Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Síntese da Doutrina Acadêmica]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje ler o início da quarta discussão. Nesta alguns pontos outrora debatidos serão novamente expostos num contexto mais incisivo. Boa leitura!!!

Quarta discussão – Discussão entre Agostinho e Licêncio

Síntese da doutrina acadêmica

10 – Após a discussão anterior, que apresentamos no primeiro livro, fizemos uma pausa de quase sete dias, repassando os três livros de Virgílio que seguem o primeiro, estudando-os segundo a conveniência do momento. Mas nesse trabalho, Licêncio tanto se aperfeiçoou ao estudo da poesia, que me pareceu necessário refreá-lo um pouco. Não se deixava facilmente afastar desta ocupação por nenhuma outra. Mas, finalmente, quando exaltei o quanto pude a luz da filosofia, consentiu em retomar a questão dos Acadêmicos que havíamos adiado. Por acaso o dia amanheceu tão bonito que nada parecia mais propício para dar serenidade aos nossos espíritos. Levantamo-nos mais cedo que de costume e tratamos com os camponeses os trabalhos mais urgentes. Alípio começou:

– Antes de ouvir a vossa discussão sobre os Acadêmicos, gostaria que me fosse lido o que foi tratado na minha ausência, pois como a presente disputa é ocasionada pela anterior, de outro modo não posso evitar de errar ou em todo caso de ter de fazer grandes esforços ao ouvir-vos.

Assim foi feito e nisso passamos quase toda a manhã. Depois resolvemos terminar o passeio no campo e voltar para casa. Interveio Licêncio:

– Se não te aborrecer a repetição, pediria que, antes do almoço, me expusesses brevemente toda a doutrina dos Acadêmicos, para que não me escape nada do que favorece a minha posição.

– Faça-o, respondi eu, e isso com tanto mais prazer que absorto nisso comerás menos.

Licêncio:

– Não te fies nisso, pois observei que muitos, e especialmente meu pai, têm tanto mais apetite quanto mais sobrecarregados estiverem de preocupações. Além disso, não observastes que, quando eu estava pensando nessas questões de métrica, a minha concentração não dava segurança à mesa? Costumo perguntar-me: por que comemos com mais apetite quando estamos com a mente absorta em outras coisas? Ou o que é que nos urge tanto quando estamos com as mãos e os dentes ocupados?

– Ouve antes, atalhei eu, o que me pediste a respeito dos Acadêmicos, para eu, ocupado tu com essas questões de medida, não tenha eu de suportar a tua falta de medida não só na comida, mas também nas tuas questões. Se eu ocultar algo no interesse da minha causa, Alípio o denunciará.

– É necessária a tua boa-fé, disse Alípio, pois, se tivéssemos de temer que nos ocultasse algo, creio que seria difícil surpreender o homem de quem aprendi essas coisas, como sabem todos os que me conhecem. Tanto mais que, ao expor a verdade, não atenderás menos à retidão do teu coração que ao desejo da vitória.

11 – Agirei de boa-fé, pois tens direito de exigi-lo. Os Acadêmicos afirmavam que o homem não pode alcançar a ciência das coisas referentes à filosofia – Carnéades recusava ocupar-se de qualquer outra coisa – mas que pode ser sábio e que todo o dever do sábio, como tu mesmo Licêncio, o expuseste naquela discussão, consiste na busca da verdade. Daqui resulta que o sábio não deve dar seu assentimento a nada, pois necessariamente erraria o que para o sábio é um crime, se desse seu assentimento a coisas incertas. Não se limitavam a afirmar que tudo é incerto, mas também apoiavam sua tese com numerosos argumentos. Parece que tiraram sua doutrina de que a verdade é inacessível de uma definição do estoico Zenão, segundo a qual só pode ser percebida como verdadeira uma representação que é impressa de tal modo na alma pelo objeto de onde se origina que não pode sê-lo por um objeto donde não se origina. Ou mais breve e claramente: o verdadeiro pode ser reconhecido por certos sinais que o falso não pode ter. Os Acadêmicos empenharam-se com todas as forças em demonstrar que esses sinais não podem encontrar-se jamais. Os desacordos entre os filósofos, as ilusões dos sentidos, os sonhos e os delírios, os sofismas e os sorites, tudo isso foi usado em defesa da sua tese. E como tinham aprendido do mesmo Zenão que não há nada mais desprezível que a opinião, deduziram com muita habilidade que se nada podia ser percebido e opinar era totalmente desprezível, o sábio nunca devia aprovar nada.

12 – Isso desencadeou uma grande hostilidade contra eles, pois parecia implicar que quem nada aprova nada devia fazer. Assim, parecia que os Acadêmicos condenavam o seu sábio, que, segundo eles, nada aprova, ao perpétuo sono e ao abandono de todos os seus deveres. Então, pela introdução de certo sistema de probabilidade, que também chamavam de verossimilhança, afirmaram que o sábio de modo algum deixa de cumprir os seus deveres, pois tem o princípio de conduta. Mas a verdade, segundo eles, permanece oculta ou confusa, seja por causa da semelhança enganosa das coisas. E acrescentavam que mesmo a recusa ou suspensão do assentimento era uma grande atividade do sábio.

Creio que em poucas palavras expus todo o sistema, como pediste, e que não me afastei da regra que havias fixado, Alípio, ou seja, agi de boa-fé, como se diz. Se disse alguma coisa inexata ou talvez omiti algum ponto, não o fiz voluntariamente. Portanto, pelo testemunho da minha consciência, houve boa-fé. O homem que se engana deve ser ensinado, o que engana evitado. O primeiro necessita de um bom mestre, o segundo de um discípulo precavido.

13 – Tornou Alípio:

– Agradeço-te por teres satisfeito o desejo de Licêncio e dispensado a mim do encargo que me fora imposto. Não tinhas de temer mais a omissão de alguma coisa de tua parte, com a intenção de provar-me – pois que outra razão poderias ter tido? – que eu de ser obrigado a corrigir-te. Assim, menos para preencher uma lacuna da tua exposição que para cumprir a tarefa que incumbe ao que interroga, aborrece-te explicar a diferença entre a velha e a nova Academia?

– Confesso que me aborrece, respondi eu. Não posso negar que o ponto que tocaste é da máxima importância para a nossa questão. Assim me farias um favor se distinguisses estes dois nomes e explicasses a origem da nova Academia, enquanto eu descanso um pouco.

Respondeu Alípio:

– Isso me levaria a crer que também a mim queres afastar do almoço, se não recordasse que há pouco Licêncio te atemorizou e seu pedido não nos tivesse imposto a obrigação de lhe esclarecer antes da refeição todas as dificuldades da questão.

E quando ele ia prosseguir, nossa mãe – pois já tínhamos chegado à nossa casa – começou a chamar-nos com tal insistência para o almoço, que não houve mais lugar para nenhum discurso.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I |Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.III

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

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7 comentários sobre “Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Síntese da Doutrina Acadêmica]

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