Epístola aos Filipenses – São Policarpo de Esmirna

Policarpo foi ordenado bispo de Esmirna pelo próprio João Evangelista. De caráter reto, de alto saber, amor a Igreja e fiel à ortodoxia da fé, era respeitado por todos no Oriente. Com a perseguição, o Santo bispo de 86 anos, escondeu-se até ser preso e assim foi levado para o governador, que pretendia convencê-lo de negar a Cristo. Policarpo, porém, proferiu estas palavras: “Há oitenta e seis anos sirvo a Cristo e nenhum mal tenho recebido Dele. Como poderei negar Aquele a quem prestei culto e rejeitar o meu Salvador?”.

A Epístola de São Policarpo é uma resposta a um pedido vindo dos próprios filipenses, no qual eles pedem a ele que os envie algumas palavras de exortação de fé, que repasse adiante uma carta para a Igreja de Antioquia e que os envie também quaisquer epístolas de Santo Inácio que ele pudesse ter. O segundo pedido é muito relevante, pois Inácio havia pedido às igrejas de Esmirna e Filadélfia que enviassem mensageiros para congratular a Igreja da Antioquia pela restauração da paz. É de se supor, portanto, que ele tenha dado instruções similares aos filipenses quando esteve em Filipos. Este é um dos muitos pontos de harmonia perfeita entre as situações relatadas nas epístolas inacianas e na Epístola de Policarpo, o que torna quase impossível impugnar a veracidade das primeiras sem também de alguma forma manchar a reputação da última, que é uma dos textos com história melhor documentada da antiguidade.

Epístola aos Filipenses – São Policarpo de Esmirna

Introdução

Policarpo e os presbíteros que estão junto dele, à Igreja de Deus que está em Filipos: Piedade a vocês, e paz do Todo-poderoso Deus, e do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador, sejam multiplicadas.

Capítulo I – Exortação aos Filipenses

Tenho me alegrado grandemente convosco em nosso Senhor Jesus Cristo, pois vocês têm seguido o exemplo do verdadeiro amor [como mostrado por Deus], e tenho acompanhado, assim como vocês, todos aqueles que estão acorrentados, os ornamentos dos santos, e aqueles que são de fato os diademas dos verdadeiros eleitos de Deus e de nosso Senhor; e porque as fortes raízes de vossa fé, falando de dias a muito tempo transcorridos, suportaram até agora, e trouxeram frutos a nosso Senhor Jesus Cristo, que por nossos pecados sofreu até a morte, [mas] “que Deus ressuscitou da morte, tendo afrouxado as faixas do túmulo”. “No qual, embora não O vejam, acreditem, e acreditando, regojizem-se em inexprimível alegria e cheios de glória”; onde todos os homens desejam entrar, sabendo que “pela graça vocês serão salvos, não pelas obras”, mas pela vontade de Deus através de Jesus Cristo.

Capítulo II – Exortação à Virtude

Por causa disso, cinjam suas cinturas, “sirvam o Senhor no temor” e na verdade, como aquele que tem renunciado ao inútil, as conversas vãs e os erros da multidão, e “acreditado nAquele que ressuscitou nosso Senhor Jesus Cristo da morte, e Lhe deu a glória”, e um trono a sua direita. Por Ele todas as coisas no Céu e na Terra estão subordinadas. A Ele todo espírito serve. Ele vem como o Juiz dos viventes e dos mortos. Deus pedirá conta do sangue dEle por aqueles que não acreditam nEle. Mas Aquele que ressuscitou dentre os mortos também nos ressuscitará, se fizermos sua vontade e seguirmos seus mandamentos, e se amarmos o que Ele amou, abstendo-nos de toda injustiça, arrogância, amor ao dinheiro, murmurações, falsos testemunhos, “não pagando mal por mal, injúria por injúria”, golpe por golpe, maldição por maldição, mas sendo misericordiosos por causa do que o Senhor disse em seus ensinamentos: “Não julguem para não serem julgados; perdoem e serão perdoados; sejam misericordiosos e alcançarão misericórdia; pois com o que medirem vocês serão medidos”; e uma vez mais: “Abençoados são os pobres, e aqueles que são perseguidos por causa da verdade, pois deles é o Reino de Deus”.

Capítulo III – Fé, esperança e caridade

Não é por mim mesmo, irmãos, que lhes escrevo sobre a justiça, e sim porque vocês me pediram primeiro. Pois nem eu, nem ninguém como eu, pode chegar a sabedoria do abençoado e glorificado Paulo. Ele, estando entre vocês, comunicou com exatidão e força a palavra da verdade na presença daqueles que estão vivos ainda. E quando vos deixou, escreveu-lhes uma carta, que, se a estudarem com cuidado, encontrarão o sentido de terem sido erguidos na fé que lhes foi dada, e que, sendo seguida da esperança e precedida pelo amor para com Deus e Cristo, assim como para nosso próximo, “é a mãe de todos nós”.

Pois todo aquele que permanecer nessas virtudes, este cumpriu os mandamentos da justiça. Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado.

Capítulo IV – Várias exortações

“Mas o amor pelo dinheiro é a raiz de todo os males”. Sabendo, por tanto, que assim como nós não trouxemos nada ao mundo, nós não podemos levar nada dele”, revistam-se com a arma da justiça; e aprendamos nós mesmos, antes de tudo, a caminhar nos mandamentos do Senhor. Depois, [ensinem] suas esposas [a andar] na fé dada a elas, e na caridade e na pureza, amando ternamente seus únicos maridos com toda a fidelidade, e amando todos [os outros] igualmente com toda a castidade; e a educar suas crianças no conhecimento e no temor de Deus. Ensinem as viuvas a serem discretas, como diz a fé de nosso Senhor, orando continuamente por todos, permanecendo longe de toda calúnia, murmuração, falso testemunho, amor ao dinheiro, e todo tipo de mal; sabendo que são o altar de Deus, que percebe claramente todas as coisas, e que nada Lhe é escondido, nem raciocínios, nem pensamentos, nem as coisas secretas do coração.

Capítulo V – Os deveres dos diáconos, jovens e virgens

Sabendo, portanto, que “Deus não é fingido”, precisamos caminhar dignos de Seus mandamentos e de sua glória. Da mesma maneira os diáconos devem ser inocentes diante da face de Sua justiça, como sendo servos de Deus e de Cristo, e não dos homens. Eles não devem ser caluniadores, falsos, ou amantes do dinheiro, mas temperados em tudo, misericordiosos, trabalhadores, andando de acordo com os mandamentos do Senhor, que foi o servo de todos. Se lhe somos agradáveis no tempo presente, também receberemos o mundo vindouro, de acordo com o que Ele prometeu a nós, de que Ele nos ressuscitará da morte, e que se nós vivemos condizentes com Ele, “nós reinaremos junto com Ele” se ao menos tivermos fé. Da mesma maneira, que os jovens também sejam irrepreensíveis em todas as coisas, sendo especialmente cuidadosos para preservar a pureza, e mantendo-se, como que um freio, de todo tipo de mal. Pois é bom que eles cortem fora toda a luxúria que existe neste mundo, pois “todo desejo da carne luta contra o espírito”; e “nenhum fornicador, nem efeminado, nem aquele que abusa de si mesmo com os outros terá parte no reino de Deus”, nem quem faz ações inconsistentes e indevidas. Por isso, é preciso que eles se abstenham de todas essas coisas, permanecendo obedientes aos presbíteros e diáconos, assim como a Deus e a Cristo. As virgens devem andar com uma consciência inocente e pura.

Capítulo VI – Os deveres dos presbíteros e dos outros

Os presbíteros devem ser compassivos e misericordiosos com todos, trazendo de volta aqueles que sairam do caminho reto, visitando os doentes, sem desprezar a viúva, o órfão, ou o pobre, mas sempre “provendo a estes o que é bom diante de Deus e dos homens”; abstendo-se de toda cólera, respeitando as pessoas, e não fazendo julgamentos injustos; mantendo-se longe de toda cobiça, sem pensar mal rapidamente de ninguém, sem serem severos demais nos julgamentos, sabendo que nós todos estamos sobre o débito do pecado. E se nós suplicamos ao Senhor para nos perdoar, também nós devemos perdoar os outros; pois nós estamos diante dos olhos de nosso Senhor e Deus, e “todos nós deveremos comparecer ao tribunal de Cristo, e deveremos todos dar conta de nós mesmos”. Por isso devemos serví-lo no temor, e com toda e reverência, conforme Ele mesmo nos manda, da mesma maneira que os apóstolos nos ensinaram no Evangelho, e da mesma maneira que os profetas proclamaram a vinda do Senhor. Sejamos zelosos na busca do que é bom, mantendo-nos longe das causas de ofensa, de falsos irmãos, e daqueles que hipocritamente proclamam o nome do Senhor, fazendo os homens vãos caírem no erro.

Capítulo VII – Contra o docetismo. Perseverar no jejum e na oração

“Pois que não confessar que Jesus Cristo veio na carne [encarnou], este é anticristo”; e quem não confessar o testemunho da cruz, este é do demônio; e quem perverter as profecias do Senhor para sua própria satisfação, e diz que não há nem ressurreição nem julgamento, este é o primeiro nascido de Satanás. Por isso abandonemos os discursos vãos das multidões, e suas falsas doutrinas, e voltemos aos ensinamentos que nos foram dados desde o princípio; “permaneçamos sóbrios na oração”, e perseveremos no jejum; suplicando em nossas orações ao Deus que vê tudo “para que não nos deixe cair em tentação”, pois o Senhor disse: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Capítulo VIII – Perseverar na esperança e na paciência

Continuemos perseverando em nossa esperança, nas primícias da justiça, que é Jesus Cristo, “que carregou nossos pecados em seu próprio corpo no madeiro da cruz”, “que não cometeu pecado, nem foi achada astúcia em Sua boca”, mas suportou todas as coisas por nós, para que pudéssemos viver nEle. Sejamos imitadores de Sua paciência; e se nós sofremos pelo nome dEle, seremos glorifiquemos Ele. Pois este é o exemplo que Ele mesmo nos deu, e que nós temos acreditado.

Capítulo IX – Exortação à paciência

Eu os exorto, portanto, a obedecerem atenciosamente à palavra da justiça, e a exercitarem a paciência, assim como vocês têm visto diante de seus olhos, não somente no caso dos abençoados Inácio, Zózimo e Rufo, mas também no caso dos outros que estão entre vocês, no próprio Paulo, e no restante dos apóstolos. [Façam isso] na certeza de que todos estes não caminharam em vão, mas na fé a na justiça, e na certeza de que eles estão [agora] no lugar que lhes corresponde na presença do Senhor, com quem eles também sofreram. Eles não amaram o século presente, mas Aquele que morreu por nós e que, por nossa causa, foi ressuscitado por Deus da morte.

Capítulo X – Exortação na prática da virtude

Permaneçam, portanto, nestas coisas, e sigam o exemplo do Senhor, permanecendo firmes e imutáveis na fé, amando o próximo, e permanecendo unidos uns aos outros, gozando juntos da verdade, mostrando a mansidão do Senhor nas suas relações com o próximo, sem desprezar ninguém. Quando puderem fazer o bem, não o posterguem, pois “a esmola livra da morte”. Todos vocês estão submetidos uns aos outros tendo uma conduta justa entre os gentios, para que vocês recebam em dobro a recompensa de suas boas obras, e para que o Senhor não seja blasfemado por causa de vocês. Mas coitado é aquele por quem o nome do Senhor é blasfemado! Ensinem, portanto, a sobriedade a todos, e a manifestem em sua própria conduta.

Capítulo XI – Expressão de pena por causa de Valente

Eu estou muito triste por Valente, que foi presbítero entre vocês, pois ele não entendeu completamente o cargo que foi lhe dado [na Igreja]. Exorto-os, portento, que se abstenham da avareza, e que sejam castos e verdadeiros. “Abstenham-se de todo tipo de mal”. Pois se um homem não pode se governar nestes assuntos, como pode ensina-los aos outros? Se um homem não se mantém longe da avareza, ele se desonra pela idolatria, e deve ser julgado como um dos pagãos. Mas quem de nós está ignorando o julgamento do Senhor? “Não sabemos nós que os santos devem julgar o mundo?”, como Paulo ensina. Mas eu nem vi nem ouvi nada semelhante entre vocês, no meio daqueles com quem Paulo trabalhou, e que estão louvados no início de sua epístola. Com efeito, ele se gloria de vocês diante de todas as Igrejas que sozinhas conheciam o Senhor; mas nós [de Esmirna] ainda não O conhecíamos. Eu estou profundamente entristecido, pois, irmãos, por ele (Valente) e por sua esposa; a quem o Senhor talvez conceda uma penitência verdadeira! E sejam vocês sóbrios em atenção e este assunto, e “não os olhe como inimigos”, mas chame-os de volta como membros sofredores e perdidos, pois vocês devem salvar todo o corpo. Agindo assim vocês edificam-se a si mesmos.

Capítulo XII – Exortação a várias virtudes

Por isso acredito que vocês estão bem versados nas Sagradas Escrituras, e que nada é escondido de vocês; mas a mim este privilégio não é ainda garantido. Pois está declarado nas Escrituras, “Enfureçam-se, e não pequem mais”, e “Não deixem que o Sol se ponha sobre sua ira”. Feliz é quem se lembra disso, o que eu acredito seja o caso de vocês. Que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo, que é o Filho de Deus, e nosso eterno Pontífice edifique-os na fé e na verdade, e em toda mansidão, gentileza, paciência, magnanimidade, tolerância e pureza; e Ele lhes dê parte de sua herança entre os santos, e a nós convosco, e a todos os que estão debaixo do céu, que crêem em nosso Senhor Jesus Cristo, e em Seu Pai, que “O ressuscitou dentre os mortos”. Orem por todos os santos. Orem também pelos reis, e pelas autoridades, e príncipes, e por aqueles que vos perseguem e vos odeiam, e pelos inimigos da cruz, de modo que seu fruto seja manifestado a todos, e que vocês sejam perfeitos nEle.

Capítulo XIII – A respeito da transmissão das cartas

Vocês e Inácio escreveram-me, para que se alguém for [daqui] para a Síria, que levassem a carta de vocês; eu atenderei esta requisição se eu encontrar uma boa oportunidade, pessoalmente, ou através de uma outra pessoa, que vos sirva de mensageiro. Quanto às cartas de Inácio, as que ele nos enviou e as outras que pudermos ter aqui, nós vo-las enviaremos como pedistes. Vão anexas. Podereis retirar delas grande utilidade; pois encerram fé, paciência e toda espécie de edificação relativas a nosso Senhor. Qualquer outra informação que vocês conseguirem a respeito de Inácio e daqueles que estão com ele, tenham a gentileza de nos informar.

Capítulo XIV – Conclusão

Estas coisas eu tenho escrito a vocês através de Crescente, a quem recentemente lhes recomendei e agora lhes recomendo novamente. Ele tem crescido irrepreensível entre nós, e eu creio que será da mesma maneira entre vocês. Também vocês irão receber sua irmã, quando ela chegar entre vocês. Sejam salvos em nosso Senhor Jesus Cristo [Incolumes estote in domino Iesu Christo]. Que a graça esteja com todos vocês. Amém.

(Tradução de Luiz Fernando Karps Pasquotto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Terceiro Livro de São Teófilo de Antioquia a Autólico

Encerramos aqui, com a Terceira Carta a Autólico, os escritos de Teófilo de Antioquia (?-186), Teólogo, escritor cristão, apologista e Padre da Igreja. Como dissemos anteriormente, ele escreveu  três cartas em defesa aos cristãos que continuavam a ser perseguidos no Império Romano. Elas foram endereçadas a um sujeito chamado Autólico, uma espécie de pseudônimo que encarna e personaliza um tipo de pessoa pagã que não devia ser rara nos finais do século II: pessoa culta, conhecedora de outras pessoas igualmente cultas e até de alguns cristãos a quem repudiava por achar as suas doutrinas demasiado simplicistas. Nesta obra Teófilo finaliza seus pensamentos, refutando as críticas feitas ao cristianismo e convida o seu leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, de modo acérrimo a moral exemplar dos cristãos.

Segundo Livro a Autólico (São Teófilo de Antioquia)

Capítulo I – Introdução

Teófilo a Autólico: Saudações. Os escritores querem escrever multidões de livros por vanglória; alguns sobre os deuses, as guerras e os tempos; outros sobre fábulas inúteis e trabalho vão, em que também tu te exercitaste até agora. Certamente não vacilas em suportar esse trabalho. Por outro lado, conversando conosco, ainda continuais crendo que a nossa doutrina da verdade é tolice, alegando que nossas Escrituras são recentes e novas. Diante disso tudo, eu também não vacilarei em tratar novamente, com a ajuda de Deus, desde o princípio, a questão da antiguidade de nossas Escrituras, a apresentantar-te um breve resumo, a fim de que não te enfades ao lê-lo e também conheças a inanidade dos outros autores.

Capítulo II – Os outros autores estão mal documentados

Os escritores deviam ter sido eles próprios testemunhas oculares do que afirmam ou ter sabido exatamente daqueles que viram, pois escrever sobre o incerto é, de algum modo, açoitar o ar. De que adiantou Homero ter descrito a guerra de Tróia e enganar a muitos, ou Esíodo na sua Teogonia ter feito o catálogo e descrito as origens daqueles que ele chama deuses? Ou Orfeu com os seus trezentos e sessenta e cinco deuses, que ele rejeita no fim da vida, pois afirma em seus Testamentos que existe um só Deus? De que adiantou a Arato a sua esferografia do céu cósmico ou para aqueles que tiveram as mesmas opiniões, a não ser ter alcançado entre os homens uma glória que nem sequer mereceram? O que eles disseram de verdadeiro? Que proveito tiveram Euripedes, Sófocles e os outros trágicos com suas tragédias, ou Menandro, Aristófanes e outros cômicos, ou Heródoto e Tucídides com sua histórias, ou Pitágoras com seus templos e as colunas de Hércules, ou Diógenes com sua filosofia cínica, ou Epicuro com seu dogmatismo contra a providência, ou Empédocles com suas doutrinas atéias, ou Sócrates com seus juramentos pelo cão, o ganso, o plátano e o fulminado Asclépio e pelos demônios a quem invocava? Além disso, por que morreu voluntariamente e que recompensa esperava receber depois da morte? De que serviu a Platão a educação que ele instituiu, ou de que serviram para os outros filósofos as suas doutrinas? Não farei a lista completa, pois são muitos. Dizemos isso para demonstrar o teor inútil e ateu de suas especulações.

Capítulo III – Os outros autores são mal inspirados

O fato é que, sendo todos ambiciosos de vanglória, nem eles conheceram a verdade, nem conduziram ou estimularam outros a ela. Eis que eles são acusados pelos seus próprios discursos, pois disseram coisas contraditórias e, além disso, a maioria deles destruiu suas próprias doutrinas. Isto é: não só lançaram por terra uns aos outros, mas alguns invadiram seus próprios dogmas, de modo que sua glória acabou na desonra e loucura, pois são condenados pelos homens inteligentes. Primeiro falaram dos deuses, e depois ensinaram o ateísmo; falaram sobre a origem do mundo e acabaram dizendo que o acaso é a lei universal; por fim, começam falando da providência, e depois dogmatizam que o mundo não tem providência. E o que mais? Não é certo que, tentando escrever sobre a pureza, ensinaram a praticar os mais odiosos atos de impudor? São justamente os seus deuses os primeiros que eles anunciam ter praticado as uniões desonestas e festins sacrílegos. Quem não canta Cronos como devorador de seus filhos? E Zeus, seu filho, que devora Métis e prepara abomináveis convites para os deuses? Depois, nos contam de um tal Efesto, coxo e ferreiro, que o serve à mesa; e de Hera, irmã de Zeus, que não só se casa com ele, mas também comete desonestidades com sua boca impura. Suponho que saibas das demais ações dele que os poetas cantam. Que necessidade tenho de enumerar o que se refere a Posêidon, a Apolo, Dionísio e Héracles, ou de Atena, a guerreira, e Afrodite, a desavergonhada? Disso tratamos mais detalhadamente em outro livro.

Capítulo IV – Caluniadores dos cristãos

Eu nem deveria estar refutando essas coisas, se não fosse porque te vejo agora duvidando sobre a doutrina da verdade. Mesmo sendo sensato, suportas de boa vontade os ignorantes. De outra forma, não terias deixado desviar-te pelos vãos discursos de homens insensatos, nem acreditado nesse boato preconceituoso de bocas ímpias, que mentirosamente caluniam a nós, que adoramos a Deus e nos chamamos cristãos, espalhando que temos mulheres em comum e que não nos importamos com quem nos unimos; além disso, dizem que mantemos relação carnal com nossas próprias irmãs e, o que é mais ímpio e cruel, que nos alimentamos de carnes humanas. Dizem ainda que nossa doutrina é recente e que nada temos para alegar como demonstração de nossa verdade e ensinamento. Por fim, dizem que toda a nossa doutrina é pura loucura. Ora, mais do que tudo, fico admirado contigo, pois sendo no resto diligente e pesquisador de todas as coisas, somente a nós ouves com descuido, tu que, tendo possibilidade, não hesitarias em passar até as noites nas bibliotecas!

Capítulo V – Como levar isso a sério?

Muito bem. Já que leste muito, que achas dos conteúdos do livro de Zenão, de Diógenes e de Cleantes, que ensinam a antropofagia, dizendo que os pais devem ser cozidos por seus próprios filhos e comidos por estes, e que se alguém se nega a comer ou joga um membro qualquer dessa abominável comida, deve-se comer aquele que não come? Ainda se encontra uma voz mais ímpia, a de Diógenes, que ensina os filhos a levar seus próprios pais para serem sacrificados e depois comê-los. O que mais? O historiador Heródoto não conta que Cambises degolou os filhos de Harpago e os serviu cozidos para o pai? Também conta que entre os indianos os pais são comidos por seus filhos. Que ímpio ensinamento dessas pessoas que registram tais coisas e até as professam! Que impiedade o ateísmo, que especulações, daqueles que filosofam tão acuradamente e propagam filosofia. Com efeito, os que espalham tais doutrinas encheram o mundo de impiedade.

Capítulo VI – Como levar isso a sério? (cont.)

De fato, no que se refere à união ilegítima, todos os que se extraviaram no coro dos filósofos estão de acordo. Em primeiro lugar Platão, que dentre eles parece ser o que filosofou com mais profundidade. No livro primeiro da República legisla expressamente, digamos assim, que as mulheres de todos devem ser comuns, alegando o exemplo de Minos, filho de Zeus e legislador dos cretenses, a fim de que, sob esse pretexto, os nascimentos sejam numerosos e que, com tais costumes, sejam consolados os que se acham tristes. Além disso, Epicuro, não contente de ensinar o ateísmo, aconselha a relação carnal com mães e irmãs, mesmo transgredindo as leis que o proíbem. Sólon também legislou com toda clareza sobre isso, dizendo que os filhos devem nascer de matrimônio legítimo e não de adultério, para que não se honre como pai aquele que não é pai e se desonre, por ignorância, aquele que o é. Digamos o mesmo do resto que as leis dos romanos e gregos proíbem. Então, com que finalidade Epicuro e os estóicos afirmam como dogma as uniões de irmãos e a pederastia e encheram as bibliotecas com esses ensinamentos, para que se aprenda a união ilegítima desde criança? Não compensa, porém, gastar o tempo com isso, pois propagam coisas semelhantes a respeito do que eles chamam deuses.

