Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 6

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste começaremos a ler o embate entre São Jerônimo e Vigilâncio. São Jerônimo irá nos “armar” de argumentos contra os vigilâncios atuais.

Capítulo VI

Você diz que as almas dos Apóstolos e mártires residem no seio de Abraão, ou num lugar de refrigério, ou sob o altar de Deus e que eles não podem viver em seus próprios túmulos e estarem presentes onde quiserem. Eles são, ao que parece, da classe senatorial e não estão sujeitos aos piores tipos de cárcere, nem à sociedade de assassinos, mas são mantidos em separado, sob custória honorífica e liberal nas abençoadas ilhas dos Campos Elíseos. Irá você agora estabelecer a lei para Deus? Irá você agora acorrentar os Apóstolos? Então ficarão eles confinados até o Dia do Julgamento e não estarão com o seu Senhor, embora esteja escrito a respeito deles: “Eles seguem o Cordeiro para qualquer lugar que Ele for” (Apocalipse 14,4). Ora, se o Cordeiro está presente em todo lugar, o mesmo devemos acreditar acerca destes que estão com o Cordeiro. E embora o diabo e os demônios vagueiem por todo o mundo e com tamanha velocidade eles mesmos se movem por todo lugar, estariam os mártires, após derramarem o seu sangue, sendo mantidos confinados em algum lugar de onde não poderiam escapar? Você afirma, em seu panfleto, que enquanto estamos vivos podemos orar uns pelos outros, mas que, quando morremos, a oração de uma pessoa não poderá favorecer outra qualquer; e isto em razão dos mártires, embora eles possam pedir pela vingança de seu sangue, o que, porém, nunca lhes será atendido (Apocalipse 6,10). Se os Apóstolos e mártires, enquanto estão no corpo, podem orar pelos outros, ainda quando se encontram inquietos por si mesmos, quanto mais deverão fazer após terem recebido suas coroas, vencido e triunfado? Um simples homem, Moisés, obteve o perdão de Deus para seiscentos mil homens armados; e Estêvão, seguidor de seu Senhor e o primeiro mártir cristão, implorou o perdão para seus perseguidores; e quando eles entraram na Vida com Cristo, acabaram tendo menos poder do que antes? O Apóstolo Paulo diz que 272 almas foram entregues a ele no navio (Atos 27,37); e após sua dissolução (=morte), quando ele começou a estar com Cristo, deveria ele calar a sua boca e ser incapaz de dizer uma só palavra em favor daqueles que em todo o mundo creram no seu Evangelho? Para Vigilâncio, seria um cachorro vivo melhor que Paulo, o leão morto? Estaria eu certo em seguir o Eclesiastes se admitisse que Paulo está morto em espírito… Mas a verdade é que os santos não são chamados de “mortos”; acerca deles dizemos que estão dormindo. Por isso, diz-se de Lázaro – que estava para ser ressuscitado – que tinha dormido (João 11,11). E o Apóstolo proíbe os tessalonicenses de se preocuparem com aqueles que dormiram. Você (Vigilâncio), que está dormindo acordado e dorme quando escreve, me aponta um livro apócrifo que, sob o nome de Esdras, é lido por você e por aqueles loucos que o escutam, e nesse livro está escrito que após a morte ninguém se atreve a orar pelos outros. Eu nunca li esse livro, mas qual a necessidade de lê-lo se a Igreja não o recebeu? Provavelmente a sua intenção real é de me confrontar com Bálsamo, Barbélio e o Tesouro dos maniqueus, além daquele que traz o ridículo nome de Leusiboras. Talvez porque você vive aos pés dos [montes] Pirineus, no limite da Ibéria, acaba seguindo as “incríveis maravilhas” do antigo herege Basílides e seu assim chamado “conhecimento” – o qual é simples ignorância – e que foi condenado pela autoridade de todo o mundo. Eu afirmo isto porque em seus breves tratados você cita Salomão como se ele concordasse contigo, porém Salomão jamais escreveu tais palavras; então, da mesma forma que você possui um segundo Esdras, tem também um segundo Salomão. E se você gostar, pode ler ainda as revelações imaginárias de todos os patriarcas e profetas; e quando você tiver aprendido todas elas, poderá cantá-las entre as mulheres nas tecelagens, ou ordenar que sejam lidas nas suas tavernas, pois é mais fácil assim que essas canções melancólicas estimulem o povo ignorante a encher novamente as canecas.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 5

