Formação para músicos: Guitarras e bateria na missa? Dicas importantes para minimizar as reclamações e participar bem da liturgia

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O órgão ainda é o instrumento mais apropriado para tocar na Santa Missa. Mas onde encontrar um organista hoje em dia? Complicado viu!

Hoje o uso de instrumentos como violão, contrabaixo, guitarra e bateria são comuns nas missas das diversas paróquias espalhadas no Brasil. Porém há alguns anos atrás, isto não era tão natural assim. O instrumento mais presente da Igreja era o órgão, e os cantos eram apenas em latim. De lá para cá o uso destes instrumentos foi aos poucos se espalhando, agradando a uns e desagradando a outros. Mas e ai?

Chegamos a outra polêmica que na minha opinião está longe do fim. Os mais conservadores querem a extinção destes instrumentos e os mais “moderninhos” amam isso nas missas. A situação é complexa. Eu particularmente tenho a minha opinião. Perguntei a muitos sacerdotes a respeito do que penso. O que vou escrever aqui a minha opinião mostrando obviamente os meus argumentos. Como animador litúrgico eu tenho um pensamento que se não resolve a polêmica, poderia ajudar e muito na estrita convivência entre os que gostam ou não de tais instrumentos na eucaristia.

A Igreja criou um documento chamado Sacrossantum Conciluim, que trata da Sagrada Liturgia. Somente para explanar meu pensamento, vou citar apenas um dos parágrafos, depois leiam o texto. Será de grande valia para todos.

Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus.

Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis. (Sacrossantum Conciluim § 120)

Este documento reconhece em primazia como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano e o uso do órgão como instrumento mor da liturgia. Porém também reconhece a necessidade da participação ativa dos fiéis na liturgia, e permite o uso de outros instrumentos (sem citar nenhum além do órgão) de acordo com a cultura do local para a edificação dos fiéis. Apesar de tudo, o documento deixa claro que a liturgia deve se adaptar à realidade cultural de cada diocese, estimulando, inclusive, a criação de cantos populares para uso em ações litúrgicas, e deixa a critério do bispo (a autoridade episcopal territorial) o julgamento da conveniência de instrumentos e cânticos.

Então no meu entender (e aqui cabe a minha interpretação ok?) não existe nada explicitamente claro dizendo este ou aquele instrumento é proibido. O problema está no uso que fazemos dos instrumentos.

Talvez alguns mais interessados em estudar os documentos da Igreja apresentem o documento de São Pio X, no motu próprio Tra le solicitudine – sobre música Sacra – dizendo que se proíbem este ou aquele instrumento. Tudo bem, mas no mesmo documento diz:

Posto que a música própria da Igreja é a música meramente vocal, contudo também se permite a música com acompanhamento de órgão. Nalgum caso particular, com as convenientes cautelas, poderão admitir-se outros instrumentos nunca sem o consentimento especial do Ordinário, conforme as prescrições do Caeremoniale Episcoporum. (Tra le solicitudine § 15)

É verdade que o documento chega a citar uma proibição para piano, instrumentos fragorosos, tambor, bombo, pratos e campainhas. Porém é preciso pensar no contexto da época. Naquele tempo esta era uma preocupação para que a música que era meramente vocal, não fosse sufocada pelo som dos instrumentos (é preciso lembrar que naquele tempo não havia microfones, aparelhos sonoros… era tudo na base da goela mesmo). E mesmo assim, houveram casos onde a percussão se mostrou solene. Ouça o Requiem, de Verdi. Ouça a Missa Solemnis, de Beethoven. São obras feitas para momentos litúrgicos, que têm bumbos, tímpanos, pratos… E são só dois exemplos num vasto universo.

Outro ponto interessante é que São Pio X cita o Caeremoniale Episcoporum. É importante dizer que o Concílio Ecumênico Vaticano II mandou reformar todos os ritos e livros sagrados, tornando-se por isso necessário refundir integralmente e editar em novos moldes o Cerimonial dos Bispos. Ele diz entre outras coisas:

Todos aqueles que têm um papel especial a desempenhar no que respeita ao canto e à música sacra, seja o regente do coro, sejam os cantores, seja o organista, ou outras quaisquer pessoas, observem cuidadosamente as normas prescritas para essas funções, insertas nos livros litúrgicos e noutros documentos publicados pela Sé Apostólica. ( Caeremoniale Episcoporum § 39)

Estou dizendo isto não para entrar na polêmica (sim eu já sei que você que é tradicionalista ou sedevacantista talvez já esteja pensando em me escrever um comentário do tamanho do mundo. Mas calma…). O que eu quero é mostrar que enquanto a Igreja não falar claramente sobre o assunto como fez com relação ao Rito da Paz, a polêmica continuará e sinceramente não tem ninguém no mundo que faça o quadro mudar. Até na JMJ2013, a missa foi tocada com instrumentos normais e não vi ninguém enchendo as “paciência” por causa disso. Porém…

Há de se reconhecer que muitos não que gostam destes instrumentos na missa, tem lá uma certa razão, não pelos instrumentos em si, mas sobretudo em virtude dos que usam os instrumentos: os músicos!

tocar guitarra

Um dos grandes problemas com relação a outros instrumentos senão o órgão é a falta de simancol de certos músicos (não de todos ok?). Missa não é show!