Capítulo VII – Como levar isso a sério? (cont.)

Com efeito, depois de afirmar a existência dos deuses, em seguida os reduzem a nada. Porque uns afirmaram que se compõem de átomos; outros, que vão dar nos átomos e que eles não têm mais poder do que os homens. Platão, depois de dizer que os deuses existem, quer que eles sejam compostos de matéria. Pitágoras, que se fatigou tanto sobre o problema dos deuses, que viajou de um lado para outro, por fim separa a natureza e diz que é o acaso que rege tudo e que os deuses não se importam em nada com os homens. E o que excogitou o acadêmico Clitômaco para demonstrar o ateísmo! O que falar de Crítias e Protágoras de Abdera, que diz: “Sobre os deuses, não posso dizer se existem, nem manifestar qual seja sua natureza, pois existem muitas coisas que me impedem”. Seria supérfluo citar as teorias do ímpio Evêmero que, atrevendo-se a falar longamente sobre os deuses, termina dizendo que absolutamente não existem, e quer que tudo seja governado pelo puro acaso. Platão, que falou tantas coisas sobre a monarquia de Deus e sobre a alma do homem, afirmando que ela é imortal, depois também não se contradiz, dizendo que as almas emigram para outros homens e que as almas de alguns vão parar até em animais irracionais? Como é que tal doutrina não se mostrará funesta e sacrílega para os que possuem inteligência sã, isto é, que quem foi homem se transforme em lobo, cão, asno ou qualquer outro animal irracional? Encontramos tolices semelhantes naquilo que Pitágoras disse, além de eliminar a providência. Então, em que vamos acreditar? No cômico Filêmon, que diz: “Porque os que honram a Deus têm belas esperanças de salvar-se”, ou nos citados Evêmero, Epicuro, Pitágoras e outros que negam haver religião e destroem a providência? Em todo caso, eis o que Ariston diz sobre Deus e a providência:

“- Coragem! É costume de Deus ajudar aqueles que o merecem e de modo poderoso. De fato, se não existisse uma preeminência estabelecida para os que vivem como se deve, para que serviria a religião?

– Deveria ser assim, mas com muita freqüência vejo aqueles que se decidem viver religiosamente fazê-lo de modo estranho, enquanto os que buscam apenas o próprio interesse levam existência mais honrosa que nós.

– Talvez no presente. Contudo, é preciso olhar mais longe e esperar a transformação de todas as coisas. Esta não será como na opinião funesta e perniciosa à vida, que se fortaleceu entre alguns, segundo a qual tudo é puro ímpeto do acaso e tudo se decide conforme aparece. Sem dúvida, os ímpios julgam que isso traz vantagem para seus próprios interesses. Entretanto, há também uma preeminência para os que vivem santamente e para os ímpios, como convém, um desejo. Porque sem providência não acontece nada”.

Quanto ao que os outros disseram sobre Deus e a providência, e pode-se dizer que são a maioria, pode se ver como suas doutrinas são contraditórias. Uns eliminaram completamente Deus e a providência; outros, ao contrário, admitem Deus e confessam que tudo é governado por uma providência. Portanto, o ouvinte ou leitor inteligente deve prestar acurada atenção ao que se diz, de acordo com Similo: “Comumente se costuma chamar de poetas tanto aqueles que são naturalmente mal dotados e os de excelentes dotes. Dever-se-ia fazer distinção”. A mesma coisa Filêmon: “É insuportável um ouvinte néscio ali sentado. Por sua tolice nunca repreende a si mesmo”. Deve-se, portanto, prestar atenção e compreender o que se diz, examinando anteriormente as afirmações dos filósofos e demais poetas.

Capítulo VIII – Como levar isso a sério? (cont.)

De fato, começam negando a existência dos deuses, depois a confessam e nos contam que eles praticam ações abomináveis. Zeus é o primeiro. Aí estão os poetas que proclamam suas ações em versos melodiosos. Não foi o grande charlatão de Crisipo que mostrou que Hera uniu-se a Zeus por sua impura boca? Para que enumerar as impudicícias da chamada mãe dos deuses, ou de Zeus Lacial, sedento de sangue humano, ou de Atis, o mutilado? Ou aquele Zeus, com o sobrenome de Trágico, que queimou sua própria mão, como dizem, e agora é honrado como deus entre os romanos? Passo em silêncio os templos de Antino e dos outros pretensos deuses. Essas histórias todas são motivo de riso para os homens inteligentes. Na verdade, os que professam tal filosofia são levados ao ateísmo por suas próprias doutrinas, assim como à poligamia e à inversão. Além disso, em seus escritos encontrase a antropofagia, e os primeiros que fizeram tudo isso são os deuses que eles honram.

Capítulo IX – Excelência da moral cristã

Nós, porém, confessamos a Deus, mas um só, o criador, o autor e artífice de todo este mundo, e sabemos que tudo é governado por sua providência, mas somente pela sua. E aprendemos uma lei santa, mas temos como legislador o verdadeiro Deus, que nos ensina a agir justa, religiosa e santamente. Sobre a religião e a piedade ele diz: “Não terás deuses estranhos além de mim. Não fabricarás para ti imagem alguma de tudo o que há acima no céu, nem abaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não os adorarás, nem os servirás, porque eu sou o Senhor teu Deus”. Sobre o agir santamente ele diz: “Honra teu pai e tua mãe, para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra que eu te dou, eu o Senhor Deus”. E sobre a justiça: “Não cometerás adultério. Não matarás. Não roubarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem qualquer animal seu, nem qualquer coisa que pertença ao teu próximo. Não distorcerás o julgamento ao julgar o pobre. Tu te afastarás de toda palavra injusta. Não matarás o inocente e justo. Não absolverás o ímpio, nem aceitarás suborno, pois o suborno cega os olhos dos que vêem e destroem as palavras justas”. O ministro dessa lei santa foi Moisés, também servo de Deus. Foi dada para o mundo inteiro, embora primeiro para os hebreus, também chamados judeus. O rei do Egito os havia reduzido à escravidão, apesar de serem uma descendência justa de homens religiosos e santos, de Abraão, de Isaac e Jacó. Deus, porém, lembrou-se deles e, realizando maravilhas e prodígios por meio de Moisés, libertou-os milagrosamente e os tirou do Egito, conduzindo-os através do assim chamado deserto, e finalmente os estabeleceu na terra de Canaã, que depois foi chamada Judéia, deu-lhes a lei e lhes ensinou tudo isso. Os dez pontos principais dessa grande e admirável lei, que vale para toda a justiça, são os que acabamos de citar.

Capítulo X – Excelência da moral cristã (cont.)

Os judeus residiram no Egito como estrangeiros, pois de raça eram hebreus procedentes da Caldéia. Tendo havido naquele tempo uma fome, tiveram que emigrar para o Egito, a fim de comprar mantimentos e com o tempo aí se estabeleceram. Então aconteceu a eles conforme a predição de Deus. Depois de viverem como forasteiros no Egito durante quatrocentos e trinta anos, quando Moisés os levou para o deserto, Deus lhes ensinou por meio da lei, dizendo: “Não oprimirás o estrangeiro, porque vós conheceis a alma do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito”.

Capítulo XI – Excelência da moral cristã (cont.)

Ora, o povo transgrediu a lei que lhe fora dada. Deus, porém, que é bom e misericordioso, não querendo que perecessem, além de ter-lhes dado a lei, mandou-lhes depois profetas dentre seus irmãos, para que lhes ensinassem e recordassem as coisas da lei e levá-los à penitência para que não pecassem mais. Contudo, como eles se obstinassem em suas más ações, os profetas lhes predisseram que seriam submetidos a todos os remos da terra. E é evidente que isso lhes aconteceu. Portanto, sobre a penitência, o profeta Isaias diz a todos em geral, mas particularmente ao povo: “Buscai o Senhor e, ao encontrá-lo, invocai-o. Quando ele se aproximar de vós, que o ímpio abandone os próprios caminhos e o homem iníquio seus conselhos, e convertam-se ao Senhor seu Deus. Ele se compadecerá e largamente perdoará os vossos pecados”. Ezequiel, outro profeta, diz: “Se o iníquo se converte de todas as iniqüidades que praticou, guarda os meus mandamentos e pratica a minha justiça, viverá com vida e não morrerá; não se lembrará de todas as iniqüidades que praticou, mas viverá pela justiça que praticou, porque eu não quero a morte do iníquo, diz o Senhor, e sim que ele se converta de seu mau caminho e viva”. E Isaías acrescenta: “Convertei-vos, vós que alimentais um desígnio que conduz ao abismo e ao crime, para que vos salveis”. E Jeremias diz: “Convertei-vos ao Senhor vosso Deus, como o vindimador ao seu cesto, e encontrareis misericórdia”. Muitas outras coisas, ou melhor, coisas inumeráveis dizem as santas Escrituras sobre a penitência, pois Deus sempre quer que o gênero humano se converta de todos os seus pecados.

Capítulo XII – Excelência da moral cristã (cont.)

Além disso, sobre a justiça de que a lei fala, vemos que os profetas e os evangelhos estão de acordo, pois todos, portadores de espírito, falaram pelo único Espírito de Deus. Isaias diz o seguinte: “Tirai as maldades de vossas almas, aprendei a fazer o bem, buscai o direito, libertai o oprimido, julgai o órfão e fazei justiça à viúva”. E ainda: “Desata as amarras da iniqüidade, rompe os laços dos contratos violentos, deixa ir os oprimidos em liberdade, rasga todo contrato injusto, reparte o teu pão com o faminto e recolhe em tua casa os mendigos sem teto. Se vês alguém nu, veste-o, e não te afastes com desprezo daqueles que pertencem à tua própria descendência. Então a tua luz brilhará como a aurora, tuas feridas logo serão curadas e tua justiça caminhará diante de ti”. De modo semelhante Jeremias diz: “Parai nos caminhos, olhai e perguntai qual é o caminho do Senhor vosso Deus, o caminho bom; caminhai por ele e encontrareis descanso para vossas almas. Daí sentenças justas, porque essa é a vontade do Senhor vosso Deus”. De modo semelhante também Oséias diz: “Observai o direito e aproximai-vos do Senhor vosso Deus, que firmou o céu e alicerçou a terra”. Joel, outro profeta, de acordo com eles, diz: “Reuni o povo, santificai a assembléia, recebei os anciãos, juntai as crianças que mamam nos peitos; que o esposo saia de seu quarto nupcial e a esposa de seu leito; rogai com insistência ao Senhor vosso Deus, a fim de que ele se compadeça de vós, e ele apagará vossos pecados”. Do mesmo modo Zacarias, outro profeta, diz: “Eis as palavras do Senhor Onipotente: julgai com verdadeira justiça e cada um pratique a misericórdia e a compaixão com o seu próximo; não oprimais a viúva, o órfão e o estrangeiro; não guardeis rancor em vossos corações contra o vosso irmão, diz o Senhor Onipotente”.

Capítulo XIII – Excelência da moral cristã (cont.)

Quanto à pureza, a palavra santa não só nos ensina a não pecar por atos, mas também por pensamento, sequer pensar em nosso coração sobre alguma coisa má ou desejar a mulher alheia, olhando-a com os olhos. Com efeito, Salomão, que foi rei e profeta, diz: “Que teus olhos vejam o que é reto e tuas pálpebras se inclinem para o que é justo; que teus pés só percorram o caminho reto”. E a voz do Evangelho diz ainda mais expressamente sobre a castidade: “Todo aquele que olha a mulher alheia para desejá-la, já cometeu adultério com ela em seu coração. Aquele que se casa com a que foi repudiada por seu marido, comete adultério; e aquele que repudia sua mulher, exceto pelo motivo de fornicação, faz com que ela cometa adultério”. Salomão diz ainda: “Pode alguém carregar fogo em sua veste e não queimar a sua roupa? Ou caminhar sobre brasas e não queimar os pés? Do mesmo modo, quem entra na casa da mulher casada não será inocente”.

Capítulo XIV – Excelência da moral cristã (cont.)

Quanto a não termos benevolência apenas com os de nosso próprio grupo, como pensam alguns, o profeta Isaias diz: “Dizei aos que vos odeiam e abominam: ‘Sois nossos irmãos’, a fim de que seja glorificado o nome do Senhor e seja visto na alegria deles”. E o Evangelho diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos caluniam. Com efeito, se amais os que vos amam, que recompensa tendes? Também os salteadores e publicanos fazem isso”. Aos que praticam o bem, ele os ensina a não se glorificar, a fim de não agradarem aos homens: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”. A palavra divina também manda que nos submetamos aos magistrados e autoridades e a orar por eles, a fim de levar uma vida calma e tranqüila. Também nos ensina a dar a todos o que lhes convém. A honra, a quem se deve a honra; o temor, a quem se deve o temor; o tributo, a quem se deve o tributo; e não dever nada a ninguém, mas apenas amar a todos.

Capítulo XV – Acusações precipitadas

Considera, portanto, se aqueles que recebem tais ensinamentos podem viver indiferentemente ou manchar-se com uniões ilegítimas, ou então, o que supera toda impiedade, alimentar-se de carnes humanas. Na verdade, somos proibidos até de assistir aos espetáculos de gladiadores, a fim de não participarmos e não nos tornarmos cúmplices daquelas mortes. Também não devemos ver os outros espetáculos, para que nossos olhos e ouvidos não fiquem impuros ao participar do que ali se canta. De fato, se se fala de antropofagia, ali são devorados os filhos de Tiestis e Tereu; se se fala de adultério, ali se representam tragédias em que não só os homens as cometem, mas também os próprios deuses. Coisas que são contadas em versos melodiosos e não sem honras e prêmios. Longe dos cristãos sequer passar-lhes pelo pensamento fazer essas coisas. Entre eles há temperança, exercita-se a continência, observa-se a monogamia, guarda-se a castidade, aniquila-se a injustiça, arranca-se o pecado pela raiz, medita-se a justiça, cumpre-se a lei, pratica-se a religião, confessa-se a Deus, a verdade decide como árbitro, a graça guarda, a paz protege, a palavra santa dirige, a sabedoria ensina, a vida decide e Deus reina. Poderíamos dizer muito mais coisas sobre o comportamento que se vive entre nós e sobre as justificaçôes de Deus, artífice de toda criatura. Por enquanto, porém, basta o que recordamos, a fim de que tu o saibas, sobretudo pelo que lês até agora e, já que foste estudioso até o presente, o sejas também daqui para frente.

Capítulo XVI – Antiguidade da tradição cristã

Quero agora mostrar-te com mais precisão, com a ajuda de Deus, nossa posição no tempo, para que reconheças que a nossa doutrina não é recente, e nem fabulosa, e sim mais antiga e verdadeira do que todos os poetas e historiadores que escreveram sobre o incerto. Uns, dizendo que o mundo era incriado, terminaram no infinito; outros, que o disseram criado, falaram que já se haviam passado quinze miríades e três e setecentos e cinco anos. Isso é contado por Polônio, o egípcio. Platão, que parece ter sido o mais sábio dos gregos, por quantas tolices não enveredou? Na chamada República encontra-se literalmente: “Se as coisas permaneceram o tempo todo dispostas como estão agora, como se poderia encontrar alguma coisa de novo? É que durante uma miríade de miríades de anos as pessoas não perceberam o tempo e só há mil ou dois mil anos tornaram-se manifestas as primeiras descobertas, umas por Dédalo, outras por Orfeu, e outras por Palamedes”. Dizendo que assim aconteceu, ele mostra que do dilúvio até Dédalo passou-se uma miríade de miríades de anos. Depois de falar longamente de cidades espalhadas pelo mundo, de habitantes e povos, ele confessa que falou de tudo isso por conjectura. De fato, ele diz: “Em todo caso, estrangeiro, se um deus nos prometesse começar de novo as discussões sobre as leis, das palavras agora ditas…” É claro que falou por conjectura e, se falou por conjectura, o conseqüentemente que ele disse não é verdade.

Capítulo XVII – Necessidade da inspiração

Portanto, vale mais tornar-se discípulo da lei divina. O próprio Platão reconheceu o que não é possível aprender de outra maneira que é exato, a não ser que Deus nos ensine pela lei. Além disso, os próprios poetas Homero, Hesíodo e Orfeu não disseram que foram ensinados pela presciência divina? E dizem ainda que no tempo dos historiadores houve adivinhos e conhecedores do futuro e que aqueles que aprenderam com eles escreveram com exatidão. Tanto mais não saberemos nós a verdade, que aprendemos com os santos, profetas, os quais receberam o santo Espírito de Deus? É por isso que todos os profetas disseram coisas que concordavam entre si e anunciaram de antemão o que deveria acontecer para todo o mundo. Com efeito, o cumprimento das coisas anteriormente anunciadas e que agora se realizam pode muito bem ensinar aos estudiosos, ou melhor, aos amantes da verdade, que também são verdade as coisas por eles ditas a respeito dos tempos e situações anteriores ao dilúvio, desde a criação do mundo até hoje, junto com a computação dos anos, demonstrando assim a charlatanice enganadora dos historiadores e que não é verdade o que estes disseram.

Capítulo XVIII – A história do dilúvio

Platão, como dissemos antes, depois de afirmar que houve dilúvio, disse que não atingiu toda a terra, mas só as planícies, e que os que fugiram para as montanhas mais altas se salvaram. Outros dizem que existiram Deucalião e Pirra, que somente estes se salvaram numa arca, e que Deucalião, depois de sair da arca, foi jogando pedras para trás e que dessas pedras nasceram homens. Dizem que é daí que vem o nome “povos” dado à multidão de homens. Outros disseram que Climeno existiu por ocasião do segundo dilúvio. É evidente que aqueles que escreveram essas coisas e assim inutilmente filosofaram sejam miseráveis, totalmente ímpios e néscios. Ao contrário, nosso profeta explicou como aconteceu o dilúvio, sem ter que inventar um Deucalião, ou uma Pirra, ou Climeno, nem que se deu apenas nas planícies e salvando-se somente os que se refugiaram nas montanhas.

Capítulo XIX – A história do dilúvio (cont.)

Também não disse que houve um segundo dilúvio; ao contrário, disse que não acontecerá no mundo outro dilúvio de água, como de fato não houve, nem haverá. Conta que foram oito pessoas que se salvaram na arca, construída por ordem de Deus não através de Deucalião, mas por aquele que em hebraico se chama Noé e é interpretado em grego como “descanso”. Em outro livro, mostramos como Noé, anunciando aos homens que o dilúvio viria, profetizou-lhes, dizendo: “Vinde, Deus vos chama à penitência”. Por isso, com toda a propriedade, foi chamado Deucalião. Esse Noé tinha três filhos, como mostramos no segundo livro, cujos nomes eram Sem, Cam e Jafé. Cada um deles tinha sua mulher, assim como Noé tinha a sua. Alguns dão o nome de Eunuco a esse homem. Portanto, no total, se salvaram oito vidas humanas, aquelas que se encontravam na arca. Moisés mostrou que o dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites, durante os quais as cataratas do céu se romperam e todas as fontes do abismo jorraram, de modo que a água se ergueu quinze côvados acima dos montes mais altos. Desse modo todo o gênero humano então existente pereceu, salvando-se apenas os oito que foram preservados na arca, dos quais falamos antes. Os restos dessa arca até hoje são mostrados nos montes da Arábia. Essa é, em resumo, a história do dilúvio.

Capítulo XX – Data de Moisés

Como já dissemos antes, Moisés conduziu os judeus, quando estes foram expulsos do Egito pelo rei faraó, cujo nome é Tetmósis. Segundo dizem, depois da expulsão do povo, este reinou vinte e cinco anos e quatro meses, conforme a contagem de Maneton. Depois dele, Cebron reinou treze anos; depois deste, reinou Amenófis por vinte anos e sete meses; depois deste, sua irmã Amesa reinou vinte e um anos e um mês; depois dela, Mefres reinou doze anos e nove meses; depois, Meframutósis reinou vinte anos e dez meses; depois deste, Titmósis reinou nove anos e oito meses; depois deste, Damfenófis reinou trinta anos e dez meses; depois deste, Oros reinou trinta e cinco anos e cinco meses; a filha deste reinou dez anos e três meses; depois dela, reinou Merqueres durante doze anos e três meses; depois, Armais reinou quatro anos e um mês; depois deste, Ramsés reinou um ano e quatro meses; depois Messes, filho de Miamo, reinou seis anos e dois meses; depois deste, Amenófis reinou dezenove anos e seis meses; depois Seto e Ramsés, que reinaram dez anos, os quais tinham fama de possuir grandes forças de cavalaria e grande frota em seu tempo. Quanto aos hebreus, que naquele tempo viviam como forasteiros no Egito, submetidos à escravidão pelo rei Tetmósis, do qual falamos, construíram para ele as cidades fortificadas de Peito, Ramesen e On, que é Heliópolis. Assim se demonstra que os hebreus são mais antigos do que as mais famosas cidades daquela época entre os egípcios. Eles são os nossos antepassados e deles recebemos também os livros sagrados que são, como já dissemos, mais antigos do que todos os historiadores. O Egito deriva seu nome do rei Seto, pois dizem que Seto equivale a Egito. Seto tinha um irmão chamado Armais. É este que é chamado de Dânaos, e foi ele que veio do Egito para Argos; dele fazem menção todos os historiadores como sendo muito antigo.

Capítulo XXI – Data de Moisés (cont.)

O egípcio Maneton, depois de muitas tolices e até injúrias contra Moisés e os hebreus que o acompanhavam, insinuando que foram expulsos do Egito como leprosos, não soube dizer exatamente a época. Chamando os hebreus de pastores e inimigos dos egípcios, disse que eram pastores forçados, convencido pela verdade. De fato, nossos antepassados foram pastores, habitando como peregrinos no Egito, mas não leprosos. Com efeito, ao chegarem à terra chamada Jerusalém, onde em seguida habitaram, é claro como seus sacerdotes, que permaneciam no templo por ordem de Deus, curavam toda enfermidade, entre elas a lepra e qualquer outro defeito. O templo foi construído por Salomão, rei da Judéia. É evidente que Maneton se equivoca na cronologia por suas próprias palavras, e também a respeito de quem os expulsou, cujo nome era Faraó. Ele não reinou mais sobre os egípcios, pois, saindo em perseguição aos hebreus, afogou-se com o seu exército no mar Vermelho. Ele também se equivoca dizendo que aqueles que ele chama de pastores, guerrearam contra os egípcios, porque eles saíram do Egito e povoaram a terra que agora se chama Judéia, trezentos e treze anos antes da chegada de Dânaos a Argos. E claro que este é tido como o mais antigo pela maior parte dos escritores gregos. Através de seus escritos, mesmo sem querer, Maneton disse a verdade em dois pontos: em tê-los chamado de pastores e afirmado que saíram do Egito. Por esses dados fica demonstrado que Moisés e os seus são novecentos ou mil anos anteriores à guerra de Tróia.

