Vida de Hilarião:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 4

“Graça, que temes? Graça, alma minha, por que duvidas? Durante quase setenta anos serviste a Cristo e agora temes a morte?”

Pax et Bonum!!! Coloco aqui para vocês, caros amigos, o último relato de São Jerônimo acerca de São Hilarião. Dando continuidade a ação Pastoral de Hilarião, ele peregrina para o seu último combate. Como leitor, digo que São Hilarião combateu um bom combate certo que ao fim de sua caminhada mortal, ele viria o Trono do Altíssimo.

Espero que vocês tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre a vida de um Santo de extrema intimidade com Deus, por meio do Espírito Santo, na graça de Cristo Jesus.

PEREGRINAÇÃO, MORTE E AFINS

Hilarião vai para o Egito. Que outros admirem os milagres e portentos que fez; que admirem sua incrível abstinência, ciência, humildade; enquanto a mim nada me assombra tanto como que haja podido pisotear a glória e a honra. A ele acudiam bispos, presbíteros, grupos de clérigos e monges, também nobres damas cristãs – terrível tentação – e, de um ou outro lugar das cidades e do campo, as pessoas de condição humilde, bem como homens poderosos e altos magistrados, para receber pão ou azeite bentos. Porém ele não pensava em nada além da solidão, ao ponto de que um dia decidir partir e, fazendo uso de um asno – já que estava muito consumido pelos jejuns, mal podendo caminhar – tentou pôr-se a caminho. Quando se soube disso, como se houvesse anunciado no Palestina uma calamidade ou luto público, se congregaram mais de dez mil homens de diversas idades e sexos para retê-lo. Ele permanecia inflexível ante as súplicas e, removendo a areia com seu báculo, lhes disse: “Não posso mentir ao meu Senhor. Não posso ver as Igrejas destruídas, os altares de Cristo pisoteados, o sangue dos meus filhos”. Todos os presentes compreenderam que revelara um segredo que não queria manifestar. Contudo, o vigiavam para que não partisse. Então, chamando a todos por testemunhas, afirmou publicamente que não comeria nem beberia nada se não o deixassem partir. Depois de sete dias de abstinência, finalmente foi liberado e, deixando saudades a muitos, partiu. Chegou a Betélia com uma multidão de acompanhantes. Ali convenceu ao povo que regressaria e elegeu uns quarenta monges que, levando algumas provisões, puderam seguí-lo adiante. No quinto dia, chegou ao Pelúsio e, depois de ter visitado aos irmãos que estavam no deserto vizinho e viviam em Lykonos, caminhou três dias até o forte de Taubasto, para poder ver a Dracôncio, bispo e confessor que estava ali desterrado. Graças a essa visita, foi incrivelmente consolado com a presença de um homem tão magno. Então, mais três dias de grande fadiga e chegou à Babilônia, para ver o bispo Filón, confessor ele também. O imperador Constâncio, que favorecia a heresia dos arianos, havia deportado ambos para aqueles lugares. Partiu dali três dias e chegou à cidade de Afroditón, onde encontrou o diácono Besano, o qual ajudava aos que iam ver Antonio, cedendo dromedários, em razão da pouca água existente no deserto. Hilarião revelou aos irmãos que se aproximava o dia do aniversário da morte do bem-aventurado Antonio e que devia celebrar a vigília noturna no mesmo lugar em que havia falecido. Portanto, durante três dias, atravessaram aquela vasta e terrível solidão até chegar a um monte altíssimo, onde encontraram dois monges: Isaac e Peluso. Isaac fôra o intérprete de Antonio.