Gente, é como eu sempre digo: Missa é missa, grupo de oração é grupo de oração, pastoral é pastoral, show é show. Se você se propõe a tocar na missa, aprenda liturgia. Estude, se esforce para fazer o certo. Não seja um desobediente irrecuperável. Pare de questionar, por que na boa, a missa é maior que você. E digo mais: Se um dia você faz beicinho e resolve deixar de tocar na missa, pode até demorar, mas uma hora aparece outro que toca melhor, ou que é mais obediente (o que é de muito mais valia), e você com o seu orgulho e rebeldia vai cair no limbo do esquecimento. Então o que fazer?

Separei algumas dicas que podem ajudar a diminuir as críticas na sua paróquia. Enquanto o pode ou não pode não chega a um desfecho, as missas continuarão sendo tocadas pelos grupos de animação litúrgica. Porém a possibilidade e a necessidade de minimizar as reclamações é possível e viável.

1. Ensaie os cantos da missa

Um músico, ou um grupo de músicos que desejam a tocar em uma missa precisa ensaiar. Sem ensaio, nem toque. Mesmo que você seja o ban ban ban da sua paróquia, eu repito: sem ensaio, não toque. Missa não é encontro de músicos que improvisam com sucesso. Ou você leva a coisa a sério ou não vai. Você não tocaria assim se estivesse diante de uma assembleia de cheia de excelentes músicos. Então saiba que na missa, você toca para o melhor instrumentista do mundo. Então se liga!

2. Coloque os melhores músicos para tocar

Não é que o teclado, bateria, baixo ou violão são instrumentos ruins. Até o orgão é ruim, quando o músico é meia boca. Desculpe a franqueza, mas se você se propõe a tocar na missa, se esforce para tocar e cantar bem. Não dá para aguentar um músico sofrível que nem sabe afinar seu instrumento. Se você está aprendendo, toque no seu grupo de oração, na sua pastoral, na catequese, mas na boa, seja humilde e deixe a missa para quem tem mais experiência. Vá chegando aos poucos. E os músicos que já são experientes, ajudem os mais novos. Não estou dizendo para que você parar de tocar. Estou dizendo que você precisa ser bom no que faz, e se não é, se avalie, faça uma parada, estude, se aprimore e volte.

3. Chegue cedo e em silêncio

Se você ensaiou, sabe o que vai fazer e está em paz, chegue cedo, ligue seu instrumento, afine-o (se houver necessidade), passe uma música e pronto. Vá rezar e se preparar para tocar na missa. Um erro fatal dos músicos católicos: Chegam, ligam tudo, passam o som e ficam do lado de fora batendo papo. Enquanto isso a comunidade reza o terço. Gente isso é horrível! Além de falta de senso comunitário, é falta de respeito com Nossa Senhora e falta de respeito com o seu papel da na Eucaristia como animador. A oração acalma a alma e o coração. E o silêncio também é bom antes de tocar! Por que não rezar antes da missa? Acaso você é melhor que os outros? Está acima do bem e do mal? Calma man… Definitivamente a coisa não é por ai.

4. Não use solos na missa

Irmãos, missa não tem solo de guitarra, de flauta, de bateria, de nada. Os instrumentos servem para sustentar o canto. Portanto deixe os solos para outro momento. Ainda que a música que você vai tocar tenha um solo no CD original, quando você vai cantá-la ou tocá-la na missa você deve evitar os solos. No máximo o que você pode fazer é: em caso da missa estar muito cheia e você ter de repetir a música várias vezes (comunhão por exemplo), você pode “solar” a música usando as mesmas notas do canto, intercalando com a voz. Mas atenção: Faça isso se tiver segurança. Uma nota errada, pode atrapalhar quem está rezando.

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Atenção músico católico: Vai tocar na missa, então chegue cedo, ligue, afine, passe uma música e fique em silêncio. Tem gente que quer rezar e se atrapalha com seu barulhinho…

5. Acabe com o ding, ding, ding antes da missa

Se tem gente que é contra os instrumentos na missa, este é um dos grandes motivos. Coisa chata é a pessoa querer rezar antes da missa e o abençoado do músico ficar ali tocando nada por nada, solando nada por coisa nenhuma só fazendo barulho. Isso quando não fica tocando, rindo e conversando na hora do terço. Poxa irmãos! Se você não faz isso, beleza. Mas se você faz, desculpa, mas nem é questão de formação. É falta de simancol mesmo! Se vai passar um canto, todo mundo passa junto. Não vai passar nada, fique em silêncio. Nada de conversar mesmo antes da missa começar. Gente a casa de Deus merece respeito. E as pessoas que lá estão também. Chegou, ligou, afinou, passou uma música, fique em silêncio. Ah! E desligue a porcaria do celular. Nada de facebook dentro da Igreja. Você é animador litúrgico e não da Pascom. 🙂

6. Observe a estrutura física da sua Igreja

É preciso ter a compreensão de que nem toda Igreja pode ter uma bateria acústica. Existem igrejas que são antigas e belas, mas a sua acústica é horrível. Dai o baterista chega, monta sua batera e “senta a mão”. Resultado: Todo mundo reclama e com razão. O barulho é amplificado pois ecoa. Um dos motivos para que o povo reclame das baterias é justamente esse. Se a sua paróquia é assim, não invente e nem tente dar um jeitinho: Consiga uma bateria elétrica ou até use um “cajon”. Do mesmo jeito todos os outros instrumentos. Em igrejas mais acústicas, baixe o volume do som.

