O Conclave

Saudações, queridos irmãos/leitores… Que a Paz esteja com todos vocês!

Diante da notícia de ontem acerca da famigerada renúncia do Eminentíssimo Papa Bento XVI, surgiram muitas pesquisas aqui no blog acerca do que seria e como se daria o Conclave. Vamos agora, então, tentar responder a algumas destas perguntas acerca deste tema tão fascinante e belo.

Procurei, tão somente, traçar alguns aspectos gerais acerca da eleição Papal. Para um aprofundamento maior, sugiro a leitura da Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, de 22 de fevereiro de 1996, a qual dispõe sobre a vacância da Sé Apostólica e da eleição do Romano Pontífice. Embarque comigo na escolha do sucessor de São Pedro, do comandante da Barca de Cristo, nossa Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

ASPECTOS GERAIS

papal20conclave-005

A palavra Conclave vem do latim “cum clave”, que significa “com chave”, e designa o processo, por meio de reuniões entre os Cardeais da Igreja Católica, para a eleição de um novo Papa.

A palavra Conclave foi usada pela primeira vez no ano de 1274, onde o Papa Gregório X, para evitar que as reuniões para a eleição do Papa se demorasse em demasia, determinou que os Cardeais ficassem reclusos e reunidos “com chaves” para decidirem seus votos, sem interferência externa.

O Conclave inicia-se cerca de 15 a 20 dias após a morte ou renúncia do Papa. Tal período denomina-se novemdiales, e encerra-se com a Missa Pro Eligendo Papa, onde todos os Cardeais se reúnem na Basílica de São Pedro, dirigindo-se posteriormente para a Capela Sistina, onde efetivamente começa o Conclave.

mi_5116312248265202As normas que regem o Conclave estão dispostas na Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis (aconselho vivamente a leitura), a qual dispõe que, após a morte ou renúncia do Papa, a Sé Apostólica é considerada vacante ou vaga (Sede Vacante) até a data de eleição do novo Papa.

De acordo com o art. 1º da supracitada Constituição Apostólica:

“Durante a vacância da Sé Apostólica, o Colégio dos Cardeais não tem poder ou jurisdição alguma no que se refere às questões da competência do Sumo Pontífice, enquanto estava vivo ou no exercício das funções do seu ofício; todas essas questões deverão ser exclusivamente reservadas ao futuro Pontífice. Declaro, por isso, inválido e nulo qualquer ato de poder ou de jurisdição, próprio do Romano Pontífice enquanto está vivo ou no exercício das funções do seu ofício, que o Colégio mesmo dos Cardeais julgasse exercer, a não ser dentro dos limites expressamente consentidos nesta Constituição.”

O governo da Igreja é entregue, então, de maneira restrita, como vimos acima, ao Cardeal Camerlengo, do qual, no caso da morte do Papa, é dever atestar a morte do Sumo Pontífice, fazendo-o na presença do Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, dos Prelados Clérigos e dos Secretário e Chanceler da Câmara Apostólica, redigindo, posteriormente, a ata do falecimento do Papa e convocado, ato contínuo, o Sagrado Colégio de Cardeais.

Como no caso hodierno não tivemos a morte, mas sim a renúncia do Papa, a qual passará a gerar efeitos a partir das 20:00 horas do dia 28 de fevereiro, tal convocação se dará logo após tal data, período em que se formarão também as Congregações dos Cardeais.

“No período de Sé vacante, haverá duas espécies de Congregações dos Cardeais: uma geral, isto é, de todo o Colégio, até ao início da eleição, e a outra particular. Nas Congregações gerais, devem participar todos os Cardeais não legitimamente impedidos, logo que tenham sido informados da vacância da Sé Apostólica. Contudo, aos Cardeais que não gozam do direito de eleger o Pontífice, é concedida a faculdade de se absterem, se assim o preferirem, de participar nessas Congregações gerais.

A Congregação particular é constituída pelo Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana e por três Cardeais, um de cada uma das ordens, extraídos à sorte dentre os Cardeais eleitores que já tenham chegado a Roma. O ofício destes três Cardeais, chamados Assistentes, cessa ao completar-se o terceiro dia, sucedendo-lhes no lugar, sempre por meio de sorteio, outros três pelo mesmo espaço de tempo, mesmo depois de iniciada a eleição.

