Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Caráter substancial e não meramente verbal da controvérsia sobre o “verossímil”]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao tema do “verossímil”. Apesar de ser um tanto curto, o objeto deste é incutir o conceito da verossimilhança. Boa leitura!

Caráter substancial e não meramente verbal da controvérsia sobre o “verossímil”

Alípio: – Agora prosseguirei com segurança, pois vejo que serás menos um acusador que um auxiliar. Assim, para não nos afastarmos demasiado do assunto, peço-te que tratemos antes que esta discussão, em que tomo o lugar daqueles que cederam perante ti, não degenere em controvérsia de palavras, o que, por insinuação tua e apoiados na autoridade de Túlio, muitas vezes declaramos ser totalmente ignóbil. Com efeito, se não me engano, tendo Licêncio dito que lhe agradava a opinião dos Acadêmicos sobre a probabilidade, perguntaste-lhe – ele confirmou que sim – se sabia que eles também a chamavam de verossimilhança. E bem sei, por tê-lo aprendido de ti mesmo, que as opiniões dos Acadêmicos não te são desconhecidas. Se, como eu disse, isso está gravado no teu espírito, não entendo por que te prendes a questões de palavras.

Respondi: – Não se trata, acredita-me, de uma simples querela de palavras, mas de uma importante controvérsia sobre a própria realidade das coisas. Não julgo que os Acadêmicos tenham sido homens que não saibam das os nomes certos às coisas. Parece-me que escolheram tais palavras para, ao mesmo tempo, ocultar a sua doutrina aos medíocres e revela-la aos espíritos mais penetrantes. Explicarei o porquê e como da minha opinião depois de discutir o que se lhes atribui e  os faz considerar como inimigos do conhecimento humano. Assim, estou muito feliz que hoje a nossa conversação tenha chegado a um ponto em que aparece claramente qual a questão discutida entre nós. Parece-me que os Acadêmicos foram homens absolutamente sérios e prudentes. E se há algo que agora discutiremos, será contra aqueles que julgaram que os Acadêmicos se opunham à descoberta da verdade. Mas não vás imaginar que eu tenha medo deles. Não terei dúvida em investir também contra eles, se o que lemos nos seus livros o sustentaram por convicção e não para ocultar a sua opinião a fim de evitar que certos aspectos sagrados da verdade fossem expostos a espíritos corrompidos e, por assim dizer, profanos. É o que eu faria hoje, se o acaso do sol não nos obrigasse a voltar para casa. Aqui terminou a discussão daquele dia.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I |Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.III | Livro II – Síntese da Doutrina Acadêmica | Livro II – Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga | Livro II – Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro | Livro II – Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade a discussão da temática abordada nos capítulos anteriores. Boa leitura!

Discussão entre Agostinho e Alípio – Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade

Alípio: – Gostaria, pois, que dissesses bom acusador dos Acadêmicos, qual é o teu papel, ou seja, em favor de quem os atacas. Receio que, ao refutar os Acadêmicos, queiras mostrar-te um Acadêmico.

Respondi: – Bem sabes, creio que há duas espécies de acusadores. Pois se Cícero disse com excessiva modéstia que era acusador de Verres, para ser defensor dos Sicilianos, daqui não se segue que quem acusa alguém necessariamente esteja defendendo um outro.

Alípio: – Tens pelo menos algum fundamento onde apoiar a tua opinião?

Respondi: – É fácil responder a esta pergunta, sobretudo porque ela não me colhe de surpresa. Já refleti muito e longamente sobre todas essas questões. Por isso, Alípio, ouve o que, segundo creio, já sabes muito bem. Não quero que esta discussão prossiga só pelo prazer de discutir. Bastam o que ensaiamos com estes jovens, quando a filosofia, por assim dizer, brincou livremente conosco. Deixemos de lado as fábulas infantis. Trata-se da nossa vida, dos costumes e da alma. Esta espera supera os perigos de todas as falácias e depois de abraçada a verdade, como que voltando a região da sua origem, triunfar sobre as paixões e assim, desposando a temperança, reinar, mais segura de voltar ao céu. Entendes o que quero dizer. Abandonemos tudo isso. “É preciso preparar as armas para um valente guerreiro”. Não há nada que eu tenha desejado menos que ver surgir entre os que tanto tempo conviveram e conversaram entre si algo que dê origem a um novo conflito. Mas por causa da memória, que é guarda infiel das coisas que pensamos, quis que fossem recolhidas por escrito as questões que frequentemente tratamos entre nós para que estes jovens aprendam a refletir sobre estes assuntos e, ao mesmo tempo, se exercitem no ataque e na defesa.

Não sabes, pois, que ainda não tenho nada como certo e que os argumentos e disputas dos Acadêmicos em impedem de procura-lo? Pois não sei de que modo me fizeram admitir como provável, para não fugir da sua expressão, que o homem não pode encontrar a verdade. Isso me deixara preguiçoso e indolente e eu não ousava buscar o que homens tão inteligente e doutos não conseguiram encontrar. Se não conseguir convencer-me da possibilidade de descobrir a verdade tão fortemente quanto os Acadêmicos estavam convencidos do contrário, não ousarei procurar e não tenho nada a defender. Portanto, deixa de lado a tua pergunta, por favor. Discutamos, antes, entre nós, com toda a perspicácia, se é possível encontrar a verdade. De minha parte, creio ter já muitos argumentos contra a doutrina dos Acadêmicos. Por hora a nossa diferença de opinião se reduz a isto: Eles acham provável que não se pode encontrar a verdade e eu julgo provável que se pode encontra-la. Pois a ignorância da verdade me é particular, se eles fingiam, ou então é comum a mim e a eles.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I |Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.III | Livro II – Síntese da Doutrina Acadêmica | Livro II – Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga | Livro II – Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao entendimento do capítulo anterior ( Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga ). Aqui, São Agostinho inicia a demonstrar como a nova e a velha Academia são “quase” a mesma coisa.

Outro ponto interessante, será o convite de Trigécio a Alípio para que entre na discussão a fim de defender a Academia e tentar derrubar as afirmativas de São Agostinho.

Boa leitura!

Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro

16 – Tomei então a palavra:

                – Licêncio, até quando continuarás parado nesta conversa que já se prolonga mais do que eu esperava? Ouviste quem são os teus Acadêmicos?