7. Observem o som e o volume dos instrumentos

É horrível quando você está na igreja e o povo começa a reclamar da altura dos instrumentos. É importante saber que na liturgia, a voz é prioridade. As pessoas precisam ouvir o animador, se ouvirem cantando, e ouvir os irmãos. Ai você vê em alguns grupos que tem aquele carinha metido a pop star que diz que não está se ouvindo, e aumenta o bendito do som do instrumento. Ai o outro aumenta. O outro depois. Quando percebemos está um barulho terrível! Resultado: Reclamação, xingação e tumulto. E culpa de quem? Do bendito “show man, metido a pop star” que só gosta de som nas alturas e que merece um pedala para ver se aprende. Agora uma boa dica: Arrumem uma pessoa para mexer no som durante a missa. Assim acaba a bagunça. Um “técnico de áudio” é tão útil quanto o cantor.

8. Marque o tempo das músicas

Esta é exclusivamente para os bateristas que muitas vezes são os mais criticados e com razão. Missa não é lugar para “sentar a mão na batera” mesmo se a acústica da igreja for favorável. Missa não é lugar para grandes viradas. Se a música precisa de uma virada, faça de modo suave e sucinto. Na missa a bateria deve unicamente “marcar” o tempo das músicas. Não só a bateria mas a percussão. Se a sua Capela tem uma acústica boa para bateria, ainda assim prefira baquetas tipo vassourinha. Eu sei que bateristas não gostam e preferem baquetas mais duras, cujo o som é mais estridente. Porém na missa o som deve ser mais suave. Com certeza as reclamações com a sua bateria vão diminuir.

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Atenção bateristas do meu Brasil varonil: Na missa, relaxa a mão, marca o tempo e evita grandes viradas. Vai na fé….

9. Prefira notas harmônicas

Quando você tocar na Santa Missa não use acordes dissonantes em seu instrumento. Dissonância já diz: é uma dissonância, é uma harmonia na qual entram notas que não são harmônicas, muito usadas no jazz, na bossa nova e outros estilos de música. Mas na liturgia devemos usar acordes mais simples: tônicas, terceira, quinta, uma sétima menor, às vezes, uma quarta suspensa, que é uma nota de passagem. Porque, se você usar dissonância, as pessoas não vão mergulhar em Deus, pois essas notas dissonantes na liturgia podem despertar outros desejos no corpo, na mente e no espírito e também na sexualidade das pessoas. Porque os acordes dissonantes são gerados exatamente para mexer com a pessoa; na liturgia temos que tocar acordes doces para o bem do Reino de Deus.

10. Evite firulas com a voz. Cuide da afinação

Quem canta também precisa ser sóbrio quando canta na missa. É preciso entender que ali você está cantando para ajudar o povo a cantar. Evite “Ahhhhh”, “Uouou” e modulações excessivas. Cante reto e use as respirações corretas. E isto se aplica também ao salmo. Se você cantar em grupo, a maior dica é cantar reto e uníssono. Se você for fazer abertura de vozes, ensaie antes. Mas atenção: Para uma abertura de voz ficar bonita, é preciso que os instrumentos toquem em cima da mesma harmonia. Se não a coisa degringola…

Se você levar em consideração estas dicas, eu garanto que 70% das reclamações por causa do uso de certos instrumentos serão resolvidas. E garanto que você ganha, seu ministério ganha, a assembleia ganha, o padre ganha, e Jesus agradece.

Pax Domini

Veja também: Você sabe a diferença entre uma música litúrgica e uma música religiosa? | Ao cantar na missa qual a minha postura com relação as palmas?

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28 comentários sobre “Formação para músicos: Guitarras e bateria na missa? Dicas importantes para minimizar as reclamações e participar bem da liturgia

    • Olá Leandro!
      Sim sou eu mesmo. Que bom que você gostou do texto.
      Esta é a minha visão sobre o assunto e penso que se os grupos de animação litúrgica pensarem nestes pontos, certamente as críticas serão bem menores.
      Pax Domini

  1. Olá! Nesta briga entre pode e não pode finalmente um texto sensato. Realmente as questões levantadas aqui são bastante pertinentes. Mas você não cita nada sobre os cânticos escolhidos. Não acha importante falar sobre isso?

    Eu penso que é preciso falar sobre isso. Gostei deste site e pretendo voltar… Abraços.

    • Olá Francisco!
      Iremos trabalhar em breve todos os momentos da missa que podem ser cantados.
      É um assunto muito importante para uma postagem só.
      Em breve!
      Pax Domini

    • Olá Carlos (meu xará)!
      Este é o nosso jeito de escrever. Quem costuma visitar este blog já está acostumado com a linguagem um tanto quanto ácida.
      Vem em quando rola um “mimimi” aqui, outro ali… Mas a vida segue!
      Bem vindo a nossa turma!
      Pax

  2. Não puxando a sardinha para a minha Pastoral, mas amei a parte do “E desligue a porcaria do celular. Nada de facebook dentro da Igreja. Você é animador litúrgico e não da Pascom. :)” kkkkkkkkkk
    Mesmo não sendo musica, gostei do Post! Como tenho muitos amigos músicos e os acompanho vejo a dificuldade de alguns de diferenciarem cantar na missa e ser um “Gustavo Limma” da vida. Vi que não sou a única com certas opinião sobres os limites que a equipe de música tem que respeitar! Mas as vezes quem está de fora vê certas coisas que quem está dentro do ambiente não percebe, e nós como assembléia podemos tanto elogiar como da sugestões, se eles acatarão, aí já são outros quinhentos… rsrsr
    Parabéns pelo post! Muito bom!