Durante o período da eleição, as questões mais importantes, se fôr necessário, são tratadas pela assembleia dos Cardeais eleitores, ao passo que os assuntos ordinários continuam a ser tratados pela Congregação particular dos Cardeais. Nas Congregações gerais e particulares, durante o período de Sé vacante, os Cardeais trajem a habitual batina preta filetada e a faixa vermelha, com o solidéu, cruz peitoral e anel.” (art. 7º)

Pois bem, reunidos os Cardeais eleitores (aqueles com menos de 80 anos de idade), em número máximo de 120, inicia-se o Conclave, sob o maior sigilo e isolamento, obrigatoriamente dentro do território do Vaticano, conforme veremos de maneira pormenorizada mais abaixo.

Quanto ao sigilo, todos os Cardeais eleitores são obrigados a manter segredo absoluto sobre tudo o que diz respeito às sessões do Conclave. Regra esta extensiva também àqueles que prestem auxílio técnico ou de qualquer outro modo, os quais, se quebrado o sigilo, podem ser punidos com a excomunhão. Tal pena, todavia, não se estende aos Cardeais, visto que estes estão obrigados por princípio de consciência (graviter onerata ipsorum conscientia).

Os Cardeais ficam alojados condignamente num edifício próximo à eleição, denominado Domus Sanctae Marthae (Casa de Santa Marta), cada um numa espécie de cela, sem qualquer contato com o mundo exterior.

Após uma Missa com todos os Cardeais, duas mesas são dispostas no interior da Capela Sistina. Uma é coberta com um pano de cor púrpura, onde são colocados três vasos de prata, os quais funcionam como urnas. E a outra é reservada para os três Cardeais Escrutinadores.

O CONCLAVE

conclave3

Os Cardeais eleitores dirigem-se, então, às suas cadeiras, as quais são devidamente marcadas com seus nomes. O Cardeal Camerlengo, encarregado de dirigir o Conclave, profere, em alto e bom som, a famosa frase: “Extra Omnes!”

13_02_11_conclave_keys1É a ordem para que todos saiam da sala, fechando-se as portes “com chaves”.

O Cardeal Decano ou o primeiro dos Cardeais segundo a ordem e os anos de cardinalato, proferirá a seguinte fórmula de juramento:

“Nós, todos e cada um dos Cardeais eleitores, presentes nesta eleição do Sumo Pontífice, prometemos, obrigamo-nos e juramos observar fiel e escrupulosamente todas as prescrições contidas na Constituição Apostólica do Sumo Pontífice João Paulo II, Universi Dominici Gregis, emanada a 22 de Fevereiro de 1996. De igual modo, prometemos, obrigamo-nos e juramos que quem quer de nós, que, por divina disposição, for eleito Romano Pontífice, comprometer-se-á a desempenhar fielmente o munus Petrinum de Pastor da Igreja universal e não cessará de afirmar e defender estrenuamente os direitos espirituais e temporais, assim como a liberdade da Santa Sé. Sobretudo prometemos e juramos observar, com a máxima fidelidade e com todos, tanto clérigos como leigos, o segredo acerca de tudo aquilo que, de algum modo, disser respeito à eleição do Romano Pontífice e sobre aquilo que suceder no lugar da eleição, concernente direta ou indiretamente ao escrutínio; não violar, de modo nenhum, este segredo, quer durante quer depois da eleição do novo Pontífice, a não ser que para tal seja concedida explícita autorização do próprio Pontífice; não dar nunca apoio ou favor a qualquer interferência, oposição ou outra forma qualquer de intervenção, pelas quais autoridades seculares de qualquer ordem e grau, ou qualquer gênero de pessoas, em grupo ou individualmente, quisessem imiscuir-se na eleição do Romano Pontífice.”

Em seguida, cada um dos Cardeais eleitores, por ordem de precedência, prestará juramento com a fórmula seguinte:

“E eu, N. Cardeal N., prometo, obrigo-me e juro”, e, colocando a mão sobre o Evangelho, acrescentará: “Assim Deus me ajude e estes Santos Evangelhos, que toco com a minha mão”. Após todos efetuarem o juramento, o Cardeal Camerlengo conclui: “Que Deus vos abençoe a todos!”