                Sorrindo envergonhado e um tanto perturbado pela minha interpelação, disse ele:

                – Arrependo-me de ter sustentado com tamanha ênfase contra Trigécio que a vida feliz consiste na busca da verdade. Pois esta questão de tal modo me perturba que se não chego a ser infeliz, certamente devo ser considerado digno de pena por vós, se tendes algum sentimento de humanidade. Mas por que me atormento tolamente? Por que me abalar se me apoio numa causa tão boa? Só cederei à verdade.

                – Agradam-te os novos Acadêmicos? – disse eu.

                – Muitíssimo – respondeu Licêncio.

                – Logo te parecem dizer a verdade? Retruquei.

                Licêncio já estava para concordar, mas, ao ver o sorriso de Alípio, tornou-se mais cauteloso, hesitou um pouco e disse:

                – Repete a pergunta!

                Respondi:

                – Crês que os Acadêmicos dizem a verdade?

                Depois de novo prolongado silêncio, Licêncio respondeu:

                – Não sei se é a verdade, mas é provável. Já não vejo mais o que seguir.

                Disse eu:

                – Sabes que eles chamam o provável de verossímil?

                Licêncio:

                – Assim parece.

                – Portanto, a opinião dos Acadêmicos é verossímil? Indaguei eu.

                – Sim, respondeu ele.

                Continuei eu:

                – Presta atenção ao seguinte: se alguém, ao ver teu irmão, afirma que ele é semelhante ao teu pais, que não conhece, não te parece que tal pessoa é louca ou tola? Licêncio permaneceu calado certo tempo e por fim respondeu: – Isso não me parece absurdo.

17 – Quando ia começar a responder-lhe, ele atalhou:

                – Espera um pouco. E sorrindo:

                – Dize-me, já estás certo da tua vitória?

                – Suponhamos que sim, disse eu. Mas nem por isso deves abandonar a tua causa, tanto menos que a nossa discussão foi travada com a finalidade de exercitar-te e de aperfeiçoar o teu espírito.

Licêncio:

                – Porventura li eu os Acadêmicos, ou fui formado em todas estas disciplinas com as quais me enfrentas?

                – Nem aqueles que por primeiro defenderam esta opinião tinham lido os Acadêmicos. E se te falta a informação e a riqueza de muitos conhecimentos, nem por isso a tua inteligência há de ser tão impotente que logo sucumba ao ímpeto das minhas poucas palavras e perguntas. Já estou começando a recear que Alípio venha a substituir-te antes que eu queria, adversário contra o qual não avançarei com tanta segurança.

Licêncio:

                – Então, oxalá seja eu vencido logo para que finalmente vos ouça e mais do que isso, vos veja disputando, pois nada me daria mais prazer que esse espetáculo. Preferistes recolher esses discursos a espalhá-los, pois o estilo recolhe o que sai da boca, para que nada caia por terra, como se diz. Com isso também poderei ler-vos. Mas, não sei por que, quando se têm diante dos olhos os adversários que discutem entre si, uma boa disputa penetra o espírito, se não com mais proveito, certamente com mais agrado.

18 – Agradecemos-te, disse eu. Mas a tua súbita alegria fez com que deixasses escapar imprudentemente a opinião de que nenhum espetáculo te poderia ser mais agradável. Que seria, então, se visses indagando a verdade e discutindo conosco teu pai, a quem, depois de tão prolongada sede, ninguém superaria no ardor para abeberar-se nas fontes da filosofia? Se já para mim isso seria o cúmulo da felicidade, o que não sentirias e dirias tu?

                A estas palavras Licêncio não conteve as lágrimas. Quando pôde falar, ergueu as mãos, olhou para o céu e exclamou:

                – Quando, meu Deus, verei isso? Mas não há nada que não se possa esperar de ti!

Estávamos quase todos com os olhos rasos d’água, a ponto de esquecer a discussão, quando eu, lutando comigo mesmo, mal me contendo, disse:

                – Coragem, recobre tuas forças! Já muito antes eu te advertira que te preparasses em vista de tua futura defesa da Academia. Não creio, pois, que “antes do som da trombeta o tremor se apodere de teus membros”, ou que o desejo de ver os outros combaterem te faça tão rapidamente querer ser prisioneiro.

                Então Trigécio, ao ver-nos de semblantes já serenados, disse:

                – Por que este homem tão virtuoso não desejaria que Deus lhe conceda este favor antes de tê-lo pedido? Acredita-me, Licêncio, como não encontras o que responder e ainda desejas ser vencido, parece ter pouca confiança.

Todos rimos. E Licêncio retrucou:

– Fala, então, tu que és feliz sem encontrar a verdade, e certamente sem procurá-la.

19 – Divertiu-nos a jovialidade dos rapazes. Prossegui eu:

                – Volta à minha pergunta e segue com mais firmeza e vigor, se puderes.

                Licêncio:

                – Estou pronto em quanto posso. Pois bem, se o homem que viu meu irmão soube por ouvir dizer que ele é parecido com o pai, pode ser considerado louco ou tolo, se acreditar?

                – Mas pelo menos pode ser considerado insensato? Perguntei

                Licêncio:

                – Não, desde que não afirme sabe-lo.  Pois se considera provável o que ouviu repetir, não pode ser acusado de temeridade.

                Continuei:

                – Examinemos um pouco a questão em si e representemo-la aqui ante nossos olhos. Suponhamos que o tal homem de que falamos está presente aqui. Aparece teu irmão. Nosso homem indaga:

                – De quem é filho este rapaz?

                – De certo Romaniano, respondem-lhe.

                – Como é parecido com o pai! Exclama o homem. Era bem verdade o que me dissera.

Então tu ou algum outro pergunta:

                – Então conheces Romaniano?

                Responde o homem:

                – Não o conheço, mas parece-me que seu filho é parecido com ele.

                Poderá alguém conter o riso diante disso? Licêncio:

                – Certamente que não.

                – Logo, já vês a consequência que daqui segue, continuei.

                Licêncio:

                – Já faz tempo que a vejo. Todavia gostaria de ouvir de ti a conclusão, pois é necessário que comeces a alimentar a quem aprisionaste.

                Respondi eu:

                – Por que não o faria eu? A própria evidência clama que de maneira semelhante devemos rir dos teus Acadêmicos que afirmam seguir na vida o que se assemelha à verdade, quando ignoram a própria verdade.