    • Hei Paula,
      Agente brinca, tira um sarro porque faz parte. Como já tinha dito em outros posts, temos um humor ácido, mas somos do bem… 🙂
      Em breve escreverei sobre como deve ser a postura do músico católico dentro e fora da missa.
      Será bem legal também!
      Pax

  3. A dica 5 é uma luva na minha paróquia! É um saco! Os fiéis tentando se concentrar na adoração diante do sacrário, antes da Missa, e um baixista se achando… Se fechar os olhos, você jura que está dentro de uma boate!

  4. A-mei, Cadu! Já compartilhando no face dos ministérios de música da minha paróquia… Deus o abençoe!

    Ah, só uma pequena correção no nome do documento anexado, é Sacrossantum Concilium” e está “Sacrossantum Conciluim”, acho que foi na hora de digitar que saiu errado…

    Para outras postagens a respeito de silêncio, levar o povo ao recolhimento e oração, recomendo muitíssimo também a “Redemptionis Sacramentum”, que é instrumentum laboris dos sacerdotes, mas é importantíssimo para os leigos também terem conhecimento.

    Abraço e fica com Deus!

    • Obrigado Christiane,
      Eu não sou conservador nem modernista e acho que há espaço para todos, desde que se respeitem estas indicações.
      O fato é que na missa existem limites que precisam ser respeitados e se os músicos continuarem a fazer da missa um palco para sua glória pessoal, corre-se o risco de em breve vir uma orientação negativa sobre isso e ai é que a revolta vai ser grande.
      Pax Domini

  5. Pingback: Formação para músicos: Que músicas escolher para o canto de entrada? | Dominus Vobiscum

  6. A VERDADE É UMA SÓ!!! É NECESSÁRIO QUE O MUSICO DE MISSA OU DE GRUPO DE ORAÇÃO, SEJA PRIMEIRAMENTE ALGUÉM QUE TENHA INTIMIDADE COM O SENHOR E SEJA PRIMEIRO UM ADORADOR, QUE SEJA APAIXONADO PELA NOSSA IGREJA, SOU MUSICO NA IGREJA A 35 ANOS, E DOR DE COTOVELO É O QUE MAIS ENCONTREI NESTE TEMPO, ORGÃO, HARMONICO, TÁ BRINCANDO NÉ?????????????

  7. Parabéns!
    Esse texto(mesmo lendo com uma certa preguiça) me acrescentou bastante conhecimento. É de servos como você que a nossa Igreja precisa. Conhecedor da fé que professa. Valeu de coração. Abraço, Cadu!
    Graça e paz!

  8. Gostei do artigo, só achei engraçado a parte da dissonância. Esses intervalos foram criados para o serviço religioso, justamente para despertar as paixões dos ouvintes. Na Itália, França e Alemanha medievais era muito comum isso acontecer. O madrigal religioso é cheio dos intervalos de segunda menor, não existia intervalos de sétima pois não havia 7 notas e sim 6, uma escala hexatonica. Enfim, as únicas correções.

    • É mais acontece que hoje, os músicos liturgistas nos pedem isso (pelo menos nos tantos cursos que fiz sobre o assunto, inclusive pela CNBB).
      O objetivo é justamente esse : NÃO DESPERTAR SENTIMENTALISMOS.
      A música litúrgica tem como primazia a letra, só devemos usar de dissonâncias quando realmente forem necessárias. O objetivo é que a letra seja o ponto forte e não a melodia. Se a música realmente exigir uma dissonância no máximo uma sétima ou uma nona…
      Pax 🙂

  9. Pingback: Formação para músicos:: Podemos cantar o Sinal da Cruz? | Dominus Vobiscum

  10. opinião é uma coisa pessoal e cada um acha o que quer graças a Deus essa mentalidade ultrapassada de gente que não quer evoluir e fazer uma santa missa com musicas bem tocadas e com todos os instrumentos que o nosso pais latino americano nos proporciona para que haja uma melodia rica em sonoridade sim porque órgão é uma coisa tão ruim que nenhuma igreja construída nos tempos de hoje ousam colocar nas novas edificações isso é uma prova de que as coisas estão mudando para melhor e que venham os baixos as baterias guitarras e seja o que for para sumir com essa tradição europeia e com esses conservadores de mentalidade pequena se bem que o tempo esta passando e muitos deles ficando pelo caminho

    • Então Ricardo…

      Primeira mente a paz. A única coisa que tenho a dizer é que quem está se baseando em opiniões pessoais é você. Abaixo da matéria existem links de matérias anteriores. O que eu estou passando aqui, é um estudo que a CNBB (Conferência Nacional de Bispos do BRASIL – e não da Europa) fez há pouco tempo com as TVs católicas (que participei). Em nenhum momento disse que as guitarras, baixos e baterias são proibidas. Mas que existe uma preferência litúrgica e isto é fato documentado. Leia todo texto com calma e compreenderás! Eu não sou conservador (e se foi isso que você entendeu, vê-se que você tem um sério problema de compreensão de textos). Se você toca na missa da sua paróquia observando as regras que a Igreja impõe aos músicos, ótimo. Agora senão, vale a pena estudar liturgia. Agora fazer o que quer e o que deseja só porque é a sua vontade é que não pode.