São eleitos, inicialmente, os três Cardeais Escrutinadores, responsáveis por colher e contar os votos, os três Cardeais Infirmarii, responsáveis por colher os votos dos Cardeais que porventura adoecerem durante o Conclave, e os três Cardeais Revisores, responsáveis por fiscalizar os trabalhos dos Cardeais Escrutinadores.

A VOTAÇÃO

ng2376991No que concerne á votação, é consenso na Igreja Católica que o Espírito Santo guia as decisões de cada Cardeal.

Não é, portanto, um jogo de interesses ou um “arrumadinho” político, como queiram alguns, mas sim, a escolha do sucessor de Pedro. Escolha esta que é guiada e pautada pelos princípios do Evangelhos e pela destra de Deus.

Cada Cardeal pega, então, um papel branco, de forma retangular, onde está escrito “Eligo in summum pontificem” (Elejo como Sumo Pontífice), e escreve em caligrafia clara e com letras maiúsculas, o nome do Cardeal que, na sua opinião, deve se tornar o Papa.

De acordo com o art. 66 da Constituição Apostólica Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, cada Cardeal eleitor, pela ordem de precedência, depois de ter escrito e dobrado a ficha, mantendo-a levantada de modo que seja visível, leva-a ao altar, junto do qual estão os Escrutinadores e em cima do qual é colocado um recipiente coberto com um prato para recolher as fichas. Chegado aí, o Cardeal eleitor pronuncia, em voz alta, a seguinte forma de juramento:

“Invoco como testemunha Cristo Senhor, o qual me há-de julgar, que o meu voto é dado àquele que, segundo Deus, julgo deve ser eleito.“

Em seguida, depõe a ficha de voto no prato e com este introdu-la no recipiente. Tendo realizado isto, faz uma inclinação ao altar, e volta para o seu lugar.

Se algum dos Cardeais eleitores presentes na Capela não puder dirigir-se ao altar, por motivo de doença, o último dos Escrutinadores irá junto dele, e ele, depois de proferir o juramento referido, entrega a ficha de voto dobrada ao Escrutinador o qual a leva, bem visível, ao altar e, sem pronunciar o juramento, depõe-na sobre o prato e com este introdu-la no recipiente.

ng2376998Acabada a votação, o 1º Cardeal Escrutinador leva o vaso contendo as cédulas de votação para a mesa de escrutínio, coloca os votos num vaso de vidro, e os Cardeais Escrutinadores procederão a contagem. O 1º Cardeal Escrutinador anota o nome e passa a cédula para o 2º Cardeal Escrutinador, que também anota o nome, passando em seguida para o 3º Cardeal Escrutinador, que o lê, em voz alta e de maneira legível. Ele pega, então, a cédula do votação, fura e cose-a com agulha e linha. Detalhe: a agulha deve perfurar a palavra Eligo impressa no voto.

Os votos são colocados no terceiro vaso, onde são contados e apurados.

A APURAÇÃO

Se a votação não for concludente, ou seja, se nenhum Cardeal tiver recebido no mínimo 2/3 dos votos, volta-se tudo ao início da votação. O Cardeal Camerlengo recolhe as anotações dos Cardeais, inclusive dos Escrutinadores, dos Infirmarii, e dos Revisores, e deposita tudo numa caixa, a qual é levada ao fogão da Capela Sistina, onde é juntado um pouco de palha molhada, para que a fumaça saia negra, sinal de que ainda não se escolheu o nome do Papa.

1113887370Caso os Cardeais eleitores tenham dificuldade em pôr-se de acordo quanto à pessoa a eleger, realizados sem êxito durante três dias os escrutínios, estes serão suspensos durante um dia, no máximo, para uma pausa de oração, de livre colóquio entre os votantes e de uma breve exortação espiritual, feita pelo primeiro dos Cardeais da ordem dos Diáconos.

Em seguida, recomeçam as votações segundo a mesma forma, e se, após sete escrutínios, ainda não se verificar a eleição, faz-se outra pausa de oração, de colóquio e de exortação, feita pelo primeiro dos Cardeais da ordem dos Presbíteros.

Procede-se, depois, a uma outra eventual série de sete escrutínios, seguida – se ainda não se tiver obtido o resultado esperado -, de uma nova pausa de oração, de colóquio e de exortação, feita pelo primeiro dos Cardeais da ordem dos Bispos.

Em seguida, recomeçam as votações segundo a mesma forma, as quais, se não for conseguida a eleição, serão sete.