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste começaremos a ler o embate entre São Jerônimo e Vigilâncio. São Jerônimo irá nos “armar” de argumentos contra os vigilâncios atuais.

Capítulo V

Louco! Quem neste mundo já adorou os mártires? Quem já pensou que o homem fosse Deus? Acaso Paulo e Barnabé – quando o povo da Licônia pensou que se tratavam de Júpiter e Mercúrio e por isso precisavam oferecer-lhes sacrifícios – não rasgaram suas vestes e se declararam homens (Atos 14,11)? Não que eles não fossem melhores que Júpiter e Mercúrio, mortos muito tempo antes, mas porque, sob as falsas idéias dos gentios, a honra devida a Deus estava sendo prestada a eles. E lemos o mesmo a respeito de Pedro que, quando Cornélio quis adorá-lo, pegou-o pela mão e disse-lhe: “Levanta-te, pois sou apenas um homem” (Atos 10,26) e você (Vigilâncio) tem a audácia de falar de “algo misterioso ou outra coisa qualquer que você carrega em um pequeno embrulho e adora”? Eu gostaria de saber o que é que você chama de “algo misterioso ou outra coisa qualquer”. Diga-nos mais claramente – pois não pode haver moderação na sua blasfêmia – o que você quer dizer com a expressão: “um pouco de pó miserável, envolto em panos caros”. Isso nada mais é do que as relíquias dos mártires, que o deixam irritado ao vê-las cobertas por tecido nobre e não por farrapos ou lenços de cabeça, ou lançadas na esterqueira. Com efeito, apenas Vigilâncio, em seu sono de bêbado, acha que podem ser adoradas. Seríamos nós, portanto, culpados de sacrilégio quando entramos nas basílicas dos Apóstolos? Seria o imperador Constâncio I culpado de sacrilégio quando transferiu as sagradas relíquias de André, Lucas e Timóteo para Constantinopla? Na presença destas [relíquias] os demônios se pertubam e os diabos que habitam em Vigilâncio confessam que sentem a influência dos santos. E nos presentes dias, seria o imperador Arcádio culpado de sacrilégio por, depois de tanto tempo, ter transportado os ossos do bem-aventurado [profeta] Samuel da Judéia para a Trácia? Deveríamos considerar todos os bispos não apenas sacrílegos mas tolos porque eles carregam “coisas mais inúteis” – poeiras e cinzas – envoltas em sedas douradas? Seriam tolos os fiéis de todas as igrejas porque foram se encontrar com as sagradas relíquias e deram boas vindas a elas com tanta alegria como se estivessem recebendo um profeta vivo em seu meio, de forma que um grande número de pessoas as seguiram da Palestina até a Calcedônia em uma só voz recitando as orações de Cristo? Seriam loucos se adorassem a Samuel e não a Cristo, já que Samuel era um mero levita e profeta. Você (Vigilâncio) demonstra desconfiança porque pensa apenas em corpos sem vidas e em razão disso blasfema. Leia o Evangelho (Mateus 22,32): “O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó: Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos”. Ora, se então eles estão vivos, não são “mantidos em um confinamento honorável”, para usarmos aqui as suas palavras.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 4

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste começaremos a ler o embate entre São Jerônimo e Vigilâncio. São Jerônimo irá nos “armar” de argumentos contra os vigilâncios atuais.