      E se você discorda do que eu digo (baseado em documentos da Igreja), faça o favor de usar argumentos aquém da sua mera opinião, afinal de contas os documentos da Igreja não perdem o valor porque você discorda deles. Estude, reflita e apresente argumentos plausíveis.

      Pax Domini

  11. Boa tarde irmão , pode muito bom seu posts, sou baixista e baterista. Faço parte de dois grupos(1 toco contrabaixo e no outro bateria ). Em um deles tudo ok dentro da liturgia seguindo o folheto litúrgico nacional ate pq nosso pároco nos cobrar sobre liturgia sempre e respeita a assembleia. Já no outro grupo tenho uma certa dificuldade para eles aceitarem a liturgia pois já é outra paroquia e o padre dessa outra paroquia também e canto ai sabe né adora fazer seus showzinhos no meio da santa celebração e acabou que esse outro grupo te uma certa resistência as músicas liturgica. E lendo esses seus posts vi que realmente liturgia é coisa seria e temos que respeita. Então ta de parabéns mano continuem nos fornecendo essas dicas. Fica na paz do Senhor e com o amor de Maria.

  12. Liturgia: mistério da salvação – Parte V

    Neste último artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini a respeito da liturgia, oferecemos uma distinção entre música sacra e música profana na Missa

    A Missa católica foi o grande berço da música ocidental. Através da polifonia e do tradicional cantochão – o gregoriano -, a Igreja pôde transmitir a Palavra de Deus aos quatro cantos da terra, atingindo tanto os incautos quanto as almas mais elevadas. Foi precisamente por isso que, ao longo de sua história, o Magistério procurou distinguir, repetidas vezes, a música litúrgica ou sacra dos cantos seculares.

    Com o advento da revolta protestante e o surgimento de expressões musicais das mais variadas, começaram a proliferar práticas fundamentalmente alheias ao autêntico espírito litúrgico. Foi então que o Concílio de Trento interveio no conflito cultural da época – lembra Monsenhor Guido Marini – “restabelecendo a norma pela qual era prioritário na música aderir à palavra, limitando o uso dos instrumentos e indicando clara diferença entre música profana e música sacra”. A contrarreforma do Concílio simplesmente pôs abaixo o castelo de cartas do protestantismo. A liturgia romana foi “um dos instrumentos mais poderosos da propaganda jesuítica”, derriçando as heresias das seitas ao mesmo tempo em que revigorava a tradição musical daquele período.01

    Nos anos seguintes à reforma tridentina, a Igreja continuou sustentando o canto gregoriano como a legítima música litúrgica. E ainda hoje o ensinamento permanece o mesmo. Dando vitalidade aos trabalhos de São Pio X, diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, que a “Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.”02 Todavia, apesar das claras admoestações dos padres conciliares – e, obviamente, do magistério posterior -, abriu-se espaço na Missa para expressões bruscamente opostas ao “sentire cum Ecclesia”, chegando-se a tachar a música louvada pelo Sacrossanto Concílio como “velharia”, “coisa ultrapassada” e outros pejorativos.

    A argumentação contra o tradicional canto litúrgico – bem como a outras áreas da Tradição – redunda na ideologia do pauperismo. A Igreja não deveria, nas suas celebrações, assumir uma posição rígida, mas simplista, adotando a criatividade popular de forma totalmente subjetivista e aleatória, como se a liturgia fosse um canteiro de obras, sempre aberto a modificações. O protagonista da ação litúrgica passa a ser o povo, qual ocorre nos regimes democráticos da teologia calvinista: sem espaço para distinções, o culto deve ser de todos.

    Com efeito, assim como o simplismo de Calvino acabou com a música na França de sua época, o mesmo raciocínio está destruindo as celebrações católicas de agora, pois no centro da ação não está Deus e a reverência devida a Ele, mas o gosto pessoal de um grupo que prevalece, de paróquia em paróquia, sobre o de outros03. E “uma Igreja que se baseia nas decisões da maioria” – recorda o Cardeal Joseph Ratzinger – “torna-se uma Igreja meramente humana”, uma vez que o que se faz a si mesmo “tem sabor do ‘si mesmo’ que desagrada a outros ‘si mesmos’ e bem cedo revela a sua insignificância”04.

    No seu livro sobre a liturgia, Monsenhor Guido Marini procura lembrar que “a música sacra não pode ser entendida como expressão da pura subjetividade” já que “essas formas musicais”, ou seja, o gregoriano e a polifonia – “na sua santidade, bondade e universalidade – são precisamente as que traduzem o autêntico espírito litúrgico em notas, melodia e canto: encaminhando para a adoração do mistério celebrado; tornando-se musicada exegese da palavra de Deus”. Do mesmo modo, concorda Bento XVI quando diz que “nem sequer a grande música o gregoriano, ou Bach, ou Mozart é algo do passado, mas vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé. Se a fé for viva, a cultura cristã não se tornará algo do “passado”, mas permanecerá viva e presente.”05

    Recentemente, a escritora brasileira Adélia Prado fez uma ótima colocação acerca da dessacralização da liturgia. A teologia da libertação, comentava, na ânsia de atingir o pobre acabou por torná-lo mais pobre, pois retirou-lhe a única riqueza que ainda lhe restava: a beleza da liturgia.06 No lugar do órgão colocou-se a sanfona, no lugar das antífonas, os gritos de guerra, e a isso somados os pés de bananeiras, cocos, os berrantes e bandeirolas de festa junina. Ora, é evidente que assim a missa se torna um passatempo, um entretenimento tacanho e brega que, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser interessante como qualquer programa de auditório.

