Vida de Hilarião:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 3

Na última carta lida, vimos a respeito dos milagres realizados por São Hilarião. Eu gostaria de esclarecer, caso ainda tenhamos algum tipo de dúvida acerca do tema milagre. Acho muito propício levantarmos isso, uma vez que vivemos tão recentemente o dia de todos os Santos. “Ao canonizar certos fiéis, isto é, ao proclamar solenemente que esses fiéis praticaram heroicamente as virtudes e viveram na fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece o poder do Espírito de santidade que está em si e sustenta a esperança dos fiéis, propondo-os como modelos e intercessores”. (Cf. 828 – Catecismo da Igreja Católica)

Comumente vimos em vários meios que para que haja a canonização de um Santo, este dever-se-á ter feito milagres. Na verdade, os Santos não o realizam (milagres). Pela intercesão destes bem-aventurados Deus se faz presente através dos milagres, um sinal visível, factível, tangível da ação do Espírito Santo, confiado a nós, pelo intermédio dos Santos e Santas em que temos devoção.

“Pelo fato de os habitantes do Céu ( Igreja Celeste ) estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por Conseguinte, pela fraterna solicitude deles, nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio”. (Cf. 956 – Catecismo da Igreja Católica)

Boa leitura a todos!!!

PREOCUPAÇÃO PASTORAL E ÊXODO

Antonio honra a Hilarião. Me faltaria tempo se quisesse narrar todos os milagres realizados por ele. O Senhor o havia elevado a tão alta glória que o bem-aventurado Antonio, ouvindo acerca do seu modo de vida, lhe escreveu e, com grande prazer, recebia suas cartas. Quando iam a ele doentes das regiões da Síria, lhes dizia: “Por que se preocupam em vir de tão longe quando têm ali o meu filho Hilarião?”. Seu exemplo fez com que surgissem inúmeros monastérios em toda Palestina e os monges acorriam em grande número até ele. Ao ver isto, Hilarião exaltava a graça de Deus e exortava a cada um a trabalhar em proveito de sua própria alma, dizendo-lhes que a aparência deste mundo passa e que a verdadeira vida é a que se obtém à custa de sofrimentos na vida presente.

Hilarião visita os monastérios. Querendo dar exemplo de humildade e deferência, Hilarião visitava as celas dos monges em dias estabelecidos, antes da vindima. Quando os irmãos se inteiravam disto, todos acorriam a ele e, em companhia de semelhante guia, recorríam aos monastérios, levando seus próprios víveres porque às vezes se reuniam dois mil homens. Com o passar do tempo, cada aldeia começou a oferecer com alegria alimento aos monges estabelecidos, para que pudessem acolher aqueles santos. Quanto foi seu zelo para que não se descuidasse a nenhum de seus irmãos, por mais humilde ou pobre que fosse, se pode deduzir disto: enquanto se dirigia ao deserto de Cades, para visitar a um de seus discípulos, chegou a Elusa com uma imensa multidão de monges, no dia em que as celebrações anuais reuniram no templo de Vênus toda a população da cidade. Se adora a essa deusa em razão de Lúcifer, a cujo culto foi dedicado aquele povo de sarracenos. A mesma cidade é, em grande parte, semi-bárbara, por causa de sua situação geográfica. Assim, quando souberam que Santo Hilarião passava por ali, como ele havia curado a muitos sarracenos atacados pelo demônio, todos juntos saíram ao seu encontro, acompanhados por suas mulheres e filhos, inclinando suas cabeças e gritando em língua síria: “Barech”, que quer dizer: “Abençoa-nos”. Ele, recebendo-os com doçura e humildade, lhes rogava para que adorassem a Deus e não às pedras e, ao mesmo tempo, chorava copiosamente, olhando para o céu, assegurando-lhes que viria vê-los mais tarde, se cressem em Cristo. Ó admirável graça do Senhor: não o deixaram partir antes que traçasse o plano de uma futura igreja e que seu sacerdote, já marcado com a coroa, fosse também assinalado com o sinal de Cristo.

O monge ávaro. Outro ano, quando ia sair para visitar as celas, anotou em uma folha em quais se deteria e em quais passaria sem se deter. Os monges sabiam que um dos irmãos era ávaro e desejando curá-lo desse vício, lhe rogaram para que se detivesse com ele. Hilarião lhes disse: “Por que querem prejudicar-se a vós mesmos e molestar o irmão?”. Quando o irmão ávaro ouviu estas palavras, ficou vermelho, mas, apoiado pela insistência de todos e com grande trabalho, conseguiu que Hilarião incluísse sua cela na lista de visita. Dez dias depois, chegaram até ele. Tinha colocado guardas na vinha, como se tratasse de uma granja. Os guardas afastaram todos os que tentaram se aproximar, jogando pedras e bolas de terra, além de atirar com estilingues, de forma que todos partiram pela manhã sem poder comer uvas, enquanto que o ancião, rindo, aparentava não ter se dado conta do que ocorrera.