Capítulo IV

Certamente ele representa bem a sua raça. Originado de um bando de marginais e indivíduos reunidos dos quatro cantos [do mundo] – isto porque Pompeu, após conquistar a Espanha, quando se apressava para retornar [a Roma] em seu triunfo, desceu pelos Pirineus e reuniu [os referidos indivíduos] em um só lugar, de onde veio o nome da cidade: Convenae [=convocação] – ele (Vigilâncio) foi encarregado por suas práticas criminosas a atacar a Igreja de Deus. Como seus ancestrais, os vetões, os harrabaceus e o celtiberianos, ele se lança sobre as igrejas da Gália, não carregando o estandarte da cruz mas, ao contrário, a insígnia do diabo. Pompeu fez o mesmo no Oriente. Após subjugar os piratas e bandidos cilicianos e isaurianos, ele fundou uma cidade, que possui o seu próprio nome, entre a Cilícia e a Isáuria. Essa cidade, porém, observa até hoje as ordens dos seus ancestrais e nenhum Dormilâncio surgiu ali. Mas a Gália possui um inimigo nativo e vê sentado na Igreja um homem que perdeu o juízo e que deveria ser colocado em uma camisa-de-força, como recomenda Hipócrates. Entre outras blasfêmias, escuta-se ele dizer: “Que necessidade há para ti de prestar tal honra, para não dizer adoração, a uma coisa, qualquer que seja ela, que você carrega e cultua?”. E novamente, no mesmo livro: “Por que você beija e adora um pouco de poeira envolto em um pedaço de pano?”. E mais uma vez, no mesmo livro: “Sob o manto da religião vemos que tudo de uma cerimônia pagã foi introduzida nas igrejas: enquanto o sol ainda brilha, um monte de velas são acesas e em todo lugar um pouco de pó miserável, envolto em panos caros, é beijado e adorado. É esta a grande honra que os homens prestam aos bem-aventurados mártires que – conforme pensam – deve ser feita de maneira gloriosa, através de velas insignificantes, enquanto que o Cordeiro, que se encontra no centro do trono, com todo o brilho de sua majestade, lhes dá a luz?”.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 3

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste começaremos a ler o embate entre São Jerônimo e Vigilâncio. São Jerônimo irá nos “armar” de argumentos contra os vigilâncios atuais.

Capítulo III

Mas agora nos chegou o momento de abordar as suas próprias palavras e responder-lhe em detalhes. Isto porque, possivelmente, em sua malícia, ele pode novamente optar em me deturpar e dizer que eu tenho o trunfo de apreciar um caso fazendo uso dos meus poderes retóricos e declamatórios para combatê-lo, tal como na carta que escreví para a Gália, expondo para uma mãe e sua filha que estavam na dúvida. Este pequeno tratado que agora redijo, é aguardado pelos respeitáveis presbíteros Ripário e Desidério, que informaram que suas paróquias e vizinhanças estão sendo profanadas e me enviaram, através do nosso irmão Sisínio, os livros que ele (Dormilâncio) vomitou como um bêbado na ressaca. Eles também afirmam que algumas pessoas ali, a partir de suas inclinações para os vícios, aderem às suas blasfêmias. Ele é um bárbaro tanto em sua fala quanto em seu conhecimento. Seu estilo é rude. Ele não tem condição nem de defender a verdade. Mas por amor aos leigos e pobres mulheres, carregados de pecados, sempre aprendendo e nunca atingindo o [pleno] conhecimento da verdade, vou disperdiçar uma noite de trabalho para abordar as suas fúteis melancolias, caso contrário poderia parecer que eu estaria tratando com desprezo as cartas daquelas respeitáveis pessoas que confiaram a mim tal tarefa a ser empreendida.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 2

Coloco aqui mais um capítulo dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio. Neste podemos ler o modo veemente que São Jerônimo descreve a vida dos bispos da sua época.