Capítulo XXII – Data do templo

Sobre a construção do templo da Judéia, edificado pelo rei Salomão quinhentos e sessenta e seis anos depois da saída do Egito, entre os tírios se guardam documentos de como ele foi construído; nos arquivos deles conservam-se escritos onde consta que o templo foi construído cento e trinta e quatro anos e oito meses antes da fundação de Cartago pelos tírios. Esses documentos foram consignados pelo rei dos tírios chamado Hiéramo ou Hiram, filho de Abibal, rei dos tírios, pois este, por tradição paterna, tornou-se amigo de Salomão, também por causa da extraordinária sabedoria de Salomão. Um e outro se exercitavam continuamente com os problemas e disso dão testemunho as cartas que dizem ainda estar conservadas entre os tírios; e também enviavam escritos um ao outro. O mesmo é lembrado por Menandro de Éfeso em suas histórias dos reis de Tiro, onde ele diz: “Quando morreu Abibal, rei dos tírios, seu filho Hieromo herdou o reino e viveu cinqüenta e três anos. A este sucedeu Bazoro, que viveu quarenta e três anos e reinou dezessete. Depois dele, veio Metnastarto, que viveu cinqüenta e quatro anos e reinou nove. Os quatro filhos de sua nutriz conspiraram contra ele e o mataram; o maior dos conjurados reteve a coroa durante doze anos. Depois deles, Astarto, filho de Deliostarto, viveu cinqüenta e quatro anos e reinou doze. Depois dele, seu irmão Atárimo viveu cinqüenta e oito anos e reinou nove. Este foi morto pelo seu irmão chamado Heles, que viveu cinqüenta anos e reinou oito. Foi morto por Iutobal, sacerdote de Astarte, que viveu cinqüenta anos e reinou doze. Depois dele, veio seu filho Bazoro, que viveu quarenta e cinco anos e reinou sete. Meten, filho deste, viveu trinta e dois anos e reinou vinte e nove. A ele sucedeu Pigmalião, que viveu cinqüenta e seis anos e reinou sete. No sétimo ano do seu reinado, sua irmã fugiu para a Líbia e edificou a cidade que até hoje se chama Cartago”. Portanto, todo o tempo que vai desde o reinado de Hieromo até a fundação de Cartago se reduz a cento e cinqüenta e cinco anos e oito meses. O templo foi edificado em Jerusalém no ano doze do reinado de Hieromo, de modo que o tempo que vai da edificação do templo até a fundação de Cartago é de cento e trinta e três anos e oito meses.

Capítulo XXIII – Data do ultimo profeta / Cronologia do mundo

Basta o que dissemos sobre o testemunho dos fenícios e egípcios, tal como aparece nas histórias escritas sobre nossas antiguidades pelo egípcio Maneton, pelo efésio Menandro e pelo próprio Josefo, o cronista da guerra dos judeus, feita contra eles pelos romanos. Através desses antigos demonstram-se que os escritos dos outros são posteriores aos que nos foram dados por Moisés e mesmo aos dos profetas posteriores. De fato, o último dos profetas, chamado Zacarias, exerceu sua atividade no reinado de Dano. Também vemos que os legisladores editaram suas leis posteriormente. Com efeito, se se cita Sólon, o ateniense, este viveu nos tempos dos reis Ciro e Dano, contemporâneo do profeta Zacarias e até muitos anos posterior. Se se trata dos legisladores Licurgo, Draco ou Minos, nossos livros sagrados ganham deles em antiguidade, pois demonstra-se que os escritos da lei divina, que nos foi dada por Moisés, são anteriores ao próprio Zeus, rei dos cretenses, e até à guerra de Tróia. Todavia, para fazer uma demonstração mais exata de toda essa cronologia, vamos, com a ajuda de Deus, traçar a história não só dos tempos anteriores ao dilúvio, mas também dos posteriores. Daremos, no que for possível, o número de todos eles, remontando à própria origem da criação do mundo, tal como foi consignada por Moisés, servo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Com efeito, depois de falar da criação e origem do mundo, do primeiro homem e do que aconteceu depois, ele também indicou os anos que se passaram antes do dilúvio. De minha parte, peço a graça do único Deus para dizer com exatidão toda a verdade, conforme a sua vontade, a fim de que também tu e todo aquele que ler isto seja guiado pela verdade e pela sua graça. Vou, portanto, começar pelas genealogias que foram consignadas, isto é, desde o primeiro homem, que serve de ponto de partida.

Capítulo XXIV – Cronologia do Mundo (cont.)

Adão, até ter o seu primeiro filho, viveu duzentos e trinta anos; seu filho Set viveu duzentos e cinco anos. Enós, filho deste, viveu cento e noventa anos; Cainã, filho deste, cento e setenta; Malaleel, filho deste, cento e sessenta e cinco; Jareta, filho deste, cento e sessenta e dois; Henoc, filho deste, cento e sessenta e cinco; Matusala, filho deste, cento e sessenta e sete; Lamec, filho deste, cento e oitenta e oito; este gerou o já mencionado Noé, que, com quinhentos anos, gerou Sem. No seu tempo, quando tinha seiscentos anos, aconteceu o dilúvio. Portanto, o total de anos até o dilúvio é de dois mil, duzentos e quarenta e dois anos. Logo depois do dilúvio, Sem, com cem anos, gerou Arfaxad. Com cento e trinta e cinco anos, Arfaxad gerou Sala. Aos cento e trinta anos, Sala teve o filho Héber, e este por sua vez gerou aos cento e trinta e quatro anos. Da descendência dele veio a denominação de hebreus. Seu filho Faleg foi pai aos cento e trinta anos. Ragã, filho deste, foi pai aos cento e trinta e dois anos; Nacor, filho deste, foi pai aos setenta e cinco; Tarra, filho deste, foi pai aos setenta; Abraão, filho deste, foi o nosso patriarca e gerou Isaac aos cem anos. Antes de ter filhos, Isaac viveu sessenta anos e gerou Jacó. Jacó viveu cento e trinta anos, até a emigração para o Egito, antes mencionada, e a permanência dos hebreus no Egito durou quatrocentos e trinta anos. E depois de sair da terra do Egito, passaram quarenta anos no deserto. Portanto, o total de anos é de três mil novecentos e trinta e oito. Depois que Moisés morreu, sucedeu-lhe no comando Josué, filho de Nave, que os chefiou durante vinte e sete anos. Depois de Josué, o povo transgrediu os mandamentos de Deus e ficou submetido por oito anos ao rei da Mesopotâmia, chamado Cusaraton. Depois o povo se arrependeu e teve juízes: Gotonoel, durante quarenta anos; Eglon durante dezoito; Aot durante oito. Depois, por causa de seus pecados, foram durante vinte anos dominados pelos estrangeiros. Em seguida, Débora os julgou durante quarenta anos. Depois os madianitas os dominaram por sete anos. Gedeão os julgou quarenta; Abimelec três; Tola vinte e três; Jair vinte e dois. Depois os filisteus e os amonitas os dominaram durante dezoito anos. Depois Jefté os julgou por seis anos, Esbon sete, Ailon dez, Abdon oito anos. Depois os estrangeiros os dominaram por quarenta anos. Depois Sansão os julgou vinte anos e, em seguida, tiveram paz durante quarenta anos. Depois Samera os julgou um ano, Heli vinte e Samuel doze anos.

Capítulo XXV – Cronologia do Mundo (cont.)

Depois dos juízes, houve reis entre eles. O primeiro deles foi Saul, que reinou vinte anos; depois Davi, nosso antepassado, que reinou quarenta anos. Portanto, o total de anos até Davi é de quatrocentos e noventa e oito. Depois desses, reinou Salomão durante quarenta anos, que foi o primeiro a construir o templo de Jerusalém, conforme o desígnio de Deus. Depois dele, Roboão reinou dezessete anos; depois deste, Abias sete; depois deste, Asa quarenta; depois deste, Josafá vinte e cinco; depois deste, Jorão oito; depois deste, Ocozias um; depois deste, Gotolia seis; depois deste, Joás quarenta; depois deste, Amasis trinta e nove; depois deste, Ozias cinqüenta e dois; depois deste, Manassés cinqüenta e cinco; depois deste, Amós dois; depois deste, Josias trinta e um; depois deste, Ocas três meses; depois deste, Joaquim onze anos; depois deste, outro Joaquim três meses e dez dias; depois deste, Sedecias onze anos. Depois dos reis, como o povo continuava em seus pecados e não se convertia, segundo o profeta Jeremias, subiu até a Judéia um rei da Babilônia, chamado Nabucodonosor, levou o povo judeu para a Babilônia e destruiu o templo edificado por Salomão. O povo permaneceu setenta anos no exílio da Babilônia. Portanto o total de anos até o estabelecimento na Babilônia é de quatro mil, novecentos e cinqüenta e quatro anos. Contudo, do mesmo modo como Deus, através do profeta Jeremias, predissera que o povo viveria exilado na Babilônia, também anunciou de antemão que voltariam para a sua terra depois de setenta anos. Cumpridos os setenta anos, veio Ciro, rei dos persas, que, conforme a profecia de Jeremias, no segundo ano de seu reinado, emanou por escrito um decreto, pelo qual todos os judeus existentes em seu reino voltariam para seu país e reedificariam a Deus o templo destruído pelo mencionado rei da Babilônia. Além disso, por disposição de Deus, Ciro ordenou a seus próprios guardas Sabessaro e Mitrídates para que os utensílios tomados por Nabucodonosor do templo da Judéia fossem devolvidos e recolocados no templo. Assim, no segundo ano de Dano, cumpriram-se os setenta anos preditos por Jeremias.

Capítulo XXVI – Transcendência da história sagrada

Pode-se ver, assim, como nossos livros sagrados são mais antigos e mais verdadeiros que os dos historiadores gregos, egípcios ou de outros. Na verdade, Heródoto, Tucídides e os outros historiadores costumam iniciar seus relatos mais ou menos nos reinados de Ciro e Dano, por não poderem dizer nada de exato sobre épocas anteriores. O que é que disseram de grande, se apenas nos falaram de Dano e Ciro, reis bárbaros; entre os gregos, de Sópiro e Hípias; das guerras de atenienses e lacedemônios; das façanhas de Xerxes e Pausânias, que quase morre de fome no templo de Atenas; de Temístocles e da guerra do Peloponeso; de Alcebíades e Trasíbulo? Não nos interessa assunto de muitas palavras, mas esclarecer a quantidade de tempo passado desde a constituição do mundo, convencendo da inanidade e charlatanice os historiadores, pois não se trata, como disse Platão, de duas miríades de miríades de anos desde o dilúvio até seu tempo, nem de quinze miríades, trezentos e setenta e cinco anos, como dissemos que afirma o egípcio Apolônio. O mundo também não é incriado, nem o acaso rege tudo, como sonharam Pitágoras e outros, mas é criado e governado pela providência de Deus, que o criou. Com isso se esclarece o conjunto do tempo e os anos, para aqueles que querem obedecer à verdade. Entretanto, para que não pareça que chegamos apenas até Ciro e descuidamos das épocas posteriores, porque não podíamos completar a nossa demonstração, com a ajuda de Deus procurarei ordenar também, no que for possível, a cronologia das épocas seguintes.

Capítulo XXVII – História contemporânea

Ciro reinou trinta e oito anos e foi morto por Tomíris na Massagétia, durante a sexagésima segunda Olimpíada. A partir dai, os romanos se engrandeceram, com a força de Deus. Roma tinha sido fundada por Rômulo, que se conta ter sido filho de Marte e Ilia, na sétima Olimpíada, dezessete dias antes das calendas de maio, quando então o ano era contado em dez meses. Morto Ciro, como dissemos, na sexagésima segunda Olimpíada, o tempo desde a fundação de Roma corresponde a duzentos e vinte anos, quando Tarqüínio, o Soberbo, comandava os romanos. Este foi o primeiro que desterrou alguns romanos, corrompeu os jovens e deu direitos de cidadania a eunucos; ele chegou até a violar virgens para depois dá-las em casamento. Por isso, ele foi chamado em latim de “Soberbo”, que significa “Arrogante”. Foi o primeiro a decretar que aqueles que o saudassem fossem saudados por outro. Reinou vinte e cinco anos. Depois dele, assumiram o poder cônsules anuais, tribunos e edis durante quatrocentos e cinqüenta e três anos, cujos nomes são muitos e seria supérfluo enumerá-los. Quem quiser saber, os encontrará nas listas feitas por Crísero, o nomenclador, que foi liberto de M. Aurélio Vero. Ele anotou tudo detalhadamente, nomes e datas, desde a fundação de Roma até a morte do seu patrono, o imperador Vero. Portanto, durante quatrocentos e cinqüenta e três anos, magistrados anuais governaram os romanos, como já dissemos. Depois vieram os chamados imperadores: o primeiro, Caio Júlio, que reinou três anos, quatro meses e seis dias; depois Augusto, cinquenta e seis anos, quatro meses e um dia; Tibério, vinte e dois anos; outro Caio, três anos, oito meses e sete dias; Cláudio, treze anos, oito meses e vinte e quatro dias; Nero, treze anos, seis meses e vinte e oito dias; Galba, sete meses e sete dias; Otão, três meses e cinco dias; Vitélio, seis meses e vinte e dois dias; Domiciano, quinze anos, dez meses e vinte e oito dias; Nerva, um ano, quatro meses e dez dias; Trajano, dezenove anos, seis meses e dezesseis dias; Adriano, vinte anos, dez meses e vinte e oito dias; Antonino, vinte e dois anos, sete meses e seis dias; Vero, dezenove anos e dez dias. Assim, os anos dos Césares até a morte do imperador Vero são duzentos e vinte e cinco. Desde a morte de Ciro e do reinado em Roma de Tarquínio, o Soberbo, até a morte do imperador Vero, do qual falamos antes, o total de anos é de setecentos e quarenta e quatro.

Capítulo XXVIII – Recapitulação

Resumindo então a cronologia desde a criação do mundo, temos: da criação do mundo até o dilúvio, dois mil, duzentos e quarenta e dois anos; do dilúvio ao primeiro filho de Abraão, nosso antepassado, mil, trinta e seis anos; de Isaac, filho de Abraão, até a estada do povo com Moisés no deserto, seiscentos e sessenta anos; da morte de Moisés e do comando de Josué, filho de Nave, até a morte de Davi, nosso antepassado, quatrocentos e noventa e oito anos; da morte de Davi e do reinado de Salomão até a estada do povo na Babilônia, quinhentos e dezoito anos, seis meses e dez dias; do reinado de Ciro até a morte do imperador Aurélio Vero, setecentos e quarenta e um anos. O total de anos, sem contar meses e dias, desde a criação do mundo, é de cinco mil, seiscentos e noventa e cinco anos.

Capítulo XXIX – Conclusão

Tendo reunido o que dissemos sobre a cronologia e tudo o resto, é fácil ver a antiguidade dos textos proféticos e a divindade da nossa doutrina. Esta não é recente, assim como a nossa religião, como pensam alguns, fábula e mentira, ao contrário, mais antiga e mais verdadeira do que a deles. Com efeito, Talo menciona Bel, rei dos assírios, e o Titã Crono, dizendo que Bel lutou com os Titãs contra Zeus e os chamados deuses; aí afirma que Gigos, vencido, fugiu para Tartessos, terra que então se chamava Acté e agora se chama Ática, da qual Gigos era então rei. Não creio ser necessário contar-te de quem as outras terras e cidades receberam seus nomes, pois sobretudo tu conheces suas histórias. É coisa evidente, portanto, que Moisés é mais antigo do que todos os historiadores (e não somente ele, mas a maior parte dos profetas que lhe sucederam), e mais do que Bel e Crono e a guerra de Tróia. De fato, segundo a história de Talo, Bel é anterior à guerra de Tróia em trezentos e vinte e dois anos, e acima expusemos como Moisés é anterior à tomada de Tróia em novecentos ou mil anos. Como Crono e Bel foram contemporâneos, a maior parte não sabe quem é Crono e quem é Bel. Uns culturam Crono e o chamam de Bel ou Bal, sem saber quem é Crono e quem é Bel. Entre os romanos o chamam de Saturno, e também estes não sabem quem dos dois é, se Crono ou Bel. Quanto ao início das Olimpíadas, uns dizem que adquiriam caráter religioso a partir de Ifito; conforme outros, a partir de Limo, que também era chamado de Ilio. Acima expusemos a sucessão dos anos e das Olimpíadas. Por fim, segundo as nossas possibilidades, creio que eu disse exatamente o que se refere à antiguidade de nossas coisas e o número completo dos tempos. Se algum período nos escapou, terá sido, por exemplo, uns cinqüenta, cem ou até duzentos anos; não, porém, dez mil ou mil anos, como disseram Platão, Apolônio e outros que escreveram de forma mentirosa. Talvez também nós não saibamos exatamente o número de todos os anos, porque não se assinalam nas sagradas Escrituras os meses e dias supérfluos. Além disso, está de acordo com o que dissemos sobre essas épocas Beroso, filósofo caldeu, que foi aquele que deu a conhecer aos gregos a literatura caldéia e disse algumas coisas concordes com Moisés, tanto sobre o dilúvio como sobre muitos outros acontecimentos. Em parte, ele está de acordo também com Jeremias e Daniel; por exemplo, no que aconteceu aos judeus sob o rei da Babilônia, que ele chama de Nabopolassar e os hebreus de Nabucodonosor. Ele também menciona a destruição do templo de Jerusalém pelo rei dos caldeus e como, no segundo ano do reinado de Ciro, foram postos os alicerces do novo templo, que foi terminado no segundo ano de Dano.

Capítulo XXX – As verdadeiras razões do incrédulo / Exortação final

Os gregos, porém, não mencionam as histórias verdadeiras. Primeiro, porque só recentemente tiveram conhecimento das letras, coisa que eles mesmos confessam, uns dizendo que foram inventadas pelos caldeus, outros pelos egípcios, outros pelos fenícios; segundo, porque cometeram e continuam cometendo um erro ao não se lembrarem de Deus em seus escritos, mas só assuntos vãos e inúteis. Vê-se como colocam todo seu afã em citar Homero, Hesíodo e outros poetas; sobre a glória do Deus incorruptível e único, porém, não só se esquecem dele, como também o blasfemam. Mais ainda: perseguiram e até hoje continuam perseguindo seus adoradores. Em troca, oferecem prêmios e honras para os que o insultam melodiosamente, mas aos que se esforçam pela virtude e vivem vida santa, eles apedrejam uns, matam outros, e até hoje os submetem a tormentos cruéis. Por isso, necessariamente perderam a sabedoria de Deus e não encontraram a verdade. Portanto, se te agrada, lê cuidadosamente tudo isso, para que encontres aqui um resumo e um penhor da verdade.

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(Tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Segundo Livro de São Teófilo de Antioquia a Autólico

Conforme explicamos anteriormente, Teófilo de Antioquia (?-186), Teólogo, escritor cristão, apologista e Padre da Igreja escreveu  três cartas em defesa aos cristãos que continuavam a ser perseguidos no Império Romano. Elas foram endereçadas a um sujeito chamado Autólico, uma espécie de pseudônimo que encarna e personaliza um tipo de pessoa pagã que não devia ser rara nos finais do século II: pessoa culta, conhecedora de outras pessoas igualmente cultas e até de alguns cristãos a quem repudiava por achar as suas doutrinas demasiado simplicistas. Nesta obra Teófilo continua a escrever sempre com enorme elegância e clareza de linguagem, as críticas feitas ao cristianismo e convida o seu leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, de modo acérrimo a moral exemplar dos cristãos. Estes livros são riquezas de enorme valor pra a Igreja. São longos, mas valem a pena serem lidos!

Segundo Livro a Autólico (São Teófilo de Antioquia)

Capítulo I – Introdução

Excelente Autólico, há dias tivemos uma conversa, na qual tu me perguntaste qual era o meu Deus. Expus brevemente minha religião e tu prestaste atenção ao meu discurso. Despedindo-nos, fomos para casa na melhor amizade, embora no começo me tenhas tratado com dureza. Sabes e lembras que consideravas loucura o nosso discurso. Depois disso tu me convidas… Mesmo sendo novato na arte de falar, quero também agora, através deste escrito, demonstrar-te de modo mais completo a inutilidade do teu afã e a inanidade da religião que te retém; esclarecerei a verdade através de algumas histórias do teu próprio grupo, as quais lês, mas que talvez ainda não tenhas entendido.

Capítulo II – Os ilogismos do paganismo: Idolatria

Com efeito, parece-me ridículo que cortadores de pedra, oleiros, pintores e fundidores modelem, pintem, esculpam, fundam e fabriquem deuses, os quais, enquanto estão nas mãos dos artífices, não são de maneira alguma apreciados; contudo, quando alguém os compra e os expõe no que chamam de templo ou em alguma casa, então são adorados não somente por aqueles que os compraram, mas aqueles mesmos que os fabricaram e venderam acorrem com grande fervor, com aparato de sacrificios e libações para adorá-los, considerando-os deuses, sem levar em conta que continuam sendo as mesmas coisas por eles fabricadas: pedra, bronze, madeira, cor ou qualquer outro material. Algo parecido acontece convosco ao ler as histórias e genealogias dos chamados deuses. Enquanto ledes seus nascimentos, os considerais como homens; mas depois lhes dais nomes de deuses e lhes prestais culto, sem perceber nem compreender que tais como lestes que nasceram, tais de fato existiam.

Capítulo III – Os ilogismos do paganismo: Antropomorfismo

Ao menos os deuses antigos, se é certo que nasceram, podia-se ver que tinham uma longa descendência. Agora, porém, como se pode mostrar a descendência dos deuses? Com efeito, se antes geravam e nasciam, é evidente que agora também teriam que nascer deuses gerados. Do contrário, ter-se-á que considerá-los bem fracos, seja porque se tornaram velhos e por isso não geram, seja porque morreram e não permanece nenhum rastro deles. De fato, se os deuses antes geravam, teriam que gerar também agora, como vemos que os homens geram. Além disso, os deuses teriam que ser mais numerosos do que os homens, como diz a Sibila: “Se os deuses geram e continuam imortais, os deuses nascidos seriam em maior número que os homens, e já não haveria lugar para os mortais ficarem”.

Com efeito, se os filhos gerados pelos homens, que são mortais e de vida curta, existem até o presente e não cessam de nascer outros homens, e por isso as cidades e aldeias se multiplicam e até os campos são habitados, quanto mais os deuses que, segundo os poetas, não morrem, não deveriam gerar e nascer, de acordo com o que dizeis a respeito do nascimento ou geração dos deuses?

