Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro I [Procura da Verdade e Perfeição do Homem]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje continuar à procura da verdade, conforme São Agostinho incita a nos questionar. Como veremos nos relatos, abaixo, hoje Licêncio e Trigécio discutem  e tentam definir, sob seus conceitos formados, o que é ou como é ser feliz sem ter todas as respostas. É possivel isso? A busca da verdade, pelo homem, já é o suficiente para nos tornar feliz?

Boa leitura!!!

Discussão entre Licêncio e Trigécio – Procura da verdade e perfeição do homem

Licêncio: – Vejo que insistes vivamente, e creio que também utilmente, que discutamos entre nós. Pergunto por que não pode ser feliz quem procura a verdade, embora não a encontre.

Trigécio: – Porque, a nosso ver, feliz é só o sábio perfeito em tudo. Ora, quem ainda procura não é perfeito. Portanto não entendo absolutamente como podes dizê-lo feliz.

Licêncio: – Aceitas a autoridade dos antepassados?

Trigêcio: – Não a de todos.

Licêncio: – De quais a admites?

Trigêcio: – A dos que foram sábios.

Licêncio: – Carnéades não te parece sábio?

Trigêcio: – Não sou grego; não sei quem foi este Carnéades.

Licêncio: – Então, o que achas do nosso Cícero?

Depois de silenciar por algum tempo, respondeu Trigécio: – Foi sábio.

Licêncio: – Portanto a sua opinião sobre o nosso assunto tem algum valor para ti?

Trigécio: – Tem.

Licêncio: – Então escuta a sua opinião, pois parece que a esqueceste. O nosso Cícero pensava que é feliz quem busca a verdade, ainda que não consiga encontra-la.

Trigécio: – Onde Cícero disse isso?

Licêncio: – Quem ignora que ele afirmou enfaticamente que o homem não pode saber nada ao certo e que a única coisa que resta ao sábio é buscar diligentemente a verdade, pois se der seu assentimento às coisas incertas, ainda que talvez sejam verdadeiras, não pode estar livre de erro, o que para o sábio é a falta máxima. Portanto, se, por um lado, devermos crer que o sábio é necessariamente feliz e, se por outro, só a procura da verdade constitui na sua perfeição o ofício da sabedoria, por que hesitaríamos em pensar que a felicidade da vida possa resultar da simples busca da verdade?

Perguntou Trigécio: – É lícito voltar às afirmações admitidas irrefletidamente?

Aqui intervim: 

– Só não costumo conceder isso àqueles que numa disputa são movidos não pelo desejo de encontrar a verdade, mas por uma vaidade pueril. Aqui entre nós, principalmente considerando que ainda estais em fase de formação e educação, não só é permitido, mas quero que tenhais como princípio voltar a discutir o que tiverdes admitido inadvertidamente.

Respondeu Licêncio:

– Não é um pequeno progresso na filosofia, penso eu, um contendor desprezar a vitória na busca do que é justo e verdadeiro. É, pois, com prazer que aceito o teu princípio e a tua opinião, e permito a Trigécio – pois isso depende de mim – voltar àquilo que pensa ter admitido irrefletidamente.

Aqui interveio Alípio:

– Haveis de convir comigo que ainda não chegou o momento de cumprir o meu papel. Mas como a minha partida, marcada já há tempo, me obriga a interromper minha função de juiz, aquele que a compartilha comigo não recusará, até minha volta, exercer o seu duplo papel! Pois vejo que a disputa se prolongará bastante.

Depois que ele saiu, disse Licêncio: – O que foi que você admitiu imprudentemente?

Trigécio: – Concedi irrefletidamente que Cícero foi sábio.

Retrucou Licêncio: – Então não foi sábio Cícero, ele que iniciou e aperfeiçoou a filosofia na língua latina?

Trigécio: – Mesmo concedendo que foi sábio, não aprovo tudo o que ele disse.

Licêncio: – Então terás de rejeitar muitas outras afirmações suas, se não quiseres parecer impertinente ao reprovar justamente a opinião de que se trata aqui.

Trigécio: – E se eu afirmar que só neste ponto ele não está certo? Parece que a única coisa que vos importa é o peso das razões que aduzo para provar o que pretendo.

Licêncio: – Continua. Como ousarei contrariar quem se declara adversário de Cícero?

Trigécio: – Quero que tu, nosso juiz, te lembres como há pouco definiste a vida feliz. Disseste que feliz era aquele que vive conforme aquela parte da alma que deve comandar todas as outras. Quanto a ti, Licêncio, quero que me concedas – pois em nome da liberdade que a filosofia promete dar-nos já sacudi o julgo da autoridade – que não é perfeito quem ainda procura a verdade.

Depois de um longo silêncio, retorquiu Licêncio: – Não concedo.

Trigécio: – Por quê? Explica-te. Sou todo ouvidos para saber como um homem pode ser perfeito, mas ao mesmo tempo ainda procurar a verdade.

Licêncio: – Concedo que quem não chegou ao fim não é perfeito. Mas, a verdade, acho que só Deus a conhece ou talvez também a alma humana, depois que deixou o corpo, este cárcere tenebroso. Mas o fim do homem é procurar perfeitamente a verdade. Procuramos o homem perfeito, mas sempre, homem.

Replicou Trigécio: 

– Portanto o homem não pode ser feliz. Como poderia sê-lo, se não pode conseguir o que tão ardentemente deseja? Mas não, o homem pode viver feliz, se pode viver segundo aquela parte da alma que deve dominar no homem. Portanto, pode encontrar a verdade. Ou então, se recolha em si mesmo e renuncie ao desejo da verdade para que , não podendo alcançá-la, não seja necessariamente infeliz.

Licêncio:

– Mas justamente esta é a felicidade do homem: buscar perfeitamente a verdade. Isso é chegar ao fim, além do que não se pode passar. Portanto, quem busca a verdade com menos esforço do que deve, não alcança o fim do homem, mas quem se aplica à sua busca com todo o esforço possível e necessário, mesmo que não a encontre, é feliz, pois age totalmente segundo o fim para o qual nasceu. Se não consegues, a falta vem da natureza, que não o permitiu. Finalmente, se todo homem é necessariamente feliz ou infeliz, não será loucura chamar infeliz aquele que dia e noite com todo o afinco procura a verdade? Logo é feliz. Além disso, creio que a nossa definição confirma a minha opinião, pois se é feliz, como de fato é, quem vive segundo aquela parte da alma que deve governar as outras e esta parte se chama razão, pergunto: não vive segundo a razão quem com perfeição busca a verdade? Seria absurdo negá-lo? Por que, então, hesitaremos em afirmar que basta a busca da verdade para tornar o homem feliz?

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I – Prólogo | Livro I – Gênese | Livro I – Primeira Discussão

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

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4 comentários sobre “Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro I [Procura da Verdade e Perfeição do Homem]

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