Se ainda ainda assim não se chegar a um nome, tomam-se os nomes dos dois Cardeais mais votados no último escrutínio, entre os quais se dará a eleição, por maioria simples dos votos.

A FUMAÇA BRANCA

FUMO8_350x254Quando se chegar, enfim, ao nome do novo Papa, o Camerlengo queima, então, apenas as cédulas de votação, fazendo com que a fumaça saia branca, sinal para todo o povo de que temos um Papa.

Assim, após os escrutínios, verificada a canonicidade da eleição realizada, o último dos Cardeais Diáconos chama para dentro do local da eleição o Secretário do Colégio dos Cardeais e o Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias; em seguida, o Cardeal Decano, ou o primeiro dos Cardeais segundo a ordem e os anos de cardinalato, e, em nome de todo o Colégio dos eleitores, pede o consenso do eleito com as seguintes palavras: “Aceitas a tua eleição canônica para Sumo Pontífice?”

Uma vez recebido o consenso, pergunta-lhe: “Como queres ser chamado?” Então o Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, na função de Notário e tendo por testemunhas dois Cerimoniários, que serão chamados naquele momento, redige um documento com a aceitação do novo Pontífice e o nome por ele assumido.

Depois da aceitação, o eleito que tenha já recebido a Ordenação episcopal, é imediatamente o Bispo da Igreja de Roma, verdadeiro Papa e Cabeça do Colégio Episcopal; e adquire efetivamente o poder pleno e absoluto sobre a Igreja universal, e pode exercê-lo. Se, pelo contrário, o eleito não possuir o carácter episcopal, seja imediatamente ordenado Bispo.

Recebe, por fim, por parte dos Cardeais ali presentes, o “ato de obediência”, onde um a um  prostra-se diante dele.

Imagem de vídeo mostra papa Bento 16o, o alemão Joseph Ratzinger, na sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano

Pouco tempo depois, o Cardeal Protodiácono e Decano vai até a varanda da Basílica de São Pedro anunciar ao mundo a notícia, nas seguintes palavras:

Annuntio vobis gaudium magnum:
Habemus Papam!
Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum,
Dominum (primeiro nome, pronunciado em latim),
Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem (sobrenome, pronunciado na língua original),
qui sibi nomen imposuit (nome papal, em latim).

Tradução:

Anuncio-vos com a maior alegria!:
Temos Papa!
Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor,
Senhor (primeiro nome),
Cardeal da Igreja Católica Romana (sobrenome),
que escolheu para si o nome de (nome papal).

URBI ET ORBI

Após o anúncio, o Papa é apresentado ao povo e dá a Bênção Apostólica Urbi et Orbi (“à cidade [de Roma] e ao mundo”), a qual concede uma penitência e indulgência plenária, sob as condições definidas pelo Código de Direito Canônico (ter se confessado e recebido a Comunhão, e não estar em pecado mortal).

Eis o texto da bênção:

Sancti Apostoli Petrus et Paulus: de quorum potestate et auctoritate confidimus ipsi intercedant pro nobis ad Dominum.

R: Amen.

Precibus et meritis beatæ Mariae semper Virginis, beati Michaelis Archangeli, beati Ioannis Baptistæ, et sanctorum Apostolorum Petri et Pauli et omnium Sanctorum misereatur vestri omnipotens Deus; et dimissis omnibus peccatis vestris, perducat vos Iesus Christus ad vitam æternam.

R: Amen.

Indulgentiam, absolutionem et remissionem omnium peccatorum vestrorum, spatium verae et fructuosae poenitentiæ, cor semper penitens, et emendationem vitae, gratiam et consolationem Sancti Spiritus; et finalem perseverantiam in bonis operibus tribuat vobis omnipotens et misericors Dominus.

R: Amen.

Et benedictio Dei omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti descendat super vos et maneat semper.

R: Amen.

Tradução:

Que os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, em cujo poder e autoridade temos confiança, intercedam por nós junto ao Senhor.

R: Amém.

Que por meio das orações e dos méritos da Santíssima Virgem Maria, de São Miguel Arcanjo, de São João Batista, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, Deus todo-poderoso tenha misericórdia de vós, perdoe os vossos pecados e vos conduza à vida eterna em Jesus Cristo.

R: Amém.