Ainda mais: Como é que o monte chamado Olimpo era antes habitado por deuses e agora se encontra deserto? Por que antes Zeus morava no monte Ida, e se sabia que ele morava ali através de Homero e outros poetas, e agora não se sabe onde anda? Como é que não estava em toda parte, mas se encontrava em um ponto determinado da terra? Ou ele não se interessava pelo resto, ou não era capaz de estar em toda parte e prover tudo. Se ele estava, por exemplo, no Oriente, não estava no Ocidente. No entanto, é próprio do Deus altíssimo e onipotente e verdadeiro Deus não só estar em toda parte, mas também ver e ouvir tudo e não ser contido por nenhum lugar. Do contrário, o lugar que o contivesse seria maior do que ele, pois o continente é sempre maior do que o contido. De fato, Deus não é contido, mas é o lugar de todas as coisas. Por que Zeus abandonou o Ida? Morreu ou não gostava mais desse monte? Então para onde foi? Para os céus? Dejeito nenhum. Dir-me-ás que foi para Creta? Sim, ali se mostra até hoje o seu sepulcro. Também podes dizer que partiu para Pisa, onde até hoje é enaltecido pelas mãos de Fídias. Passemos, porém, aos escritos dos filósofos e poetas.

Capítulo IV – As contradições dos escritores profanos

Alguns do Pórtico, ou estóicos, chegam a negar totalmente que Deus existe ou, se existe, afirmam que Deus não se preocupa com ninguém, mas consigo mesmo. E nisso se manifesta totalmente a insensatez de Epicuro e Crisipo. Outros dizem que todo o universo se rege pelo acaso, que o mundo é incriado e a natureza é eterna, e até se atreveram a dizer que não existe absolutamente providência de Deus, mas que o único Deus é a consciência de cada dia. Outros estabelecem como dogma que Deus é o espírito que penetra tudo. Quanto a Platão e sua escola, certamente confessam que Deus é incriado e Pai e Criador do universo; em seguida, porém, supõem que a matéria é incriada como Deus e que ela tem a mesma idade de Deus. Mas se, conforme os platônicos, Deus é incriado e a matéria também o é, o Criador de todas as coisas já não é Deus, nem, seguindo-os, se percebe a monarquia ou unicidade de Deus. Além disso, como Deus é imutável por ser incriado, se também a matéria fosse incriada seria pelo mesmo motivo imutável e parelha de Deus. Com efeito, o criado é variável e mutável; o incriado é invariável e imutável. E o que de maravilhoso haveria se Deus tivesse feito o mundo de matéria preexistente? Também um artífice humano, tomando uma matéria qualquer, faz dela o que quer. Mas o poder de Deus se manifesta em fazer o que quer do que não existe, de modo que ninguém, a não ser Deus, pode dar alma e movimento. Um homem fabrica uma estátua, mas não pode infundir razão, alento ou sentido ao que foi feito por ele. Deus, porém, tem sobre o homem a vantagem de fazer um ser racional, com alento e sentido. Sendo Deus mais poderoso que o homem nessas coisas, assim também o é em fazer do nada e ser criador de tudo o que existe, quando ele quiser e como quiser.

Capítulo V – As contradições dos escritores profanos (cont.)

Assim, a opinião dos filósofos e escritores é contraditória. Tendo esses feito tais afirmações, o poeta Homero vai por outro caminho para cantar-nos a origem não só do mundo, mas também dos deuses. Ele diz em algum lugar: “Ao Oceano, origem dos deuses, e à mãe Tétis, donde se originam os rios e todo ornar.” Na verdade, assim falando, ele não nos apresenta nenhum Deus, pois quem não sabe que o oceano é água? Ora, se é água, conclui-se que não é Deus. E se Deus é o criador do universo, como de fato o é, também é criador da água e dos mares.

Quanto a Hesíodo, ele não só explicou a origem dos deuses, mas também do próprio mundo. Ele disse que o mundo foi criado, mas não teve coragem de dizer por quem. Além disso, disse que são deuses, Cronos e seu filho Zeus, Posêidon e Plutão, e vemos que estes foram posteriores ao mundo. Conta-nos também como Cronos foi combatido pelo seu próprio filho Zeus, pois diz o seguinte: “Vencendo seu pai Cronos por sua própria força; de- pois, devidamente imortal, ordenou tudo e delimitou as honras”.

Depois continua falando das filhas de Zeus, às quais chama de Musas e diante das quais se apresenta como suplicante, querendo saber delas de que modo tiveram princípio todas as coisas. Ele diz: “Salve, filhas de Zeus, dai-me o amável canto. Celebrai a linhagem dos afortuna-dos imortais, os que existem para sempre, que nasceram da terra, do céu estrelado, da noite tenebrosa e os que foram criados pelo mar salgado. Dizei-me como primeiro nasceram os deuses, a terra, os rios e o mar infinito, que ferve de ondas, os astros brilhantes, o céu estendido lá em cima, como repartiram a opulência e distribuiram honras, e também como chegaram a possuir o Olimpo de mil recantos. Dizei-me isso, Musas, que tendes as moradas olímpicas desde o princípio, e dizei o que existiu primeiro.”

Todavia, como as Musas poderiam saber isso se são posteriores ao mundo? Como poderiam contar isso a Hesíodo, se o pai delas ainda não havia nascido?

Capítulo VI – As contradições dos escritores profanos (cont.)

De certo modo, ele supõe a matéria e a criação do mundo, quando diz: “Primeiro existiu o Caos e depois a terra de largo seio, assento firme para sempre de todos os imortais, que ocupam os cumes do Olimpo nevado e o tenebroso Tártaro, seio da terra de largos caminhos; e foi Eros, o mais belo dos deuses imortais, que afrouxa os membros e vindo ao coração de todo ser, homem ou deus, domina a razão e o discreto conselho. O Erebo e a Noite negra nasceram do Caos: a Terra gerou primeiro aquilo que é semelhante a si, o Céu estrelado, para que ele lhe servisse como cobertura, e fosse para sempre assento firme para os afortunados deuses. Gerou as altas montanhas, graciosas moradas de deusas e das ninfas que habitam pelos montes escarpados. Pariu também o Mar infecundo, que ferve de ondas, o alto Mar, sem paixão amorosa; mas depois, em relação com o Céu, pariu o Oceano de profundos turbilhões”.

Dizendo tudo isso, nem mesmo assim declarou por quem foram feitas as coisas. Com efeito, se antes existia o caos e preexistia certa matéria incriada, quem foi que estabeleceu esta e depois a ordenou e transformou? Teria sido, por acaso, a matéria, que se transformou e ordenou a si mesma? De fato, Zeus aparece muito depois, não só da matéria, mas do mundo e da multidão de homens, e o próprio Crono, seu pai. Ou não foi antes algo principal que a criou, isto é, Deus que a pôs em ordem?

Além disso, vê que Hesíodo diz apenas bobagens e contradiz a si próprio de mil maneiras. Com efeito, tendo falado da terra, do céu e do mar, quer que deles nasçam os deuses e destes nos anuncia alguns homens extraordinários, parentes dos deuses, a raça dos titãs, dos ciclopes, a multidão dos gigantes e dos demônios egípcios, ou homens vãos, mencionados por Apolônides, de sobrenome Horápio, no livro intitulado Semenuthi e noutras histórias suas sobre a religião e seus reis.

Capítulo VII – As contradições dos escritores profanos (cont.)

Que necessidade tenho de falar dos mitos gregos e de sua futilidade? Plutão, rei das trevas; Posêidon que se coloca sob o mar e se abraça com Melanipa, gerando um filho que devora os homens! E o que dizer das tragédias que os vossos escritores compuseram sobre os filhos de Zeus? Como nasceram homens e não deuses, eles nos podem traçar sua genealogia. Ai está o cômico Aristófanes que na sua peça Os pássaros, pondo-se a contar a criação do mundo, disse que no princípio nasceu um ovo como composição única do mundo: “Antes de tudo, a de negras asas pariu um ovo”. E Sátira, historiador das famílias alexandrinas, começando por Filopátor, chamado também Ptolomeu, afirma que este se originou de Dioniso, e daí Ptolomeu deu o primeiro lugar à tribo dionisíaca. Sátira, portanto, diz o seguinte: De Dioniso e Altéia, filha de Téstio, nasceu Dejanira; desta e Héracles, filho de Zeus, nasceu Hilo; deste nasceu Cleodemo; deste nasceu Aristômaco; deste nasceu Têmeno; deste nasceu Criso; deste nasceu Marão; deste ansceu Téstio; deste nasceu Acoos; deste nasceu Cena; deste nasceu Tirimas; deste nasceu Perdicas; deste nasceu Filipe; deste nasceu Aéropo; deste nasceu Alceta; deste nasceu Amintas; deste nasceu Bocro; deste nasceu Meleagro; deste nasceu Arsinoe; desta e de Lagos nasceu Ptolomeu Soter; deste e de Berenice nasceu Ptolomeu Filadelfo; deste e de Arsinoe nasceu Ptolomeu Evergetes; deste e de Berenice, filha de Magas, rei de Cirine, nasceu Ptolomeu Filopátor. Esse é, portanto, o parentesco entre Dioniso e os reis de Alexandria. Daí também a tribo dionisíaca toma a sua divisão em famílias: a Altaida, de Altéia, que foi mulher de Dioniso e filha de Téstio; a Dejanírida, da filha de Dioniso e Altéia, mulher de Héracles, de onde recebem também seus nomes as famílias que deles descendem; a Ariádnida, da filha de Minos, mulher de Dioniso, filha enamorada de seu pai, que se uniu com Dioniso, este sob a forma de marinheiro; a Téstida, de Téstio, o pai de Altéia; a Toântida, de Toante, filho de Dioniso; a Estafília, de Estáfilo, filho de Dioniso; a Evênida, de Eunoo, filho de Dioniso; a Marônida, de Marão, filho de Ariadne e Dioniso. Todos esses foram filhos de Dioniso. Existem ainda muitas outras denominações que se conservam até o presente: os Heráclidas, de Héracles; os Apolônidas, de ApoIo; os Poseidônidas, de Posêidon; os Diones e Diógenes, de Zeus.

Capítulo VIII – As contradições dos escritores profanos (cont.)

Para que prosseguir enumerando a multidão dessas denominações e genealogias? Concluindo, todos os chamados historiadores, poetas e filósofos se enganam de todos os modos, e o mesmo acontece com aqueles que lhes dão atenção. Com efeito, escreveram apenas contos, ou melhor, tolices sobre seus deuses. Não demonstraram que são deuses, mas homens, alguns bêbados, outros dissolutos e assassinos.

Da mesma forma, o que disseram sobre a origem do mundo é contraditório e sem valor. Em primeiro lugar, alguns afirmaram que o mundo é incriado, corno antes notamos, e os que disseram que o mundo é incriado e que a natureza é eterna estão em contradição com aqueles que têm por dogma a criação. Com efeito, falaram tudo isso por conjecturas e imaginação humana, e não conforme a verdade. Uns disseram que existe providência e outros lançaram por terra as doutrinas destes. Arato, por exemplo, diz: “Comecemos por Zeus, a quem nós, homens, jamais devemos deixar sem nomear, pois todas as ruas estão cheias de Zeus e também todas as praças dos homens, e cheios estão o mar e os portos; em todo lugar nos valemos todos de Zeus. E somos da sua mesma raça. Ele é benigno para com os homens, com augúrios favoráveis, e desperta as pessoas para o trabalho, recordando-lhes a vida. Ele nos diz quando a terra é melhor para os bois e para as enxadas; diz-nos qual é a melhor estação, seja para recolher feixes, seja para lançar toda semente.”

Em quem vamos crer? Em Arato ou em Sóflocles, que diz: “Não existe em nada providência clara; o melhor é viver ao acaso, cada um corno puder.” Homero, porém, não concorda com este, pois diz: “Zeus aumenta ou diminui o valor dos homens”. E Simônides: “Ninguém recebeu valor sem os deuses, nenhuma cidade, nenhum mortal; Deus é a inteligência universal, enquanto nada está sem defeito nos mortais”. O mesmo diz Eurípides: “Sem Deus não existe nada para os homens”. E Menandro: “Além de Deus, ninguém cuida de nós”. E de novo Eurípides: “Quando agrada a Deus salvar-nos, ele nos dá muitas ocasiões de salvação.” E Téstio: “Se Deus quer, tu te salvarás, mesmo que navegues sobre uma esteira”.

Com sentenças infinitas não como essas, eles não concordam em suas declarações. Sófocles, que em outra passagem fala contra a providência, agora diz: “O mortal não pode se esquivar dos golpes divinos”. De outro lado, algumas vezes apresentam uma multidão de deuses, outras falam do poder de um só; os que afirmam que existe providência são contraditos por aqueles que afirmam a improvidência. E daí Eurípides confessa: “Nós nos afanamos em muitas coisas por causa de nossas esperanças trabahando em vão, sem nada saber ao certo”.

Mesmo sem querer, eles confessam que não conhecem a verdade. São os demônios que os inspiram, que os fazem dizer o que lhes inspiram. Os poetas, como Homero e Hesíodo, não são, como dizem, inspirados pelas musas, para fazer palavreados, conforme as divagações da imaginação? Aí não há um espírito puro, mas enganador. Prova clara disso temos em que às vezes os endemoninhados, e há casos até hoje, conjurados em nome do Deus verdadeiro, confessaram que os espíritos do erro são demônios, os mesmos que agiram em outros tempos sobre os poetas. Algumas vezes, porém, certos poetas tiveram a alma livre desses demônios e falaram coisas no mesmo sentido que os profetas, a fim de que servissem de testemunho para eles e para todos os homens a respeito do poder de um só Deus, do seu julgamento e do resto que disseram.

Capítulo IX – Os autores sacros

Em troca, os homens de Deus, que foram portadores de um espírito santo e profetas, recebendo de Deus inspiração e sabedoria, tomaram-se discípulos de Deus, e santos e justos. Por isso foram considerados dígnos de receber a recompensa de se converterem em instrumento de Deus e terem parte em sua sabedoria. É sob a influência dessa sabedoria que falaram sobre a criação do mundo e sobre tudo o mais. Também profetizaram sobre pestes, fomes e guerras. E os profetas não foram um ou dois, mas muitos que, conforme as circunstâncias, se encontraram entre os hebreus, como também entre os gregos a Sibila, e todos disseram coisas que concordam entre si, tanto sobre os acontecimentos anteriores a eles, como sobre aqueles que sucederam depois e ainda os acontecimentos do seu tempo e os que se realizam entre nós no presente. Também estamos persuadidos de que assim acontecerá com as coisas que estão por vir do mesmo modo que se realizaram antes.

Capítulo X – Ensinamento dos autores sacros sobre cosmologia

Em primeiro lugar, eles estão de acordo em nos ensinar que do nada Deus tirou todas as coisas. Com efeito, nada foi coetâneo com Deus: ele próprio é o seu lugar, não conhece a necessidade e é anterior a todas as coisas. Mas ele quis criar o homem, que o conheceu. Finalmente, foi para o homem que ele preparou o mundo, pois aquele que é criado tem necessidades; mas o incriado de nada necessita.

Tendo Deus o seu Verbo imanente em suas próprias entranhas, gerou-o com a sua própria sabedoria, emitindo-o antes de todas as coisas. Teve este Verbo como ministro da sua criação e por meio dele fez todas as coisas. Este se chama Princípio, pois é Príncipe e Senhor de todas as coisas por ele feitas. Este, portanto, que é espírito de Deus e Princípio e Sabedoria e Força do Altíssimo, desceu sobre os profetas, e por meio deles falou sobre a criação do mundo e tudo o mais. De fato, não existiam profetas quando o mundo era feito; existia, porém, a sabedoria que nele estava, e o seu Verbo santo, que sempre estava presente a ele. Daí ele dizer por meio do profeta Salomão: “Quando ele preparava o céu, eu estava com ele, e quando ele afirmava os alicerces da terra, eu estava junto dele, harmonizando tudo”.

Moisés, que viveu muitos anos antes de Salomão, ou melhor, o Verbo de Deus, que se serve dele como instrumento, diz: “No princípio fez Deus o céu e a terra”. Suas primeiras palavras são para o princípio e a criação, e depois acrescenta o nome de Deus, porque não se deve tomar o nome de Deus em vão ou sem motivo. A sabedoria divina sabia antecipadamente que alguns iriam dizer tolices e dar o nome de Deus a muitas coisas que não têm ser. Portanto, para que o verdadeiro Deus fosse conhecido por suas obras e para que se saiba que em seu Verbo Deus fez o céu e a terra e tudo o que eles contêm, disse: “No princípio fez Deus o céu e a terra”. Depois, a respeito da sua criação, ele nos explica: “A terra era invisível e informe, as trevas estavam sobre o abismo, e um espírito de Deus pairava acima da água”.

É assim que se inicia o ensinamento da Escritura divina: como foi criada e nascida de Deus uma matéria, com a qual Deus fez e formou o mundo.

Capítulo XI – Ensinamento dos autores sacros sobre cosmologia (cont.)

O começo da criação foi a luz, porque é ela que manifesta o ornamento da criação. Por isso diz: “E disse Deus: ‘Haja luz’, e a luz se fez. E Deus viu que a luz era boa”. -Evidentemente, foi criada como coisa boa para o homem. -“Colocou uma separação entre a luz e as trevas, e Deus chamou a luz dia e as trevas chamou noite. Houve uma tarde e houve uma manhã: um dia. E disse Deus: ‘Haja um firmamento no meio da água e separe entre água e água. E assim se fez. E fez Deus o firmamento e colocou uma separação entre a água que estava por cima do firmamento e a água que estava por baixo do firmamento. E Deus chamou o firmamento céu. E Deus viu que era bom. Houve tarde e houve manhã: segundo dia. E disse Deus: ‘Reúna-se a água que está debaixo do céu numa só reunião, e apareça a terra seca’. E assim se fez. A água se reuniu em suas reuniões, e a terra seca apareceu. E chamou Deus a terra seca terra e as reuniões de águas chamou mares. E Deus viu que era bom. E Deus disse: ‘Que a terra faça brotar toda erva verdejante, produzindo semente conforme a sua espécie e semelhança, e árvores frutíferas que produzam frutos, que tragam em si a sua semente conforme a sua semelhança’. E assim se fez. A terra produziu erva verdejante que produz semente conforme a sua espécie, e árvores frutíferas que produzem frutos, que trazem em si sua semente conforme a sua espécie, sobre a terra. E Deus viu que era bom. Houve tarde e houve manhã: terceiro dia.

E disse Deus: ‘Haja luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra e para separar o dia e a noite, e servir como sinais para as estações, para os dias e para os anos, e para iluminar no firmamento do céu e para brilhar sobre a terra’. E assim se fez. E Deus fez os dois grandes luzeiros, o luzeiro maior para governar o dia, e o luzeiro menor para governar a noite, e também as estrelas. E Deus os colocou no firmamento do céu, para iluminar a terra e governar o dia e a noite, e colocar uma separação entre a luz e as trevas. E Deus viu que era bom. Houve tarde e houve manhã: quarto dia.

E disse Deus: ‘Que as águas produzam répteis de alma vivente e aves que voam sobre a terra debaixo do firmamento do céu’. E assim se fez. E Deus fez os monstros grandes do mar, e toda alma dos animais que se arrastam, que as águas produziram conforme suas espécies, e todo volátil alado segundo a sua espécie. E Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicaivos e enche i as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra’. Houve tarde e houve manhã: quinto dia.

E disse Deus: ‘Que a terra produza alma vivente conforme a sua espécie, quadrúpedes e répteis e feras da terra segundo a sua espécie’. E assim se fez. E Deus fez as feras da terra conforme a sua espécie e os animais segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra. E Deus viu que era bom. E disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e que ele comande os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, toda a terra e todos os répteis que rastejam sobre a terra’. E Deus fez o homem, à imagem de Deus o fez, homem e mulher os fez. E os abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e dominai-a, ordenai aos peixes do amar, às aves do céu, a todos os animais, a toda a terra e a todos os répteis que se arrastam sobre a terra’. E Deus disse: Vede! Eu vos dei toda planta que traz semente, que espalha semente sobre toda a terra e toda árvore que tem fruto com semente, para que vos sirvam de alimento, e a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo réptil que se arrasta sobre a terra, que tem em si alento de vida, toda erva verde para alimento’. E assim se fez. E Deus viu tudo o que ele havia feito; e eis que isso era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia. E o céu e a terra foram terminados, juntamente com todo o seu ornamento. E Deus terminou no sexto dia as obras que fizera, e descansou no sétimo dia de todas as obras que fizera. E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de todas as obras que Deus começara afazer.”

Capítulo XII – Cosmologia bíblica

Ninguém pode explicar de modo digno a obra dos seis dias, nem traçar sua economia completa, mesmo que tivesse mil bocas e mil línguas; mesmo que vivesse mil anos na presente vida, nem assim seria capaz de dizer algo digno dela, por causa da soberana grandeza e riqueza da sabedoria de Deus, que estão contidas nesta descrição da obra de seis dias. Certamente muitos escritores a imitaram e quiseram dar-lhe uma explicação; contudo, mesmo tomando esse ponto de partida, eles não exprimiram senão uma centelha digna da verdade, seja a respeito do mundo, seja sobre a natureza do homem. As explicações dos filósofos, historiadores e poetas parecem dignas de crédito porque estão adornadas de bela expressão; contudo, no fundo, vê-se que são néscias e vazias, pois contêm apenas uma multidão de bobagens e nelas não é dito nem sequer uma sombra de verdade. E se parece que dizem algo de verdadeiro, acha-se misturado com o erro. Como um veneno mortal, ao qual se mistura mel, vinho ou qualquer outra coisa, torna tudo prejudicial e inútil, assim também se percebe que a verbosidade deles é pura inanidade, ou melhor, prejuízo para aqueles que nela crêem.

Alguma coisa ainda sobre o sétimo dia, sobre o qual todos os homens falam, mas cuja razão a maior parte desconhece. De fato, o que os hebreus chamam de sábado significa em grego sétimo dia, nome que todo o gênero humano lhe dá, sem saber, porém, por que assim é chamado. O que o poeta Hesíodo diz, afirmando que do Caos nasceu o Érebo, a Terra e o Amor, que domina, segundo ele, a todos, seja deuses, seja homens, é dito de maneira vazia e fria e totalmente alheia à verdade. Com efeito, Deus não deve se deixar vencer pelo prazer, quando até os homens temperantes se abstêm de todo prazer vergonhoso e de todo mau desejo.

Capítulo XIII – Cosmologia bíblica (cont.)

