Avareza – Escritos de Evágrio Pôntico

Na minha terra esse pecado é chamado de “pirangagem”. Alguns conhecem esse tipo como “mão de vaca”, “amarrado” ou coisas do tipo. Mas a avareza é um pecado gravíssimo que precisa ser trabalhado. Entenda porque, lendo esses escritos do monge.

A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões, não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela. Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, a avareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos], apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem. O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto de uma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cada onda, também o rico se vê submergido pelas preocupações. O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio em todos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seu alimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva às alturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asas ligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar sem dor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.

Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso à corrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, a lembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito em perder as riquezas e se atormenta com o desânimo. E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma, embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravo fugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais do que o arrasta.

O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira, o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, deseja quadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a tal interminável pretensão.

O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água o estômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mente livre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais.

O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente e um atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.

O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija com os prêmios que vêm das coisas bem obtidas. O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo para a oração e a leitura. O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumula tesouros no céu.

Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto à avareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si a imagem da riqueza, como um simulacro.

Fonte: Veritatis Splendor

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Luxúria – Escritos de Evágrio Pôntico

Como havia escrito anteriormente, estamos postando parcialmente os escritos de Evágrio Pôntico, monge do Século IV sobre os oito Vícios Capitais que posteriormente foram transformados nos sete pecados capitais, que conhecemos hoje. O primeiros dos pecados foi a Gula. Agora é a vez de lermos o que o Monge fala sobre a Luxúria. Vale a pena frisar e observar que esses escritos são direcionados para outros monges, por isso é importante perceber que às vezes ele fala das mulheres de uma forma pouco incomum. Em virtude dele ter sido um monge e por isso, ter as mulheres como alguém que os tentava. Mas mesmo assim leia e observe…

A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer. A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria, se desencadeia, sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do lado dos inimigos. Permanece invunerável às flechas inimigas aquele que ama a à paz interior e à tranqüilidade de recolhimento; ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente. O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas. Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela; porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão e te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da tua alma.

Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.

Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também sois jovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantas rapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmente conseguireis fugir. A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando as mulheres. Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirma ser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossível apagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade o ímpeto inflamado da imoderação. Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez. O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, que trazem dor e ruína. Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último te oferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza feminina traz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida. A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo não queima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.

Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, se no meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdes alcançado a paz interior (O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado de plenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento do interior.). O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado, mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada da paixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário, quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderás considerar-te afastado da virtude. Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-se muito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si. Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quando prolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói a sabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rosto imaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréola que circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas, assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.

Fonte: Veritatis Splendor

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Gula ou Gastrimargia – Escritos de Evágrio Pôntico

Os grandes tesouros que os padres do deserto nos deixaram, foram seus escritos. Estes escritos são frutos dos conselhos que eles deixavam com as pessoas que os buscavam pedindo ajuda. Evágrio Pôntico, foi um escritor, asceta e monge cristão. Ele dirigiu-se ao Egito, a “Pátria dos Monges”, a fim de ver a experiência desses homens no deserto, e acabou por se juntar a uma comunidade monástica do Baixo Egito.

Evágrio trouxe um aspecto positivo para a Igreja. Da sua vivência com os monges, traçou as principais doenças espirituais que os afligiam – os oito males do corpo; esta doutrina foi conhecida de João Cassiano, que a divulgou pelo Oriente; mais tarde, o Papa Gregório Magno também ouviu falar nela, e adaptou-a para o Ocidente como os sete pecados capitais – a saber a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça.

Quero deixar para você alguns dos tantos textos que esse grande monge nos deixou como herança. Comecemos com a gula, que ele chama de gastrimargia. Quero propor a você que no dia de hoje você se reveja em relação ao seu modo de comer. Ao ler isso, mais uma vez eu vivi a experiência de me rever. Quem me conhece de perto sabe da minha luta contra a balança. E esse texto caiu em minhas mãos no tempo oportuno, por que agora estou me preparando para o casamento e preciso mais do que nunca reduzir as medidas.  Então é um tempo para prudência no comer. Espero que te ajude também.