Que o Senhor Todo Poderoso e misericordioso vos conceda indulgência, absolvição, e remissão de todos os vossos pecados, em tempo para uma verdadeira e frutuosa penitência, sempre com coração contrito, e a benção da vida, a graça, a consolação do Espírito Santo e perseverança final nas boas obras.

R: Amém.

E que a bênção de Deus Todo Poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre.

R: Amém.

É isto! Dentro em breve, teremos um novo Papa.

Sua Santidade, o Papa Bento XVI, cumpriu a sua missão de forma magistral, corajosa e com uma fé e confiança em Deus nas quais devemos nos espelhar, mas, suas forças não suportaram o peso da idade. E ele, com a prudência que lhe é peculiar, renunciou ao ministério petrino, deixando espaço para mais um Conclave, o qual será, mais uma vez, guiado pelos ventos do Espírito Santo.

Espero ter conseguido elucidar algumas dúvidas acerca deste processo tão belo e cheio de santidade que é o Conclave.

De nossa parte cabe agora rezar, com todo o nosso coração e nossa alma, para que o Espírito Santo invada aqueles aposentos, suscitando e inspirando as ações daqueles Cardeais, para que sempre seja feita, para o bem da nossa Igreja, da Igreja de Cristo, a vontade soberana do Pai.

Um grande abraço e fiquem todos com Deus!

Alex Cardoso Vasconcelos, Advogado, Notário da Câmara Eclesiástica da Arquidiocese de Maceió e Acólito na Paróquia Divino Espírito Santo – Maceió/AL

Livro Maria Sempre Virgem e SantaVeja também o novo livro do Cadu (Administrador do Blog Dominus Dominus Vobiscum): Maria Sempre Virgem e Santa. Nele você vai encontrar ensinamentos seguros da doutrina da Igreja a respeito da Santíssima Virgem Maria, além das orações mais tradicionais da nossa Igreja à Virgem Mãe de Deus. Vendas apenas pela internet nos sites Clube de Autores e Agbook. Um livro para quem deseja ser mais íntimo de Nossa Senhora.

Anúncios

Renúncia do Papa e oração…

Queridos irmãos, fomos surpreendidos hoje com a forte notícia da renúncia do Papa Bento XVI à Sé de São Pedro.

Italy - Religion - Pope Benedict XVI - Easter Celebration

Conforme suas próprias palavras, tal renúncia se deve à sua avançada idade na condução do ministério petrino, foi feita livremente e devidamente manifestada, conforme dispõe o Cân. 332, § 2º, do Código de Direito Canônico, e estaria marcada para as 20:00 horas do dia 28 de fevereiro, quando então entraríamos no período de Sede Vacante, iniciando a convocação para o Conclave.

Apenas à guiza de esclarecimento, durante este período, o comando da “Barca de Pedro” estará confiado ao Colégio Cardinalício, o qual seguirá as normas estabelecidas pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada pelo Papa João Paulo II em 22 de fevereiro de 1996.

Durante este período, cessa o exercício das funções de todos os Responsáveis dos Dicastérios da Cúria Romana e seus membros, excetuando-se o Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana (Cardeal Tarcisio Bertone) e o Penitenciário-Mor (Dom Manuel Monteiro de Castro). Estes continuam despachando assuntos ordinários, submetendo ao Colégio dos Cardeais o que deveria ser referido ao Sumo Pontífice.

Duas espécies de Congregações de Cardeais são formadas: uma geral, de todo o Colégio e outra particular, formada pelo Camerlengo e três Cardeais Assistentes.

Durante este período rege o princípio de nihil innovetur (que não se inove nada). O governo da Igreja fica confiado ao Colégio Cardinalício somente para o despacho dos assuntos ordinários ou dos inadiáveis e para a preparação de tudo necessário para a eleição do novo Pontífice.

O Colégio Cardinalício não terá nenhuma potestade ou jurisdição sobre as questões que correspondem ao Sumo Pontífice em vida ou no exercício das funções de sua missão; todas estas questões devem ficar reservas exclusivamente ao futuro Pontífice. Neste período, o Colégio Cardinalício pode se reunir em dois tipos de reuniões: as Congregações Gerais e as Congregações Particulares.