Além disso, ao começar o relato da criação pelas coisas da terra, aqui de baixo, Hesíodo tem pensamento puramente humano, baixo, fraco para ser aplicado a Deus. É o homem que, sendo daqui de baixo, começa a construir pela terra, e logicamente não pode pôr o telhado antes de ter assentado os alicerces. O poder de Deus, porém, se manifesta antes de tudo em fazer as coisas do nada e depois fazer como quiser. De fato, o que é impossível para os homens é possível para Deus. Por isso, o profeta diz que antes foi criado o céu, que tem forma de teto, dizendo: “No princípio, Deus fez o céu”, isto é, que o céu foi feito pelo Princípio, conforme dissemos antes. De certo modo, chama a terra de solo e alicerce, e de abismo à imensidão das águas, e também de trevas, porque o céu, criado por Deus, cobria como uma tampa tanto as águas como a terra. O espírito, que se mantinha sobre a água, o qual Deus deu para animação da criação, como deu a alma ao homem, misturando o sutil com o sutil- pois o espírito é sutil e a água também o é -, para que o espírito alimente a água, e a água, com o espírito, alimente a criação, penetrando-a por todas as partes. Esse único espírito, ocupando o lugar da luz, se mantinha entre a água e o céu, a fim de que, de certa maneira, as trevas não se comunicassem com o céu, que está mais próximo de Deus, antes que Deus dissesse: “Faça-se a luz”. Assim, o céu, como uma abóbada, continha a matéria, semelhante a uma bola. Com efeito, outro profeta, chamado Isaías, falando a respeito do céu, disse: “Este é o Deus que fez o céu como uma abóbada e o estendeu como uma tenda para nele habitar”.

Assim, a ordenação de Deus, isto é, seu Verbo, brilhando como uma lâmpada em casa fechada, iluminou a terra subceleste por uma criação fora do mundo. E Deus chamou à luz dia e à noite trevas, pois o homem certamente não teria sabido chamar à luz dia, nem à noite trevas, como também não saberia dar nome às demais coisas, se não tivessem recebido seus nomes de Deus, que as criou. No começo da história e da criação, a Escritura santa não falou desse firmamento que vemos, e sim de outro céu invisível para nós; só depois o nosso céu visível se chamou firmamento. Nele está recolhida metade das águas, para fornecer à humanidade chuvas, tempestades e orvalhos; a outra metade foi deixada na terra para os rios, fontes e mares. Assim, quando a água ainda cobria a terra, principalmente nos lugares baixos, Deus fez, através de seu Verbo, com que a água se reunisse em um só lugar e que a parte seca se tornasse visível, pois no princípio era invisível. A terra tornada visível estava ainda informe. Deus lhe deu forma e a adornou com toda espécie de ervas, sementes e plantas.

Capítulo XIV – Cosmologia bíblica (cont.)

Além disso, considera a diversidade que há nessas coisas, sua variada beleza e multidão, e como, através deles, se nos manifesta a ressurreição, sendo prova daquela que um dia se realizará em todos os homens. De fato, se refletes bem, quem não se admirará que de uma semente minúscula de figo se forme uma figueira e que de outras peque ninas sementes nasçam árvores enormes?

O mundo também nos oferece semelhança com ornar. Assim como o mar teria secado há muito tempo por causa de seu sal se não houvesse afluência dos rios e fontes que lhe fornecem alimento, de modo semelhante o mundo, se não tivesse recebido a lei de Deus e os profetas, que fazem correr para ele fontes de doçura, misericórdia e justiça e mantêm o ensinamento dos santos mandamentos de Deus, também já teria perecido por causa da maldade e do pecado que nele se multiplica. Do mesmo modo que no mar existem ilhas habitáveis, com água e vegetação, enseadas e portos para refúgio durante as tempestades, assim Deus deu ao mundo, em meio às tormentas e ondas de pecados, os lugares de reunião, as chamadas igrejas santas, nas quais, como nas ilhas de portos acolhedores, se encontramos ensinamentos da verdade, nas quais se refugiam os que querem salvar-se, tornados amantes da verdade e decididos a fugir da cólera e do julgamento de Deus. Há, porém, outras ilhas rochosas, sem água nem vegetação, repletas de feras, inabitáveis, para dano dos navegantes e náufragos, onde os navios atracam e perecem os que e elas descem; do mesmo modo, há também doutrinas que extraviam, isto é, as das heresias, que levam à perdição aqueles que aderem a elas. Porque não se guiam pelo Verbo da verdade, mas à maneira dos piratas que, enchendo os navios, os atracam em recifes para arruiná-las. Assim acontece com aqueles que se extraviam da verdade, que acabam perecendo por causa do erro.

Capítulo XV – Cosmologia bíblica (cont.)

No quarto dia foram criados os luzeiros. Deus, que sabe tudo de antemão, sabia as bobagens queos vãos filósofos iriam dizer, com intenção de eliminar a Deus: que tudo quanto nasce na terra se deve ao influxo dos elementos. Por isso, para que a verdade ficasse clara, as plantas e as sementes foram criadas antes dos elementos, pois o posterior não pode produzir o que é anterior.

Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria, imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo, morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para demonstrar a ressurreição futura.

Igualmente os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria. No quarto símbolo está o homem, que necessita de luz. Assim temos: Deus, Verbo, Sabedoria, Homem. É também por isso que os luzeiros foram criados no quarto dia.

Por outro lado, a disposição dos astros representa a economia e a ordem dos justos e piedosos, que guardam a lei e os mandamentos de Deus. Com efeito, os astros mais visíveis e brilhantes representam os profetas; por isso permanecem fixos, não mudando de um lugar para outro. Aqueles que ocupam o segundo grau de brilho são tipo do povo dos justos; por fim, os que mudam e passam de um lugar para outro, os chamados planetas, são símbolo dos homens que se afastam de Deus, abandonando sua lei e seus mandamentos.

Capítulo XVI – Cosmologia bíblica (cont.)

No quinto dia foram criados os animais que procedem das águas, pelas quais e nas quais se mostra a multiforme sabedoria de Deus. De fato, quem seria capaz de enumerar sua quantidade e a variedade de suas variadíssimas espécies? Além disso, o que foi criado das águas por Deus foi abençoado por ele, para que isso servisse de prova sobre o que os homens deveriam receber: penitência e remissão dos pecados através da água e banho de regeneração, todos os que se aproximam da verdade, renascem e recebem a bênção de Deus.

Os monstros marinhos e as aves carnívoras são símbolo dos avarentos e transgressores. De fato os animais aquáticos e aves, embora sendo de uma única natureza, alguns permanecem no que é conforme a natureza, sem prejudicar aos mais fracos, guardam a lei de Deus e se alimentam das sementes da terra; outros transgridem a lei de Deus, comendo carne, e prejudicam os mais fracos. De modo semelhante, os justos, guardando a lei de Deus, não mordem nem causam dano a ninguém, vivendo santa ejustamente; mas os ladrões, assassinos e ateus assemelham-se aos monstros marinhos, às feras e aves carnívoras, pois de certo modo engolem os mais fracos.

Capítulo XVII – Cosmologia bíblica (cont.)

No sexto dia, Deus fez os quadrúpedes, as feras e os répteis da terra, mas não se fala da bênção correspondente, guardando-a para o homem, que criaria no mesmo sexto dia. Assim, os quadrúpedes e feras se tornaram tipo de alguns homens que desconhecem a Deus, que são ímpios e não fazem penitência. De fato, os que se convertem de suas iniqüidades e vivem justamente voam como aves em sua alma, sentindo as coisas de cima e agradando à vontade de Deus; mas os que desconhecem a Deus e vivem de modo ímpio são parecidos com essas aves, que tem asas e não podem voar, nem subir até a altura da divindade. De modo semelhante, estes se chamam homens, mas sentem o que é baixo e terreno, pois estão pesados por causa de seus pecados. Quanto às feras, elas se chamam assim por causa da sua ferocidade, não porque desde o princípio fossem más ou venenosas, pois nada do que é mau foi criado por Deus desde o princípio; ao contrário, tudo era bom e até muito bom, mas o pecado do homem as tornou más. Quando o homem se tornou transgressor, elas também transgrediram. É como numa casa: se o senhor se comporta bem, os domésticos não têm outro remédio a não ser comportar-se bem; contudo, se o senhor peca, os servidores pecam junto com ele. Da mesma forma, quando o homem, que é o senhor, pecou, também os animais, seus escravos, pecaram com ele. Portanto, quando o homem voltar a viver conforme a natureza e não agir mal, também os animais serão estabelecidos em sua mansidão original.

Capítulo XVIII – O ensinamento dos autores sacros sobre antropologia

Quanto à criação do homem, não há palavra humana que possa expressar a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja tão breve. Com efeito, o fato de que Deus diga: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” dá, antes de tudo, a entender a dignidade do homem. De fato, tendo Deus feito o universo por sua palavra, considerou tudo como coisa acessória e julgou como obra eterna digna de sua criação somente a criação do homem. Além disso, Deus se apresenta como se precisasse de ajuda, pois diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, mas não diz a ninguém essa palavra “Façamos”, a não ser a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria.

Tendo feito o homem e tendo-o abençoado para que se multiplicasse e enchesse a terra, submeteu a ele todas as coisas para que o servisse, ordenou que desde o princípio se alimentasse com os frutos da terra, sementes, ervas e árvores e que os animais fossem seus comensais, os quais também deveriam comer todas as sementes da terra.

Capítulo XIX – O ensinamento dos autores sacros sobre antropologia (cont.)

19. Tendo Deus terminado, no sexto dia, o céu, a terra, o mar e tudo o que nele existe, no sétimo dia descansou de todas as obras que fizera. Em seguida, a divina Escritura recapitula assim: “Este é o livro da origem do céu e da terra, quando existiu o dia em que Deus fez o céu e a terra, toda verdura do campo antes de nascer, toda erva do campo antes de brotar, pois Deus não havia feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar a terra”. Com essas palavras nos dá a entender que, naquele tempo, toda a terra era rega da por uma fonte divina e o homem não tinha necessidade de cultivá-Ia, pois, por mandamento de Deus, ela brotava espontaneamente, a fim de que o homem não se fatigasse trabalhando-a.

Para mostrar-nos a formação do homem e para que não parecesse um problema insolúvel aos homens Deus ter dito: “Façamos o homem” e não nos ter mostrado sua criação, a Escritura nos ensina, dizendo: “E uma fonte subia da terra e regava toda a face da terra, e Deus formou o homem do pó da terra, e lhe insuflou alento de vida em seu rosto, e o homem foi feito alma vivente. É por isso que a alma é chamada imortal. Depois de ter formado o homem, Deus escolheu um lugar pelas bandas do Oriente, excelente por sua luz, iluminado por um ar mais brilhante, adornado com as mais belas plantas, e aí Deus colocou o homem.

Capítulo XX – Descrição do paraíso / Criação da mulher

Este é o relato da história sagrada, conforme a Escritura: “Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente, e aí colocou o homem que formara. E Deus fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e saborosa ao paladar, e a árvore da vida no meio do paraíso, e a árvore da ciência do bem e do mal. Do Éden saía um rio para regar o jardim e a partir daí se dividia em quatro braços. Um se chamava Fison e é este aquele que rodeia toda a terra de Hévila, onde existe o ouro. O ouro dessa terra é bom, e aí também se encontra o carvão e a pedra ônix. O segundo rio se chama Geon e é aquele que rodeia toda a terra da Etiópia. O terceiro rio é o Tigre, que corre diante dos assírios. O quarto rio é o Eufrates. E o Senhor Deus tomou o homem a quem formara e o colocou no jardim para que o cultivasse: ‘Comerás de toda árvore do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, pois no dia em que dela comerdes, morrereis de morte’. E o Senhor Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só; façamos para ele uma ajuda que lhe seja semelhante’. E Deus plasmou então da terra todas as feras do campo e todas as aves do céu e as apascentou diante de Adão. O nome com que Adão chamou a toda alma vivente, esse é o seu nome. E Adão pôs nomes em todos os animais, em todas as aves do céu e em todas as feras do campo; mas não se achou para Adão ajuda que lhe fosse semelhante. Então Deus fez cair sobre Adão um êxtase e um sono profundo, tomou uma de suas costelas e preencheu de carne o lugar vazio. E o Senhor Deus construiu a costela tirada de Adão em forma de mulher e a apresentou a Adão. Adão disse: ‘Isto sim é osso de meus ossos e carne de minha carne; esta se chama mulher, porque foi tirada do homem. Por isso, o homem abandonará seu pai e sua mãe, juntar-se-á com sua mulher e serão dois em uma só carne’. E os dois, Adão e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.

Capítulo XXI – Retomada de Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva

A serpente, porém, era a mais astuta de todas as feras sobre a terra que o Senhor Deus fizera. A serpente disse à mulher: ‘Como é que Deus disse: Não comas de toda árvore do jardim?’ A mulher disse à serpente: ‘Nós comemos de toda árvore do jardim; mas a respeito do fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos disse: Não comais dele, nem o toqueis para que não morrais’. A serpente disse à mulher: ‘Não morrereis de morte. É que Deus sabia que no dia em que dele comerdes vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ E a mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos para ver e preciosa para entender; então, tomando de seu fruto, comeu e deu também a seu marido; eles comeram e os olhos de ambos se abriram, perceberam que estavam nus, colheram folhas de figueira e fizeram cinturões para si. Então ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim depois do meio-dia, e Adão e sua mulher se esconderam da face de Deus no meio da árvore do paraíso. O Senhor Deus chamou Adão e lhe disse: ‘Onde estás?’ Adão respondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim e temi, pois estava nu, e me escondi’. Deus disse: ‘Quem te disse que estavas nu, senão que comeste da única árvore que te mandei não comeres?’ Adão disse: ‘A mulher que me destes, foi ela que me deu da árvore e eu comi’. Então Deus disse à mulher: ‘Por que fizeste isso?’ A mulher respondeu: ‘A serpente me enganou e eu comi’. O Senhor Deus disse à serpente: ‘Porque fizeste isso serás maldita entre todas as feras da terra. Caminharás sobre teu peito e sobre teu ventre, e comerás terra todos os dias de tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela: ela esmagará a tua cabeça e tu lhe morderás o calcanhar’. E disse à mulher: ‘Multiplicarei muito as tuas tristezas e o teu gemido; darás à luz a teus filhos na dor, estarás voltada para teu marido e ele te dominará’. E disse a Adão: ‘Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste da única árvore que te mandei não comer, a terra será maldita em teus trabalhos, a cultivarás na tristeza todos os dias de tua vida; ela produzirá espinhos e cardos para ti e comerás a erva do campo. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes para a terra de onde foste tirado, porque és terra e à terra retornarás”. Esse é o relato da santa Escritura sobre a história do homem e do jardim.

Capítulo XXII – Retomada de Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)

Agora me dirás: “Tu dizes que Deus não deve estar circunscrito a nenhum lugar. Como agora dizes que Deus passeava no jardim?” Ouve minha resposta. Deus, o Pai do universo, é imenso e não está limitado a um lugar, pois não existe lugar para seu descanso. O seu Verbo, porém, pelo qual ele fez todas as coisas, sendo sua potência e sabedoria, tomando a figura do Pai e Senhor do universo, foi ele que se apresentou no jardim em figura de Deus e conversava com Adão. De fato, a própria divina Escritura nos ensina que Adão disse ter ouvido a sua voz. Que outra coisa é essa voz senão o Verbo de Deus, que é também seu Filho? Filho não à maneira como poetas e mitógrafos dizem que nascem filhos dos deuses por união carnal, mas como a verdade explica que o Verbo de Deus está sempre imamente no coração de Deus. Porque antes de criar alguma coisa, o tinha por conselheiro, pois era sua mente e pensamento. E quando Deus quis fazer tudo o que havia deliberado, gerou esse Verbo proferido, como primogênito de toda criação, não esvaziando-se de seu Verbo, mas gerando o Verbo e conversando sempre com ele. Por isso, as santas Escrituras e todos os portadores do espírito nos ensinam, dentre as quais João diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus”, dando a entender que no princípio existia apenas Deus e nele o seu Verbo. Depois diz: “E Deus era o Verbo. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.” Portanto, sendo o Verbo Deus e nascido de Deus, quando o Pai do universo quer, ele o envia a algum lugar e, chegando aí, ele é ouvido e visto, pois é enviado por ele e se encontra em algum lugar.

Capítulo XXIII – Retomada de Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)

Portanto, Deus fez o homem no sexto dia, mas sua modelação foi manifestada no sétimo dia, quando fez também o jardim, para que estivesse em lugar melhor e local excelente. Que isso seja verdade, a própria experiência o demonstra. Com efeito, como não considerar a dor que as mulheres sofrem no parto e como logo se esquecem disso, para que se cumpra a palavra de Deus que o gênero humano cresça e se multiplique? O mesmo se diga da condenação da serpente: como nos parece odiosa, arrastando-se sobre o seu próprio ventre e comendo terra, para que também isso seja demonstração do que antes foi dito.

Capítulo XXIV – Retomada de Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)

Deus ainda fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e boa para comer. De fato, no princípio havia apenas o que foi criado no terceiro dia: plantas, sementes e ervas; mas o que havia no jardim nasceu com extrema beleza e formosura, pois se diz que era uma plantação plantada pelo próprio Deus. Quanto ao resto das plantas, no mundo há semelhantes. Todavia, há duas árvores, a da vida e a da ciência, que não existem em nenhuma terra, mas somente no jardim do Éden. Que o jardim seja terra e esteja plantado sobre a terra, a Escritura diz: “E Deus plantou um jardim em Éden, ao Oriente, e colocou aí o homem, e Deus ainda fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e boa para comer.” Pelas expressões “ainda da terra” e “para o Oriente”, a divina Escritura claramente nos ensina que o jardim estava sob o nosso céu, assim como o Oriente e a terra. O que se chama Éden em hebraico é traduzido por “delícias”. A Escritura indica que de Éden saía um rio para regar o jardim e que a partir daí se dividia em quatro braços. Dois deles são o Fison e o Geon, que regam as partes orientais, principalmente o Geon, que rega toda a terra da Etiópia e que dizem aparecer no Egito com o nome de Nilo. Quanto aos outros dois rios, os chamados Tigre e Eufrates, são bem conhecidos entre nós, pois correm perto de nossas regiões.

Como dissemos acima, Deus colocou o homem no jardim, para que o cultivasse e o guardasse, e mandou que ele comesse de todos os frutos, portanto também da árvore da vida, e mandou que só não experimentasse da árvore da ciência. E Deus o transportou da terra da qual fora criado para ojardim, dando-lhe ocasião de progresso, para que crescendo e chegando a ser perfeito e até declarado deus, subisse então até o céu, possuindo a imortalidade, pois o homem foi criado como ser intermédio, nem completamente mortal nem absolutamente imortal, mas capaz de uma e outra coisa, assim como seu lugar, o jardim, se considerarmos a sua beleza, é lugar intermédio entre o mundo e o céu.

Quando a Escritura diz “trabalhar”, não dá a entender outro trabalho, mas a observância do mandamento de Deus, a fim de que o homem, violando-o, não se perca, como efetivamente aconteceu quando se perdeu pelo pecado.

Capítulo XXV – A desobediência expulsa o homem do paraíso

A própria árvore da ciência era boa e bom era também o seu fruto. Não produziu, como pensam alguns, a árvore da morte, pois o que produziu esta foi a desobediência. De fato, em seu fruto não havia outra coisa senão ciência, e a ciência é boa, desde que seja usada devidamente. Acontece que, por sua idade, Adão era uma criança e por isso ainda não podia receber de modo digno a ciência. Quando uma criança nasce, não pode imediatamente comer pão, mas primeiro se alimenta de leite e depois, conforme vai crescendo em idade, usa-se alimento sólido. Algo parecido aconteceu com Adão. Não foi também por inveja, como pensam alguns, que Deus lhe proibiu comer da ciência.

Além disso, Deus queria prová-lo, para ver se era obediente ao seu mandamento, e também queria que o homem permanecesse o mais tempo possível simples e inocente na idade de criança. Com efeito, é coisa santa, não só diante de Deus, mas também diante dos homens, que os filhos se submetam aos pais em simplicidade e inocência. Portanto, se os filhos devem se submeter aos pais, quanto mais o homem a Deus, Pai do universo? Além do mais, não é normal que as crianças pequenas tenham pensamentos acima de sua idade, pois assim como o crescimento em idade acontece ordenadamente, do mesmo modo o entender e o sentir. Por outro lado, quando uma lei manda abster-se de algo e não se obedece, é evidente que não é a lei que nos traz o castigo, mas a transgressão e a desobediência. Com efeito, se um pai manda seu filho abster-se de certas coisas e ele não obedece à ordem do pai, este o açoita e castiga; contudo, não é por isso que se dirá que tais coisas são os açoites, mas que é a desobediência que acarreta o castigo ao desobediente. Assim, foi a desobediência que acarretou ao primeiro homem ser expulso do jardim do Éden; não porque a árvore da ciência tivesse alguma coisa de mau, mas foi por causa de sua desobediência que o homem atraiu trabalho, dor, tristeza e caiu finalmente sob o poder da morte.

Capítulo XXVI – A desobediência expulsa o homem do paraíso (cont.)

Também foi um grande beneficio feito por Deus ao homem que este não permanecesse sempre em pecado, mas, de certo modo, como se tratasse de um desterro, o expulsou do paraíso, para que pagasse por tempo determinado a pena de seu pecado e, assim educado, fosse novamente chamado. Tendo sido o homem formado neste mundo, misteriosamente se escreve no Gênesis como se ele tivesse sido colocado duas vezes no jardim. A primeira vez se realizou quando foi aí colocado; a outra se realizaria depois da ressurreição e do julgamento.

Podemos ainda dizer mais. Do mesmo modo como um vaso que depois de fabricado tem algum defeito, é novamente fundido e modelado para que fique novo e inteiro, assim acontece com o homem através da morte: de certo modo se quebra, para que na ressurreição surja sadio, isto é, sem mancha, justo e imortal.

Quanto ao fato de Deus chamar e dizer: “Adão, onde estás?”, Deus não o fez como se não soubesse, mas, por causa de sua longanimidade, oferecia ao homem ocasião de penitência e confissão.

Capítulo XXVII – O homem é, por natureza, mortal ou imortal

Poder-se-á dizer: “O homem não foi criado mortal por natureza?” De jeito nenhum. “Então foi criado imortal?” Também não dizemos isso. “Então não foi nada?” Também não dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte. Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a incorruptibilidade.

Capítulo XXVIII – O ensinamento dos autores sagrados sobre a história da humanidade

Adão foi expulso do jardim e nessas condições ele conheceu a sua esposa Eva, que Deus havia feito de sua costela para que fosse sua mulher. Não porque não pudesse plasmar a mulher separadamente, mas porque sabia de antemão que os homens haveriam de nomear uma multidão de deuses. Sendo presciente e sabendo que o erro haveria de nomear, através da serpente, uma multidão de deuses -embora não havendo mais do que um Deus, já desde aquele tempo o erro pensava em semear subrepticiamente multidão de deuses, dizendo: “Sereis como deuses” -para que não se pudesse imaginar que um Deus fez o homem e outro fez a mulher, fez os dois de uma única criação. Entretanto, Deus fez junto a mulher não só para mostrar o mistério de sua monarquia e unicidade, mas também para lhes mostrar maior benevolência. Depois que Adão disse a Eva: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne”, profetizou mais dizendo: “Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e juntar-se-á à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Isso se vê que se cumpre em nós mesmos. Com efeito, quem, legitimamente casado, não abandona sua mãe e seu pai, toda a sua parentela e todos os seus familiares, apegando-se e unindo-se à sua mulher, a qual quer acima de todos? Sabe-se que houve aqueles que sofreram até à morte por amor a suas esposas.