Intervenção de Trigécio e convite a Alípio para que tome as defesas dos Acadêmicos

20 – Tomou a palavra Trigécio:

                – A precaução dos Acadêmicos parece-me muito diferente da tolice do homem de que falaste. Pois é através de raciocínios que eles chegam ao que dizem ser verossímil, enquanto aquele insensato seguiu a fama, cuja autoridade é a coisa mais desprezível.

                – Como se não fosse mais tolo, intervim eu, se ele dissesse: não conheço o pai dele nem soube por ouvir dizer quão semelhante é o filho ao pai, contudo acho que é parecido.

                Trigécio:

                – Sem dúvida, seria mais tolo. Mas a que vem isso?

                – Tais são, respondi, aqueles que dizem: não conhecemos a verdade, mas o que vemos é semelhante ao que não conhecemos.

                Trigécio:

                – Provável, dizem eles.

                Repliquei: Como dizes isso? Negas que eles falam de verossímil?

                Trigécio:

                – Só quis dizer isso para excluir a comparação. Pois me parece que a noção da fama ou ouvir dizer foi indevidamente introduzida em nossa questão, visto que os Acadêmicos não se fiam nem dos olhos humanos, muito menos do mil fantásticos olhos da fama, no dizer dos poetas. Mas afinal serei eu o defensor da Academia? Ou nesta questão tendes inveja da minha segurança? Aqui está Alípio. Oxalá sua chegada nos dê folga. Já há tempo sabemos que não é sem razão que o temes.

21 – Segue-se um silêncio, e os dois fixaram o olhar em Alípio, que disse:

                – Eu quisera, certamente, na medida das minhas forças, ajudar, a vossa causa, se vossa sorte não me fosse motivo de temor. Mas, se não me enganar a esperança, facilmente afugentaria este temor. Consola-me ao mesmo tempo o fato de que o atual adversário dos Acadêmicos quase assumiu o encargo de Trigécio vencido, e agora segundo admitis, é provável a sua vitória. O que mais receio é não poder evitar a acusação, por um lado, de negligência por abando o do meu ofício e, por outro, de presunção por invadir uma função alheia, pois creio que não esquecestes  de me terdes confiado o papel de juiz.

                Trigécio:

                – São duas coisas diferentes. Por isso te pedimos aceitar ser desonerado por um momento do encargo de juiz.

                – Não me recusarei, respondeu Alípio, para que não aconteça que, desejando evitar a presunção e a negligência, caia no orgulho, o mais horrível dos vícios, se conservasse mais tempo que o permitis, a honra que me concedestes.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, de uma forma direta, resumir as posturas defendidas entre a antiga e nova Academia. São Agostinho nos coloca alguns novos “personagens” que julgo necessário uma breve introdução:

Arcesilau de Pitana, filósofo acadêmico cético e fundador da chamada “segunda” ou “média” Academia.

Antíoco de Ascalona, fundou uma escola denominada de Academia “antiga”, em contraposição à Academia cética

Filo de Larissa, escolarca (podemos entender como um reitor) da Academia de Atenas.

Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga

14 – Depois que nos alimentamos o suficiente para satisfazer a fome, voltamos ao campo. Retomou Alípio:

   – Obedecerei ao teu desejo, nem ousaria recusar-me. Se nada omitir, será graças ao teu ensinamento, como também à minha memória, e se talvez cometer algum erro, tu me corrigirás, para que no futuro eu não tema assumir tarefa semelhante.

Parece-me que a dissidência que deu origem à nova Academia não se dirigia tanto contra a doutrina antiga como contra os estóicos. Nem se pode considerá-la como uma dissidência, porque se tratava apenas de refutar e discutir uma nova opinião introduzida por Zenão. Pois não foi sem razão que se pensou que a doutrina do não conhecimento da verdade, ainda que não fosse objeto de controvérsias, não era estranha aos antigos Acadêmicos. Isso pode ser facilmente provado pela autoridade do próprio Sócrates, de Platão e dos outros antigos. Estes acreditaram poder guardar-se do erro na medida em que não dessem seu assentimento temerariamente. Todavia não introduziram nas escolas a discussão dessa questão nem pesquisaram especificamente se era ou não possível conhecer a verdade. Este foi o novo problema bruscamente lançado por Zenão, afirmando que só se podia conhecer aquilo que tal modo é verdadeiro que se distingue do falso por marcas de dessemelhança, e que o sábio não devia opinar. Tenho ouvido isso, Arcesilau negou que o homem pode encontrar algo do gênero, dizendo que a vida do sábio não devia ser exposta ao naufrágio da opinião. Donde concluiu que não se deve dar assentimento a nada.

15 – Mas quando a Academia antiga parecia mais favorecida que combatida, surgiu Antíoco, discípulo de Filo, que, na opinião de muitos, mais ávido de glória que de verdade, pôs em conflito as doutrinas das duas Academias.

Dizia que os novos Acadêmicos tinham tentado introduzir uma doutrina insólita e muito afastada da dos Acadêmicos antigos. Em favor da sua posição, aduziu o testemunho dos antigos físicos e de outros filósofos. Atacava também os Acadêmicos, que afirmavam seguir o verossímil, quando confessavam ignorar a própria verdade. Também havia reunido grande número de argumentos, que julgo poder omitir aqui. Todavia não defendia nada com mais afinco que a opinião de que o sábio pode conhecer a verdade. Acho que foi esta a controvérsia entre os antigos e os novos Acadêmicos. Se não for assim, rogo-te que informes com toda a exatidão a Licêncio, o que te peço em meu e seu nome. Se, ao contrário, as coisas são como expus, prossegui na discussão que iniciastes.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Síntese da Doutrina Acadêmica]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje ler o início da quarta discussão. Nesta alguns pontos outrora debatidos serão novamente expostos num contexto mais incisivo. Boa leitura!!!

Quarta discussão – Discussão entre Agostinho e Licêncio

Síntese da doutrina acadêmica

10 – Após a discussão anterior, que apresentamos no primeiro livro, fizemos uma pausa de quase sete dias, repassando os três livros de Virgílio que seguem o primeiro, estudando-os segundo a conveniência do momento. Mas nesse trabalho, Licêncio tanto se aperfeiçoou ao estudo da poesia, que me pareceu necessário refreá-lo um pouco. Não se deixava facilmente afastar desta ocupação por nenhuma outra. Mas, finalmente, quando exaltei o quanto pude a luz da filosofia, consentiu em retomar a questão dos Acadêmicos que havíamos adiado. Por acaso o dia amanheceu tão bonito que nada parecia mais propício para dar serenidade aos nossos espíritos. Levantamo-nos mais cedo que de costume e tratamos com os camponeses os trabalhos mais urgentes. Alípio começou:

– Antes de ouvir a vossa discussão sobre os Acadêmicos, gostaria que me fosse lido o que foi tratado na minha ausência, pois como a presente disputa é ocasionada pela anterior, de outro modo não posso evitar de errar ou em todo caso de ter de fazer grandes esforços ao ouvir-vos.