    O rigor da Igreja com o canto e com as demais partes da missa tem um nome: amor. É por amor a seu Divino Esposo, Jesus, que a Igreja adorna o templo com as mais belas peças e objetos. E assim também com a música. Ela deve se unir ao louvor dos anjos do céu, sendo uma verdadeira expressão de adoração a Deus, que motive sempre e mais e mais o seu rebanho a responder o imperativo das Sagradas Escrituras: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (Cf. Sl 96, 1)

    Por Equipe Christo Nihil Praeponere

  13. QUIRÓGRAFO DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II
    NO CENTENÁRIO DO MOTU PROPRIO
    «TRA LE SOLLECITUDINI»

    SOBRE A MÚSICA SACRA

    1. Impelido por um profundo desejo “de manter e de promover o decoro da Casa de Deus”, o meu Predecessor São Pio X emanava, há cem anos, o Motu proprio Tra le sollecitudini, que tinha como objecto a renovação da música sacra nas funções do culto. Com isso, ele pretendia oferecer à Igreja indicações concretas naquele sector vital da Liturgia, apresentando-a “quase como um código jurídico da música sacra”. Tal intervenção, igualmente, fazia parte do programa do seu pontificado, que ele tinha resumido no dístico:”Instaurare omnia in Christo”.
    A data centenária do documento oferece-me a ocasião para destacar a importante função da música sacra, que São Pio X apresenta seja como um meio de elevação do espírito a Deus, seja como ajuda para os fiéis na “participação activa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”.
    A especial atenção que é necessário reservar à música sacra recorda o Santo Pontífice, deriva do facto de que, “como parte integrante da solene liturgia, dela faz parte a finalidade geral que é a glória de Deus e a santificação e a edificação dos fiéis”. Interpretando e expressando o sentido profundo do sagrado texto ao qual está intimamente unida, ela é capaz de “acrescentar maior eficácia ao mesmo texto, para que os fiéis […] se disponham melhor para acolher em si os frutos da graça, que são próprios da celebração dos sacrossantos mistérios”.
    2. Este delineamento foi retomado pelo Concílio Ecuménico Vaticano II, no capítulo VI da Constituição Sacrosanctum concilium sobre a sagrada Liturgia, onde menciona com clareza a função eclesial da música sacra: “A tradição musical de toda a Igreja constitui um património de inestimável valor, que sobressai entre as outras expressões de arte, especialmente pelo facto de que o canto sacro, unido às palavras, é uma parte necessária e integral da liturgia solene”. O Concílio recorda, ainda, que “o canto sacro é elogiado seja pela Sagrada Escritura, seja pelos Padres, seja ainda pelos Pontífices Romanos que recentemente, a começar por São Pio X, sublinharam com insistência a tarefa ministerial da música sacra no serviço divino”.
    Continuando, de facto, a antiga tradição bíblica, à qual o mesmo Senhor e os Apóstolos se mantiveram apegados (cf. Mt 26, 30; Ef 5, 19; Cl 3, 16), a Igreja, ao longo de toda a sua história, favoreceu o canto nas celebrações litúrgicas, oferecendo segundo a criatividade de cada cultura, maravilhosos exemplos de comentário melódico dos textos sagrados, nos ritos tanto do Ocidente como do Oriente.
    Portanto, foi constante a atenção dos meus Predecessores a este delicado sector, a propósito do qual foram evocados os princípios fundamentais que devem animar a produção da música sacra, especialmente destinada à Liturgia. Além do Papa São Pio X, devem ser recordados, entre outros, os Papas Bento XIV, com a Encíclica Annus qui (19 de Fevereiro de 1749); Pio XII, com as Encíclicas Mediator Dei (20 de Dezembro de 1947) e Musicae sacrae disciplina (25 de Dezembro de 1955); e, finalmente, Paulo VI, com os luminosos pronunciamentos que disseminou em múltiplas oportunidades.
    Os Padres do Concílio Vaticano II não deixaram de reforçar tais princípios, em vista da sua aplicação às condições transitórias dos tempos. Fizeram-no num capítulo especial, o sexto, da Constituição Sacrosanctum concilium. O Papa Paulo VI procedeu, pois, à tradução daqueles princípios em normas concretas, sobretudo por meio da Instrução Musicam sacram, emanada com a sua aprovação em 5 de Março de 1967, pela então Sagrada Congregação para os Ritos. É preciso voltar constantemente àqueles princípios de inspiração conciliar, para promover, em conformidade com as exigências da reforma litúrgica, um desenvolvimento que esteja, também neste campo, à altura da tradição litúrgico musical da Igreja. O texto da Constituição Sacrosanctum concilium onde se afirma que a Igreja “aprova e admite no culto todas as formas de verdadeira arte, dotadas das devidas qualidades”, encontra os critérios adequados de aplicação nos nn. 50-53 da Instrução Musicam sacram, agora mencionada.
    3. Em diferentes ocasiões, também eu me referi à preciosa função e à grande importância da música e do canto para uma participação mais activa e intensa nas celebrações litúrgicas, e sublinhei a necessidade de “purificar o culto de dispersões de estilos, das formas descuidadas de expressão, de músicas e textos descurados e pouco conformes com a grandeza do acto que se celebra”, para assegurar dignidade e singeleza das formas à música litúrgica.