A origem do fruto é a flor e a origem da disciplina espiritual é a moderação. Quem domina o próprio estômago, diminui as paixões, pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres. Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assim como a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenha proporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência. Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Da boca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática da contemplação. A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata a paixão. O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. As comidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nunca cochila. Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheio convida para um longo sono. Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia de delicadezas lança a mente no abismo. A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquanto que a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e a digestão pesada dos alimentos ofusca a mente.

Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e o intelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus. Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinam maus pensamentos. Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfume da contemplação. O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderado observa os ensinamentos dos sábios. A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita os seus exemplos. O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, o glutão foge dos chamados à moderação. O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana. O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão não chegará à casa da paz interior. O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfato divino. Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; o desejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama. Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: “Basta!”. A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixões carnais.

Fonte: Veritatis Splendor

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai Poemen

Apotegmas do pai Poemen - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Os apotegmas de hoje são atribuídos a um certo Pai Poemen, conhecido por seus conselhos sobre o silêncio interior e sobre a meditação sobre os seus pecados:

1. Um irmão perguntou ao Pai Poemen desta maneira: “Meus pensamentos me atormentam, fazendo com que eu deixe de lado meus pecados e me preocupe com as faltas de meus irmãos”. O ancião contou-lhe a seguinte estória sobre Pai Dióscoro (o monge): “Na sua cela ele chorava por si mesmo, enquanto seu discípulo se sentava em outra cela. Quando este último veio ver o ancião perguntou-lhe: ‘Pai, por que choras?’ ‘Estou chorando pelos meus pecados’, respondeu-lhe o velho homem. Ao que o discípulo disse: ‘Você não tem nenhum pecado, Pai’. O ancião replicou: ‘É verdade, meu filho, se eu pudesse ver meus pecados, três ou quatro homens não seriam suficientes para chorar por eles'”.

2. Pai Poemen disse de Pai Nestério que ele era como a serpente de bronze que Moisés fez para curar o povo; ele possuía toda virtude e sem falar, curava a todos.

3. Pai Poemen disse: “O início do mal é não ouvir.”

4. Um irmão perguntou ao abade Poemen se era melhor viver sozinho ou com o próximo. O velho respondeu: “Aquele que lamenta sempre e somente a si mesmo, pode viver em qualquer lugar. Mas, se se glorifica, então não se dará bem em lugar algum”.

5. Disse o abade Poemen: “A alma não alcança a humildade em nada se tu não lhe racionares o pão, isto é, se tu não a reduzires a alimentar-se apenas do necessário”.

Se você gostou dessas histórias que chamamos apotegmas, acesse os links abaixo e veja o que já publicamos a respeito.

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai Pastor II

Apotegmas do pai Pastor - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Continuamos meditando os apotegmas do Pai Pastor. Para quem pegou o bonde andando, vale a pena falar que essa série conta as histórias dos primeiros monges cristãos, que largaram as suas vidas nas cidades e foram para os desertos em busca de uma vida mais próxima de Deus. Hoje vamos dar destaque as histórias do Pai Pastor sobre os pensamentos impuros.

1. Também o abade José interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros. Respondeu-lhe o abade Pastor: “Se prendemos uma serpente ou um escorpião num vaso e depois o tapamos, após certo tempo serão sufocados. A mesma coisa acontece com os maus pensamentos que o demônio faz germinar em nós: pouco a pouco serão sufocados pela paciência de quem os teve”.

2. Um irmão visitou o abade Pastor e lhe disse: “Vêm-me muitos pensamentos e me põem em perigo”. Então o ancião levou-o a céu aberto e lhe disse: “Estende teu hábito e dentro dele prende o vento!” O irmão respondeu: “Não posso fazer isso!”. “Portanto”, respondeu o ancião, “se não podes fazer isso, muito menos podes impedir o surgimento desses pensamentos; mas, o que podes fazer é resistir-lhes”.

3. Quando o abade Pastor se preparava para ir ao Ofício, primeiro se sentava, à parte, por uma meia hora, para desvencilhar-se dos pensamentos. Depois saía.