Devem assistir à Congregação Geral todos os Cardeais não impedidos legitimamente; podem ausentar-se os Cardeais que não têm direito a participar da eleição do Papa. Nela são decididos os assuntos de maior importância, e devem ser celebradas diariamente. Os assuntos são decididos por maioria simples de votos. A Congregação Particular é formada pelo Cardeal Camerlengo e outros três Cardeais escolhidos por sorteio, chamados Assistentes. Nela são decididos os assuntos de trâmites e de menos importância.

Contudo, ademais todo o processo em que a Igreja se envolverá para a eleição do novo Papa, uma coisa nos é confiada, como Igreja que somos: rezar!

Nossas orações, diante deste momento, devem ser dirigidas ao Pai pela eleição de “Pedro”, para que Ele, o Esposo, dirija a Esposa ao porto seguro da Salvação, e a entregue a um comandante cheio do Espírito Santo, e que este mesmo Espírito o ilumine e o guarde.

Rezemos, irmãos, com tudo o que temos, com tudo o que somos, para que a Luz invada as portas do Vaticano neste momento, e para que o Conclave seja guiado por esta mesma Luz, que reflete as maravilhas do Céu.

Rezemos também por Bento XVI, este exemplo de grandeza e de homem que deu a vida pela Igreja de Cristo, para que o Espírito Santo o sustente nesta difícil decisão, o qual, nas palavras do ontem no Angelus afirmou:

“O homem não é o autor da própria vocação, mas dá resposta à proposta divina; e a fraqueza humana não deve ter medo se Deus chama. É preciso ter confiança na sua força que atua precisamente na nossa pobreza; temos de confiar sempre mais no poder da sua misericórdia, que transforma e renova”.

Por fim, agradeçamos a Deus por este presente que foi o Papa Bento XVI para a Igreja Católica, e para o mundo.

Nos próximos posts, vamos falar mais um pouco sobre o Conclave e como se dará este processo. Fiquem todos com Deus! Em oração…

Equipe Dominus Vobiscum

Comunicado do Papa Bento XVI sobre a renúncia

O Vaticano confirmou a notícia e afirma que o papado ficará vago até que o sucessor seja escolhido.

Eis as palavras com que Bento XVI anunciou a sua decisão:

papa-bento-xvi-5

Caríssimos Irmãos,

convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20:00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.

Benedictus pp. XVI

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 10 – Como será celebrado no verão o louvor divino

1. De Páscoa até primeiro de novembro, mantenha-se, quanto à salmodia, a mesma medida acima determinada; 2. as lições do livro, porém, por causa da brevidade das noites, não são lidas; em lugar dessas três lições, seja recitada de memória uma do Antigo Testamento, seguida de responsório breve, 3. e cumpram-se todas as outras coisas como ficou dito acima, isto é: que nunca se digam nas Vigílias noturnas, menos de doze salmos além do terceiro e do nonagésimo quarto.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 9 – Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas

1. No tempo de inverno acima citado, diga-se em primeiro lugar o versículo, repetido três vezes: “Senhor, abrireis os meus lábios e minha boca anunciará vosso louvor”, 2. ao qual deve ser acrescentado o salmo terceiro e o “Glória”. 3. Depois desse, o salmo nonagésimo quarto, com antífona, ou então cantado. 4. Segue-se o Ambrosiano e depois seis salmos com antífonas. 5. Recitados esses e dito o versículo, o Abade dê a bênção; depois, achando-se todos sentados nos bancos sejam lidas pelos irmãos, um de cada vez, três lições do livro que está sobre a estante. Entre elas cantem-se três responsórios. 6. Dois destes responsórios são ditos sem “Glória”, porém, depois da terceira lição, quem está cantando diga o “Glória”. 7. Quando esse começar, levantem-se logo todos de seus assentos em honra e reverência à Santíssima Trindade. 8. Leiam-se, nas Vigílias, os livros de autoria divina, tanto do Antigo como do Novo Testamento, e também as exposições que sobre eles fizeram os Padres católicos conhecidos e ortodoxos. 9. A essas três lições com seus responsórios, sigam-se os seis salmos restantes cantados com “Aleluia”. 10. Vêm, em seguida, a lição do Apóstolo, que deve ser recitada de cor, o versículo e a súplica da litania, isto é, “Kyrie eleison”, 11. e assim terminem as Vigílias noturnas.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 8 – Dos Ofícios Divinos durante a noite

1. Em tempo de inverno, isto é, de primeiro de novembro até a Páscoa, em consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à oitava hora da noite 2. de modo que durmam um pouco mais da metade da noite e se levantem tendo já feita a digestão.