Esta Eva, por ter sido extraviada desde o princípio pela serpente e por ter-se tornado guia do pecado, o demônio perverso, que também se chama Satã e que lhe falou então através da serpente, nomeia esta Eva em seus gritos até hoje, quando age nos homens por ele possuídos. O demônio também se chama dragão, por ter-se afastado de Deus, pois no princípio foi um anjo. Teria muito que falar sobre este. Agora, porém, deixemos de lado sua explicação, pois já tratamos dele em outros discursos.

Capítulo XXIX – O ciúme de Caim

Quando Adão conheceu a sua mulher Eva, esta concebeu e deu à luz um filho chamado Caim. E disse: “Tive um homem por meio de Deus”. Novamente deu à luz um filho, chamado Abel, que era pastor de ovelhas, enquanto Caim cultivava a terra. A história dos dois irmãos é muito longa para adaptá-Ia à situação de minha exposição; por isso, o próprio livro que se chama Origem do mundo pode informar os estudiosos a respeito de seus pormenores.

Satanás, vendo que Adão e Eva não só viviam, mas geravam filhos, foi tomado de inveja por não ter podido levá-Ios à morte. Vendo que Abel era agradável a Deus, agiu sobre seu irmão Caim e fez com que este matasse seu irmão Abel. Assim começou a existir a morte neste mundo, que faz caminho até hoje por todo o gênero humano. Deus, porém, sendo compassivo e querendo dar a Caim, como a Adão, ocasião de penitência e confissão, disse: “Onde está o teu irmão Abel?” Caim, desconfiado de Deus, respondeu: “Não sei. Por acaso sou guarda do meu irmão?” Irritado contra ele, Deus disse: “Por que fizeste isso? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. Agora, tu és maldito da terra, que se abriu para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Ficarás gemendo e tremendo sobre a terra.” Por isso, a partir daí, a terra temerosa já não recebe o sangue do homem, nem de nenhum animal, manifestando assim que ela não é culpada, mas que o homem é transgressor.

Capítulo XXX – Início da construção da cidade

Caim também teve um filho, chamado Henoc. E edificou urna cidade, à qual chamou de Henoc, o nome de seu filho. Então teve início a construção de cidades, antes do dilúvio, e não corno Homero mente, dizendo: “Porque ainda não havia sido construída cidade de míseros homens.” Henoc teve um filho chamado Gaidad, o qual gerou Meel, Meel gerou Matusala e Matusala gerou Lamec. Lamec tornou para si duas mulheres, cujos nomes eram Ada e Sela. Daí começou a poligamia e também a música. De fato, Lamec teve três filhos: Obel, Jubal e Tobel. Obel foi pastor, habitando em tendas; Jubal foi o inventor do saltério e da cítara; Tobel foi ferreiro, trabalhando com martelo em bronze e ferro. Até aqui chega a lista da descendência de Caim, que é esquecida daqui para frente, por ter ele matado o seu irmão.

Para substituir Abel, Deus concedeu a Eva que concebesse e gerasse outro filho, que se chamou Set, do qual procede todo o gênero humano até hoje. Aos que desejam e têm vontade de conhecer todas as outras gerações, é fácil mostrar para eles nas santas Escrituras. Nósjá tratamos em outra parte corno indicamos acima, da formação das genealogias no primeiro livro Sobre as histórias.

O Espírito Santo nos ensina tudo isso por intermédio de Moisés e dos outros profetas, de modo que os nossos livros dos que adoramos a Deus, são mais antigos e sobretudo mais verdadeiros que os de todos os historiadores e poetas. Eles fantasiam que foi ApoIo o inventor da música; outros que foi Orfeu, dizendo que ele inventou a música tomando-a do canto das aves. Vê-se, porém, que é tudo palavrório vão e sem fundamento, pois esses nasceram muitos anos depois do dilúvio. Quanto a Noé, que é chamado Deucalião por alguns, tratamos a respeito dele no livro antes mencionado, no qual, se te agrada, podes tu mesmo ler.

Capítulo XXXI – Início da construção da cidade (cont.)

Depois do dilúvio, novamente recomeçaram a existir cidades e reis do seguinte modo: a primeira cidade foi Babilônia, Orec, Arcat e Calana, na terra de Senaar, e seu rei se chamava Nebrot. Destas saiu Assur, que deu nome aos assírios. Nebrot construiu as cidades de Nínive, Roboom, Calac e Dasen (esta entre Nínive e Calac). No início, Nínive foi uma grande cidade. Outro filho de Sem, filho de Noé, chamado Mesraim, gerou os Ludomim, os que se chamam Enemiguim, os Labiim, os Neptalim, os Patrosinim e os Caslonim, de onde saíram os Filistiim. Dos filhos de Noé e de sua consumação e genealogia fizemos um resumo no livro anteriormente citado. Recordaremos agora o que ali foi omitido sobre cidades e reis, assim como acontecimentos do tempo em que havia uma só e mesma língua. Antes das línguas se dividirem, existiram as cidades anteriormente descritas. No tempo em que iam se dividir, decidiram, por própria conta e não segundo Deus, edificar uma cidade e uma torre, cujo topo chegasse até o céu, para adquirir fama gloriosa. Como se atreveram a empreender tão grande obra contra o conselho de Deus, Deus atirou por terra a cidade deles e arrasou a torre. A partir disso, ele mudou as línguas dos homens e deu fala diferente a cada um. A própria Sibila indicou isso, anunciando a ira que deveria vir ao mundo: “Mas quando se cumprirem as ameaças do grande Deus, que um dia ameaçara os mortais, quando construiram a torre na terra da Assíria… tinham todos a mesma língua e quiseram subir até o céu estrelado. Nesse momento, o Imortal impulsionou fortemente os ares, e os ventos derrubaram a grande torre elevada, semeando a discórdia nas fileiras dos mortais. Depois que a torre caiu, as línguas humanas se dividiram nas muitas falas dos mortais.” E o resto.

Isso aconteceu na Caldéia. Em Canaã houve uma cidade chamada Carran. Nesse tempo, o primeiro rei do Egito foi o faraó, que, segundo os egípcios, se chamava também Necaot. E assim foram os outros reis que lhe sucederam. Na terra de Senaar, entre os chamados caldeus, o primeiro rei foi Arioc; depois deste, veio outro chamado Elasar, depois Codolagomor, rei de Elam; depois deste, Targal, rei dos povos que se chamam assírios. Houve outras cinco cidades no território de Cam, filho de Noé: a primeira se chamava Sodoma; e as outras, Gomorra, Adama, Seboim e Balac, também chamada Segor. Os nomes de seus reis são: Balas, rei de Sodoma; Barsas, rei de Gomorra; Senaar, rei de Adama; Himor, rei de Seboin; Balac, rei de Segor, que também se chama Balac. Esses ficaram submetidos a Codolagomor, rei dos assírios, durante doze anos. E no décimo terceiro ano se separaram de Codolagomor. E assim aconteceu que os quatro reis dos assírios fizeram guerra contra os cinco reis. Este foi o começo das guerras sobre a terra. Derrotaram os gigantes Caranain e com eles nações fortes, os omeus na mesma cidade, e os correus nos montes chamados Seir até a cidade chamada Terebinto de Farã, que está no deserto. Nesse mesmo tempo, havia um rei justo chamado Melquisedec, na cidade de Salém, que agora se chama Hierosólima. Este foi o primeiro de todos os sacerdotes do Altíssimo e dele a cidade de Jerusalém recebeu o nome, aquela que antes chamamos Hierosólima. Depois de Melquisedec, podemos ver que houve sacerdotes por toda a terra. Depois dele, reinou Abimelec em Gerara, e depois outro Abimelec. Depois reinou Efrom, também chamado Queteu. São esses os nomes desses primeiros reis; os nomes dos outros reis dos assírios, que vieram muitos anos depois, foram omitidos pela crônica. Dos nossos últimos tempos, recordam-se os reis da Assíria: Teglafasar, depois Salamanasar e depois Senacarim. Este último teve como triarca Adramalec, o etíope, que também foi rei do Egito. Contudo, tudo isso, comparado com as nossas Escrituras, é coisa muito recente.

Capítulo XXXII – Início da construção da cidade (cont.)

Daí se podem julgar as histórias dos estudiosos e amantes da antiguidade, pois são recentes os últimos fatos a que aludimos sem utilizar os santos profetas. Em todo caso, no início eram poucos os homens que habitavam a terra da Arábia e da Caldéia e foi apenas depois da divisão das línguas que começaram, em seus territórios, a ser muitos e a multiplicar-se por toda a terra. Então alguns foram viver no Oriente e outros foram para os territórios do grande continente e para o Norte, de modo que se estenderam até a Bretanha, nas regiões árticas; outros foram para a terra de Canaã, também chamada Judéia e Fenícia, para os territórios da Etiópia, Egito e Líbia, e para a chamada zona tórrida, até as regiões do Ocidente. Outros ocuparam a terra que vai da costa e da Panfília, da Ásia, Grécia, Macedônia e, mais além, a Itália e as chamadas Gálias, Espanhas e Germânias, de modo que agora toda a terra está cheia de seus habitantes.

Portanto, o povoamento da terra pelos homens se fez, no princípio, em três direções, para o Oriente, para o meio-dia e para o Ocidente. Depois, com o afluxo de gerações humanas, foi habitado o restante. Os historiadores ignoraram isso e querem dizer que o mundo é esférico e comparável com um cubo! Mas como podem ser verdadeiros nisso, se ignoram a criação do mundo e seu povoamento? Quando os homens aumentaram e se multiplicaram conforme as regiões, como acabamos de dizer, também foram povoadas as ilhas do mar e as outras regiões.

Capítulo XXXIII – Comparação das duas histórias

Quem dos chamados sábios, poetas e historiadores foi capaz de dizer a verdade nessas coisas? Eles próprios são muito posteriores e introduzem uma multidão de deuses, que também nasceram depois de muitos anos que as cidades tinham sido fundadas. E também são posteriores aos reis, aos povos e às guerras. Seria preciso que tivessem mencionado tudo, mesmo o que aconteceu antes do dilúvio, sobre a criação do mundo, a formação do homem e o que aconteceu depois, se é fato que os profetas dos egípcios ou os caldeus e outros historiadores falaram pelo espírito divino e puro, e era verdade o que eles anunciavam. E não só deveriam dizer-nos o passado e o presente, mas também anunciar de antemão o futuro do mundo. Daí se demonstra que todos os outros estão errados e que só nós, cristãos, possuímos a verdade, pois somos ensinados pelo Espírito Santo, que nos falou pelos santos profetas e nos anuncia tudo antecipadamente.

Capítulo XXXIV – Comparação das duas histórias (cont.) / O ensinamento dos autores sagrados sobre moral

Quanto ao resto, procura investigar com empenho as coisas de Deus, isto é, o que os santos profetas disseram, a fim de que, comparando o que nós dizemos e o que os outros dizem, possas encontrar a verdade. Que os nomes dos chamados deuses são apenas nomes de homens, como já apontamos antes, podemos demonstrá-lo pelas histórias que eles próprios escreveram. Quanto às suas imagens, que são fabricadas diariamente até hoje, são meros ídolos, “obras de mãos humanas”. Esses ídolos são cultuados por uma multidão de homens insensatos, enquanto desprezam o Criador e Artífice do Universo, que alimenta todo o ser que respira, acreditando em inúteis ensinamentos e transmitindo uns aos outros, de pai para filho, uma doutrina errônea, cheia de insensatez.

Deus, porém, Pai e Criador do universo, não abandonou a humanidade, mas deu-lhe uma lei e lhe enviou seus santos profetas, para anunciar e ensinar todo o gênero humano, a fim de que cada um de nós viva vigilante e conheça que há um só Deus. Também nos ensinaram a nos afastarmos da sacrílega idolatria, do adultério, do assassínio, da fornicação, do roubo, da avareza, do perjúrio, da mentira, da ira e de toda dissolução e impureza. E que aquilo que o homem não quer que façam a ele, também ele não faça a ninguém. Dessa forma, ele deve praticar a justiça, para escapar dos castigos eternos e se tornar digno da vida eterna que vem de Deus.

Capítulo XXXV – O ensinamento dos autores sagrados sobre moral

A lei divina não proíbe apenas adorar aos ídolos, mas também aos elementos, ao sol, à lua e aos demais astros; também não se deve cultuar o céu, a terra, ornar, as fontes, os rios, mas deve-se servir unicamente o Deus verdadeiro e Criador do universo, com santidade de coração e intenção sincera. Com efeito, a lei santa diz: “Não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, não desejarás a mulher do teu próximo.” Do mesmo modo os profetas. Salomão nos ensinou que não se deve pecar nem por sinais ou piscar de olhos: “Que teus olhos vejam o que é direito, que tuas pálpebras se inclinem sobre o que é justo.” Moisés, que também é profeta, diz sobre a uni cidade de Deus: “Este é O vosso Deus, aquele que firmou o céu e alicerçou a terra, cujas mãos mostraram toda a milícia celeste, mas não a mostou para que caminheis atrás dela.” Isaías também diz: “Assim diz o Senhor, ele que firmou o céu e colocou os alicerces da terra e de tudo o que ela contém, ele que dá respiração ao povo sobre ela e alento para os que a pisam. Este é o Senhor vosso Deus.” O próprio Isaías diz ainda: “Diz o Senhor: Eu fiz a terra e o homem sobre ela; com minha mão firmei o céu”. E em outro capítulo: “Este é o vosso Deus, aquele que preparou os cumes da terra; não terá fome, nem se fatigará, nem é possível encontrar a profundeza de seu pensamento.” Do mesmo modo Jeremias: “Aquele que fez a terra com a sua força, que levantou o orbe com a sua sabedoria, que segundo o seu pensamento estendeu o céu e grande quantidade de água no céu, reuniu as nuvens dos confins da terra, fez relâmpagos para a chuva e tirou os ventos de seus depósitos.”

Cumpre notar que os profetas disseram coisas bem coerentes e concordes, falando todos com um só e mesmo espírito sobre a monarquia de Deus, a origem do mundo e a criação do homem. E não só falaram, mas também sofreram dor, chorando sobre o gênero humano alheio a Deus, denunciaram os sábios aparentes pelo erro em que viviam e endurecimento do coração deles. Assim diz Jeremias: “Todo homem se tornou néscio por sua ciência, todo fundidor de ouro se cobriu de vergonha por suas obras de ourivesaria, em vão o cunhador de prata cunha moeda; não há alento neles; perecerão no dia da visitação.” Davi também diz a mesma coisa: “Corromperam-se e se tornaram abomináveis em suas obras; não há quem realize obras boas, não há um só. Todos se desviaram, todos unanimemente se tornaram inúteis.” Igualmente Habacuc: “Para que serve ao homem o que ele grava? Ele gravou uma imaginação mentirosa. Ai daquele que diz à pedra: ‘Levanta-te’, e à madeira: ‘Sustém-te’.”

Do mesmo modo falaram os outros profetas da verdade. Para que enumerar toda a multidão de profetas, que foram muitos e disseram infinitas coisas, coerentes e concordes entre si? Os que quiserem podem, lendo seus escritos, conhecer exatamente a verdade e não extraviar-se em especulação e trabalho inútil. Portanto, esses foram os profetas dos hebreus, dos quais falamos: homens iletrados, pastores e ignorantes.

Capítulo XXXVI – Concordância com a Sibila

Quanto à Sibila, que foi profetisa entre os gregos e demais nações, começa a sua profecia recriminando o gênero humano: “Homens mortais e de carne, que não sois nada, como vos apressais a vos exaltar, sem olhar para o fim da vida, e não tremeis,. nem temeis a Deus, que vos vigia, conhecedor altíssimo, que tudo vê, testemunha de tudo, criador que tudo alimenta, que infundiu em tudo doce alento e que se fez guia de todos os mortais?

Único Deus, que impera sozinho, máximo e não criado, onipotente, invisível, e o único que tudo vê, embora não seja visto por nenhum olho de carne. Com efeito, que carne pode ver com os olhos o celeste e verdadeiro, o Deus imortal, que habita no eixo do mundo? Os homens, nascidos mortais, homens apenas em seus ossos, veias e carnes, não podem olhar de frente sequer os raios do sol.

Reverenciai àquele que é único, ao guia do mundo, o único que foi para o eterno e desde o eterno. Nascido de si mesmo, incriado, que tudo domina para sempre, que distribui julgamento a todos os mortais em luz comum.

Recebereis O justo pagamento do vosso mau querer, pois deixando de glorificar ao Deus verdadeiro, à fonte perene e de oferecer-lhe sagradas hecatombes, sacrificastes aos demônios do Hades.

Caminhais no orgulho e na loucura e, abandonando o caminho direito e reto, vos haveis desviado e andais errantes entre os espinhos e estacas. Vãos mortais, cessai já de errar entre sombras através da negra noite escura, abandonai a sombra da noite e recebei agora a luz. Este é aquele que a todos se manifesta, ele não erra. Vinde, não sigais a sombra e as trevas para sempre. Olhai: sobre tudo brilha a doce luz do sol. Conhecei e coloca i sabedoria em vossos peitos: existe um único Deus que nos envia chuvas, ventos, terremotos e relâmpagos, fomes, pestes e lutos fúnebres, neve e geada… Para que citar tudo? Ele guia o céu e domina a terra; unicamente ele existe.”

E disse contra os que são chamados deuses gerados: “Se todo o gerado se corrompe inteiramente, Deus não pode ter sido formado dos músculos do homem e de matriz. Unicamente Deus, porém, se ergue acima de tudo, ele que fez o céu, o sol, as estrelas e a lua, a terra fértil em frutos, as ondas infladas do ponto, as altas montanhas e as correntes perenes das fontes.

Ele criou a incontável multidão de peixes dos rios, alimenta também os répteis, que se arrastam sobre a terra, e as aves variadas, de voz sonora e gorgeios, com plumagem dourada, de canto claro, que turbam o ar com suas asas.

Colocou a multidão de feras selvagens nas florestas da montanha, submeteu a nós mortais todos os animais e para todos fez um guia por sua mão formado, submetendo ao homem variedade incompreensível de coisas. De fato, qual carne pode compreendê-Ias uma a uma? Somente pode conhecê-Ias quem no princípio as fez: o Imortal, o Criador e Eterno, que habita o éter, que oferece aos bons o bom e pródigo pagamento, e aos maus e injustos reserva sua cólera e ira, guerra e peste, dores e lágrimas.

Homens, por que, inutilmente envaidecidos, vos desenraizais? Envergonhai-vos de elevar gatos e insetos à condição de deuses! Não é loucura e raiva que tira o bom-senso, existirem deuses que roubam os pratos e carregam as panelas?

Ao invés de morar no céu dourado e florido, é visto comido pelo caruncho e coberto de espessas teias de aranha.

Insensatos, adorais serpentes, gatos e cães, e cultuais aves, répteis e feras do campo, estátuas de madeira, imagens manufaturadas e montes de pedras nos caminhos, quejá é vergonhoso apenas nomear. Esses são deuses enganosos dos homens sem discernimento, de cuja boca veneno mortal se derrama; aquele Deus, porém, que tem a vida e a luz imortal e perene derrama sobre os homens prazer mais doce do que o mel… Somente diante dele deve-se inclinar a fronte, entrando nas sendas dos séculos piedosos.

Tendo abandonado tudo isso, essa taça cheia de justiça, vinho puro, abundante, plena sem mistura alguma, a arrastastes em vossas loucuras, todos loucos de espírito, e mesmo assim não quereis despertar, reaver mente sensata e conhecer a Deus rei, aquele que tudo vê. Por isso, virá sobre vós uma chama de fogo abrasador e sereis queimados em seu ardor para sempre, o dia todo, envergonhados de vossos ídolos enganosos e inúteis; mas os que honram ao Deus verdadeiro e perene, herdarão vida para sempre, habitando junto ao jardim florido do paraíso e comendo o doce pão do céu estrelado.”

É evidente que isso é verdadeiro, proveitoso, justo e digno de ser amado por todos os homens; também é evidente que aqueles que praticam o mal serão necessa. riamente castigados, conforme mereçam as suas ações.

Capítulo XXXVII – Concordância com textos poéticos

Alguns poetas chegaram a falar a mesma coisa, como que emitindo oráculos contra si mesmos e testemunhando contra aqueles que fazem o mal, dizendo que serão castigados. Ésquilo diz: “Aquele que faz, também deve sofrer”. Píndaro diz também: “Pois aquele que fez algo convém que também sofra.” Igualmente Eurípides: “Suporta o que sofrer, pois fazendo gozaste. É uma lei maltratar o inimigo se o pegas”. Ele mesmo diz novamente: “Causar danos aos inimigos: creio que isso é ser homem.” De modo semelhante Arquíloco: “Eu conheço uma grande coisa: àquele que me fez algum mal, responder com um mal maior.”

Sobre o fato de que Deus tudo vê e nada lhe é oculto, mas que, sendo misericordioso, espera pelo momento de julgar, Dioniso diz: “O olho da Justiça olha com rosto tranqüilo, mas vê tudo ao mesmo tempo.”

Que deverá haver julgamento e que os malvados se tornarão repentinamente presa dos males, Ésquilo também o deu a entender, dizendo: “A desgraça chega até os mortais com pés velozes, conforme o pecado de quem ultrapassa o lícito. Vês ajustiça silenciosa e invisível para aquele que dorme, que caminha, que se assenta. Cedo ou tarde, ela te alcança na encruzilhada. Não esconde a noite para aquele que realiza o mal. Ao fazer alguma coisa de mal, pensa que alguém a está vendo.” E Simônides também diz: “Não existe desgraça inesperada para os homens; em pouco tempo Deus transtorna tudo”. De novo Eurípides: “Nunca se deve considerar como coisa sólida a fortuna do homem mau, nem a felicidade excessiva, nem a raça dos injustos, pois o tempo, que não nasceu de ninguém, manifesta as maldades dos homens.” Ainda Eurípides: “A divindade não é sem inteligência, mas pode distinguir os juramentos falsos e os que a eles se obrigam.” E Sófocles: “Se agiste mal, também deves sofrer o mal.”

Que Deus examinará todo juramento injusto e qualquer outro pecado, os poetas quase o disseram, assim como falaram, querendo ou sem querer, coisas concordes com os profetas sobre a conflagração do mundo, apesar de serem muito posteriores a estes e de terem tirado tudo isso da lei e dos profetas.

