Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Balanço da discussão e plano subsequente]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.  Neste capítulo, iremos ler como São Agostinho relata o balanço de toda a discussão acerca da verdade encontrada ou não pelos sábios. Boa Leitura!

Balanço da discussão e plano subsequente

Ainda que te conceda, disse Alípio, o que , seguindo vejo, tanto te esforças por conseguir, isto é, que o sábio conhece a sabedoria e que ambos descobrimos uma coisa que o sábio pode perceber, não creio que esteja totalmente vencida a posição dos Acadêmicos. Efetivamente, vejo que lhes resta uma linha de defesa não desprezível, nem lhes foi tirada a razão da suspensão do assentimento, pois não podem abandonar sua causa só pelo argumento com o qual os julgas vencidos. Dirão que é tão certo que não se pode conhecer nada e que a nada se deve dar o assentimento, que até o princípio de que estavam convencidos por quase toda a vida até aqui como de uma coisa provável, agora acaba de lhes ser tirado pela tua conclusão. Assim, então como agora, a força deste argumento continua invicta, seja por causa da lerdeza da minha inteligência, seja realmente pela força do próprio argumento, e não é possível desalojá-los da sua posição, pois podem continuar a afirmar audazmente que nem agora se deve assentir a nada. Talvez algum dia conta a tua posição poderão eles ou outros encontrar alguma argumento que sustentarão com razões sutis e prováveis. Devemos ver sua imagem, como que num espelho, naquele Proteu, do qual se conta que costumava ser capturado onde menos se podia esperar e que os que o procuravam só conseguiam apoderar-se dele pelas indicações de alguma divindade. Que ela nos assista e se digne mostrar-nos aquela verdade que nos é tão cara. E então também eu confessarei que os Acadêmicos, ainda que contra a sua vontade, o que não creio, foram vencidos.

Muito bem, disse eu. Não desejava nada mais que isso. Vede quantas vantagens obtive! Em primeiro lugar, afirma-se que os Acadêmicos foram de tal modo vencidos, que para a sua defesa só lhes resta o argumento de que toda defesa é impossível. Ora, que poderá de qualquer modo entender ou crer que alguém que foi vencido, pelo fato de ter sido vencido, se glorie de ser vencedor? Em segundo lugar, se ainda há alguma razão de conflito com eles, esta não está em que dizem que nada podemos saber, mas na sua pretensão de que não se deve dar assentimento a nada. Portanto agora estamos de acordo. Pois, tanto a eles como a mim parece que o sábio conhece a sabedoria. Todavia lhe recomendam moderar o assentimento. Dizem que apenas lhes parece, mas que de nenhum modo sabem. Como seu eu afirmasse que sei! Digo que também a mim parece que é assim, pois somos insensatos, tanto eles como eu, se ignorarmos a sabedoria. Mas julgo que há algo que negam isso, isto é, se julgam que não se deve dar assentimento à verdade. Jamais dirão isso, mas afirmarão que não se pode encontrar a verdade. Portanto, por um certo lado me têm como aliado, enquanto não discordamos, e portanto necessariamente concordamos, que se deve dar assentimento à verdade. Mas quem a demonstrará? – perguntarão. Sobre este ponto não me preocupo em discutir com eles. Basta-me que já não seja provável que o sábio não conhece nada para não serem forçados ao absurdo de dizer que a sabedoria não é nada ou que o sábio ignora a sabedoria.

Quem pode mostrar-nos a verdade? Explicaste-o tu, Alípio, e preciso esforçar-me muito para não discordar do que disseste. Com efeito, disseste de modo não somente conciso, mas também e sobretudo religiosamente que só uma divindade pode mostrar ao homem a verdade. Ao longo  desta nossa discussão não ouvi nada mais agradável, espero, nos assiste, nada mais verdadeiro. Com que elevação de espírito e atenção ao que há de melhor em filosofia evocaste o célebre Proteu. Proteu – e aqui notai, jovens, que os poetas não devem ser totalmente desprezados pela filosofia – Proteu, digo, é a imagem da verdade. Nos poemas, Proteu assume e representa o papel da verdade, que ninguém pode alcançar, se enganado pelas falsas aparências, afrouxar ou abandonar os nós da compreensão. Pois são essas aparências que, pelo nosso hábito de ocupar-nos de  coisas corporais, por meio dos sentidos, que usamos para as necessidades desta vida, procuram enganar-nos e iludir-nos, mesmo quando estamos de posse da verdade e, por assim dizer, a temos nas mãos. E este é o terceiro êxito que obtive, que não sei como apreciar devidamente. Pois meu mais íntimo amigo concorda comigo não só no que há de provável na vida humana, mas também na própria religião, o que é o sinal mais evidente da verdadeira amizade. Com efeito, a amizade foi definida como muito acerto e santidade como “um consenso benévolo e caritativo sobre as coisas divinas e humanas”.

Todavia, para que os argumentos dos Acadêmicos não pareçam obnubilar nossa questão nem se julgue que orgulhosamente resistimos à autoridade de homens doutíssimos, entre os quais não pode deixar-nos indiferentes Túlio, começarei, se o permitir, dissertando um pouco contra aqueles que acreditam que essas discussões são dirigidas contra a verdade. A seguir, explicarei qual foi, a meu ver, a razão pela qual os Acadêmicos ocultaram seu verdadeiro pensamento. Assim, Alípio, embora te veja  completamente passado para o meu lado, assume por um momento a causa dos Acadêmicos e responde-me.

Alípio: – Como hoje avançaste, segundo se costuma dizer, sob bons auspícios, não impedirei a tua vitória completa e tratarei de assumir a defesa dos Acadêmicos  com tanto mais segurança que és tu que me impões a tarefa. Mas isso desde que, se o achares cômodo, transformes em discurso contínuo a argumentação que, segundo indicas, pretendes desenvolver em forma de perguntas, para que eu, como adversário pertinaz, prisioneiro teu, não seja crivado com teus dardos, coisa muito contrária a teus sentimentos de humanidade.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

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6 comentários sobre “Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Balanço da discussão e plano subsequente]

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