Capítulo II

Vergonhoso de se mencionar é que alguns bispos, segundo dizem, se associaram a ele em sua iniqüidade – se é que esses homens podem mesmo ser chamados de bispos – e não ordenam diáconos a não ser que tenham eles sido previamente casados. Eles não honram o celibato exigindo mais castidade, ou melhor, eles mostram claramente que a medida da santidade de vida que querem se dá indulgenciando as piores dúvidas do homem e, exceto que os candidatos à ordenação apareçam perante eles com esposas grávidas e bebês chorando no colo de suas mães, não administrarão a estes a ordenação de Cristo. O que estão fazendo as igrejas do Oriente? E as que pertencem às igrejas egípcias ou à Sé Apostólica: aceitam para o ministério apenas homens virgens, ou que praticam a continência ou, se casados, abandonaram seus direitos conjugais? Eis o ensinamento de Dormilâncio, que lança as rédeas sobre o pescoço da luxúria e por seu incentivo duplica o calor natural da carne, que na juventude atinge o ponto máximo e que se sacia pelo intercurso [sexual] com mulheres. Daí, nada nos separa dos porcos, nada aqui nos difere da criação bruta, ou dos cavalos, a respeito do que está escrito: “Eles se dirigiram às mulheres como cavalos selvagens; todos relincharam após [conhecerem] a esposa de seu vizinho”. Isto é o que foi dito pelo Espírito Santo através da boca de Davi: “Não sejais como o cavalo e a mula que não compreendem”. E, novamente, acerca de Dormilâncio e seus amigos: “Amarrem a maxilar daqueles que se aproximam de vocês com freios e rédeas”.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

Veja Também:: Capítulos 1

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Contra Vigilâncio:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 1

Iniciaremos, a partir desta semana, uma nova leitura. Iremos manter-nos dentro dos escritos de São Jerônimo. Convido-os a leitura dos discursos de São Jerônimo contra Vigilâncio.

No discurso Contra Vigilâncio, observamos em Jerônimo a presença do combatedor de heresias, desta vez investido do discurso satírico contra os costumes de um personagem gaulês, Vigilâncio. Em outras palavras, pela habilidade satírica de Jerônimo, podemos conhecer a deformidade da heresia pela apresentação que Jerônimo faz do “monstro” Vigilâncio. Como combatedor de heresias, pelo viés da sátira, temos uma imagem do advogado ajustada à fé católica ortodoxa, da qual busca defender a pureza e a vigência no mundo cristão e sua consolidação.

Capítulo I

O mundo pariu muitos monstros. Em Isaías lemos sobre centauros, corujas e pelicanos. Jó, em linguagem mística, descreve Leviatã e Behemoth. Cérbero e os pássaros de Estínfalo, o porco de Erimantéia e o leão de Neméia, a Chimera e a Hidra de muitas cabeças são citadas em fábulas poéticas. Virgílio descreve Caco. A Espanha criou Gerion, com seus três corpos. Somente a Gália não teve monstros e sempre contou com homens ricos em coragem e grande eloquência… Isto até Vigilâncio – ou, mais propriamente, “Dormilâncio” – que surgiu, animado por um espírito imundo, para lutar contra o Espírito de Cristo e negar aquela reverência religiosa que devemos prestar aos túmulos dos mártires. As vigílias – afirma ele – devem ser condenadas. O “Aleluia” nunca deve ser cantado senão na Páscoa. A continência é uma heresia. A castidade, uma cama preparada para a concupiscência. E assim como dizem que Eufórbio renasceu na pessoa de Pitágoras, então temos que neste (=Vigilâncio) ressuscitou a mente corrompida de Joviniano. Nele, não menos que em seu predecessor, encontramos as ciladas do demônio. A Palavra pode ser justamente aplicada a ele: “Raça de malfeitores, preparai vossos filhos para o massacre por causa dos pecados do vosso pai”. Joviniano, condenado pela autoridade da Igreja de Roma, entre a carne de faisão e a de porco, exalou, ou melhor, vomitou o seu espírito. E agora, este sustentador das tavernas do Calagurre, que conforme o nome de sua vila nativa é Quintiliano, estúpido ao invés de eloqüente, quer combinar água com vinho. Segundo a armadilha que ele há muito já conhece, tenta agora misturar seu veneno com a fé católica: ele agride a virgindade e odeia a castidade; se regozija com o mundano e prega contra o jejum dos santos; serve o filósofo em sua bandeja e se alivia com as doces melodias da salmodia enquanto lambe os lábios após comer seus bolos de queijo. Alías, não poderia ele dignar-se a ouvir as canções de Davi, Jeduth, Asaf e os filhos de Coré a não ser na mesa do banquete. Isto eu tenho dito com mais pesar que alegria, pois não posso me conter, tornando-me surdo ao ouvir as coisas erradas que ele atira contra os apostólos e mártires.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 24