Capítulo XXXVIII – Concordância com textos poéticos (cont.)

Não importa se foram anteriores ou posteriores. O importante é que falaram de acordo com os profetas. Sobre a conflagração, por exemplo, o profeta Malaquias predisse: “Eis que chega o dia do Senhor como fornalha ardente e abrasará todos os ímpios.” E Isaías: “A ira do Senhor virá como granizo que cai com violência e como água no vale que arrasta tudo.”

Portanto, a Sibila, os outros profetas, e até os filósofos e poetas falaram claramente sobre a justiça, sobre o julgamento e o castigo. Falaram também sobre a providência, que Deus cuida de nós não apenas enquanto vivemos, mas também depois de mortos, embora o dissessem contra a vontade, convencidos que foram pela própria verdade. Entre os profetas, Salomão disse sobre os mortos: “A carne será curada e os ossos serão cuidados.” E o próprio Davi: “Meus ossos humilhados se regozijarão.” De acordo com eles, disse Tímocles: “Para os mortos, a misericórdia é o Deus benigno.”

Os escritores que falaram sobre a multidão dos deuses acabaram por admitir a unicidade ou monarquia de Deus; aqueles que afirmaram a não-providência, depois falaram sobre a providência; aqueles que negaram o julgamento, mais tarde o afirmaram; aqueles que negaram a sensação após à morte, depois a confessaram. Homero, por exemplo, diz em uma passagem: “A alma, como um sonho, alçou vôo e partiu.” Em outra passagem: “A alma, saindo dos membros, voou para o Hades.” Ainda: “Enterra-me quanto antes, pois quero atravessar as portas do Hades.”

Creio que sabes perfeitamente como falaram os outros autores que leste. Aquele que busca a sabedoria de Deus e que lhe agrada pela fé, justiça e boas obras entenderá tudo isso. Com efeito, um dos profetas dos quais falamos, chamado Oséias, diz o seguinte: “Quem é sábio e conhecerá estas coisas, inteligente e as entenderá? Porque os caminhos do Senhor são retos e os justos entrarão neles, mas os ímpios cairão de fraqueza nesses caminhos.”

É preciso que quem ama o saber, aprenda. Portanto, procura ter conversas mais freqüentes, para que, ouvindo de viva voz, aprendas com exatidão a verdade.

Leia também > Primeiro Livro de São Teófilo de Antioquia a Autólico

(Tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Primeiro Livro de São Teófilo de Antioquia a Autólico

Teófilo de Antioquia (?-186). Teólogo, escritor cristão, apologista e Padre da Igreja que, segundo os dados que chegaram até aos dias de hoje, foi o sexto bispo de Antioquia, da Síria, reinando entre 169 e 188. Esta obra trata-se de uma defesa aos cristãos que continuavam a ser perseguidos no Império Romano. Como era frequente na Antiguidade, Autólico não terá sido uma figura histórica, mas encarna e personaliza um tipo de pessoa pagã que não devia ser rara nos finais do século II: pessoa culta, conhecedora de outras pessoas igualmente cultas e até de alguns cristãos a quem repudiava por achar as suas doutrinas demasiado simplicistas. Nesta obra Teófilo procura, com enorme elegância e clareza de linguagem, debater tais críticas e convidar o seu possível leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, de modo acérrimo a moral exemplar dos cristãos.

Primeiro Livro a Autólico (São Teófilo de Antioquia)

Capítulo I – Introdução

Boca eloqüente e dicção agradável fornecem prazer e glória fútil de louvor para os pobres homens que têm o entendimento corrompido; o amante da verdade, porém, não se prende a palavras afetadas, mas examina a eficácia da palavra, o que ela é e de que tipo é. Pois bem, meu amigo: tu me causaste estupor com palavras vãs, vangloriando-te dos teus deuses de pedra e madeira cinzelados e fundidos, esculpidos e pintados, deuses que não vêem nem ouvem (de fato, são imagens e obras de mãos humanas); além disso, tu também me chamas zombeteiramente de cristão, como se eu portasse um nome infame. Quanto a mim, confesso que sou cristão e trago esse nome grato a Deus, e espero ser útil ao mesmo Deus. Não há fundamento, para supores que seja difícil ter o nome de Deus; talvez porque, sendo inútil para Deus, tu pensas dessa maneira sobre Deus.

Capítulo II – Condições morais para o conhecimento de Deus

Mas se tu me dizes: “Mostra-me teu Deus”, eu te poderia responder: “Mostra-me teu homem, e eu te mostrarei o meu Deus”. Mostra-me, portanto, os olhos de tua alma que vejam e os ouvidos do teu coração que ouçam. Com efeito, aqueles que vêem com os olhos do corpo observam aquilo que se passa na vida e sobre a terra, discernindo juntamente as diferenças entre a luz e a escuridão, entre o branco e o negro, entre o disforme e a bela forma, entre o que é harmonioso, bem proporcionado e o que é desarmonioso e desproporcional, desmesurado e truncado; a mesma coisa para aquilo que cai sob o sentido dos ouvidos: sons agudos, graves e suaves. Acontece do mesmo modo com os ouvidos do coração e os olhos da alma aos quais é possível perceber Deus. De fato, Deus é experimentado por aqueles que podem vê-lo, desde que os olhos de sua alma estejam abertos. Todos têm olhos, mas alguns os têm obscurecidos e não percebem a luz do sol; e não é porque os cegos não vêem que a luz do sol deixa de brilhar, mas os cegos devem buscar a causa em si mesmos e em seus olhos.

Do mesmo modo, Ó homem, tu tens os olhos de tua alma obscurecidos por tuas faltas e tuas más ações. O homem deve ter alma pura como espelho brilhante. Quando o espelho fica enferrujado, não se pode mais ver a face do homem no espelho; assim também, quando há falta no homem, esse homem já não pode contemplar a Deus. Mostra-te a ti mesmo, se não és adúltero, se não és devasso se não és pederasta, se não és ladrão, se não és explorador, se não és colérico, se não és invejoso, se não és impostor, se não és soberbo, se não és brutal, se não és amante do dinheiro, se não desobedeces a teus pais, se não vendes teus filhos. Com efeito, Deus não se manifesta àqueles que cometem essas faltas, a não ser que antes se purifiquem de toda mancha. Por isso, tudo é obscuro para ti, como a bandagem que se coloca no olho por não poder contemplar a luz do sol. Assim também, ó homem, tuas impiedades projetam sobre ti trevas e tu não podes ver a Deus.

Capítulo III – Transcendência de Deus

Então me dirás: “Tu que vês, descreve-me o aspecto de Deus”. Escuta, homem: o aspecto de Deus é inefável, inexprimível, e não pode ser visto com os olhos carnais. Por sua glória, ele é sem limite, inigualável por sua grandeza, acima de qualquer idéia por sua altura, incomensurável por sua força, sem igual por sua sabedoria, inimitável por sua bondade, indizível por sua benevolência. Se eu o chamo Luz, é uma de suas criaturas que nomeio; se eu o chamo Verbo, nomeio o seu princípio; seu eu o chamo Razão, nomeio a sua inteligência; se eu o chamo Espírito, nomeio a sua respiração; se eu o chamo Sabedoria, nomeio o que ele gera; se eu o chamo Força, nomeio o seu poder; se eu o chamo Potência, nomeio a sua atividade; se eu o chamo Providência, nomeio a sua bondade; se eu o chamo Soberania, nomeio a sua glória; seu eu o chamo Senhor, digo que é juiz; se eu o chamo Juiz, digo que é justo; se eu o chamo Pai, digo que é tudo; se o chamo Fogo, nomeio a sua ira. Tu me dirás: “Deus fica irado?” Eu respondo: Sim, ele se ira contra aqueles cujas ações são más; no entanto, ele é bom, propício e misericordioso para com aqueles que o amam e o temem; ele é o educador dos fiéis, o pai dos justos, o juiz e castigador dos ímpios.

Capítulo IV – A soberania de Deus

Ele não tem princípio, porque não foi gerado; ele é imutável, porque é imortal. É chamado Deus porque fundou tudo sobre sua própria estabilidade, e ainda através de théein. Théein significa correr, ser ativo, trabalhar, alimentar, prover, governar, dar vida a tudo. Ele é Senhor, porque exerce o senhorio sobre tudo; Pai, porque existe antes de tudo; Fundador e Criador, porque ele criou e fez tudo; Altíssimo, porque ele é superior a todas as coisas; Onipotente, porque ele domina e envolve tudo. As alturas dos céus, as profundezas dos abismos, e os confins da terra estão em sua mão; não há lugar onde esteja suspensa a sua ação. Os céus são obra sua; a terra é realização sua; o mar é criação sua; o homem é figura e imagem sua; o sol, a lua e as estrelas são elementos seus, feitos para medir sinais, medida de tempo, dias e anos, para utilidade e serviço dos homens. E Deus fez tudo do não-ser para o ser, a fim de que por suas obras seja conhecida e compreendida a sua grandeza.

Capítulo V – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus

Do mesmo modo como a alma não pode ser vista no homem, pois ela é invisível para os homens, mas pode ser imaginada por causa dos movimentos do corpo, assim também acontece com Deus: ele não pode ser visto pelos olhos humanos, mas pode ser visto e imaginado pela sua providência e pelas suas obras. Quando alguém vê no mar um navio com todo o seu apetrecho, que singra e se aproxima do porto, é evidente que pensa que há um piloto que o dirige; do mesmo modo, deve-se pensar que existe um Deus, que governa tudo, embora os olhos carnais não o vejam, porque ele não é circunscrito. Se o sol, que é o menor elemento existente, não pode ser fixado pelo olhar humano, pois é muito quente e muito forte, como não será muito mais impossível ao homem mortal ver face a face a glória inefável de Deus? A romã possui uma casca que a envolve; dentro tem muitas repartições ou casinhas separadas por membranas e, finalmente, muitos grãos aí alojados. Do mesmo modo, toda a criação está envolvida pelo sopro de Deus, e esse sopro que a envolve está com a criação pela mão de Deus.

Assim como o grão da romã, do interior de seu habitáculo, não pode ver o que está fora da casca, pois está lá dentro, também o homem, que é envolvido com toda a criação pela mão de Deus, não pode contemplar a Deus. Além disso, crê-se que um soberano terrestre existe, embora ninguém o veja: suas leis, seus editos, seus funcionários, suas autoridades, suas estátuas o tornam conhecido. E tu não queres reconhecer Deus pelas suas obras e manifestações de seu poder?

Capítulo VI – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus (cont.)

Ó homem, considera, portanto, as obras de Deus: a variedade das estações segundo os tempos, a mudança dos ares, o curso bem regrado dos elementos, a marcha também ordenada dos dias e das noites, dos meses e dos anos; a variada formosura das sementes, das plantas e dos frutos; a grande diversidade de criações: quadrúpedes e aves, répteis e peixes, seja de água doce, seja do mar; o instinto dado aos mesmos animais para gerar e criar, não para sua própria utilidade, mas para que o homem aproveite; a providência com que Deus prepara o alimento para toda carne, a submissão à humanidade que ele impôs a todas as coisas; as torrentes das fontes doces e dos rios perenes, o aparecimento oportuno do orvalho, das chuvas e das tempestades que acontecem segundo os tempos; o movimento tão variado dos elementos celestes, o luzeiro da manhã que surge para anunciar a vinda do grande astro, a conjunção da Plêiade e do Órion, o Arturo e o coro dos outros astros que circulam na abóbada celeste, aos quais a infinita sabedoria de Deus pôs nomes próprios.

É unicamente esse Deus que tirou a luz das trevas, que tira a luz de seus depósitos, que conserva os depósitos do vento, os reservatórios do abismo, os limites dos mares, os depósitos das neves e granizos, que junta as águas nos reservatórios do abismo ejunta as trevas em seus depósitos, tira a luz doce, desejada e grata, de seus depósitos, faz subir as nuvens da extremidade da terra, multiplica os relâmpagos para chover, envia o trovão para infundir medo, anuncia de antemão o seu estrondo por meio do relâmpago, para que a alma não sofra emoção súbita que a deixaria inanimada, e ainda modera a força do relâmpago que vem dos céus, para que não abrase a terra. De fato, se o relâmpago desenvolvesse todo o seu poder, abrasaria a terra e igualmente o trovão transtornaria tudo o que há nela.

Capítulo VII – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus (cont.)

Esse é o meu Deus, Senhor do universo, o Único que estendeu os céus e estabeleceu a largura da terra sob o céu, que perturba a profundeza do mar e faz ressoar suas ondas, que domina a sua força e acalma a agitação de suas ondas, que alicerçou a terra sobre as águas e deu seu espírito que a alimenta, cujo sopro tudo vivifica e, se ele o retivesse, tudo desfaleceria. Esse sopro, ó homem, faz a tua voz; tu respiras o espírito dele, e tu não o conheces. Isso acontece por causa da cegueira de tua alma e endurecimento do teu coração. Mas, se quiseres, podes curar-te. Coloca-te nas mãos do médico e ele operará os olhos de tua alma e do teu coração. Quem é esse médico? É Deus que cura e vivifica através do Verbo e da Sabedoria. Deus fez tudo a través do seu Verbo e da sua Sabedoria. Por seu Verbo foram estabelecidos os céus e por seu Espírito toda a força deles. Sua Sabedoria é poderosíssima. Por sua Sabedoria, Deus colocou os alicerces da terra, por sua inteligência dispôs os céus, em sua prudência os abismos se abriram e as nuvens derramaram o orvalho. Fé e visão Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente contra ele.

Capítulo VIII – Crer na ressurreição é razoável

Tu, porém, não crês que os mortos ressuscitam. Quando isso acontecer, então crerás, queiras ou não. E essa crença será considerada incredulidade, se não creres desde agora. Mas, por que não crês? Não sabes que a fé vai à frente de todas as coisas? De fato, qual lavrador pode colher, se antes não confia a semente à terra? Ou quem pode atravessar ornar, se antes não se confia à embarcação e ao piloto? Qual doente pode curar-se, se antes não se confia ao médico? Qual arte ou ciência pode alguém aprender, se antes não se entrega e se confia ao mestre? Portanto, se o lavrador crê na terra, o viajante no navio, o doente no médico, por que tu não queres confiar-te a Deus, do qual recebeste tantos dons? O primeiro dom é te haver tirado do nada para o ser. Se houve momento em que nem teu pai, nem tua mãe existiam, muito menos existias tu. Ele te plasmou de uma substância úmida e pequena e de uma pequenina gota, que também não existia antes, e finalmente te introduziu neste mundo. Além disso, crês que as imagens fabricadas por homens são deuses e que operam prodígios, e não crês que Deus, que te fez, possa novamente tornar a fazer-te?

Capítulo XIX – Vós credes em outros deuses

Os nomes dos deuses, aos quais dizes cultuar, são nomes de homens mortos. Quem eram esses e que valiam? Não se diz que Cronos era comedor de crianças e que devorava seus próprios filhos? Se falas de Zeus, filho dele, conheças bem sua vida e prodígios. Primeiramente, foi alimentado no Ida por uma cabra; depois, matando-a e esfolando-a, da pele fez para si, conforme as fábulas, uma vestimenta. Seus outros feitos, como, por exemplo, seu casamento com sua irmã, seus adultérios e corrupções de rapazes, Homero e os outros poetas os cantam melhor do que eu. Além disso, para que fazer a lista de seus filhos, um Héracles que se queima vivo; um Dioniso embriagado e louco; um ApoIo que tem medo de Aquiles e dele foge, e depois se enamora de Dafne e não fica sabendo da morte de Jacinto; uma Afrodite ferida; um Ares que é perdição dos mortais e, finalmente, o sangue que escorre de todos esses pretensos deuses? E isso tudo ainda é moderado, quando vemos um deus esquartejado que chamam de Osíris, do qual a cada ano se celebram mistérios, como se se perdesse e se encontrasse e fosse procurado membro por membro. Não se sabe se foi perdido, nem se mostra se foi achado! Por que devo falar de Átis mutilado, ou de Adônis, que anda errante pela selva, que caça e é ferido por um javali, ou de Asclépio fulminado, ou de Serápis, que vai fugitivo de Sínope para Alexandria, ou da frígia Artemis, tonta, fugitiva, assassina, caçadora e enamorada de Eudimião? Não somos nós que dizemos tudo isso, mas os vossos escritores e poetas que os apregoam.

Capítulo X – Vós credes em outros deuses (cont.)

Para que também fazer o catálogo da multidão de animais que os egípcios cultuam? Répteis e bestas, feras e aves, peixes das águas, e até os banhos dos pés e os ruídos vergonhosos. Se me falas dos gregos e das outras nações, elas cultuam pedras, madeiras e outras matérias, como dissemos antes, que são representações de homens mortos. Com efeito, sabemos que Fídias fez em Pisa o Zeus Olímpico para os éleos e a Atena da Acrópole para os atenienses. E agora, eu pergunto também a ti, homem: Quantos Zeus existem? Em primeiro lugar, chama-se Zeus o olímpico; depois, há um Zeus latino, um Zeus cássio, um Zeus fulminador, um Zeus Propator, um Zeus noturno, um Zeus defensor da cidade, um Zeus capitolino. E ainda o Zeus, filho de Cronos, que foi rei dos cretenses e tem sua sepultura em Creta. Quanto aos outros, não foram sequer considerados dignos de sepultura. Falar-me-ás da mãe dos pretensos deuses? Deus me livre nomear com minha boca suas ações, pois não nos é lícito sequer nomear tais coisas, ou as ações com que seus servidores lhe prestam culto e as contribuições e tributos que eles e seus filhos pagam ao imperador. Não são deuses, mas ídolos, como anteriormente dissemos, obras das mãos dos homens e demônios impuros. Que aqueles que os fabricam se tornem como eles e aqueles que neles põem a sua confiança.

Capítulo XI – Atitude para com o imperador

Por isso, eu honraria melhor ao imperador, embora não o adorasse, mas rogasse por ele. Adorar, eu adoro apenas ao Deus real e verdadeiramente Deus, pois sei que o imperador foi criado por ele. Então me perguntarás: “Por que não adoras o imperador?” Porque não foi constituído para ser adorado, mas para que se lhe tribute a legítima honra. Com efeito, ele não é Deus, mas homem estabelecido por Deus, não para ser adorado, mas para julgar com justiça. De certo modo, Deus lhe confiou uma administração e assim como ele próprio não quer que se chame de imperadores os que ele estabeleceu sob o seu poder, pois o nome “imperador” é particular seu, e a ninguém é permitido chamar-se dessa forma, da mesma forma a ninguém é lícito adorar senão a Deus. Portanto, ó homem, estás completamente equivocado em tudo. Honra ao imperador por tua adesão a ele, submetendo-te a ele, orando por ele. Fazendo isso, realizarás a vontade de Deus. A lei divina diz: “Meu filho, honra a Deus e ao rei, e não sejas desobediente a nenhum dos dois, pois eles se vingarão repentinamente de seus inimigos”.

Capítulo XII – O nome de cristão

Quanto ao fato de zombares de mim, chamando-me cristão, não sabes o que dizes. Primeiramente, o ungido é agradável e útil, e não tem nada de ridículo. Com efeito, qual navio pode ser útil e salvo se antes não for ungido? Que torre ou casa possui bela forma ou é útil se antes não for ungida? Qual homem, entrando no mundo ou indo ao combate, não se unge com azeite? Qual obra ou ornato pode ter bela aparência, se não é ungida e não se torna brilhante? Por fim, todo o ar e toda a terra sob o céu são de certo modo ungidos pela luz e pelo vento. E tu não queres ser ungido com o óleo de Deus? Nós nos chamamos cristãos porque nos ungimos com o óleo de Deus.

Capítulo XIII – Imagens da ressurreição na natureza

Retornemos à tua negação da ressurreição dos mortos. Tu dizes: “Mostra-me apenas um morto que tenha ressuscitado e eu acreditarei.” Em primeiro lugar, o que há de maravilhoso em creres naquilo que viste acontecer? Por outro lado, crês que Héracles, depois de queimar-se vivo, ainda vive, e que Asclépio, que foi fulminado, ressuscitou. E não crês no que Deus te diz? Talvez, se te mostrasse um morto ressuscitado e vivo, não acreditarias. Ora, Deus te mostra muitos indícios, para que creias nele. Se queres, considera a morte das estações, dos dias e das noites, como morrem e ressuscitam. Vê. Não há também uma ressurreição para as sementes e frutos, e isso para a utilidade dos homens? Assim, por exemplo, um grão de trigo ou de qualquer outra planta, uma vez jogado na terra, primeiro morre e se desfaz, depois ressuscita e se transforma em espiga. Do mesmo modo, segundo a ordenação de Deus, a natureza das árvores e plantas não produz, conforme os tempos, os seus frutos a partir do oculto e invisível? Ainda mais: às vezes um pardal ou outro pássaro qualquer engole a semente de uma pereira, de uma figueira ou de outra árvore, depois voa para um monte pedregoso ou sobre um túmulo, aí defeca e a semente que fora antes tragada e que passara por tão grande calor, retorna e se transforma em uma árvore.

A sabedoria de Deus realiza tudo isso para demonstrar, mesmo por esses exemplos, que ele é Deus poderoso para realizar a universal ressurreição de todos os homens. Se queres contemplar um espetáculo mais maravilhoso, que acontece para demonstrar não a ressurreição de coisas terrenas, mas das celestes, considera a ressurreição da lua, que acontece a cada mês, como ela se consome, morre e ressuscita novamente. Escuta ainda: a obra da ressurreição se realiza em ti mesmo, embora tu, ó homem, a desconheças. Provavelmente alguma vez, ficando doente, perdeste tuas carnes, tuas forças e aparência; ao recobrar a saúde, por misericórdia de Deus, recuperaste novamente teu corpo, tua força e tua aparência. E como não sabes para onde foram tuas carnes ao desvanecer-se, também não sabes como se formaram e de onde vieram. Tu dirás: “Dos alimentos e dos líquidos transformados em sangue”. Muito bem! Isso, porém, também é obra de Deus, que assim dispôs, obra dele e de nenhum outro.