3. O tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação de algum trecho do saltério ou das lições, por parte dos irmãos que disto necessitarem.

4. Da Páscoa, porém, até o referido dia primeiro de novembro, seja regulada a hora de tal maneira que as Matinas que devem ser celebradas quando começa a clarear, venham em seguida ao ofício das Vigílias, depois de brevíssimo intervalo, durante o qual os irmãos saem para as necessidades naturais.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 7 – Da humildade

1. Irmãos, a Escritura divina nos clama dizendo: “Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado”. 2. Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba, 3. da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: “Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. 4. Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe, assim retribuirias a minha alma.

5. Se, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, 6. deve ser erguida, pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e desciam. 7. Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela humildade se sobe. 8. Essa escada ereta é a nossa vida no mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se humilha. 9. Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.

10. Assim, o primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento, 11. e esteja, ao contrário, sempre lembrado de tudo o que Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; 12. e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, 13. considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos. 14. Mostra-nos isso o Profeta quando afirma estar Deus sempre presente aos nossos pensamentos: “Deus que perscruta os corações e os rins”. 15. E também: “Deus conhece os pensamentos dos homens”. 16. E ainda: “De longe percebestes os meus pensamentos” 17. e “o pensamento do homem vos será confessado”. 18. Portanto, para que esteja vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: “se me preservar da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d’Ele”.

19. Assim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: “Afasta-te das tuas próprias vontades”. 20. E, também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua vontade.

21. Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade, enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: “Há caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno”, 22. e enquanto, também, nos apavoramos com o que foi dito dos negligentes: “Corromperam-se e tornaram-se abomináveis nos seus prazeres”. 23. Por isso, quando nos achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor: “Diante de vós está todo o meu desejo”.

24. Devemos, portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi colocada junto à porta do prazer. 25. Sobre isso a Escritura preceitua dizendo: “Não andes atrás de tuas concupiscências”. 26. Logo, se os olhos do Senhor “observam os bons e os maus”, 27. e “o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para ver se há algum inteligente ou que procura a Deus” 28. e se, pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que fazemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor, 29. devemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, 30. e para que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no futuro: “Fizeste isto e calei-me”.

31. O segundo grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, 32. mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: “Não vim fazer a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”. 33. Do mesmo modo, diz a Escritura: “O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera a coroa”.

34. O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: “Fez-se obediente até a morte”.

35. O quarto grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas coisas duras e adversas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias, 36. e, suportando tudo, não se entregue nem se vá embora, pois diz a Escritura: “Aquele que perseverar até o fim será salvo”. 37. E também: “Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor”. 38. E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: “Por vós, somos entregues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas”. 39. Seguros na esperança da retribuição divina, prosseguem alegres dizendo: “Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou”. 40. Também, em outro lugar, diz a Escritura: “Ó Deus, provastes-nos, experimentastes-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nossos ombros”. 41. E para mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua: “Impusestes homens sobre nossas cabeças”. 42. Cumprindo, além disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversidades e injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam duas; 43. suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e abençoam aqueles que os amaldiçoam.

44. O quinto grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de mal tenha cometido ocultamente, mas em lho revelar humildemente, 45. exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz: “Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele”. 46. E quando diz ainda: “Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna”. 47. Do mesmo modo o Profeta: “Dei a conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas injustiças. 48. Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor, e perdoastes a maldade de meu coração”.

49. O sexto grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que lhe seja ordenado fazer, se considere mau e indigno operário, 50. dizendo-se a si mesmo com o Profeta: “Fui reduzido a nada e não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou sempre convosco”.

51. O sétimo grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no íntimo pulsar do coração, 52. humilhando-se e dizendo com o Profeta: “Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos homens e a abjeção do povo: 53. exaltei-me, mas, depois fui humilhado e confundido”. 54. E ainda: “É bom para mim que me tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos”.

55. O oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores.

56. O nono grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja interrogado, 57. pois mostra a Escritura que “no muito falar não se foge ao pecado” 58. e que “o homem que fala muito não se encaminhará bem sobre a terra”.

59. O décimo grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e pronto ao riso, porque está escrito: “O estulto eleva sua voz quando ri”.