Posto aqui mais um capítulo da Carta de São Jerônimo a Helvídio a respeito da Virgindade Perpétua da Virgem Maria. Este texto é a conclusão da carta de São Jerônimo a Helvídio.

CAPÍTULO XXIV

Eu me tornei retórico e agi um pouco como orador de plataforma. A isso me levou você, Helvídio; porque, da forma lúcida como brilha o Evangelho atualmente, você quer que se dê uma glória igual à virgindade e ao estado matrimonial. E porque penso que, sentindo a verdade muito forte, você virá aviltar minha vida e abusar de meu caráter (este é o modo das mulheres fracas cochicharem nos cantos quando são repreendidas por seus senhores), vou me antecipando a você:

– Asseguro que darei atenção às suas injúrias como a uma elevada distinção, uma vez que os mesmos lábios que me atacam aviltaram Maria, e eu – um servo do Senhor – sou favorecido com a mesma brava eloquência de Sua mãe.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 23

Posto aqui mais um capítulo da Carta de São Jerônimo a Helvídio a respeito da Virgindade Perpétua da Virgem Maria. Neste texto São Jerônimo ressalta a importância de manter nosso ‘olhos’ para o Altíssimo ( coisas do alto).

CAPÍTULO XXIII

Não nego que se encontram mulheres santas entre as viúvas e aquelas que têm marido; mas se tornam santas logo que deixam de ser esposas, ou se no estrito dever do matrimônio imitam a castidade virginal. O Apóstolo, como se Cristo falasse por sua boca, brevemente deu testemunha disso quando disse: “Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do Senhor, como poderá agradar ao Senhor; mas aquela que é casada está preocupada com as coisas do mundo, como poderá agradar a seu marido”.

Ele nos deixa ao livre exercício de nossa razão a esse respeito. Não determina obrigação a ninguém nem induz alguém em cilada; somente persuade àquilo que é próprio quando deseja que todos os homens sejam como ele mesmo. Não emitiu, é verdade, um mandamento do Senhor a favor da virgindade, porque essa graça sobrepuja o poder do homem desassistido, e seria usar um ar de imodéstia forçar os homens a se porem a voar em face de sua natureza, e dizer em outras palavras: “Quero que você seja como são os anjos do céu”. É essa angélica pureza que assegura à virgindade a mais alta recompensa, e o Apóstolo poderia parecer desprezar um sistema de vida que não é culposo.

Não obstante, no contexto a seguir diz: “Mas presto meu julgamento como alguém que obteve misericórdia do Senhor para ficar fiel. Penso, portanto, que isso é bom em razão da atual aflição, ou seja, que é bom para um homem ser como ele é”. O que quer dizer com “a atual aflição”?