Sabas, o monge generoso. Logo foram recebidos por outro monge, chamado Sabas – omitimos o nome do ávaro e apresentamos o do generoso. Como era Domingo, convidou a todos para a vinha, para que, antes de comerem, pudessem se aliviar com as uvas da fadiga do caminho. Porém, o santo disse: “Maldito o que se preocupa com a refeição do corpo antes da que é devida à alma! Oremos, cantemos salmos, tributemos honra ao Senhor e somente depois iremos à vinha”. Terminado o serviço divino, estando de pé em um lugar elevado, abençoou a vinha e ao rebanho que alimentaria a todos. Os que comeram não eram menos de três mil. A produção da vinha, que enquanto ainda estava intacta, fôra estimada em cerca de cem garrafas, após vinte dias produziu trezentas. Em contrapartida, o irmão ávaro obteve algo bem menor e o pouco que recolheu logo se converteu em vinagre. Demasiado tarde se lamentou! O ancião havia predito a muitos irmãos que seria assim que se sucederia.. Hilarião detestava, sobretudo, os monges que, pela pouca fé, reservavam parte de seus bens para o futuro e se preocupavam com gastos, vestimentas ou qualquer outra coisa que passa junto com o mundo.

Um irmão demasiadamente cauteloso. Neste sentido, havia se afastado de um irmão que vivia cerca de cinco milhas, pois ficou sabendo que cuidava da sua horta com excessiva preocupação e temor, e porque guardava algum dinheiro. Como queria se reconciliar com o ancião, visitava aos irmãos com freqüência, principalmente a Hesíquio, a quem Hilarião amava muito. Um dia levou um maço de favas frescas, que já estavam maduras. Quando Hesíquio as pôs, mais tarde, sobre a mesa, o ancião, que havia ido visitá-lo, exclamou que não podia suportar aquele odor e perguntou de onde provinham. Hesíquio lhe respondeu que um irmão havia trazido as primícias de sua horta para os irmãos. Então o ancião lhe disse: “Não sentes esse odor espantoso? Não sentes nas favas o odor da avareza? Atirai-as aos bois, aos animais irracionais e observa se as comem!”. E ele, segundo a ordem, as deu para os animais. Então os bois, aterrados e mugindo mais forte que o costume, romperam suas cadeias e fugiram em todas as direções. O ancião Hilarião tinha a graça de saber, pelo odor dos corpos, dos vestidos e das coisas que alguém havia tocado, a que demônio ou vício estava submetido.

Nostalgia do passado e morte de Santo Antonio. Tendo alcançado os sessenta e três anos de idade e vendo como havia se expandido as suas celas e a multidão dos irmãos que habitavam com ele e a quantidade de enfermos e possessos de todos os tipos que lhe levavam, chorava todos os dias e recordava com incrível nostalgia seu anterior estilo de vida. O deserto circunvizinho estava habitado por gente de todo tipo. Quando os irmãos lhe perguntaram o que estavava acontecendo e por que estava tão abatido, lhes respondeu: “Retornei ao mundo e já recebi a minha recompensa em vida. Os homens da Palestina e das províncias vizinhas me consideram uma pessoa importante e, com o pretexto de prover as necessidades dos irmãos e das celas, possuo utensílios supérfluos”. Os irmãos cuidavam dele, especialmente Hesíquio, que com admirável amor se havia entregue à veneração do ancião. Viveu assim chorando durante dois anos, quando foi ver aquela Aristenete, que já mencionamos acima, esposa do prefeito, porém que nada tinha em comum com ele. Ela tinha a intenção de ir visitar Antonio. Hilarião, chorando, lhe disse: “Eu também gostaria de ir. Só não irei porque estou encerrado no cárcere destas celas e não vejo sentido em fazê-lo, já que há dias que o mundo está órfão desse padre”. Ela acreditou e não prosseguiu a viagem; poucos dias depois chegou a notícia de que Antonio havia adormecido no Senhor.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum / Tradução: Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

Veja Também:: Prólogo | Capítulo 1 | Capítulo 2

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2 comentários sobre “Vida de Hilarião:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 3

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