Vida de Hilarião:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 1

Olá Amigos! Pax et Bonum!

Como vimos na primeira leitura da carta de São Jerônimo acerca da vida de Santo Hilarião, São Jerônimo pede que o Espírito Santo desça sobre ele para que, de modo fiel, ele possa transcrever e registrar todas as bem-aventuranças deste Santo.

São Jerônimo pede que ele possa encontrar as palavras que expressem verdadeiramente os fatos de modo que seja uma narrativa da vida e, sobretudo, as virtudes. Boa leitura!!!

A JUVENTUDE DE HILARIÃO E SUA ASCESE

Uma rosa em meio aos gramáticos. Hilarião, nascido na aldeia de Tavata, situada a uns sete quilômetros e meio de Gaza, cidade da Palestina, floresceu, segundo o provérbio, como uma rosa entre os espinhos, já que seus pais eram idólatras. Eles o enviaram para a Alexandria e o confiaram a um gramático; ali Hilarião, tendo em conta a sua idade, deu mostras do seu grande talento e bons costumes. Em pouco tempo, era amado por todos e chegou a ser bem versado na arte de falar. Porém, mais importante que tudo isto, é que acreditava no Senhor Jesus. Não se deleitava nas paixões do circo, nem no sangue da arena, nem na luxúria do teatro; todo seu afã era para participar das assembleias da Igreja.

Foi então que se viu diante do célebre nome de Antonio (Santo Antão), elogiado por todo povo do Egito. Inflado pelo desejo de vê-lo, dirigiu-se ao deserto. Imediatamente depois de tê-lo visto, trocou suas antigas vestimentas e permaneceu com ele por quase dois meses. Observava seu modo de viver, a intensidade de seus costumes, sua assiduidade na oração, sua humildade na acolhida dos irmãos, sua severidade para corrigi-los, sua prontidão para exortá-los e como nenhuma debilidade quebrava sua continência e austeridade de alimentação. Porém, não podendo mais suportar as numerosas pessoas que procuravam Antonio em razão de seus mais diversos sofrimentos ou ataques dos demônios, considerou que não era conveniente suportar no deserto os habitantes das cidades. Devia, pois, começar como começou Antonio; este – pensava – recebia, como um homem forte, o prêmio da vitória, enquanto que ele, Hilarião, nem sequer havia começado sua batalha. Então voltou para sua pátria com alguns monges. Seus pais haviam falecido; deu parte dos seus bens a seus irmãos e outra parte aos pobres, não reservando absolutamente nada para si, recordando o exemplo e o castigo de Ananias e Safira narrado nos Atos dos Apóstolos. Recordava, sobretudo, a palavra do Senhor: “Aquele que não renuncia a tudo que possui não pode ser meu discípulo”. Tinha, então, quinze anos. Assim, nu mas armado em Cristo, entrou na solidão que se estende à esquerda do caminho que vai para o Egito pelo litoral, a quinze quilômetros de Maiuma, que é o porto de Gaza. Ainda que esses lugares estivessem ensanguentados por causa dos bandidos e apesar das advertências de seus parentes acerca do gravíssimo perigo que corria, desprezou a morte para escapar da morte no deserto de Maiuma.

Todos se maravilhavam do valor e de sua pouca idade, porém, uma chama interior e um centelha de fé brilhava nos seus olhos. Sua bochechas eram coradas e seu corpo delicado e frágil; era incapaz de suportar as austeridades e, por isso, o faziam sofrer o calor e o frio, mesmo quando leves. Assim, cobertos seus membros apenas por panos de saco, com um capuchão de pele que lhe dera Antonio por ocasião da sua partida, e um manto rústico, vivia num vasto e terrível deserto entre o mar e o pântano. Comia apenas quinze figos após o pôr-do-sol e como a região tinha má-fama por causa dos bandidos, acostumou-se a não ficar sempre no mesmo lugar. O que poderia fazer o diabo? Para onde poderia ir? Aquele que se gloriava dizendo: “Subirei ao céu, colocarei meu trono sobre as estrelas do céu e serei semelhante ao Altíssimo” se via vencido e pisoteado por um menino antes que sua idade o permitisse pecar.

[O diabo,] então, atacava seus sentidos e sugeria ao seu corpo adolescente os costumeiros ardores da voluptuosidade. Assim, o soldado de Cristo se via obrigado a pensar naquilo que ignorava e a revolver seu espírito na pompa que não havia conhecido pela experiência. Irritado, pois, consigo mesmo e golpeando o peito com os punhos, como se pudesse expulsar os pensamentos com os golpes das suas mãos, dizia: “Burro! Não te deixarei dar coices, nem te alimentarei com cevada, mas com palha; te esgotarei de fome e sede, e irei te carregar com pesado fardo; te submeterei ao calor e ao frio para que penses mais no alimento que na concupiscência!”. Por isso, a cada dois ou três dias sustentava sua frágil vida com algumas ervas e uns poucos figos, orando e salmodiando com freqüência, trabalhando a terra com a enxada, para que a fadiga do trabalho redobrasse a dos jejuns. Depois, tecendo folhas de junco, praticava a disciplina dos monges do Egito e a sentença do Apóstolo que diz: “O que não trabalha não coma”. Estava tão fatigado, seu corpo tão consumido, que só sustentava os ossos.

