A soberba – Escritos de Evágrio Pôntico

Fonte: Veritatis Splendor

Estamos terminando de postar aqui, os textos do monge Evágrio Pôntico sobre os oito males do corpo. Estes textos foram retirados do grande Site Católico Esplendor da Verdade (Veritatis Splendor). Quero agradecer um público pelo belíssimo trabalho do Site. Quanto aos textos dos Padres do Deserto, estarei em breve preparando uma nova série. Mas vamos a leitura da soberba. Acho que vale a pena, caso você não tenha lido os outros, dar uma lida. São textos de grande riqueza espiritual:

A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrível fedor. O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anuncia a soberba. A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo. Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisas bem sucedidas. Como aquele que cai numa teia de aranha, assim cai aquele que se apóia nas suas próprias capacidades. A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha a mente do homem. O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e avirtude do soberbo não é aceita por Deus. A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus a alma virtuosa. Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa. Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo é abandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite, imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentos vis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra de um pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroça a sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-se depois assustado por vulgares fantasmas.

Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador fez tanto a Ele como o soberbo. Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra e não se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa. O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento. Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita será incapturável. Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura. Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece. A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância. Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo. A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra. Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele que efetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas, corre risco de morte. A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitas virtudes.

Dominus Vobiscum

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O vício do tapinha nas costas – Escritos de Evágrio Pôntico

Vanglória nada mais é do que o famoso tapinha nas costas que gostamos de receber quando fazemos algo bem feito

Fonte: Veritatis Splendor

Um dos oito males do corpo que o Monge Evágrio Pôntico fala é o vício da vanglória. Mas o que é a vanglória? Ela é realmente um pecado? Buscando a origem da palavra, encontrei o seguinte:

Vanglória = Vã + glória (glórias passageiras). Presunção, orgulho, jactância, ostentação, bazófia.

Ao ler as palavras do monge, percebi que ele nos fala sobre o cuidado que devemos ter com o fato de que a vanglória anda sempre a cercar as nossas virtudes. Mexe com o nosso ego. São aqueles “elogios” que enchem nossa alma.

Por trás do nosso trabalho bem feito, muitas vezes o vício e a necessidade dos elogios, põe todo um belo trabalho a perder. O próprio Senhor Jesus várias vezes nos alertou sobre não fazer as coisas para serem vistos, mas fazer um bom trabalho e se possível até “esconder da mão direita o que a mão esquerda fez”.

“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu. Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita…” (Mt 6, 1-3)

Leia o texto e veja o que nos diz o Monge Evágrio Pôntico:

A vanglória é uma paixão irracional que facilmente se enraíza em todas as obras virtuosas. Um desenho traçado na água desaparece tal como a fadiga da virtude na alma vangloriosa. A mão escondida no bolso apresenta-se inocente e a ação que permanece oculta resplandece com uma luz mais brilhante. A hera adere à árvore e, quando chega ao ponto mais alto, seca-lhe a raiz; assim, a vanglória se origina nas virtudes e não se afasta enquanto não lhes tiver consumido as forças. O cacho de uvas caído sobre a terra murcha facilmente e a virtude, se apoiada na vanglória, perece. O monge vanglorioso é um trabalhador sem salário: esforça-se no trabalho, porém, não recebe qualquer pagamento; o bolso furado não guarda com segurança o que nele é colocado e a vanglória destrói a recompensa das virtudes. A moderação do vanglorioso é como a fumaça na estrada: ambas desaparecem no ar. O vento apaga a pegada do homem tal como a esmola do vanglorioso. A pedra lançada ao ar não atinge o céu e a oração de quem deseja comprazer aos homens não chega a Deus.

A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder a carga. O homem prudente esconde seu tesouro tanto como o monge sábio esconde as fadigas da sua virtude. A vanglória aconselha rezar nas praças, enquanto que quem a combate reza em sua pequena habitação. O homem pouco prudente torna evidente a sua riqueza e faz com que muitos a queiram tomar para si. Tu, ao contrário, esconde as tuas coisas: durante o caminho, encontrarás assaltantes, mas, ao chegardes à cidade da paz, poderás usar dos teus bens tranqüilamente. A virtude do vanglorioso é um sacrifício extenuante, que não é oferecido no altar de Deus. O aborrecimento consome o vigor da alma, enquanto que a vanglória fortalece a mente daquele que se esquece de Deus, torna robusto o fraco e torna o velho mais forte que o jovem, mas somente enquanto sejam muitas as testemunhas que os assistem. Então serão inúteis o jejum, a vigília, ou a oração, porque é apenas a aprovação pública que excita o seu zêlo. Não mostres tuas fadigas para colher a fama, nem renuncies a glória futura para seres aclamado. Com efeito, a glória humana habita na terra e na terra extingue-se a tua fama, enquanto que a glória das virtudes permanecem para sempre.