    Em tal perspectiva, à luz do magistério de São Pio X e dos meus outros Predecessores, e considerando em particular os pronunciamentos do Concílio Vaticano II, desejo repropor alguns princípios fundamentais para este importante sector da vida da Igreja, com a intenção de fazer com que a música sacra corresponda cada vez mais à sua função específica.
    4. Em conformidade com os ensinamentos de São Pio X e do Concílio Vaticano II, é preciso sublinhar acima de tudo que a música destinada aos sagrados ritos deve ter como ponto de referência a santidade: ela, de facto, “será tanto mais santa quanto mais estreitamente for unida à acção litúrgica”. Por este exacto motivo, “não é indistintamente tudo aquilo que está fora do templo (profanum) que é apto a ultrapassar-lhe os umbrais”, afirmava sabiamente o meu venerável Predecessor Paulo VI, comentando um decreto do Concílio de Trento e destacava que “se não se possui ao mesmo tempo o sentido da oração, da dignidade e da beleza, a música instrumental e vocal impede por si o ingresso na esfera do sagrado e do religioso”. Por outro lado, a mesma categoria de “música sacra” recebeu hoje um alargamento de significado, a ponto de incluir repertórios que não podem entrar na celebração sem violar o espírito e as normas da mesma Liturgia.
    A reforma realizada por São Pio X visava especificamente purificar a música de igreja da contaminação da música profana teatral, que em muitos países tinha poluído o repertório e a prática musical litúrgica. Também nos nossos tempos é preciso considerar atentamente, como evidenciei na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, que nem todas as expressões de artes figurativas e de música são capazes de “expressar adequadamente o Mistério acolhido na plenitude da fé da Igrejas”. Consequentemente, nem todas as formas musicais podem ser consideradas aptas para as celebrações litúrgicas.
    5. Outro princípio enunciado por São Pio X no Motu proprio Tra le sollecitudini, princípio este intimamente ligado ao precedente, é o da singeleza das formas. Não pode existir uma música destinada à celebração dos sagrados ritos que não seja, antes, “verdadeira arte”, capaz de ter a eficácia “que a Igreja deseja obter, acolhendo na sua liturgia a arte dos sons”.
    Todavia, esta qualidade por si só não é suficiente. A música litúrgica deve, de facto, responder aos seus requisitos específicos: a plena adesão aos textos que apresenta, a consonância com o tempo e o momento litúrgico para o qual é destinada, a adequada correspondência aos gestos que o rito propõe. Os vários momentos litúrgicos exigem, de facto, uma expressão musical própria, sempre apta a fazer emergir a natureza própria de um determinado rito, ora proclamando as maravilhas de Deus, ora manifestando sentimentos de louvor, de súplica ou ainda de melancolia pela experiência da dor humana, uma experiência, porém, que a fé abre à perspectiva da esperança cristã.
    6. Os cantos e as músicas exigidos pela reforma litúrgica é bom sublinhá-lo devem corresponder também às legítimas exigências de adaptação e de inculturação. É evidente, porém, que cada inovação nesta delicada matéria deve respeitar os critérios peculiares, como a investigação de expressões musicais, que correspondam à participação necessária de toda a assembleia na celebração e que evitem, ao mesmo tempo, qualquer concessão à leviandade e à superficialidade. É necessário, portanto, evitar, em última análise, aquelas formas de “inculturação”, em sentido elitário, que introduzem na Liturgia composições antigas ou contemporâneas que possuem talvez um valor artístico, mas que induzem a uma linguagem realmente incompreensível.
    Neste sentido, São Pio X indicava usando o termo universalidade um ulterior requisito da música destinada ao culto: “…mesmo concedendo a cada nação ele considerava de admitir nas composições religiosas formas particulares que constituem de certo modo o carácter específico da música que lhes é própria, elas não devem estar de tal modo subordinadas ao carácter geral da música sacra, que ninguém de outra nação, ao ouvi-la, tenha uma impressão negativa”. Por outras palavras, o espaço sagrado da celebração litúrgica jamais deve tornar-se um laboratório de experiências ou de práticas de composição e de execução, introduzidas sem uma verificação atenta.
    7. Entre as expressões musicais que mais correspondem à qualidade requerida pela noção de música sacra, particularmente a litúrgica, o canto gregoriano ocupa um lugar particular. O Concílio Vaticano II reconhece-o como “canto próprio da liturgia romana” à qual é preciso reservar, na igualdade das condições, o primeiro lugar nas acções litúrgicas celebradas com canto em língua latina . São Pio X ressaltava que a Igreja “o herdou dos antigos Padres”, “guardando-o ciosamente durante os séculos nos seus códigos litúrgicos” e ainda hoje o “propõe aos fiéis” como seu, considerando-o “como supremo modelo de música sacra”. O canto gregoriano, portanto, continua a ser também hoje, um elemento de unidade na liturgia romana.
    Como já fazia São Pio X, também o Concílio Vaticano II reconhece que “os outros géneros de música sacra, e especialmente a polifonia, não estão excluídos de modo algum da celebração dos ofícios divinos”. É preciso, portanto, avaliar com atenção as novas linguagens musicais, para recorrer à possibilidade de expressar também com elas as inextinguíveis riquezas do Mistério reproposto na Liturgia e favorecer assim a participação activa dos fiéis nas diversas celebrações .