“Haverá aflição para aqueles que tiverem crianças e para aquelas que amamentarem naqueles dias!” A razão por que a madeira cresce é que poderá ser cortada. O campo é semeado porque poderá ser segado. O mundo está já repleto, e a população está demasiado grande para a terra. A cada dia somos dizimados pela guerra, levados pelas doenças, tragados pelos naufrágios, embora continuemos a levar alguém a juízo por causa dos muros de nossa propriedade.

É somente uma adição à regra geral que é feita por aqueles que seguem o Cordeiro, e que não desvestiram seus ornamentos, que continuam em seu estado de virgindade. Preste atenção ao significado de desvestir. Eu não me aventuro a explicá-lo, por medo de que Helvídio possa se tornar abusivo.

Concordo com você, quando diz que algumas virgens não são senão mulheres de taverna; digo ainda mais, que mesmo o pecado do adultério pode ser encontrado entre elas, e você ficará sem dúvida mais surpreso de ouvir que alguns do clero são taberneiros e alguns monges não são castos. Quem não entende logo que uma mulher de taverna não persistirá virgem, nem adúltero um monge, nem taberneiro um clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade corrompida é um pecado?

De minha parte, me omitindo das outras pessoas, e tratando dos castos, afirmo que aquela que trabalha como vendeira, embora sem provas, poderá ser virgem no corpo, porém não mais será casta em espírito.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 22

Posto aqui mais um capítulo da Carta de São Jerônimo a Helvídio a respeito da Virgindade Perpétua da Virgem Maria. Neste texto São Jerônimo disserta sobre a virgindade e o casamento.

CAPÍTULO XXII

E agora que vou fazer uma comparação entre virgindade e casamento, rogo a meus leitores para não suporem que louvando a virgindade, tenho em menor grau o casamento, e discrimino os santos do Antigo Testamento com relação àqueles do Novo, isto é, aqueles que tinham esposas daqueles que se mantiveram livres dos laços de mulheres; antes, penso que de acordo com a diferença de tempo e circunstâncias, uma regra foi aplicada aos primeiros, uma outra a nós, sobre quem sobrevirá o fim do mundo.

Tanto que continua vigorando a lei : “Sede férteis e multipliquai-vos e povoai a terra”; e: “Amaldiçoada é a mulher estéril que não gerou semente em Israel”; elas todas que casaram e foram dadas em matrimônio, deixaram pai e mãe, e se tornaram uma só carne.

Mas de repente com a força do trovão se fizeram ouvir essas palavras: “O tempo está se acabando, em que doravante aqueles que têm esposas sejam como se não tivessem”; aderindo ao Senhor, nós somos feitos um espírito com Ele. E por quê?

Porque “aquele que é solteiro está preocupado com as coisas do Senhor, de modo que poderá agradar ao Senhor; mas aquele que é casado está preocupado com as coisas do mundo, do modo como agradará a sua esposa. E aqui está a diferença também entre a esposa e a virgem. Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do Senhor, porque será santa tanto no corpo como no espírito; mas aquela que é casada, está preocupada com as coisas do mundo, do modo como agradará a seu marido”.

Por que você sofisma? Por que resiste? O vaso de eleição disse isso. Disse-nos que há uma diferença entre a esposa e a virgem. Observe qual deva ser a felicidade daquele estado no qual mesmo a distinção de sexo desaparece. A virgem não é mais chamada mulher. “Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do Senhor, de modo que é santa no corpo e no espírito”.

A virgem é definida como aquela que é santa no corpo e no espírito, porque não é bom ter uma carne virgem se a mulher se põe casada no espírito. “Mas aquela que é casada está preocupada com as coisas do mundo, do modo como agradará a seu marido”. Julga você que não há diferença entre uma que gasta seu tempo em oração e jejuns daquela que se sente impelida, ao aproximar-se seu marido, a arranjar sua aparência, andar com passos afetados, e demonstrar atos de carinho?