Sobre Antonio. Já que se apresenta a ocasião e tocamos nesse tema, nos parece justo descrever brevemente a habitação deste homem tão magno. Um monte rochoso e muito alto deixa correr as águas divididas em braços até sua base. Algumas delas se submergem na areia e outras, correndo para baixo, formam um riacho em cujas orlas crescem inumeráveis palmeiras que tornam o lugar muito agradável e acolhedor. Aqui o ancião foi visto correndo daqui para lá com os discípulos do bem-aventurado Antonio. Diz-se: “Aqui salmodiava, orava e trabalhava; aqui descansava quando estava fatigado. Estas vinhas e estes arbustos foram plantados por ele; este horto foi criado com suas próprias mãos; este tanque para regar a pequena horta foi construído por ele mesmo, com muito esforço; esta pá lhe serviu durante muitos anos para cavar a terra”. Hilarião deitava-se sobre a cama de Antonio e beijava esse leito como se ainda estivesse quente. A pequena cela, com seus quatro lados, não media mais que o corpo de um homem deitado para dormir. Ademais, no cume altíssimo do monte, até onde subiram por um caminho muito escarpado em forma de caracol, viram duas celas das mesmas medidas, nas quais Antonio ficava quando queria fugir da freqüência dos visitantes e da companhia dos seus discípulos. Estavam cavadas na rocha e nelas só se acrescentaram as portas. Uma vez chegados à horta, disse Isaac: “Vêem estas árvores frutíferas e estas hortaliças verdes? Há três anos, quando uma manada de asnos selvagens as devastou, ordenou a um dos que ia à frente para que parasse e, golpeando-lhe as costas com seu bastão, disse-lhe: ‘Por que comem o que não plantaram?’. Desde então, com exceção da água que vinham beber, nunca mais tocaram em nada, nem nas frutas, nem nas hortaliças”. O ancião pediu também para que lhe mostrassem o lugar da sepultura de Antonio. Eles o levaram à parte, não sabemos se a mostraram ou não; mas disseram-lhe que, segundo ordem de Antonio, deviam esconder o lugar de seu sepultamento para impedir que Pergâmio, a pessoa mais rica daquela região, levasse para a sua cidade o corpo de santo e construísse um santuário sobre o seu túmulo.

Hilarião obtém a chuva. Logo, tendo regressado a Afroditón, permaneceu no deserto vizinho, mantendo consigo apenas dois irmãos, observando tanta abstinência e silêncio que logo – segundo se dizia – passaram a servir a Cristo. Fazia três anos que o céu permanecia fechado e tornara áridas essas terras, de forma que as pessoas diziam que também a natureza chorava a morte de Antonio. A fama de Hilarião não permaneceu oculta aos habitantes daquele lugar e, insistentemente, homens e mulheres com rostos sofridos e consumidos pela fome, pediam chuva ao servo de Cristo, ou seja, o sucessor do bem-aventurado Antonio. Hilarião, ao vê-los, se comoveu profundamente e, elevando os olhos para o céu e alçando as mãos para o alto, imediatamente obteve o que eles imploravam. E eis que aquela região sedenta e arenosa, depois que foi regada pelas chuvas, se viu, de improviso, inundada por tal multidão de serpentes e animais venenosos que muitos foram atacados e, se não fossem acudidos imediatamente por Hilarião, teriam perecido. Com efeito, todos os camponeses e pastores, tocando suas feridas com óleo bento, obtiveram a cura.

Perseguido pelas autoridades. Vendo que também aqui recebia grandes honras, partiu para a Alexandria. Dali atravessou o deserto até um oásis mais interior e, assim como no começo de sua vida monástica, em que nunca permaneceu em uma cidade, se desviou para ir hospedar-se com uns irmãos, seus conhecidos, em Bruquios, não tão próximo da Alexandria. Estes receberam o ancião com imensa alegria. Quando se aproximava a noite, de repente os discípulos ouviram que estava preparando o asno para partir. Então, atirando-se aos seus pés, lhe rogaram para que não fosse, e prostrados no umbral, declararam que preferiam morrer a ver-se privados de tal hóspede. Ele lhes respondeu: “Apresso-me a partir para não lhes cauar moléstia. Logo compreenderão o que se sucederá, pois não saio daqui sem um motivo”. Com efeito, no dia seguinte, os prefeitos de Gaza, acompanhados pelos líctores – que ficaram sabendo que Hilarião havia chegado no dia anterior – entraram nas celas e, ao não encontrarem-no, diziam uns para os outros: “Não é verdade o que tínhamos ouvido? É um mago e conhece o futuro”. Assim que Hilarião deixou a Palestina, Juliano havia tomado o poder [imperial]. Os cidadãos de Gaza destruíram sua cela e, depois de solicitá-lo ao imperador, obtiveram a pena de morte para Hilarião e Hesíquio. E foi dada ordem para que fossem procurados em toda a terra.