4. O abade Amon interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros e vãos desejos do coração humano. Respondeu o abade: “Um machado pode gloriar-se de alguma coisa sem aquele que o usa para cortar? Pois bem: não cultives esses pensamentos e ficarão sem efeito em ti”.

Se você gostou dessas histórias que chamamos apotegmas, acesse os links abaixo e veja o que já publicamos a respeito.

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai Pastor

Apotegmas do pai Pastor - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Hoje vamos meditar usando os apotegmas do Pai Pastor. Dizia-se que ele era muito requisitado pelo povo. Seus apotegmas são marcados pela valorização do silêncio, pela renuncia de si mesmo e pela inteira dedicação a fazer a vontade de Deus.

1. O abade Pastor dizia: “Quaisquer que sejam teus sofrimentos, a vitória sobre eles está no silêncio”.

2. Um irmão disse ao abade Pastor: “Segundo teu parecer, se vejo alguma coisa posso comentá-la?”. Respondeu o ancião: “Quem responde antes de ouvir, comete uma bobagem e cai na confusão. Portanto, fala se te perguntam; de outro modo, cala”.

3. O abade Pastor disse: “O homem deve incessantemente respirar a humildade e o temor de Deus do mesmo modo que inala e expele o ar através das narinas”.

4. Disse o abade Pastor: “Prostrar-se diante de Deus, não dar-se nenhuma importância, jogar fora a própria vontade: eis os instrumentos com os quais a alma pode trabalhar”.

5. Disse o abade Pastor: “Não dês importância a ti mesmo, mas permanece ligado a quem se comporta bem”.

6. Disse o abade Pastor: “Um irmão perguntou ao abade Alônio o que significava desprezar-se a si mesmo. Respondeu o ancião: ‘Consiste em rebaixar-se abaixo dos animais e saber que eles não serão condenados'”.

7. Disse o abade Pastor: “A humildade é a terra que o Senhor requisitou para realizar o sacrifício”

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai Macário

Apotegmas do pai Macário - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Macário o grande foi um dos grandes padres do deserto. A ele muitos vinham em busca pra ouvir seus conselhos e suas palavras de sabedoria. Hoje vamos mostrar quatro apotegmas atribuídos a ele. Neles vamos ver ensinamentos importantes sobre o desapego aos bens materiais, a oração, a meditação sobre a morte, e desprendimento das coisas materiais.

1. O mesmo Pai Macário, quando no Egito, descobriu um homem que possuía uma besta de carga ocupada em saquear as provisões de Macário. Então ele foi ao ladrão como se fosse um estrangeiro e o ajudou a carregar o animal. Despediu-o com grande paz na alma, dizendo: “Não trouxemos nada para este mundo, e não podemos levar nada para fora dele” (1Tim, 6,7). “O Senhor deu e o Senhor tirou; louvado seja o nome do Senhor” (Jó, 1,21).

2. Perguntaram a Pai Macário: “Como devemos rezar?” O ancião disse: “Não é necessário fazer grandes discursos; é suficiente erguer as mãos e dizer: ‘Senhor, como desejas e como conheces, tenha piedade’. E se o conflito crescer, digam: ‘Senhor, ajuda!’ Ele sabe muito bem o que precisamos e Ele nos mostra sua misericórdia”.

3. Dizia o abade Macário: “Essas três coisas são capitais e é bom tê-las presente sem descanso: em todo momento devemos nos recordar da morte, morrer para todo homem e o pensamento deve estar constantemente unido a Nosso Senhor. De fato, se a todo momento não se tem presente a própria morte não se será capaz de morrer para todo homem; e se não se é capaz de morrer para todo homem, não se será capaz de estar constantemente diante de Deus”.

4. Dizia ainda o abade Macário: “Luta por todas as mortes. Pela morte do corpo, isso significa que, se não tens a morte do espírito, luta pela morte do corpo. E então a morte do espírito te será dada como lucro. E aquela morte te fará morrer para todo homem e, em seguida, poderás adquirir a capacidade de estar constantemente vivente com Deus no silêncio”.