Assim foi feito e nisso passamos quase toda a manhã. Depois resolvemos terminar o passeio no campo e voltar para casa. Interveio Licêncio:

– Se não te aborrecer a repetição, pediria que, antes do almoço, me expusesses brevemente toda a doutrina dos Acadêmicos, para que não me escape nada do que favorece a minha posição.

– Faça-o, respondi eu, e isso com tanto mais prazer que absorto nisso comerás menos.

Licêncio:

– Não te fies nisso, pois observei que muitos, e especialmente meu pai, têm tanto mais apetite quanto mais sobrecarregados estiverem de preocupações. Além disso, não observastes que, quando eu estava pensando nessas questões de métrica, a minha concentração não dava segurança à mesa? Costumo perguntar-me: por que comemos com mais apetite quando estamos com a mente absorta em outras coisas? Ou o que é que nos urge tanto quando estamos com as mãos e os dentes ocupados?

– Ouve antes, atalhei eu, o que me pediste a respeito dos Acadêmicos, para eu, ocupado tu com essas questões de medida, não tenha eu de suportar a tua falta de medida não só na comida, mas também nas tuas questões. Se eu ocultar algo no interesse da minha causa, Alípio o denunciará.

– É necessária a tua boa-fé, disse Alípio, pois, se tivéssemos de temer que nos ocultasse algo, creio que seria difícil surpreender o homem de quem aprendi essas coisas, como sabem todos os que me conhecem. Tanto mais que, ao expor a verdade, não atenderás menos à retidão do teu coração que ao desejo da vitória.

11 – Agirei de boa-fé, pois tens direito de exigi-lo. Os Acadêmicos afirmavam que o homem não pode alcançar a ciência das coisas referentes à filosofia – Carnéades recusava ocupar-se de qualquer outra coisa – mas que pode ser sábio e que todo o dever do sábio, como tu mesmo Licêncio, o expuseste naquela discussão, consiste na busca da verdade. Daqui resulta que o sábio não deve dar seu assentimento a nada, pois necessariamente erraria o que para o sábio é um crime, se desse seu assentimento a coisas incertas. Não se limitavam a afirmar que tudo é incerto, mas também apoiavam sua tese com numerosos argumentos. Parece que tiraram sua doutrina de que a verdade é inacessível de uma definição do estoico Zenão, segundo a qual só pode ser percebida como verdadeira uma representação que é impressa de tal modo na alma pelo objeto de onde se origina que não pode sê-lo por um objeto donde não se origina. Ou mais breve e claramente: o verdadeiro pode ser reconhecido por certos sinais que o falso não pode ter. Os Acadêmicos empenharam-se com todas as forças em demonstrar que esses sinais não podem encontrar-se jamais. Os desacordos entre os filósofos, as ilusões dos sentidos, os sonhos e os delírios, os sofismas e os sorites, tudo isso foi usado em defesa da sua tese. E como tinham aprendido do mesmo Zenão que não há nada mais desprezível que a opinião, deduziram com muita habilidade que se nada podia ser percebido e opinar era totalmente desprezível, o sábio nunca devia aprovar nada.

12 – Isso desencadeou uma grande hostilidade contra eles, pois parecia implicar que quem nada aprova nada devia fazer. Assim, parecia que os Acadêmicos condenavam o seu sábio, que, segundo eles, nada aprova, ao perpétuo sono e ao abandono de todos os seus deveres. Então, pela introdução de certo sistema de probabilidade, que também chamavam de verossimilhança, afirmaram que o sábio de modo algum deixa de cumprir os seus deveres, pois tem o princípio de conduta. Mas a verdade, segundo eles, permanece oculta ou confusa, seja por causa da semelhança enganosa das coisas. E acrescentavam que mesmo a recusa ou suspensão do assentimento era uma grande atividade do sábio.

Creio que em poucas palavras expus todo o sistema, como pediste, e que não me afastei da regra que havias fixado, Alípio, ou seja, agi de boa-fé, como se diz. Se disse alguma coisa inexata ou talvez omiti algum ponto, não o fiz voluntariamente. Portanto, pelo testemunho da minha consciência, houve boa-fé. O homem que se engana deve ser ensinado, o que engana evitado. O primeiro necessita de um bom mestre, o segundo de um discípulo precavido.

13 – Tornou Alípio:

– Agradeço-te por teres satisfeito o desejo de Licêncio e dispensado a mim do encargo que me fora imposto. Não tinhas de temer mais a omissão de alguma coisa de tua parte, com a intenção de provar-me – pois que outra razão poderias ter tido? – que eu de ser obrigado a corrigir-te. Assim, menos para preencher uma lacuna da tua exposição que para cumprir a tarefa que incumbe ao que interroga, aborrece-te explicar a diferença entre a velha e a nova Academia?

– Confesso que me aborrece, respondi eu. Não posso negar que o ponto que tocaste é da máxima importância para a nossa questão. Assim me farias um favor se distinguisses estes dois nomes e explicasses a origem da nova Academia, enquanto eu descanso um pouco.

Respondeu Alípio:

– Isso me levaria a crer que também a mim queres afastar do almoço, se não recordasse que há pouco Licêncio te atemorizou e seu pedido não nos tivesse imposto a obrigação de lhe esclarecer antes da refeição todas as dificuldades da questão.

E quando ele ia prosseguir, nossa mãe – pois já tínhamos chegado à nossa casa – começou a chamar-nos com tal insistência para o almoço, que não houve mais lugar para nenhum discurso.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Segundo Prólogo a Romaniano P.III]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje ler a segunda parte do Prólogo a Romaniano do livro II. Nesta leitura, São Agostinho, exorta a filosofia – inclusive é o tema deste parte – mas nos inclui uma nova definição/terminologia. Filocalia. Uma definição para este termo é o amor ao bem. Então deixo aqui, uma oração curta que nos imerge ao amor de Deus, por Jesus Cristo: Domine Iesu Christe, Fili Dei, miserere mei, peccatoris ( Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador ). Boa leitura!!!