Adriano, o falso irmão. Assim, depois de deixar Bruquios, Hilarião atravessou o deserto sem caminhos e entrou no oásis. Nesse lugar ficou por cerca de um ano, mas seu renome também o acompanhara. Parecia que já não podia permanecer oculto no Oriente, onde muitos haviam ouvido falar dele ou de sua fama; por isso, pensava em navegar para ilhas solitárias, para que pelo menos os mares pudessem ocultar aquele a quem a terra fizera célebre. Nesse tempo, chegou da Palestina seu discípulo Adriano, anunciando que Juliano tinha morrido e começara a reinar um imperador cristão, razão pela qual Hilarião deveria regressar às ruínas de suas celas. Ele, porém, ao ouvi-lo, recusou e conseguindo um camelo, viajou pelo desolado deserto e chegou a uma cidade portuária da Líbia: Paretônio. Ali o infeliz Adriano, que queria regressar à Palestina e buscava a glória amparando-se no nome de seu mestre, lhe inflingiu muitas injúrias. Finalmente, fez um pacote com o que lhe haviam enviado os irmãos e partiu sem que ele o soubesse. Como não haverá outra ocasião para falar de Adriano, quero dizer apenas isto para inspirar horror naqueles que depreciam os seus mestres: pouco tempo depois, morreu acometido pela podridão da lepra.

Um demônio em alto-mar. O ancião, tendo Zanano por companheiro, embarcou em um navio que se dirigia para a Sicília. Tinha a intenção de pagar a viagem vendendo um códice dos Evangelhos que transcrevera em sua juventude. Porém, sucedeu que, no meio do mar Adriático, o filho do proprietário do navio, possuído por um demônio, começou a gritar: “Hilarião, servo de Deus, por tua culpa não estamos tranqüilos nem sequer em alto-mar. Dá-me tempo para chegar em terra, de modo que não seja expulso daqui e me veja precipitado no abismo”. Hilarião lhe respondeu: “Se meu Deus te concede permanecer, submeta-te; porém, se te expulsa, por que o faria por mim, que sou um homem pecador e mendigo?”. Dizia isto para que os navegantes e comerciantes que estavam na embarcação não o dessem a conhecer quando chegassem em terra. Em seguida, o rapaz foi purificado e tanto o pai como os presentes asseguraram a Hilarião que não revelariam o seu nome a ninguém.

Hilarião, verdadeiro pobre. Quando entraram em Paquino, promontório da Sicília, [Hilarião] ofereceu ao proprietário do navio o Evangelho, como preço de sua viagem e de Zanano. Porém, aquele não quis aceitar, sobretudo vendo que eles somente tinham aquele códice e a roupa que vestiam. Jurou que não aceitaria. O ancião aceitou, com a consciência certa de que efetivamente era pobre e se alegrava principalmente por isso, porque não tinha nenhum bem neste mundo e era considerado como mendigo pelos habitantes do lugar.

Milagres na Sicília. Porém, logo, temendo que os comerciantes que vinham do Oriente o dessem a conhecer, fugiu para o interior, isto é, a vinte milhas do mar e, ali, em um campo solitário, recolhia todo dia um haz de lenha e o colocava sobre o ombro de seu discípulo. Vendia a lenha na aldeia vizinha e comprava alimento para ambos e um pouco de pão para os que vinham visitá-los. Contudo, como é verdade o que está escrito: “Não pode permanecer oculta uma cidade situada no alto de uma colina”, quando um soldado da guarda estava sendo exorcizado na basílica de São Pedro, o espírito imundo que estava nele gritou: “Há poucos dias, chegou na Sicília o servo de Cristo, Hilarião. Ninguém o reconheceu e ele pensa que poderá permanecer oculto, mas eu irei para lá desmascará-lo”. Imediatamente, tomou um navio no porto com seus servos e desembarcou em Paquino. E guiado por seu demônio, foi prostrar-se diante da choupana do ancião e foi imediatamente curado. Este foi o começo de seus milagres na Sicília. Isto fez com que, em seguida, o procurassem uma considerável multidão de enfermos e pessoas piedosas, entre eles um dos cidadãos mais renomados, inchado pela hidropesia, que foi curado no mesmo dia em que foi ver Hilarião; depois, lhe ofereceu uma grande quantidade de regalos, mas escutou o que o Salvador havia dito aos seus discípulos: “De graça recebestes, de graça dai”.