Gostaria de ver os seus comentários a respeito do texto. Mexeu com você? Como? Por que? Você gosta de tapinhas nas costas? Tsc, tsc, tsc…

Dominus Vobiscum

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O vício do aborrecimento – Escritos de Evágrio Pôntico

Ola! Pax Domini! Já faz uns dias que tenho colocado no blog, textos dos padres do Deserto, e em especial textos do Monge Evágrio Pôntico, sobre os oito males do corpo, que deram origem ao que hoje chamamos de Sete pecados capitais. Estes textos eu consegui no site “O Esplendor da verdade”(um dos melhores sites católicos que acesso). Hoje vamos começar a falar sobre mais um dos oito vícios capitais: O Aborrecimento. Vale a pena salientar que o aborrecimento aqui tem um caráter de insatisfação. A pessoa insatisfeita com o que faz tem a tendência de se aborrecer facilmente. Esse é um mal do corpo que muitas vezes passa desapercebido por nós. No texto abaixo o monge nos fala sobre o perigo da insatisfação para outros monges. Mas tente transportar o texto para a sua realidade (ao invés das celas dos monges, pense no seu local de trabalho ou de estudo. Pense na sua casa)…

O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma alma nobre o que o alimento é para um corpo vigoroso. O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma. A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera no espírito do aborrecimento. O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza da alma. O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que é perseverante está sempre tranqüilo. O aborrecido traz como pretexto a visita aos doentes (Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentações do aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto da caridade o desejo de sair da solidão), coisa que garante seu próprio objetivo. O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própria satisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída distrai o aborrecido. Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento não submete a alma bem sustentada. O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, sem querer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo. Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude. O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfaz com uma só ocupação. Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para o aborrecido.

O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegam visitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta até que, sentado, se canse. Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe os olhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco, fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular os parágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põe debaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta na alma e, com ela, todas as suas preocupações. O aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras da oração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro, porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma. A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus curam o aborrecimento. Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-la concluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.

Para finalizar, só gostaria que você pensasse nisso que o Monge Evágrio Pontico escreveu: “O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação.” Você tem vivido segundo a natureza que Cristo te constituiu? Tem enfrentado a tentação? Tem lutado contra elas? Gostaria de ler o seu comentário a respeito… Pode ser?

Fonte: Veritatis Splendor

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Conselhos espirituais para vencer a tristeza – Escritos de Evágrio Pôntico

Um dos oito males do corpo que o Monge Evágrio Pôntico nos mostra nos seus escritos é a tristeza. Um cristão não pode ser triste, pois o Senhor se fez homem, e se deu na cruz para que fôssemos alegres. De fato, a tristeza matou a muitos e não pode, de forma alguma, ser triste um coração que ama a Cristo. Quero convidar você a ler este texto e meditar sobre ele. E depois você pode comentar a respeito. Que tal?

O monge atingido pela tristeza não conhece o prazer espiritual; a tristeza abate a alma e se forma a partir dos pensamentos da ira. O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; a tristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece. A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou. Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, se vê livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores. O monge triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel. O monge triste não saberá como manter a mente na contemplação, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem. Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação. O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro das paixões. Na ausência de outras paixões, a tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre. Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova de sua derrota, vem acrescentada a atadura. Efetivamente, a tristeza deriva da falta de êxito do desejo carnal, porque o desejo é co-natural a todas as paixões. Quem vence o desejo, vence as paixões; e o vencedor das paixões não será submetido pela tristeza. O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia a vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira; com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efetivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem carente de paixões não é ferido pela tristeza.

O escudo é a segurança do soldado e os muros são a proteção da cidade; mais seguro que ambos é, para o monge, a paz interior. De fato, freqüentemente uma flecha lançada por um braço forte traspassa o escudo e a multidão de inimigos abate os muros, enquanto que a tristeza não pode prevalecer sobre a paz interior. Aquele que domina as paixões se tornará senhor sobre a tristeza, enquanto que quem foi vencido pelo prazer não se desatará das suas ataduras. Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente que finge não estar enfermo; assim como a enfermidade se revela pela vermelhidão, a presença de uma paixão se demonstra pela tristeza. Aquele que ama o mundo se verá muito afligido, enquanto que aqueles que desprezam o que há nele serão felizes para sempre. O ávaro, ao receber algo ruim, se verá extremamente entristecido, enquanto que aquele que despreza as riquezas estará sempre livre da tristeza. Quem busca a glória, ao chegar a desonra, se verá em dores, enquanto que o humilde a acolherá como que a um companheiro. O forno purifica a prata impura e a tristeza perante Deus livra o coração do erro; a fusão contínua empobrece o chumbo e a tristeza em razão das coisas do mundo diminui o intelecto. A névoa diminui o poder dos olhos e a tristeza embrutece a mente dedicada à contemplação; a luz do sol não chega aos abismos marinhos e a visão da luz não ilumina o coração entristecido; doce é para todos os homens o nascer do sol, porém também isto desagrada a alma entristecida; a coceira elimina o sentido do gosto tal como a tristeza subtrai da alma a capacidade de percepção. Porém, aquele que despreza os prazeres do mundo não se verá perturbado pelos maus pensamentos da tristeza.