Exortação à Filosofia

7 – Isso é o que vulgarmente se chama filocalia. Não desprezes o termo por causa do seu uso comum. Pois filocalia e filosofia são quase sinônimos e querem parecer termos da mesma família e de fato o são. Pois, o que é filosofia? O amor da sabedoria. Que é filocalia? O amor à beleza. Pergunta aos gregos. E o que é a sabedoria? Por acaso não é a verdadeira beleza? Portanto a filosofia e a filocalia são irmãs, filhas do mesmo pai. Mas a filocalia, arrancada do seu céu pelo engodo da volúpia e presa na gaiola do vulgar, conservou, todavia a semelhança do nome para advertir o passarinheiro a não desprezá-la. Sua irmã, que voa livremente, muitas vezes a reconhece, ainda que sem asas, suja e miserável, mas raramente a liberta, pois a filocalia não conhece sua origem, a filosofia sim. Licêncio poderá contar-te toda esta fábula – pois de repente virei Esopo – mais agradavelmente num poema. Ele é um poeta quase perfeito. Portanto, se teu adversário, amante da falsa beleza, pudesse com olhos curados e puros pudesse contemplar um pouco a verdadeira beleza, com que prazer se lançaria no seio da filosofia! E ao te encontrar ali, não te abraçaria como a um verdadeiro irmão? Admiras-te e talvez rias. O que aconteceria se eu ouvir a voz da filosofia, uma vez que ainda não podes ver-lhe a face? Certamente te admirarias, mas não haverias de rir e não te desesperarias. Acredita-me, não se deve desesperar de ninguém, menos ainda de homens como esse. Há muitos exemplos. Este gênero de pássaros some facilmente, mas também facilmente volta, para grande surpresa de muitos que permanecem presos.

8 – Mas voltemos a nós mesmos, Romaniano, para filosofar. Devo agradecer-te. Teu filho já começa a filosofar. Procuro refreá-lo para que antes se torne mais robusto e mais forte, aplicando-se às disciplinas necessárias, das quais, se bem te conheço, não deve temer ser alheio. Só te desejo um vento de liberdade. Pois o que direi das tuas disposições naturais? Oxalá não fossem tão raras entre os homens quanto são certas em ti! Restam dois vícios e escolhos que impedem encontrar a verdade, mas que não me preocupam em relação a ti. Todavia, receio que te menosprezes ou desesperes de encontrar a verdade ou que imagines tê-la encontrado. O primeiro escolho, se existe, talvez esta discussão te livrará dele. Pois muitas vezes te indignaste contra os Acadêmicos, e isso com tanto mais veemência quanto eras menos instruído nesse assunto, porém com tanto mais espontaneidade quanto mais eras inflamando de amor à verdade. Assim, com o teu apoio, discutirei com Alípio e facilmente te persuadirei do que pretendo, pelo menos com probabilidades, pois só descobrirás a verdade se te entregares totalmente à filosofia. Quanto ao segundo obstáculo, isto é, o de presumires talvez ter encontrado algo, ainda que já te separaste de nós procurando e duvidando, se voltou ao teu espírito alguma superstição, certamente será expulsa, quando eu te enviar alguma discussão nossa sobre a religião ou quando conversar contigo de viva voz sobre muitas coisas.

9 – Atualmente não faço outra coisa que purificar-me de opiniões vãs e perniciosas. Por isso não duvido de que o meu estado atual seja melhor que o teu. Só há um ponto em que invejo a tua sorte: é que só tu desfrutas da presença do meu Luciliano. Ou tens inveja de mim porque eu disse “meu”? Mas ao fazê-lo, o que é que eu disse senão que é teu e de todos nós que somos um. E o que deverei pedir-te para mitigar a minha saudade. Será que o mereço? Sabes, porque é teu dever.

Mas agora digo a ambos: evitai imaginar que sabeis alguma coisa a menos que saibais do mesmo modo como sabeis que a soma de um, dois, três e quatro é dez. Mas guardai-vos também de julgar que não podeis encontrar a verdade na filosofia ou que a verdade não pode ser conhecida desse modo. Acreditai-me, ou melhor, acreditai naquele que disse: Procurai e achareis. Não se deve desesperar de conhecer a verdade nem de chegar a um conhecimento mais evidente que o dos números. Mas voltemos à nossa questão. Já começou a temer um pouco tardiamente que esta introdução está excedendo a medida, o que não é um defeito leve, pois a medida é sem dúvida divina. Mas ela nos passa despercebida quando conduz suavemente. Serei mais cauteloso, quando for sábio.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Segundo Prólogo a Romaniano P.II]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje ler a segunda parte do Prólogo a Romaniano do livro II. Nesta leitura, São Agostinho, num tom filial, nos revela a importância de Romaniano em sua vida. Temos trechos que nos remete a época da adolescência de Agostinho no antes/depois da perda do seu pai, sua ida a Cartago para estudar, o seu ‘voar’ sozinho. Boa leitura a todos!

Papel de Romaniano no caminho de Agostinho em direção à filosofia

3 – Dedica-te, pois, comigo à filosofia. É ela que costuma mover-te admiravelmente quando muitas vezes estás inquieto e hesitante. Pois de ti não receio nem apatia moral nem falta de engenho. Quem era mais atento em nossas conversações, quando podias respirar um pouco? Quem mais penetrante? Não retribuirei os teus favores? Por acaso é pouco o que te devo? Quando, pobre adolescente, fui estudar em outra cidade, acolheste-me em tua casa, às tuas custas, e o que é mais, no teu coração. Quando perdi meu pai, consolaste-me com a tua amizade, animaste-me com teus conselhos, ajudaste-me com teus recursos. Em nosso próprio município, teus favores, tua amizade, a partilha do teu lar tornou-me quase tão ilustre e notável como tu. Quando quis retornar a Cartago em busca de uma situação melhor, ao revelar somente a ti e a nenhum dos meus o meu intento e a minha esperança, hesitaste um tanto por causa do teu inato amor à tua terra natal, onde eu já lecionava. Não pudeste vencer o desejo de um jovem que procurava uma situação que lhe parecia melhor. Então, com a maravilhosa moderação de tua benevolência, de dissuasor passaste a benfeitor. Providenciaste tudo o que me era necessário para a viagem. Tu, o que havias protegido sustentastes também meus primeiros esforços, quando quis começar a voar sozinho. Quando embarquei, durante tua ausência e sem avisar-te, não te magoaste por não tê-lo comunicado a ti, como costumava. Não me suspeitaste de orgulho, permaneceste firme na tua amizade e não valeram mais aos teus olhos os filhos abandonados pelo mestre que as intenções íntimas e a retidão do meu coração.