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai João, o anão III

Apotegmas do pai João, o anão - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

As últimas estórias sobre o Abade João. Nelas vamos ouvir sobre o desprezo dos homens, o testemunho da fidelidade a Deus, a santidade e sobre deixarmos Jesus nos libertar.

1. Pai João disse ao seu irmão: “Mesmo que sejamos completamente desprezados aos olhos dos homens, alegremo-nos, pois somos honrados aos olhos de Deus”.

2. O ancião [João], disse: “Vocês sabem que o primeiro sopro do demônio sobre Jó, foi através de suas possessões; e aquele viu que não o pôde afligir nem o separar de Deus. Com o segundo sopro, ele tocou sua carne, mas também nisso, o bravo atleta não pecou por palavra alguma que viesse de sua boca. De fato, ele tinha dentro do seu coração aquilo que é de Deus e recorria àquela fonte incessantemente”.

3. Um ancião veio à cela de Pai João e encontrou-o adormecido com um anjo por detrás dele, abanando-o. Vendo isto ele se retirou. Quando Pai João se levantou, ele disse ao seu discípulo: “Veio alguém enquanto eu estava dormindo?” Ele retrucou: “Sim, um ancião”. Então, Pai João soube que esse ancião era seu igual e que ele tinha visto o anjo.

4. Disse o abade João: “Esta palavra está escrita no Evangelho: Quando Jesus chamou Lázaro para fora do sepulcro, suas mãos e pés estavam amarrados e seu rosto envolvido num pano; Jesus o desatou e o despediu. Nós, portanto, temos as mãos e os pés amarrados e nosso rosto está coberto com um pano, obra das mãos do inimigo. Se, portanto, escutamos Jesus, ele nos livrará de tudo isso e nos libertará da escravidão de todos esses maus pensamentos. Então seremos filhos do Senhor, receberemos em herança as promessas e seremos filhos do Reino Eterno”.

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai João, o anão II

Apotegmas do pai João, o anão - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Mais sete estórias sobre o Abade João, pequeno no tamanho (porque era Anão), porém grande na fidelidade e no amor ao Senhor.

1. Pai João disse: “Pusemos a carga leve de um lado, que é a auto-acusação, e nos carregamos com um grande peso que é a auto-justificação”.

2. Ele também disse: “Humildade e temor de Deus estão acima de todas as virtudes”.

3.  Pai João deu este conselho: “Vigiar significa sentar-se na cela e estar sempre presente a Deus. Isto é o que significa o dizer: ‘eu vigiava e Deus veio até mim'”.

4. Um dos Padres disse dele: “Quem é esse João, que pela sua humildade tem toda cidade de Scete pendurada no seu dedo mínimo?”

5. Pai João, o Anão, disse: “Havia um homem muito espiritual que vivia uma vida reclusa. Ele era muito considerado na cidade e gozava de grande reputação. Disseram-lhe que um ancião, à beira da morte o chamava para abraçá-lo antes de adormecer. Ele pensou consigo: se eu for com a luz do dia, homens acorrerão atrás de mim, dando-me grande honra e não ficarei em paz com tudo isso. Então, irei à noite, na escuridão, e passarei despercebido. Mas vejam só: dois anjos foram enviados por Deus com luzeiros para dar-lhe luz. Então a cidade inteira veio para fora para ver sua glória. Quanto mais ele desejava correr da glória, mais glorificado ele era. Nisso se cumpriu o que está escrito: ‘aquele que se humilha será exaltado'” (Lc 14,11).

6. Pai João, o Anão, disse: “Uma casa não é construída do topo para baixo. Deve-se começar com a fundação para alcançar o topo”. Eles lhe disseram: “O que isso significa?” Ele respondeu: “A fundação é nosso próximo, a quem devemos ganhar, e este é o lugar para começar. Pois todos os mandamentos de Cristo dependem desse um”.

7. Pai Poemen disse que Pai João teria dito que os santos são como um grupo de árvores, cada uma produzindo um fruto diferente, mas irrigadas com a mesma fonte. As práticas de um santo diferem das do outro, mas é o mesmo Espírito que trabalha em todos eles.