Capítulo XIV – Exemplo pessoal de Teófilo

Portanto, não sejas incrédulo, mas acredita. Eu também não acreditava que isso existisse, mas agora, depois de refletir muito, eu creio; ao mesmo tempo, li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, os quais, inspirados pelo Espírtio de Deus, predisseram o passado como aconteceu, o presente tal como acontece e o futuro tal como se cumprirá. Por isso, tendo a prova das coisas acontecidas depois de terem sido preditas não sou incrédulo, mas creio e obedeço a Deus. Eu te peço: submete-te também a ele, para que, não crendo agora, forçosamente tenhas que crer mais tarde em tormentos eternos. Exortação final Esses tormentos foram preditos pelos profetas, e os poetas e filósofos, posteriores a eles, os imitaram a partir das Sagradas Escrituras, para dar autoridade aos seus ensinamentos. Desse modo, eles também falaram antecipadamente dos castigos que recairão sobre os ímpios e incrédulos, para que ficassem testemunhados para todos e ninguém pudesse dizer: “Não ouvimos falar disso, nem sabemos”. Se queres, lê tu também com interesse as Escrituras dos profetas e elas te guiarão com mais clareza para escapares dos castigos eternos e alcançares os bens eternos de Deus. De fato, ele, que nos deu a boca para falar, que formou o ouvido para ouvir e fez os olhos para ver, examinará tudo e julgará com justiça, dando a cada um segundo os próprios méritos. Para aqueles que, segundo suas forças, buscam a incorruptibilidade através das boas obras, ele dará a vida eterna, a alegria, a paz, o descanso e uma multidão de bens, que nenhum olho viu, nenhum ouvido e nenhum coração humano sentiu; mas aos incrédulos, aos zombadores e aos que desobedecem à verdade e seguem a injustiça, depois de manchar-se com adultérios, fornicações, pederastias, avarezas e sacrílegas idolatrias, para esses, existirá a ira e a indignação, a tribulação e a angústia, e, por fim o fogo eterno se apoderará deles.

Amigo, tu replicaste: “Mostra-me teu Deus”. Pois bem: esse é o meu Deus, e te aconselho que o temas e creias nele.

(Tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Epístola do Papa Urbano I a todos os cristãos

Urbano I foi papa da Igreja Católica entre os anos 222 e 230, nos tempos do imperador Alexandre Severo. Nesta carta, Urbano exorta os fiéis a perseverarem no antigo costume da posse comum de bens entre os cristãos e explica a prática dos fiéis doarem bens à Igreja para a manutenção do clero e dos irmãos mais necessitados. Em outro ponto, fundamenta a primazia da sé episcopal nas igrejas. Convida também a considerar e respeitar o juízo do bispo sobre as pessoas tidas por perigosas para a comunidade. Estima-se que a carta abaixo tenha sido escrita por volta do ano de 230 d.C e é uma leitura importante para aqueles que desejam conhecer a origem do cristianismo, suas idéias e práticas.

Epístola a Todos os Cristãos – Santo Urbano I de Roma

Urbano, bispo, a todos os cristãos: na santificação do Espírito, em obediência e aspersão do Sangue de Cristo nosso Senhor, eu vos saúdo.

Convém a todos os cristãos, meus bem-amados irmãos, imitar Aquele cujo nome receberam. “De que serve, irmãos” – diz o apóstolo São Tiago – “que um homem diga que tem fé, se não tem obras?” [Tg 2,14]. “Irmãos: não queiram ser, muitos de vós, mestres, sabendo que receberão a maior condenação, já que em muitas coisas ofendemos a todos” [Tg 3,1-2]. “Deixai que aquele que é sabio e dotado de sabedoria entre vós, mostre o que ensina em suas ações realizadas com a humildade da sabedoria” [Tg 3,13].

Capítulo I – A vida em comum e a razão pela qual a Igreja começou a possuir propriedades

Sabemos que vocês não ignoram que até hoje em dia o princípio de viver com todas as coisas em comum tem vigorado entre os bons cristãos e, pela graça de Deus, permanece sendo assim, sobretudo entre aqueles que foram escolhidos para a messe do Senhor, isto é, os clérigos, tal como lemos nos Atos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma, e ninguém dizia que qualquer coisa que possuía era indigna, mas tinha [essa multidão] todas as coisas em comum. E, com grande vigor, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus e graça abundante havia entre todos eles. Também ninguém entre eles passava por necessidade, pois todos os que possuíam terras ou casas, as vendiam, e traziam o seu valor aos pés dos apóstolos, e a distribuição era feita a cada pessoa segundo suas necessidades. E José, chamado Barnabé pelos apóstolos – o que significa ‘filho da consolação’ -, um levita natural do Chipre, as vendeu e depositou o seu valor aos pés dos apóstolos” [At 4,32-37]; e isso continua assim. E é por isso que os sumos sacerdotes e os demais, os levitas e o resto dos fiéis, perceberam que era mais vantajoso se entregassem às igrejas dirigidas pelos bispos, as heranças e campos que iam vendendo, pois assim poderiam organizar muito melhor a manutenção dos irmãos na fé, e ainda mais com as rendas das propriedades do que com o dinheiro que conseguiriam caso a vendessem; isto vale não apenas para o presente, como também para os tempos futuros, pois se começou a consignar às igrejas-mães a propriedade e as terras que iam vender, passando-se para o modo de viver com as rendas destas.

Capítulo II – As pessoas e os usos em relação às propriedades eclesiásticas e os invasores destas

Em acréscimo, as propriedades que possuíam várias paróquias foram entegues aos bispos, que mantêm o cargo dos apóstolos. Isto é assim até hoje e deve continuar a ser sempre assim, no futuro. Dessas possessões, os bispos e os fiéis, que são seus administradores, devem satisfazer a todos os que desejam ter vida em comum, gerenciando as necessidades da melhor maneira possível, de tal sorte que ninguém seja encontrado passando necessidade entre eles. Por essa razão, as possessões dos fiéis são também chamadas oblações, pois que são oferecidas ao Senhor. Não devem, pois, ser desviadas para outros usos alheios aos pretendidos pela Igreja, em benefício dos irmãos cristãos anteriormente mencionados e dos pobres, pois estas são as oferendas dos fiéis, dinheiro da recompensa [pela remissão] dos pecados, patrimônio dos pobres doados ao Senhor pelos propósitos já mencionados.

Porém, se alguém agir de outro modo – que Deus não o permita! -, que tome cuidado para não vir a receber a condenação aplicada a Ananias e Safira; culpável de sacrilégio como foram aqueles que mentiram sobre o preço da propriedade, como lemos na passagem citada anteriormente nos Atos dos Apóstolos: “Um homem chamado Ananias, com Safira, sua esposa, vendeu sua possessão, porém reteve uma parte do preço com o prévio consentimento de sua esposa; trouxe uma parte e a depositou aos pés dos apóstolos. Entretanto, Pedro disse a Ananias: ‘Como Satanás te tentou para mentir ao Espírito Santo, retendo parte do preço da terra? Ficando com ela, não era tua? E depois de vendida, não estava à tua disposição? Por que concebeste isto em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus’. E ouvindo isto, Ananias caiu por terra e expirou. E um grande temor veio sobre todos aqueles que ouviram estas coisas. Logo alguns jovens prepararam o seu corpo e o levaram para fora; e o enterraram. Aproximadamente três horas depois, sua esposa entrou sem saber o que havia acontecido. Pedro lhe perguntou: ‘Dize-me: vendestes vós o campo por tal valor?’. Disse ela: ‘Sim, pelo valor tal’. Então Pedro lhe disse: ‘Como combinastes para tentar o Espírito de Deus? Vêde: os pés daqueles que enterraram o teu marido estão chegando à porta e levarão também a ti’. Nesse mesmo instante, ela caiu aos seus pés e morreu. E os jovens entraram, a encontraram morta e, levando-a, a enterraram ao lado do seu marido. E um grande temor sobreveio a toda a Igreja e a todos que ouviram estas coisas” [At. 5,1-11].

Irmãos: devemos guardar cuidadosamente estas coisas; devemos temê-las grandemente, pois a propriedade da Igreja não é propriedade pessoal, mas propriedade comum, propriedade oferecida a Deus; deve, pois, ser distribuída com o mais profundo espírito de temor, em espírito de fidelidade, sem outro motivo que os acima mencionados, para que não incorra em culpa de sacrilégio quem as desviam das mãos para as quais foram consignadas, a não ser que mereça a pena de morte de Ananias e Safira; a não ser que – o que é ainda pior – deva se tornar anátema (vem, Senhor Jesus!); a não ser que, ainda que seu corpo não caia morto como o de Ananias e Safira, sua alma, que é mais valiosa que o corpo, caia morta e seja separada da companhia dos fiéis, sendo atirada nas profundezas do inferno.

Portanto, todos devem prestar atenção a este problema e velar com fidelidade, evitando a desonra de tal usurpação, a não ser que as possessões dedicadas aos usos das coisas sagradas e divinas sejam corrompidas por qualquer grupo que as invada. E se alguém fizer assim, então, após a severa vingança que corresponde a esse crime, o rigor da justiça que deve ser empreendido contra tal sacrílego será o da condenação à infâmia perpétua: será preso ou exilado por toda a sua vida, pois, segundo o Apóstolo [1Cor. 5,5], devemos entregar tal homem a Satã, e deixar que seu espírito seja salvo no dia do Senhor.

Capítulo III – No que se refere à tentativa de proibir à Igreja o direito de manter propriedades

Assim, pelo crescimento e modo de vida já mencionados, as igrejas dirigidas pelos bispos têm crescido com a ajuda do Senhor e a maior parte delas possue, agora, propriedades; entre elas, não há um só homem que, escolhendo a vida em comum, seja mantido na pobreza, sem que receba todo o necessário do bispo e de seus ministros. Logo, se alguém no presente ou no futuro se levantar contra isto e tentar desviar estas propriedades, deixai que seja afligido pelo Juízo já citado.

Capítulo IV – As Sés Episcopais

Adicionalmente, a respeito do fato de que nas igrejas dos bispos se encontram assentos elevados e preparados como tronos, por meio dos quais se mostra o poder do exame e do juízo, e a autoridade para ligar e desligar, eis que tudo isto foi deixado pelo Senhor, pois o próprio Senhor diz no Evangelho: “Qualquer coisa que ligares na terra, será ligada no céu. E qualquer coisa que desligares na terra, será desligada no céu” [Mt. 18,18]. E, em outro lugar: “Recebam o Espírito Santo. A todo aquele que perdoardes os pecados, estes lhe serão perdoados; e a todo aquele que os reterdes, estes lhe serão retidos” [Jo. 20,22-23].

Capítulo V – Ninguém deve relacionar-se com aqueles com quem o bispo não se relaciona, ou receber aqueles por ele excomungados

Estas coisas as temos colocado diante de vocês, amados, para que entendam o poder dos seus bispos, para que reverenciem a Deus neles e os amem como as suas próprias almas; para que não se relacionem com aqueles com quem eles não se relacionam, nem recebam aqueles que foram excomungados por eles. Pois o juízo de um bispo deve ser muito respeitado, ainda que ele possa julgar alguém injustamente, não obstante seu dever de cuidar-se com maior zelo.

Capítulo VI – O compromisso assumido no Batismo e os se entregaram à vida em comum

Exortando a todos vocês, também admoestamos a todos aqueles que abraçaram a fé em Cristo, tomando de Cristo o nome de cristãos: não tenham nada de vão no cristianismo de vocês, mas mantenham irremovível o compromisso que assumiram no Batismo, de tal modo que possam ser encontrados sem reprovação, sempre dignos da Sua presença. E se qualquer de vocês assumiu a vida que possui todas as coisas em comum, assumindo o voto de não possuir qualquer propriedade pessoal, cuide-se para não fazer vã a sua promessa, mantendo com fidelidade este compromisso celebrado com o Senhor, de modo que possa merecer para si mesmo não a condenação, mas a recompensa, porque é melhor para um homem não assumir um voto do que assumi-lo e não o cumprir.

Aqueles que fizeram um voto ou tomaram para si a fé e não guardaram o seu voto ou permaneceram fazendo coisas perversas em suas vidas serão castigados com maior severidade que aqueles que passaram suas vidas sem um voto ou morreram sem fé, porém não sem realizar boas obras. Para esta finalidade, recebemos de presente da natureza uma inteligência racional, além da renovação do segundo nascimento, para que, segundo o Apóstolo, saibamos discernir bem as coisas do alto e as coisas da terra [Col. 3,2], pois a sabedoria deste mundo necessita de Deus [1Cor. 3,19].

Ora, amadíssimos, para o que nos leva a sabedoria deste mundo senão para buscar as coisas más, amar as coisas perecíveis, abandonar as coisas saudáveis e estimar como sem valor as coisas definitivas? Recomenda o amor ao dinheiro, do qual se diz: “O amor ao dinheiro é a raiz de todo o mal” [1Tim. 6,10]; e é isto que contém este mal de maneira especial, pois ainda que imponha o transitório, esconde da nossa vista o eterno; e ainda que saia em busca de coisas externas, não observa as coisas interiores; ainda que busque coisas estranhas, este é um mal que se faz estranho para consigo mesmo daquele que o faz.

Observe: o que impulsiona ao homem a sabedoria deste mundo? A viver em prazeres, quando está dito: “uma viúva que vive em prazer, está morta ainda que viva” [1Tim. 5,6]. Impulsiona o homem a alimentar a carne com os mais suaves deleites, com pecados, vícios e paixões, a pressionar a alma com imoderação na comida e no vinho, para reprimir a vida do espírito e pôr nas mãos do inimigo a espada que será usada contra si mesmo.

Observe: qual é o conselho que a sabedoria deste mundo oferece? Que aqueles que são bons deveriam, ao contrário, optar pelo mal; que, por um erro de mente, deveriam ser zelosos sendo pecadores; que não deveriam refletir sobre aquela terrível voz de Deus, “quando o mau for queimado como a erva” [Sal. 92,7].

Capítulo VII – A imposição das mãos do bispo

Todos os fiéis devem receber o Espírito Santo após o batismo pela imposição das mãos dos bispos, de modo que possam ser chamados plenamente cristãos, já que quando o Espírito Santo é derramado sobre eles, o coração crente é preenchido para a prudência e a firmeza.

Recebemos o Espírito Santo para podermos ser feitos espirituais, pois o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus [1Cor. 2,14]. Recebemos o Espírito Santo para podermos ser sábios e discernirmos entre o bem e o mal, para amar o justo e detestar o injusto, assim como para resistir à malícia e ao orgulho, resistindo ao luxo e diversos atrativos, bem como aos desejos impuros e indignos. Recebemos o Espírito Santo para que, acesos com o amor à vida e o ardor da glória, possamos ser capazes de elevar nossa mente das coisas terrenas para as coisas celestiais e divinas.

Dado nas nonas de setembro, isto é, no quinto dia do mesmo mês, durante o consulado dos ilustríssimos Antonino e Alexandro.

(Tradução de Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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Epístola de São Zeferino I aos Bispos do Egito

Papa Zeferino I (198 a 217 d.C.)

Zeferino foi o primeiro Papa do século III e décimo quinto da Igreja, sucedendo a Vítor I. Natural de Roma, foi eleito em 199. O seu pontificado se caracterizou por duras lutas teológicas que levaram, por exemplo à excomunhão de Tertuliano. Ele foi o primeiro Pontífice que desejou criar uma catacumba na Via Ápia, cujos cuidados foram por ele confiados ao diácono Calisto (e, por isso, chamada de catacumba de Calisto).

Zeferino estabeleceu que os fiéis católicos, depois dos 14 anos, comungassem, pelo menos na ocasião da Festa da Páscoa. Determinou o uso da patena e dos cálices sagrados, até então confeccionados em madeira, que deveriam ser feitos ao menos de vidro.

É dele a carta que vamos postar agora, dirigida aos bíspos do Egito (217 d.C.). Nela, o papa expõe brevemente dois temas: primeiro, exorta a alguns bispos da região que tinham problemas em suas dioceses para que permanecem firmes e fiéis, confiando nas promessas do Altíssimo e sofrendo com paciência as injustiças que estavam sofrendo; numa segunda parte, o papa Zeferino oferece breves instruções para a ordenação dos presbíteros e diáconos.

A intenção de postar estes textos aqui no blog é para que você amigo leitor perceba que a Igreja Primitiva é a Igreja Católica. Alguns teólogos não católicos tentam disassociar uma da outra, dizendo que Constantino ao se declarar cristão instituiu uma outra religião diferente da que os cristãos viviam.Veja o texto e tire suas conclusões…

Epístola aos Bispos do Egito – São Zeferino I de Roma

Zeferino, Bispo da cidade de Roma, aos mui queridos irmãos que servem ao Senhor no Egito.

Recebemos uma grande responsabilidade do Senhor, fundador desta Santa Sé e da Igreja apostólica, e do bem-aventurado Pedro, chefe dos apóstolos: a de que possamos trabalhar com amor infatigável pela Igreja universal, que foi remida pelo Sangue de Cristo, e, assim, com autoridade apostólica, apoiar os que servem ao Senhor, bem como ajudar a todos os que vivem fielmente. Todos os que vivem piedosamente em Cristo devem resistir à condenação dos ímpios e dos estranhos; estes devem ser desprezados como estúpidos e loucos. Assim se farão melhores e mais puros aqueles que renunciam às boas coisas temporais com o fim de conquistar as da eternidade. Porém, o desdém e a burla daqueles que os afligem e os desvalorizam se voltarão sobre eles mesmos quando sua abundância tornar-se necessidade e seu orgulho [tornar-se] confusão.

Capítulo I – Sobre o despojo ou expulsão de alguns bispos

A sé dos apóstolos foi informada por vossos delegados que alguns de nossos irmãos bispos estão sendo expulsos de suas igrejas e sés, privados de seus bens, e chamados a juízo, sendo, ainda por cima, destituídos e maltratados; isto é um absurdo, já que as constituições dos apóstolos e de seus sucessores, assim como os estatutos dos imperadores e a regulamentação das leis, assim como a autoridade da sede dos apóstolos, proíbem fazê-lo. Com efeito, os antigos estatutos ordenam que os bispos que foram expulsos e despojados de suas propriedades recobrem suas igrejas e que, antes de mais nadas, tenham repostas todas as suas propriedades; logo, em segundo lugar, se é que alguém deseja acusá-los de forma justa, o fará com risco semelhante; os juízes devem ser discretos e os bispos retos devem estar em comunhão com a Igreja, devendo prestar testemunho sem ser oprimido; não devem responder a nada, porém, até que sejam reconduzidos, por lei, [à função] e às suas igrejas, sem qualquer detrimento.

Não é estranho, irmãos, que vos persigam pois perseguiram até a morte a vossa Cabeça, Cristo nosso Senhor. As perseguições, entretanto, devem ser enfrentadas com paciência, para que sejais conhecidos como discípulos [de Cristo], por quem vós também sofreis. Ele mesmo o diz: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça” (Mt. 5,10). Animados por este testemunho, não devemos temer a condenação dos homens, nem tampouco deixar-nos derrotar por seus vitupérios, pois o Senhor nos deu este mandamento por meio do profeta Isaías: “Ouvi-me, vós que conheceis o justo, povo meu, em cujo coração habita a minha lei: não temais a reprovação dos homens e não vos assusteis com suas injúrias” (Is 51,7); e, considerando o que está escrito no Salmo: “Não é Deus que deve perscrutar isto, já que Ele conhece os segredos os coração?” (Sal. 44, 21), “e os pensamentos daqueles homens não são mais que coisas vãs [vanidad]” (Sal. 94, 11). Apenas dizem coisas vãs contra o seu próximo; com lábios enganosos em seus corações, falam com um coração malvado. Porém, o Senhor deve arrancar de todo lábio enganoso a língua que diz coisas orgulhosas, como esta: “Nossos lábios são nossos; quem é o Senhor perante nós?” (Sal. 12, 2-4); pois, se recordassem disto constantemente, jamais cairiam em tal impiedade, pois não fazem isso por caridade ou instrução paternal, mas para que possam descarregar seus sentimentos de vingança contra os servos de Deus. Eis que está escrito: “O caminho do tolo é reto perante os seus olhos” (Prov. 12,15) e “Há caminhos que parecem retos, porém, ao final, são caminhos que conduzem à morte” (Prov. 14,12).

Nós, que sofremos agora estas coisas, devemos deixá-las ao juízo de Deus, que dará a cada homem segundo suas obras. Ele está entronizado sobre os Seus servos; por isso diz: “Cabe a Mim a vingança; Eu o recompensarei” (Rom. 12,19). Assim, ajudai-vos uns aos outros de boa-fé, por meio de atos e com coração sincero; não permitais que ninguém afaste o seu irmão de ajudar ao próximo, “pois nisto – diz o Senhor – conhecerão todos que são Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo. 13,35). Disso fala também por meio do profeta, dizendo: “Vede como é bom e agradável conviver todos os irmãos em unidade!” (Sal. 133, 1). [Conviver] em uma morada espiritual – este é o meu entender – e na concórdia que está em Deus, que, com efeito, estão mais piedosamente representadas em Aarão e nos sacerdotes paramentados com honra e ungidos com óleo sobre a cabeça, nutrindo o mais alto entendimento e guiando até a sabedoria plena, já que nesta vivência o Senhor prometeu a bem-aventurança e a vida eterna.

Aprendendo, portanto, a importância deste anúncio do profeta, declaramos esta palavra fraternal, por amor; de maneira alguma buscamos ou queremos buscar o nosso próprio benefício. É por isso que não é bom pagar destratação com destratação ou, de acordo com o provérbio comum, combater o mal com o mal. Que isto não ocorra entre nós, pois tal comportamento não é nosso. Que seja Deus, pois, que o proíba. Pelo justo juízo de Deus às vezes os pecadores têm o poder para perseguir os santos, a fim de que aqueles a quem o Espírito Santo ajuda e sustém possam chegar a ter maior glória através da provação de seus sofrimentos. Para aquelas pessoas que vos perseguem, vos reprovam e vos injuriam, haverá muita aflição, sem dúvida alguma.

Desgraçados… Desgraçados aqueles que injuriam os servos de Deus, pois o prejuízo contra eles atinge Aquele a cujo serviço e ofício estão dedicados. Rezamos para seja colocada sobre os seus lábios uma porta de clausura pois não desejamos que ninguém pereça ou se corrompa em virtude de seus próprios lábios, e que não pensem ou tornem pública alguma palavra dura com sua boca. Por isso também diz o Senhor por meio do profeta: “Digo a mim mesmo: cuidarei dos meus modos, para que não venha a pecar com a minha língua” (Sal. 39,1).

Que o Deus todo-poderoso e seu único Filho e Salvador nosso, Jesus Cristo, vos guie para que, com todos os meios ao vosso alcance, possais auxiliar a todos os irmãos que passam por tribulação, que sofrem durante seus trabalhos, estimando seus sofrimentos. Que sejam dados a eles toda a assistência possível, por atos e palavras, de forma a que sejais reconhecidos como verdadeiros discípulos dAquele que nos mandou amar aos irmãos como a nós mesmos.

Capítulo II – Sobre a ordenação de presbíteros e diáconos

A ordenação de presbíteros e levitas (=diáconos) deve ser feita de maneira solene na ocasião conveniente e na presença de muitas testemunhas. Para este serviço, sejam apresentados homens provados e sábios, para que sejais favorecidos por sua amizade e auxílio.

Depositai sem cessar a confiança dos vossos corações na bondade de Deus e dizei estas e as outras palavras divinas às gerações seguintes: “Porque este é o nosso Deus pelos séculos dos séculos, Ele nos conduzirá à eternidade” (Sal. 48,15).

Dado aos sete de novembro, durante o consulado dos ilustríssimos Saturnino e Galiciano.

(Tradução de Carlos Martins Nabeto – Central de Obras do Cristianismo Primitivo)
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