O objetivo da virgem é aparecer menos faceira; ela quer se guardar de modo a esconder suas atrações naturais. A mulher casada tem seu pincel preparado ante seu espelho, e em desacordo com seu Criador, esforça-se para adquirir algo mais do que sua beleza natural. Então lhe chegam as conversas de seus filhos, o barulho da casa, as crianças buscando sua palavra e pedindo seus beijos, a lista das despesas, o cuidado para acertar as despesas. De um lado você a vê na companhia dos cozidos, cercada de gritos e preparando o alimento; você ali ouve o barulho de uma multidão de fiandeiras. Enquanto isso, chega uma mensagem que o marido e seus amigos estão chegando. A esposa, como uma andorinha, voa por toda a casa. Ela deve cuidar de todas as coisas. Está o sofá arrumado? Está o piso varrido? Estão as flores nas jarras? E o jantar está pronto?

Diga-me, rogo-lhe, onde entre tudo isso há lugar para pensar em Deus? São essas casas tranqüilas? Onde há as batidas do tambor, o barulho e a algazarra do órgão e do alaúde, o tinir dos címbalos, pode se encontrar alguma preocupação com o temor de Deus? O parasita é repreendido e se sente orgulhoso da honra. Entram depois as vítimas meio despreparadas para as paixões, uma referência para todo olhar lúbrico. A infeliz esposa ou deve achar prazer neles e perecer, ou ficar desgostosa e provocar seu marido. Disso surge a discórdia, a semente conspiratória do divórcio.

Ou suponha que você encontre uma casa onde essas coisas são desconhecidas, o que acontece em pequena proporção! Contudo, mesmo ali, o desempenho do dono da casa, a educação das crianças, as necessidades do marido, a correção dos servos, não falham em afastar a mente do pensamento de Deus. “Deixou de ficar com Sara como se fica com as mulheres” – assim diz a Escritura, e mais tarde Abraão recebeu a ordem: “Presta atenção em tudo o que Sara te disser”. [Porque] ela não está tomada de ansiedades e dor de parto e, tendo passado pela mudança de vida [sexual], deixou de exercer as funções de uma mulher, estando liberta do esquecimento de Deus; não tem desejo por seu marido, mas, pelo contrário, seu marido se torna sujeita a ela, e a voz do Senhor lhe ordena: “Presta atenção em tudo o que Sara te disser”. Então, começam a ter tempo para rezar. Porque enquanto demorou a ser pago o dever do matrimônio, a determinação de rezar foi negligenciada.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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Virgindade Perpétua de Maria:: Escritos de São Jerônimo – Capítulo 21

Posto aqui mais um capítulo da Carta de São Jerônimo a Helvídio a respeito da Virgindade Perpétua da Virgem Maria. Neste texto São Jerônimo exalta a castidade de São José

CAPÍTULO XXI

Mas como não negamos o que está escrito, assim também rejeitamos o que não está escrito. Acreditamos que Deus nasceu de uma Virgem, porque lemos assim. Não acreditamos que Maria teve união marital depois que deu à luz porque não lemos isso. Nem afirmamos tal para condenar o casamento, porque a virgindade é o fruto do casamento; mas porque quando estamos tratando de santos não devemos julgar apressadamente. Pois se adotássemos a possibilidade como padrão de julgamento, poderíamos sustentar que José teve várias esposas porque Abraão teve, e também Jacó, e que aqueles que eram irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma criação imaginária que alguns sustentam com uma temeridade que nasce da audácia e da piedade.

Você diz que Maria não continuou virgem. Eu brado ainda mais que José, ele mesmo, aceitou que Maria era virgem, de modo que de um casamento virgem nasceu um filho virgem. Porque se, como um homem santo, ele não se apresentou com a acusação de fornicação, e está escrito que ele não teve outra esposa, mas foi o guardião de Maria, aquela que foi tida por sua esposa mas não ele por seu marido; a conclusão é que aquele que foi julgado digno de ser chamado pai do Senhor, permaneceu casto.

( Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)

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