Uma noite ouviu o gemido de uma criança, o balar das ovelhas, o mugido de bois, os cânticos de prostitutas, os rugidos de leões, o ruído de um exército e um monstruoso clamor de vozes de todos os tipos, a ponto que quase cedeu àqueles sons, antes de ver o que os provocava. Compreendeu que eram armadilhas montadas pelos demônios e, ajoelhando-se, persignou sua fronte com o sinal da cruz. Armado com aquele elmo e envolto com a couraça da fé, prostrado na terra, lutava mais vigorosamente, desejando ver de alguma maneira aqueles que o aterrorizavam ouvir e, olhando ao seu redor, aqui e ali, com olhos ansiosos. De repente, sob a claridade da lua, viu precipitar sobre ele um carro de cavalos de fogo. Invocou, em alta voz, o nome de Jesus e a terra se abriu imediatamente ante seus olhos e todo esse aparato foi tragado pelo abismo. Então disse: “Atirou ao mar o cavalo e seu cavaleiro” e “Uns confiam em seus carros, outros em sua cavalaria; nós, entretanto, invocamos o nome de nosso Deus”.

Muitas e variadas foram as tentações e ciladas do demônio, tanto durante o dia quanto durante a noite. Se quisesse narrá-las todas, excederia os limites deste livro. Quantas vezes, enquanto deitado, se lhe apareceram mulheres desnudas; quantas vezes, enquanto com fome, viu suculentas refeições! Algumas vezes, enquanto orava, saltou sobre ele um lobo que uivava e um porco que grunhia; e enquanto salmodiava, se lhe apresentava um espetáculo de lutas de gladiadores e um deles, que parecia ferido mortalmente, se arrastava até seus pés e lhe suplicava para que o sepultasse.

Certa vez estava orando com a cabeça fixa na terra e, como é comum à natureza humana, sua mente se distraiu da oração, pensando em outra coisa. Então saltou sobre seus ombros um cavaleiro impetuoso que, golpeando-lhe as costas com suas botas e açoitando seu dorso com um chicote, gritou: “Ei, por que cochilas?” Depois disto, rindo muito, vendo-o desfalecer, lhe perguntou se desejava sua ração de cevada.

Dos dezesseis aos vinte anos, protegeu-se do calor e da chuva em uma pequena cabana levantada com juncos e folhas de figueira entrelaçados. Depois, teve uma pequena cela, que construiu e que permanece até hoje, de quatro pés de largura e cinco de altura, isto é, mais baixa que sua própria estatura e um pouco mais larga do que necessitava seu corpo. Podia ser considerada mais como sepulcro que como habitação.

Cortava seu próprio cabelo uma vez ao ano, no dia de Páscoa; dormiu até sua morte sobre a terra desnuda, sobre uma esteira de juncos. Nunca lavou o tosco saco que vestia, dizendo que era dispensável buscar limpeza na sujeira. Tampouco trocou sua túnica por outra, a menos que a anterior estivesse quase reduzida a farrapos. Tendo aprendido de memória as Sagradas Escrituras, as recitava após as orações e os salmos, como se Deus estivesse ali presente. E como seria muito amplo descrever seu progresso espiritual em suas diversas etapas, momento a momento, resumirei brevemente apresentando o conjunto de sua vida perante os olhos do leitor e logo voltarei à ordem da narrativa.

Desde os vinte e um anos, se alimentou, durante três anos, com meio sextário de lentilhas umedecidas em água fria, e, os próximos três anos, com pão seco, água e sal. Dos vinte e sete anos aos trinta e cinco anos, seu alimento consistiu em seis onças de pão de cevada e verduras pouco cozidas, sem azeite. Porém, quando sentiu que seus olhos se obscureciam e que todo o seu corpo queimado pelo sol se enrrugava coberto por uma crosta áspera como cascalho, acrescentou azeite ao alimento e, até os sessenta e três anos, seguiu praticando este regime de abstinência, não provando absolutamente nada mais, nem frutas, nem legumes, nem qualquer outra coisa. Então, vendo-se fatigado no corpo e pensando que se aproximava a morte, desde os sessenta e quatro anos até os oitenta, se absteve novamente de pão, impulsionado por um incrível fervor de espírito, próprio de quem se inicia no serviço do Senhor, numa época em que os demais resolveram viver menos austeramente. Como alimento e bebida, fazia uma sopa de farinha e verduras trituradas, que pesava apenas cinco onças. Cumprindo esta regra de vida, nunca rompeu o jejum antes do pôr-do sol, nem sequer nos dias de festa ou quando se encontrava gravemente doente. Porém, já faz hora de retornarmos ao relato normal.

Quando tinha dezoito anos e ainda habitava sua pequena choupana, certa noite apareceram ladrões pensando que encontrariam algo para roubar. Assim, consideraram uma afronta que um anacoreta tão jovem não temesse seus ataques. Desde a tarde até o pôr-do-sol, sondaram o terreno entre o mar e os pântanos, sem poderem encontrar o lugar de seu refúgio. Finalmente, encontrando o rapaz ao nascer a luz do dia, lhe perguntaram ironicamente: “O que farias se ladrões o atacassem?”. Ele respondeu: “O que está nu não tem medo de ladrões”. Lhe disseram: “Mas certamente podemos te matar”. Disse ele: “Certamente que sim, mas, mesmo assim, não temo, porque estou preparado para morrer”. Os ladrões, admirados por sua firmeza e fé, confessaram seu extravio noturno e a cegueira dos seus olhos, e lhe prometeram que daquele dia em diante levariam uma vida mais honesta.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum / Tradução: Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

Veja Também:: Prólogo

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3 comentários sobre “Vida de Hilarião:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 1

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