Talvez você esteja vivendo isso que o Santo Monge nos falou. Talvez a tristeza possa estar impedindo a sua oração de ser pura, perfeita e constante. Talvez você tenha buscado demasiadamente saciar os prazeres e desejos que sua carne clama e por causa da falta de sucesso desta busca só encontrou tristeza. Quantas vezes eu não vivi essa realidade? Quantas vezes a tristeza não me abateu? É preciso viver na alegria. Quem precisa de menos, se alegra com mais facilidade. A alegria verdadeira é fruto de um coração desprendido das coisas, e ligado a Deus. Agora faço essa pergunta a você: Você tem se deixado abater pela tristeza?

Fonte: Veritatis Splendor

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A ira – Escritos de Evágrio Pôntico

Quero deixar hoje uma parte do texto de Evágrio Pontico sobre a ira. Já faz algum tempo que comecei a postar aqui no blog os textos deste monge do século IV sobre os oito males do corpo, que mais tarde foram trabalhados pelo Papa Gregório Magno e se transformaram no que conhecemos hoje como os sete pecados capitais. Já falamos anteriormente sobre a gula, a luxuria e a avareza. Leia e medite no que ele escreve sobre a ira. Vale a pena! E que o Senhor Deus tire do nosso coração toda a ira…

A ira é uma paixão furiosa que, com freqüência, faz perder o juízo àqueles que têm o conhecimento, embrutece a alma e degrada todo o conjunto humano. Um vento impetuoso não derruba uma torre e a animosidade não arrasta a alma mansa. A água se move pela violência dos ventos e o homem irado se agita pelos pensamentos irracionais. O monge irado vê alguém e range os dentes. A difusão da neblina condensa o ar e o movimento da ira torna nublada a mente do irado. A nuvem que avança ofusca o sol e, assim, o pensamento rancoroso entorpece a mente. O leão na jaula sacode continuamente a porta tal como o violento, em sua cela, quando é acometido pelo pensamento da ira. É deliciosa a vista de um mar tranqüilo, porém, certamente não é mais agradável que o estado de paz; com efeito, os golfinhos nadam no mar calmo e os pensamentos voltados para Deus emergem um estado de serenidade. O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos, enquanto que a mente do irado se vê continuamente agitada e não dará água a quem tem sede e, se a der, será esta turva e nociva; os olhos do irado estão arregalados e cheios de sangue, anunciando um coração em conflito. O rosto do magnânino mostra tranqüilidade e os olhos benignos estão voltados para baixo.

A mansidão do homem é lembrada por Deus e a alma pacífica se converte no templo do Espírito Santo. Cristo recosta sua cabeça nos espíritos mansos e apenas a mente pacífica se converte em morada da Santa Trindade.

As raposas montam guarda na alma rancorosa e as feras se agasalham no coração rebelde.

O homem honesto se afasta das casas de mal conduta assim como Deus de um coração rancoroso. Uma pedra que cai na água a agita, tal como um discurso maligno no coração do homem. Afasta da tua alma os pensamentos de ira, não permita a animosidade no recinto do teu coração e não te perturbes no momento da oração; efetivamente, como a fumaça da palha ofusca a visão, assim a mente se vê perturbada pelo rancor durante a oração.

Os pensamentos do irado são descendentes das víboras e devoram o coração que lhes gerou. Sua oração é um incenso abominável e seus salmos emitem um som desagradável. A oferta do rancoroso é como um doce cheio de formigas que certamente não encontrará lugar nos altares aspergidos pela água benta.

O irado terá sonhos perturbadores e se imaginará assaltado pelas feras. O homem magnânimo, que não guarda rancor, se exercita com discursos espirituais e, durante a noite, recebe a solução dos mistérios.

Fonte: Veritatis Splendor

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Avareza – Escritos de Evágrio Pôntico

Na minha terra esse pecado é chamado de “pirangagem”. Alguns conhecem esse tipo como “mão de vaca”, “amarrado” ou coisas do tipo. Mas a avareza é um pecado gravíssimo que precisa ser trabalhado. Entenda porque, lendo esses escritos do monge.