4 – Finalmente, se agora desfruto o meu repouso, se rompi as cadeias dos desejos vãos, se tendo descarregado o peso das preocupações já mortas, agora respiro, me reanimo e volto a mim mesmo, se ardentemente busco a verdade, que já começo a encontrar, se confio chegar a essa suma medida, devo-o a ti que me encorajaste, me impeliste e o tornaste realidade. Mas foi mais pela fé que pela razão que compreendi aquele de quem foste instrumento. Efetivamente, quando te expus frente a frente os temores da minha alma e repetidas vezes enfaticamente afirmei que para mim só era boa fortuna aquela que me permitisse lazer para filosofar, que não havia outra vida feliz senão a de viver na filosofia, mas que me retinha o pesado encargo dos meus familiares, cuja vida dependia da minha profissão e ainda por muitas outras necessidades, como também por certa vergonha de minha parte e pelo temor de lançar os meus na miséria, foste tomado de tanta alegria, inflamado de um ardor tão santo por esse modo de vida, que declaraste que se encontrasses um meio de te desvencilhares dos laços daqueles molestos processos, romperia todas as minhas cadeias, ainda que fosse com a partilha do teu patrimônio comigo.

5 – Assim, quando partiste, depois de aceso o fogo do nosso ideal, não cessamos mais de suspirar pela filosofia e só pensávamos no gênero de vida que nos seduziu e sobre o qual concordamos entre nós. Perseguíamos constantemente esta ideia, porém menos vivamente, Todavia, brotara aquela chama que deveria abrasar-nos ao máximo, julgávamos que a que nos aquecia já era a máxima possível. E eis que certos livros bem cheios, como diz Celsino, espalharam sobre nós os bons perfumes da Arábia e destilando sobre a pequena chama algumas poucas gotas de preciosíssimo unguento, provocaram um incêndio incrível, sim Romaniano, realmente incrível, além do que tu podes pensar, e acrescento, mais incrível do que eu mesmo podia suspeitar de mim. Já não me importavam as honras, as pompas humanas, o desejo de vanglória, enfim os incentivos e as amarras desta vida mortal. Rapidamente me concentrei todo em mim mesmo. Confesso que olhei apenas de relance para aquela religião que nos foi ensinada e inculcada até a medula na infância. No entanto era ela que, sem eu saber, me atraía a si. Assim, titubeante, avançando e hesitando, tomo o livro do apóstolo Paulo. Esses homens, dizia a mim mesmo, teriam podido realizar tão grandes coisas, teriam vivido como se sabe viveram, se seus escritos e seus argumentos fossem contrários a tão grande bem? Li-o então todo com a máxima atenção e piedade.

6 – Então, já banhado por uma fraca luz, manifestou-se-me tão radiante o semblante da filosofia, que, se eu pudesse mostrá-la não digo a ti, que sempre ardeste de sede desta desconhecida, mas ao teu adversário, de quem não sei se é para ti mais um estímulo que um obstáculo, este, rejeitaria e abandonaria seus banhos, seus deliciosos jardins, seus delicados e refinados banquetes, seus histriões, enfim tudo o que poderosamente o impele para toda sorte de prazeres e voaria para a sua beleza, cheio de admiração, ofegante e ardente como um amante carinhoso e puro. Pois é preciso admitir que também ele tem certa beleza, que no seu esforço por florescer com a verdadeira beleza brota tortuosa e disforme entre a sordidez dos vícios e os espinheiros das opiniões falazes, mas não cessa de produzir folhas e, enquanto possível, manifestar-se àqueles poucos cujo olhar penetrante e atento o distingue entre a folhagem. Daqui essa hospitalidade, daqui essa polidez que condimenta seus banquetes, daqui essa elegância, esse esplendor e aparência apuradíssima de todas as coisas e essa urbanidade que sobre tudo derrama sua graça velada.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Segundo Prólogo a Romaniano]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Primeiramente, começo este post externando todo o meu sentimento de perda aos familiares e amigos das pessoas que perderam suas vidas na tragédia em Santa Maria-RS. Nestas horas, por mais que tenhamos o dom da oratória, todas as palavras são simplórias diante a dor da perda. De certo, tenho que Deus proverá o verdadeiro bálsamo e os consolará de modo único! Que Maria Santíssima possa nos colocar em seu colo maternal para que nós, vossos filhos, possamos nos sentir aconchegados e protegidos em meio a esta dor.

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje iniciar a leitura do Livro II. São Agostinho, remete este material, a Romaniano, para que ele se edifique na filosofia. Este prólogo será subdivido em três partes a fim de que possamos melhor compreender o sentido de Agostinho para com Romaniano. Boa leitura a todos!

Segundo prólogo a Romaniano
Obstáculos sobre o caminho em direção

1 – Se fosse tão necessário encontrar a sabedoria quando procurada, quanto, para ser sábio, é necessário possuir a sua disciplina e ciência, certamente toda a falsa sutileza, a obstinação, a teimosia dos Acadêmicos, ou, como por vezes penso, as razões válidas para o seu tempo, teriam sido sepultadas com a época e os corpos de Carnéades e de Cícero. Mas, seja em razão das múltiplas e variadas vicissitudes desta vida, como tu mesmo podes experimentar, Romaniano, seja por certo entorpecimento, apatia e indolência dos espíritos, seja por causa da desesperança de encontrar a verdade, pois a estrela da sabedoria não brilha tão facilmente à mente como esta luz material aos nossos olhos, seja ainda – e este erro é muito comum entre os povos – pelo fato de que os homens erroneamente imaginam ter encontrado a verdade, deixam de buscá-la com diligência, se é que a buscam, e facilmente perdem a vontade de procurá-la, ocorre que a ciência é rara e quinhão de poucos. Por isso homens nada medíocres, mas argutos e bem-informados, julgam que as armas dos Acadêmicos, quando se trata de enfrentá-los, são invencíveis e como que forjadas por Vulcano. Considerando tudo isso, contra tais ondas e tempestades da fortuna devemos lutar com os remos de todas as virtudes e sobretudo implorar o auxílio divino com toda a devoção e piedade, a fim de que o firme propósito de nos dedicar ao estudo da sabedoria siga o seu curso, sem que nenhum acaso o impeça de alcançar o seguríssimo e dulcíssimo porto da filosofia. Esta é a tua primeira tarefa. Daqui meu receio por ti, daqui meu desejo de libertar-te. Para isso todos os dias – se é que sou digno de ser atendido – em minhas preces não cesso de implorar ventos favoráveis para ti. Minhas preces se dirigem ao próprio poder e sabedoria de Deus altíssimo. Pois não é esta que os mistérios nos apresentam como filho de Deus?