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Padres do Deserto: Sentenças do Pai João, o anão I

Apotegmas do pai João, o anão - Do Site Central de Obras do Cristianismo Primitivo

Dizia-se que no deserto vivia um monge chamado João, o anão. Deste todos, é o que temos a maior parte das histórias atribuídas ao seu nome. Algumas delas mostram suas fraquezas, e outras a sua sabedoria adquirida ao longo dos anos de contemplação espiritual e luta contra os vícios da alma. Separei sete estórias importantes e de grande riqueza para quem deseja praticar a ascese espiritual.

1. Foi dito de Pai João, o Anão, que ele se retirou para viver no deserto de Scete com um ancião de Tebas. Seu Pai, pegando um pedaço seco de madeira plantou-o e disse a ele: “Mmolhe-o todos os dias com uma garrafa de água, até que dê fruto”. A água ficava muito distante e ele tinha que sair à noite e retornar pela manhã seguinte. Ao final de três anos a madeira reviveu e deu fruto. Então o ancião pegou alguns frutos e levou-os à igreja, dizendo aos irmãos: “Peguem e comam o fruto da obediência”.

2. Dizia-se de Pai João, o Anão, que um dia ele disse ao seu irmão mais velho: “Gostaria de ser livre de todos os cuidados, como os anjos, que não trabalham, mas prestam culto a Deus incessantemente”. Então, ele retirou seu manto e foi para o deserto. Depois de uma semana ele voltou ao seu irmão. Quando bateu à porta ouviu seu irmão dizer, antes de abrir: “Quem é você?” Ele disse: “Sou João, seu irmão”. Ao que o outro retrucou: “João se tornou um anjo e dessa maneira não mais se encontra entre os homens”. O outro pediu para entrar, dizendo: “Sou eu”. Contudo, seu irmão não o deixou entrar, mas o deixou lá fora, aflito, até de manhã. Então, abrindo a porta, disse-lhe: “Você é um homem e deve novamente trabalhar para poder comer”. Então João se prostrou diante dele, dizendo: “Perdoe-me”.

3. Um dia, quando ele estava sentado em frente à igreja, os irmãos foram consultá-lo sobre seus pensamentos. Um dos anciãos viu e tornando-se presa do ciúme disse a ele: “João, seu vaso está cheio de veneno”. Pai João respondeu-lhe: “Isto é bem verdade, Pai; e você disse isso vendo apenas o lado de fora, mas se fosse capaz de ver o interior também, o que diria, então?”.

4. Alguns irmãos vieram um dia para testá-lo, para ver se ele deixaria seus pensamentos se dissiparem e falasse das coisas desse mundo. Disseram-lhe então: “Damos graças a Deus, pois este ano tem chovido muito e as palmeiras puderam beber e suas folhas cresceram e os irmãos encontraram trabalho manual”. Pai João disse-lhes: “Então, é quando o Espírito Santo desce aos corações dos homens, eles se renovam e produzem folhas por temor a Deus”.

5. Era dito de Pai João, o Anão, que um dia ele estava tecendo corda para duas cestas, mas sem perceber, ele fez apenas uma, até que chegasse ao teto, pois seu espírito estava absorto em contemplação.

6. Pai João disse: “Sou como um homem sentado debaixo de uma grande árvore, que vê bestas selvagens e serpentes, vindo contra ele em grande número. Quando não pode mais, ele corre e sobe na árvore e se salva. É a mesma coisa comigo; sento-me em minha cela e estou consciente de pensamentos maus vindo contra mim e quando não tenho mais forças contra eles, busco refúgio em Deus pela oração e sou salvo do inimigo”.

7. Pai Poemen disse de Pai John, o Anão, que ele tinha rezado a Deus para que retirasse para longe dele as paixões, de modo que ele ficasse livre de preocupações. Então ele foi contar ao ancião isto: “Encontro-me em paz, sem nenhum inimigo”. O ancião lhe disse: “Vá, implore a Deus que lhe envie as lutas de modo que você recupere a aflição e humildade que você possuía, pois é pela luta que as almas progridem”. Então, ele implorou a Deus e quando as batalhas vieram ele não mais rezou que elas fossem afastadas, mas disse: “Senhor, dai-me força para a luta”.

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