Hesíquio se reencontra con Hilarião. Embora ocorressem essas coisas na Sicília, seu discípulo Hesíquio o procurava por todo o mundo, recorrendo às costas, entrando nos desertos e possuindo apenas esta certeza: onde quer que estivesse Hilarião, não permaneceria oculto por muito tempo. Três anos mais tarde, em Metone, ouviu de um judeu que vendia objetos e roupas à população, que na Sicília havia aparecido um profeta aos cristãos que operava tantos milagres e prodígios como ocorria com os antigos santos. Hesíquio o interrogou acerca de seu aspecto, seu modo de caminhar, sua linguagem e, sobretudo, sua idade, mas não pôde constatar nada. O homem declarava que apenas sabia da fama desse homem. Tendo entrado no Adriático, após uma rápida viagem, Hesíquio desembarcou no Paquino e, ao pedir notícias sobre o ancião em uma aldeia situada na baía da costa, se inteirou, pelas respostas unânimes de todos, onde estava e o que fazia. O que mais admirava a todos era que depois de tão grandes prodígios e milagres, nunca aceitara de nenhum dos habitantes desses lugares nem sequer um pedaço de pão. E para não me estender em demasia, termino dizendo que aquele santo homem Hesíquio se arremessou aos joelhos do seu mestre e lhe banhou os pés com suas lágrimas, até que este, finalmente, o levantou. Depois de dois ou três dias de colóquio, escutou dizer a Zanano que o ancião já não podia viver nessas regiões e que queria ir para certas nações bárbaras, onde fossem desconhecidos seu nome e sua fama.

Passagem pela Dalmácia. O conduziu, então, a Epidauro, cidade da Dalmácia, onde permaneceu uns poucos dias em um campo que cerca a cidade; porém, tampouco ali pôde permanecer oculto. Uma serpente imensa, que na região é chamada de “boas” – porque é tão grande que pode comer um boi – devastava toda a província e devorava não apenas o gado e as ovelhas, mas também aos camponeses e pastores após privá-los, com sua força, da respiração. Hilarião ordenou que preparassem uma fogueira para a serpente e, depois de chamá-la, orou a Cristo. Então mandou que subisse no monte de lenha e o fogo a prendeu. Assim, ante os olhos de todo o povo, queimou a enorme besta. Depois Hilarião perguntou: “Que fazer? Para onde ir?”. E preparou outra fuga. Sonhava com terras solitárias e se afligia ao ver seu silêncio traído por seus milagres portentosos.

Um maremoto acalmado. Naquele tempo, em razão de um terremoto que atingiu todo o mundo após a morte de Juliano, os mares saíram dos seus limites e, como se Deus ameaçasse com um novo dilúvio e as coisas retornassem ao antigo caos, os navios foram arrastados para os cumes das montanhas e ali ficaram dependurados. Quando os habitantes de Epidauro viram as ondas ameaçadoras, o corpo maciço de água e os imensos redemoinhos avançando até a costa, temerosos de que a cidade fosse destruída até as bases – o que davam por certo – entraram na morada do ancião e, como se partissem para uma batalha, o levaram até a costa. Traçou três sinais da cruz sobre a areia e extendeu as mãos sobre as ondas. Parecia incrível a que altura se inchara o mar e como se deteve perante ele. Então, como se temesse um grande rato e como que indignado perante tal obstáculo, o mar, pouco a pouco, retornou para o seu lugar. Os camponeses de Epidauro e toda a região o celebram ainda hoje e as mães contam para seus filhos, para que transmitam essa recordação aos seus descendentes. Na verdade, o que se disse aos Apóstolos: “Se cressem, diriam a este monte: ‘atira-te ao mar’, e assim se sucederia”, pode cumprir-se também literalmente se alguém guarda a fé dos Apóstolos, tal como o Senhor ordenou. Que importa se é o monte que desce ao mar ou que uma imensa montanha de água se endureça subitamente e se mantenha firme diante dos pés do ancião, ainda que volte mansamente para trás?