2 – Muitos me ajudarás nas minhas orações por ti, se não desesperares de que possamos ser ouvidos e unires teus esforços aos nossos não só pelos desejos, mas também pela vontade e por aquela tua natural elevação de espírito que me atrai a ti, que me encanta singularmente e que não cesso de admirar, mas que, infelizmente, como o raio pelas nuvens, está envolto pelas preocupações domésticas e assim permanece oculto aos olhos de muitos, ou de quase todos. Todavia, não pode passar despercebido de mim e de um ou outro de teus amigos mais íntimos, nós que muitas vezes não só ouvimos atentamente os teus rumores, mas também vimos alguns clarões precursores do raio. Pois, para calar todo o resto e lembrar apenas um fato, quem alguma vez trovejou tanto e tão subitamente e brilhou com tanta claridade de espírito, que um só estrondo da razão e um só clarão de temperança destruiu radicalmente um só dia a impetuosíssima paixão que na véspera ainda te dominava? Tardará ainda esta virtude a resplandecer e a transformar o riso de tantos descrentes em horror e estupefação? Depois de manifestar aqui na terra, por assim dizer, certos presságios futuros, não rejeitará ela todo o peso de todas as coisas corporais, e se lançará ao céu? Serão vãs as esperanças que Agostinho tinha de Romaniano? Não o permitirá aquele a quem me entreguei totalmente e comecei a conhecer um pouco.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro I [Conclusão]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje compreender o princípio do estudo proposto por São Agostinho aos seus Amigos. Providencialmente, iremos começar a ler o texto com os últimos parágrafos da terceira discussão para que tenhamos, em mente, o contexto da conclusão.

Contra-réplica de Licêncio : a sabedoria como ciência em Deus e como procura nos homens

Retrucou Trigécio: – A definição será defendida por quem a deu, se quiser. Mas para voltarmos finalmente ao nosso tema, responde-me.

Licêncio: – Estou às tuas ordens.

Concedes que Albicério conhecia a verdade?

Licêncio: – Concedo.

Trigécio: – Então era melhor que o teu sábio?

Licêncio: – De maneira alguma, porque o gênero de verdade que o sábio busca é inacessível não só a esse adivinho tresloucado, mas até ao próprio sábio enquanto vive neste corpo. Contudo, este é tão importante que vale muito mais procurá-lo sempre que alguma vez encontrar aquele.

Trigécio: – É necessário que aquela definição (de Agostinho) me tire das dificuldades em que me enredei. Ela te pareceu defeituosa por abranger alguém que não podemos chamar de sábio. Pergunto-te se concordas se dissermos que a sabedoria é a ciência das coisas humanas e divinas, mas daquelas que pertencem à vida feliz?

Licêncio: – Certamente a sabedoria é isso, mas não só. A definição anterior inclui elementos alheios, enquanto a última excluiu elementos próprios. Portanto, a primeira peca por excesso e a segunda por defeito. Para esclarecer por uma definição o meu pensamento, parece-me que a sabedoria é não só ciência, mas também a diligente busca das coisas humanas e divinas referentes à vida feliz. Se quiseres dividir esta definição, a primeira parte, que se refere à ciência, convém a Deus, a segunda, que se contenta com a busca, é própria do homem. Por aquela é feliz Deus, por esta o homem.

Objetou Trigécio: – Espanta-me a tua afirmação de que o teu sábio trabalha em vão.

Replicou Licêncio: – Como trabalha em vão, se é tão bem recompensado pela sua busca? Pois, pelo fato de buscar, é sábio, e pelo fato de ser sábio, é feliz. Liberta tanto quanto pode o seu espírito dos laços do corpo e se recolhe em si mesmo; não se deixa dilacerar pelas paixões, mas, sempre tranquilo, concentra-se em si mesmo e em Deus, para que já aqui goze pela razão o que acima concordamos ser a felicidade e, no último dia da sua vida, esteja preparado para alcançar o que desejou e merecidamente goze da divina felicidade, depois de ter antes gozado a felicidade humana.

Conclusão de Agostinho

Vendo que Trigécio tardava a responder, intervim: 

– Não creio, Licêncio, que faltassem argumentos a Trigécio, se lhe déssemos tempo de pensar. O que deixou de responder em qualquer ponto? Ao ser levantada a questão da vida feliz, ele primeiro sustentou que necessariamente só o sábio é feliz, pois até no juízo dos néscios a ignorância é uma infelicidade; que o sábio deve ser perfeito, mas aquele que ainda procura a verdade não é perfeito, e portanto também não pode ser feliz. Neste ponto lhe opuseste o peso da autoridade e ele ficou um tanto perturbado pelo nome de Cícero. Mas logo se refez e com uma generosa altivez retomou o cume da liberdade, apoderando-se novamente do que por força lhe fora arrebatado das mãos.  Perguntou-te, se,  na tua opinião, quem ainda procura é perfeito. Se respondesses que não, Trigécio voltaria ao ponto de partida e demonstraria, se possível, que, por essa definição, é perfeito o homem que governa a sua vida pela lei da razão e consequentemente só pode ser feliz, o homem perfeito. Dessa armadilha te livraste mais brilhantemente do que eu esperava, dizendo que homem perfeito é aquele que com toda a diligência busca a verdade, combatendo um tanto presunçosa e ousadamente a nossa definição segundo a qual disséramos que a vida feliz é, afinal de contas, aquela que se rege pela razão. Trigécio respondeu-te claramente, apoderou-se da tua posição e, expulso de lá terias perdido tudo, não fosse uma trégua que te restituiu as forças. Pois onde os Acadêmicos, cuja opinião defendes, estabeleceram sua cidadela, senão na definição do erro? Se essa definição não tivesse ocorrido por acaso à tua memória em sonho durante a noite, não terias tido o que responder, se bem que expondo a opinião de Cícero tu mesmo já a tivesses lembrado antes. Depois viemos à definição da sabedoria, que com tamanha astúcia tentaste abalar que talvez nem o teu auxiliar Albicério teria percebido as tuas ciladas. Com quanta vigilância, com quanta energia te resistiu Trigécio e quase te teria envolvido e derrubado, se no último momento não tivesses encontrado refúgio em tua nova definição, dizendo que a sabedoria humana é a busca da verdade, da qual nasce, com a tranquilidade da alma, a felicidade da vida. Trigécio não responderá a este argumento, sobretudo se pedir que se lhe prorrogue o dia ou o resto da discussão.