60. O undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, 61. conforme o que está escrito: “O sábio manifesta-se com poucas palavras”.

62. O duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o vêem, 63. isto é, que no ofício divino, no oratório, no mosteiro, na horta, quando em caminho, no campo ou onde quer que esteja, sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, 64. considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tenha-se já como presente diante do tremendo juízo de Deus, 65.dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: “Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus”. 66. E ainda, com o Profeta: “Estou completamente curvado e humilhado”.

67. Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando perfeita, afasta o temor; 68. por meio dela tudo o que observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum labor, como que naturalmente, pelo costume, 69. não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume bom e pela deleitação das virtudes.

70. Eis o que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 6 – Do silêncio

1. Façamos o que diz o profeta: “Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas”. 2. Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? 3. Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, 4. pois está escrito: “Falando muito não foges ao pecado”, 5. e em outro lugar: “a morte e a vida estão em poder da língua”. 6. Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.

7. Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. 8. Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 5 – Da obediência

1. O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. 2. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; 3. por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, 4. desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. 5. Deles diz o Senhor: “Logo ao ouvir-me, obedeceu-me”. 6. E do mesmo modo diz aos doutores: “Quem vos ouve a mim ouve”.

7. Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade, 8. desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. 9. E, como que num só momento, ambas as coisas – a ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo – são realizadas simultânea e rapidamente, na prontidão do temor de Deus. 10. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; 11. por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: “Estreito é o caminho que conduz à vida”, 12.e assim, não tendo, como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. 13. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: “Não vim fazer minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”.

14. Mas essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. 15. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: “Quem vos ouve, a mim me ouve”. 16. E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque “Deus ama aquele que dá com alegria”. 17. Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, 18. ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar; 19. e por tal ação não consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação.

Série Espiritualidade: “Regra de São Bento”

stbenedictCapítulo 4 – Quais são os instrumentos das boas obras

1. Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.
2. Depois, amar ao próximo como a si mesmo.
3. Em seguida, não matar.
4. Não cometer adultério.
5. Não furtar.
6. Não cobiçar.
7. Não levantar falso testemunho.
8. Honrar todos os homens. 9. E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.
10. Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.
11. Castigar o corpo.
12. Não abraçar as delícias.
13. Amar o jejum.
14. Reconfortar os pobres.
15. Vestir os nus.
16. Visitar os enfermos.
17. Sepultar os mortos.
18. Socorrer na tribulação.
19. Consolar o que sofre.
20. Fazer-se alheio às coisas do mundo.
21. Nada antepor ao amor de Cristo.
22. Não satisfazer a ira.
23. Não reservar tempo para a cólera.
24. Não conservar a falsidade no coração.
25. Não conceder paz simulada.
26. Não se afastar da caridade.
27. Não jurar para não vir a perjurar.
28. Proferir a verdade de coração e de boca.
29. Não retribuir o mal com o mal.
30. Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas.
31. Amar os inimigos.
32. Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los.
33. Suportar perseguição pela justiça.
34. Não ser soberbo.
35. Não ser dado ao vinho.
36. Não ser guloso.
37. Não ser apegado ao sono.
38. Não ser preguiçoso.
39. Não ser murmurador.
40. Não ser detrator.
41. Colocar toda a esperança em Deus.
42. O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo. Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo.
43. Temer o dia do juízo.
44. Ter pavor do inferno.
45. Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.
46. Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.
47. Vigiar a toda hora os atos de sua vida.
48. Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.
49. Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual.
50. Guardar sua boca da palavra má ou perversa.
51. Não gostar de falar muito.
52. Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.
53. Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.
54. Ouvir de boa vontade as santas leituras.
55. Dar-se freqüentemente à oração.
56. Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e 57. daí por diante emendar-se delas.
58. Não satisfazer os desejos da carne.
59. Odiar a própria vontade.
60. Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: “Fazei o que dizem, mas não o que fazem”.
61. Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento.
62. Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus.
63. Amar a castidade.
64. Não odiar a ninguém.
65. Não ter ciúmes.
66. Não exercer a inveja.
67. Não amar a rixa.
68. Fugir da vanglória.
69. Venerar os mais velhos.
70. Amar os mais moços.
71. Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.
72. Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença.
73. E nunca desesperar da misericórdia de Deus.
74. Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: “O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam”. São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.