No Chipre. Toda a cidade estava admirada e o extraordinário milagre foi divulgado também na Salona. Ao saber disso, o ancião fugiu ocultamente durante a noite em uma pequena embarcação e, encontrando depois de dois dia um navio cargueiro, se dirigiu para o Chipre. Entre Malea e Citera, uns piratas, deixando na costa parte de seus navios, que não usavam velas mas remos, saíram ao encontro [do cargueiro] em duas embarcações velozes e pequenas, e passaram a golpear com os remos e agitar de um e outro lado. Os que estavam no no navio começaram a tremer e chorar, correndo daqui e dali. Prepararam furos e, como se um só não bastasse para dar a notícia, todos juntos anunciaram ao ancião a presença dos piratas. Ele os viu de longe, sorriu e voltando-se para os seus discípulos, lhes disse: “Homens de pouca fé, por que temem? Acaso esses são mais numerosos que o exército do faraó? E, mesmo assim, todos foram submersos quando Deus quis”. Enquanto Hilarião assim falava, as embarcações inimigas se aproximavam, podendo-se já ver as caras exaltadas quase à distância de meio tiro de pedra. Ele se pôs de pé na proa do navio e, com a mão estendida contra os que se aproximavam, disse: “Basta terem chegado até aqui!” E coisa maravilhosa e incrível! Imediatamente as embarcações retrocederam e tomaram a direção oposta, mesmo com os remos se movimentando no sentido contrário. Os piratas se maravilharam de retroceder contra a sua vontade e, por mais que se empenhassem em atingir o navio [cargueiro], eram arrastados para a costa muito mais velozmente que em direção ao navio.

Na cercania de Pafos. Omito todo o resto para que não pareça que quero prolongar o livro narrando milagres. Apenas direi que, navegando com vento favorável entre as Cícladas, ouviu de um e outro lado as vozes dos espíritos imundos que gritavam a partir das cidades e aldeias, e que se reuniam na praia. Pafos é uma cidade do Chipre famosa pelos cantos que lhe dedicaram os poetas. Foi destruída mais de um vez por terremotos e, ainda hoje, com suas ruínas, continua revelando o esplendor de outros tempos. Tendo entrado nela, Hilarião habitava a duas milhas da cidade, sendo desconhecido de todos e feliz por poder viver tranqüilo uns poucos de dias. Todavia, nem se passara vinte dias quando todas as pessoas da ilha que possuíam espíritos imundos começaram a gritar, dizendo que havia chegado Hilarião, o servo de Cristo, e que deviam acudir depressa até ele. Esses gritos ressoavam em Salamina, em Curio, em Lapeta e em todas as outras cidades. A maioria assegurava saber que se tratava de Hilarião e que era verdadeiramente um servo de Deus, porém, ignorava onde estava. Uns trinta dias depois, ou pouco mais, se reuniram em torno de si umas duzentas pessoas, homens e mulheres. Ao vê-las, se contristeceu por que não o deixavam tranqüilo e, por assim dizer, quis vingar-se um pouco sobre ele mesmo, e se voltou com todo fervor sobre estas importunações com uma oração tão insistente que alguns foram curados de imediato, outros depois de dois ou três dias, porém todos em menos de uma semana.

Outra vez o deserto é invadido. Permaneceu ali dois anos, porém sempre pensou em fugir. Enviou Hesíquio para a Palestina, para que saudasse aos irmãos e visitasse as ruínas das celas, com ordem para que retornasse na primavera. Quando regressasse, Hilarião queria navegar novamente até o Egito, isto é, para aqueles lugares que chamavam Bucólia, porque ali não havia cristãos, mas apenas um povo bárbaro e feroz. Porém, Hesíquio o persuadiu a que permanecesse na ilha e que se retirasse para um lugar mais oculto. Quando depois de uma prolongada busca encontrou [esse lugar], conduziu Hilarião a doze milhas do mar, adiante, entre os montes solitários e ásperos, onde apenas se podia subir arrastando-se sobre as mãos e os pés. Quando chegou ali, Hilarião contemplou esse lugar verdadeiramente terrível e afastado, cercado de árvores por todas as partes. Havia também águas que corriam a partir do cume, uma pradaria muito agradável e muitas frutas, ainda que ele nunca tenha tomado esses frutos para sua alimentação. Perto dali existia as ruínas de um antiquíssimo templo no qual, como ele mesmo contava e testemunham seus discípulos, ressoava dia e noite as vozes dos demônios, tão inumeráveis que se podia crer tratar-se de um exército. Hilarião se alegrou muito porque tinha por perto inimigos contra quem lutar e habitou ali durante cinco anos. Nesses seus últimos anos de vida, Hesíquio o visitava com freqüência. Na última etapa, foi consolado ao ver que, em razão da dificuldade do acesso ao seu refúgio e da quantidade de fantasmas, que eram tema de muitas estórias, ninguém ou quase ninguém ousava chegar até ali. Um dia, ao sair de seu pequeno jardim, viu um homem com o corpo todo paralisado, que jazia perante a porta. Perguntou a Hesíquio quem era e como foi levado até ali. Ele respondeu que era o procurador da aldeia, cujo território pertencia à pradaria onde estavam. Hilarião, chorando e estendendo a mão sobre o homem que jazia na terra, lhe disse: “A ti te digo: em nome do Senhor Jesus Cristo, levanta-te e anda!”. E com admirável rapidez, enquanto as palavras ainda ressoavam em sua boca, os membros já fortalecidos levantaram o homem e o puseram em pé. Quando este milagre se tornou conhecido, a necessidade de muitos venceu a dificuldade do lugar e a subida sem caminhos. Todas as aldeias circunvizinhas somente pensavam em impedir que Hilarião escapasse, porque se divulgou o rumor de que ele não podia permanecer muito tempo no mesmo lugar. E isto não fazia por prontidão ou por sentimento pueril, mas para fugir da honra e do oportunismo dos homens, pois ele desejava sempre o silêncio e a vida oculta.

