precisam da luz das velas. Ainda assim, aquela mulher que derramou o ungüento em honra de Cristo teve a devoção do seu coração aceita [pelo Senhor]. Todos aqueles que acendem essas velas têm sua recompensa de acordo com a sua fé, como disse o Apóstolo: “Que cada um abunde em sua própria intenção”. Você chama estes homens de idólatras? Eu não nego que todos nós que cremos em Cristo deixamos de lado o erro da idolatria. Nós não nascemos cristãos, mas nos tornamos cristãos ao renascermos [pelo Batismo]. E porque [um dia] já adoramos ídolos se conclui agora que nós não podemos adorar a Deus, pois parece que prestamos honra a Ele e aos ídolos? Um caso é prestar [honra] aos idólos e, neste caso, o culto é detestável; outro caso é a veneração dos mártires, sendo seu culto permitido. Em todas as igrejas do Oriente, mesmo quando alguma delas não possui relíquias dos mártires, o Evangelho é lido e os castiçais são acesos, ainda que a aurora esteja avermelhando o céu, não para dispersar as trevas, mas para evidenciar o nosso júbilo. E, conforme o Evangelho, as virgens carregam sempre acesas as suas lâmpadas (Mateus 25,1). E dos Apóstolos diz-se que tinham de cingiam seus lombos e acender suas lâmpadas (Lucas 12,35). E de João Batista lemos que “Ele possui a lâmpada que arde e ilumina” (João 5,35). Assim, através da figura da luz corpórea, é representada aquela luz que lemos no Saltério: “Tua Palavra é uma lâmpada para os meus pés, ó Senhor, e uma luz para os meus caminhos”.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

Veja Também:: Capítulos 1 | Capítulo 2 | Capítulo 3 | Capítulo 4 | Capítulo 5 | Capítulo 6

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