Mas, para não nos alongarmos demasiado, se todos concordarem, podemos encerrar aqui a discussão, que julgo inútil continuar. A questão foi tratada suficientemente para o fim que nos propusemos. Poderia ter sido concluída em poucas palavras, se eu não tivesse desejado exercitar-vos e pôr à prova vossos esforços e dedicações ao estudo, que é minha grande preocupação. Pois tendo decidido exortar-vos vivamente à busca da verdade, comecei perguntando-vos sobre a importância que lhe atribuis. Todos mostrastes tanto interesse que eu não poderia desejar mais. Pois desejamos a felicidade. Quer esta consista em encontrar a verdade, quer em buscá-la diligentemente, devemos em todo caso, se quisermos ser felizes, fazer passar antes de tudo a busca da verdade. Por isso, como já disse, terminemos a discussão e, após redigi-la por escrito, enviemo-la em primeiro lugar a teu pai, Licêncio, cuja inclinação para a filosofia conheço bem. Mas ainda procuro a ocasião apropriada para introduzi-lo nela. No entanto, poderá inflamar-se com mais entusiasmo por estes estudos, quando souber não só por ouvir dizer, mas pela leitura destes debates, que tipo de vida levas comigo. Mas, se, como acredito, gostas dos Acadêmicos, prepara-te solidamente para defendê-los, pois decidi citá-los como réus no tribunal.

Dito isso, levantamo-nos.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I – Prólogo | Livro I – Gênese Livro I – Primeira Discussão | Livro I – Procura da Verdade e Perfeição do Homem | Livro I – Primeira Definição do Erro | Livro I – Segunda Discussão | Livro I – Terceira Discussão

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro I [Terceira Discussão]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, iremos hoje nos deparar como São Agostinho nos definiria o que é Sabedoria. De certo, esta definição não é a sua definição, como mesmo ele nos relata, mas podemos tomá-la como nosso ponto de partida para crescermos.

Terceira Discussão – Definição da sabedoria proposta por Agostinho e objeções de Licêncio

Assim que clareou o dia – na véspera havíamos arranjado tudo para termos muito tempo de lazer – retornamos a discussão já iniciada. Comecei:

– Trigécio, ontem pediste que eu descesse da função de juiz para a de defensor da sabedoria, como se na vossa discussão a sabedoria tivesse um adversário a temer ou, por falta de um defensor, tivesse de implorar um auxílio maior. A única quesão que surgiu entre vós a ataca, visto que ambos a desejais. Depois, se julgas ter falhado na definição  da sabedoria, nem por isso deves abandonar a defesa restante da tua opinião. Assim, terás de mim apenas a definição da sabedoria, que não é nem minha nem nova, mas vem dos antigos. Admiro-me de que não vos lembrais dela, pois não é a primeira vez que ouvis que a “sabedoria é a ciência das coisas humanas e divinas“.

Licêncio, que, após esta definição, eu esperava passaria longo tempo procurando a resposta, interveio imediatamente:

– Por que, então, não chamamos sábio aquele indivíduo devasso que bem conhecemos por toda sorte de desregramentos a que se entregava? Refiro-me a Albicério, que, em Cartago, por muitos anos, dava aos que o consultavam respostas admiravelmente corretas. Poderia lembrar inúmeros casos, se não estivesse falando a pessoas informadas. Poucos exemplos bastam para o meu propósito.

E dirigindo-se a mim:

– Não é verdade que, tendo-se perdido em casa uma colher, e sendo ele consultado por ordem tua, rapidíssima e certíssimamente respondeu não só o que se procurava, mas também nominalmente a quem pertencia e onde estava escondida? Deixo de lado o fato de que não sofria absolutamente nenhum engano naquilo que se lhe perguntava. Outra ocasião, presenciei o seguinte caso: um escravo, que levava certa quantidade de moedas, roubara uma parte delas, enquanto nos dirigíamos a Albicério. Este mandou que fossem contadas as moedas e ante nossos olhos obrigou o escravo a devolver aquelas que roubara, antes que ele mesmo tivesse visto as moedas ou ouvido de nós quanto tinha sido roubado.

– Não nos falaste também de um fato que deixou pasmado um homem tão douto e ilustre como Flaciano? Estando este negociando a compra de um sítio, consultou aquele adivinho, pedindo que, se possível, lhe dissesse o que havia feito. Este imediatamente não só descreveu o tipo de negócio, mas, para grande espanto de Flaciano, também pronunciou o nome do sítio, tão complicado que nem o próprio Flaciano dele se lembrava. Não é sem espanto que lembro a resposta que Albicério deu a um amigo nosso, discípulo teu, que, para confundí-lo, lhe perguntou insolenemente em que ele, interrogador, em que ele estava pensando naquele momento. Respondeu-lhe o adivinho que estava pensando num verso de Virgílio. Como, estupefato, não pudesse negá-lo, nosso amigo prosseguiu perguntando qual era o verso. E Albicério, que só de passagem vira uma escola gramatical, não hesitou, seguro e gárrulo, em recitá-lo. Não era sobre coisas humanas que o adivinho era consultado, ou respondeu com tanta verdade e certeza às consultas sem uma ciência das coisas divinas? As duas hipóteses são absurdas. Pois as coisas humanas nada mais são que as coisas dos homens, como prata, moedas, sítio e até o próprio pensamento. E quem negará que é pelas coisas divinas que o homem adivinha? Portanto Albicério foi sábio, se, conforme admitimos, a sabedoria é a ciência das coisas humanas e divinas.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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