Últimos desejos. Quando tinha oitenta anos, estando ausente Hesíquio, lhe escreveu de próprio punho uma breve carta na forma de testamento, deixando-lhe todas as suas riquezas, a saber: o Evangelho, a túnica de saco, o capuz e o seu pobre manto. O irmão que o servia tinha falecido há pouco tempo. Muitos homens piedosos vieram de Pafos para ver Hilarião, que se encontrava doente, especialmente porque tinham ouvido dizer que afirmara estar pronto para ver o Senhor e seria libertado das cadeias do corpo. Veio também Constança, uma santa mulher a cujo genro e filha havia livrado da morte com a unção do óleo. Hilarião conjurou a todos para que não conservassem o seu corpo em momento algum após sua morte, mas que fosse enterrado nessa mesma pradaria, tal como estava vestido, com a túnica de pele, o capuz e o manto tosco.

Morte de Hilarião. Já ia se esfriando o calor do seu peito e não caía nada nele exceto a lucidez da alma. Com os olhos abertos, dizia: “Graça, que temes? Graça, alma minha, por que duvidas? Durante quase setenta anos serviste a Cristo e agora temes a morte?”. Com estas palavras, exalou seu último suspiro. Imediatamente foi enterrado e assim, na cidade, foi anunciada primeiramente sua sepultura e depois sua morte.

Traslado para a Palestina. Pouco depois do enterro, Hesíquio, que estava na Palestina, partiu para o Chipre. Fingiu querer permanecer nesse mesmo jardim para dissipar toda suspeita dos habitantes do lugar, que montavam guarda cuidadosamente. Assim, após dez meses, com grande perigo para sua vida, conseguiu retirar o corpo de Hilarião e o levou para Maiuma, acompanhado por todos os monges e multidões que vieram das cidades, e o sepultou na sua antiga cela. Tinha a túnica, o capuz e o manto intactos, bem como todo o corpo, que parecia ainda estar vivo, e exalava tão fragrante perfume que podia-se crer ter sido banhado em ungüentos.

O culto do santo. Chegando ao final deste livro, creio que não posso calar a devoção de Constança, aquela santíssima mulher: logo que chegou a notícia de que o corpo de Hilarião se encontrava na Palestina, morreu repentinamente, atestando, também, com sua morte, seu verdadeiro amor pelo servo de Deus. Tinha o costume de passar a noite velando em seu sepulcro e, como se estivesse ali presente, pedia a ele para que a ajudasse através de sua intercessão. Ainda hoje se pode ver a grande contenda que existe entre os palestinos e os cipriotas, uns porque têm o corpo de Hilarião, os outros porque têm seu espírito. Contudo, em ambos os lugares ocorrem diariamente grandes milagres, sobretudo no horto de Chipre, talvez porque ele amou mais esse lugar.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum / Tradução: Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

Veja Também:: Prólogo | Capítulo 1 | Capítulo 2 | Capítulo 3

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