A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões, não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela. Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, a avareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos], apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem. O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto de uma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cada onda, também o rico se vê submergido pelas preocupações. O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio em todos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seu alimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva às alturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asas ligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar sem dor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.

Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso à corrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, a lembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito em perder as riquezas e se atormenta com o desânimo. E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma, embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravo fugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais do que o arrasta.

O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira, o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, deseja quadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a tal interminável pretensão.

O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água o estômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mente livre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais.

O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente e um atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.

O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija com os prêmios que vêm das coisas bem obtidas. O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo para a oração e a leitura. O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumula tesouros no céu.

Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto à avareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si a imagem da riqueza, como um simulacro.

Fonte: Veritatis Splendor

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Luxúria – Escritos de Evágrio Pôntico

Como havia escrito anteriormente, estamos postando parcialmente os escritos de Evágrio Pôntico, monge do Século IV sobre os oito Vícios Capitais que posteriormente foram transformados nos sete pecados capitais, que conhecemos hoje. O primeiros dos pecados foi a Gula. Agora é a vez de lermos o que o Monge fala sobre a Luxúria. Vale a pena frisar e observar que esses escritos são direcionados para outros monges, por isso é importante perceber que às vezes ele fala das mulheres de uma forma pouco incomum. Em virtude dele ter sido um monge e por isso, ter as mulheres como alguém que os tentava. Mas mesmo assim leia e observe…

A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luz da lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer. A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como o pensamento da luxúria, se desencadeia, sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliada à saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do lado dos inimigos. Permanece invunerável às flechas inimigas aquele que ama a à paz interior e à tranqüilidade de recolhimento; ao contrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente. O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta veneno e, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a boca aberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do que fazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas. Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdade para falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela; porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olhar baixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam um pouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas se põem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seus olhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam o pescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão e te dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da tua alma.

Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam à perdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursos discretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.

Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também sois jovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantas rapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmente conseguireis fugir. A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando as mulheres. Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirma ser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossível apagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade o ímpeto inflamado da imoderação. Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez. O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, que trazem dor e ruína. Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último te oferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza feminina traz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida. A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo não queima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.

Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, se no meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdes alcançado a paz interior (O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado de plenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento do interior.). O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado, mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada da paixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário, quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderás considerar-te afastado da virtude. Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-se muito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si. Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quando prolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói a sabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rosto imaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréola que circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas, assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.

Fonte: Veritatis Splendor

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Gula ou Gastrimargia – Escritos de Evágrio Pôntico

Os grandes tesouros que os padres do deserto nos deixaram, foram seus escritos. Estes escritos são frutos dos conselhos que eles deixavam com as pessoas que os buscavam pedindo ajuda. Evágrio Pôntico, foi um escritor, asceta e monge cristão. Ele dirigiu-se ao Egito, a “Pátria dos Monges”, a fim de ver a experiência desses homens no deserto, e acabou por se juntar a uma comunidade monástica do Baixo Egito.

Evágrio trouxe um aspecto positivo para a Igreja. Da sua vivência com os monges, traçou as principais doenças espirituais que os afligiam – os oito males do corpo; esta doutrina foi conhecida de João Cassiano, que a divulgou pelo Oriente; mais tarde, o Papa Gregório Magno também ouviu falar nela, e adaptou-a para o Ocidente como os sete pecados capitais – a saber a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça.

Quero deixar para você alguns dos tantos textos que esse grande monge nos deixou como herança. Comecemos com a gula, que ele chama de gastrimargia. Quero propor a você que no dia de hoje você se reveja em relação ao seu modo de comer. Ao ler isso, mais uma vez eu vivi a experiência de me rever. Quem me conhece de perto sabe da minha luta contra a balança. E esse texto caiu em minhas mãos no tempo oportuno, por que agora estou me preparando para o casamento e preciso mais do que nunca reduzir as medidas.  Então é um tempo para prudência no comer. Espero que te ajude também.

A origem do fruto é a flor e a origem da disciplina espiritual é a moderação. Quem domina o próprio estômago, diminui as paixões, pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres. Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assim como a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenha proporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência. Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Da boca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática da contemplação. A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata a paixão. O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. As comidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nunca cochila. Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheio convida para um longo sono. Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia de delicadezas lança a mente no abismo. A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquanto que a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e a digestão pesada dos alimentos ofusca a mente.

Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e o intelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus. Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinam maus pensamentos. Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfume da contemplação. O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderado observa os ensinamentos dos sábios. A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita os seus exemplos. O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, o glutão foge dos chamados à moderação. O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana. O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão não chegará à casa da paz interior. O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfato divino. Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; o desejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama. Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: “Basta!”. A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixões carnais.

Fonte: Veritatis Splendor

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