    8. A importância de conservar e de incrementar o património secular da Igreja leva a ter em particular consideração uma exortação específica da Constituição Sacrosanctum concilium: “Promovam-se com empenho, sobretudo nas Igrejas Catedrais, as “Scholae Cantorum”. Por sua vez, a Instrução Musicam sacram determina a função ministerial da schola: “É digno de particular atenção, para o serviço litúrgico que desenvolve, o coro ou a capela musical ou ainda schola cantorum . No que se refere às normas conciliares da reforma litúrgica, a sua tarefa tornou-se ainda mais relevante e importante: deve, realmente, prover à execução exacta das partes que lhe são próprias, segundo os diversos tipos de cânticos, e favorecer a participação activa dos fiéis no canto. Portanto […] promova-se com especial cuidado especialmente nas catedrais e nas outras igrejas maiores, nos seminários e nas casas de formação religiosas, um coro ou uma capela musical ou ainda uma schola cantorum”. A tarefa da schola não foi diminuída: ela, de facto, desenvolve na assembleia a função de guia e de sustento e, nalguns momentos da Liturgia, desempenha a sua função específica.
    Da boa coordenação de todos o sacerdote celebrante e o diácono, os acólitos, os ministros, os leitores, o salmista, a schola cantorum, os músicos, o cantor e a assembleia decorre aquele clima espiritual que torna o momento litúrgico realmente intenso, participado e frutífero. O aspecto musical das celebrações litúrgicas, portanto, não pode ser relegado nem à improvisação nem ao arbítrio de pessoas individualmente, mas há-de ser confiado a uma direcção harmoniosa, no respeito pelas normas e as competências, como significativo fruto de uma formação litúrgica adequada.
    9. Também neste campo, portanto, se evidencia a urgência de promover uma formação sólida, quer dos pastores quer dos fiéis leigos. São Pio X insistia particularmente sobre a formação musical do clero. Uma insistência neste sentido foi reforçada também pelo Vaticano II: “Dê-se-lhes grande importância nos Seminários, nos Noviciados dos religiosos e das religiosas e nas casas de estudo, assim como noutros institutos e escolas católicas”. Esta indicação ainda deve ser plenamente realizada. Portanto, considero oportuno recordá-la, para que os futuros pastores possam adquirir uma sensibilidade adequada também neste campo.
    Nesta obra formativa, um papel especial é desempenhado pelas escolas de música sacra, que São Pio X exortava a apoiar e promover, e que o Concílio Vaticano II recomenda a instituir onde for possível . Fruto concreto da reforma de São Pio X foi a erecção em Roma, em 1911, oito anos depois do Motu proprio, da “Pontifícia Escola Superior de Música Sacra”, que em seguida se tornou “Pontifício Instituto de Música Sacra”. Além desta instituição académica, já quase centenária, que desempenhou e ainda desempenha um serviço qualificado na Igreja, existem muitas outras Escolas instituídas nas Igrejas particulares que merecem ser apoiadas e incrementadas para um melhor conhecimento e execução da boa música litúrgica.
    10. Dado que a Igreja sempre reconheceu e favoreceu o progresso das artes, não é de se admirar que, além do canto gregoriano e da polifonia, admita nas celebrações também a música moderna, desde que seja respeitosa do espírito litúrgico e dos verdadeiros valores da arte. Portanto, permite-se que as Igrejas nas diversas Nações valorizem, nas composições destinadas ao culto, “aquelas formas particulares que constituem de certo modo o carácter específico da música que lhes é própria”. Na linha do meu Predecessor e de quanto se estabeleceu mais recentemente na Constituição Sacrosanctum concilium , também eu, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, procurei abrir espaço às novas formas musicais, mencionando juntamente com as inspiradas melodias gregorianas, “os numerosos e, frequentemente, grandes autores que se afirmaram com os textos litúrgicos da Santa Missa”.
    11. O século passado, com a renovação realizada pelo Concílio Vaticano II, conheceu um desenvolvimento especial do canto popular religioso, do qual a Sacrosanctum concilium diz: “Promova-se com grande empenhamento o canto popular religioso, para que os fiéis possam cantar, tanto nos exercícios de piedade como nos próprios actos litúrgicos”. Este canto apresenta-se particularmente apto para a participação dos fiéis, não apenas nas práticas devocionais, “segundo as normas e o que se determina nas rubricas”, mas igualmente na própria Liturgia. O canto popular, de facto, constitui um “vínculo de unidade, uma expressão alegre da comunidade orante, promove a proclamação de uma única fé e dá às grandes assembleias litúrgicas uma incomparável e recolhida solenidade”.
    12. No que diz respeito às composições musicais litúrgicas, faço minha a “regra geral” que são Pio X formulava com estes termos: “Uma composição para a Igreja é tanto sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo”. Não se trata, evidentemente, de copiar o canto gregoriano, mas muito mais de considerar que as novas composições sejam absorvidas pelo mesmo espírito que suscitou e, pouco a pouco, modelou aquele canto. Somente um artista profundamente mergulhado no sensus Ecclesiae pode procurar compreender e traduzir em melodia a verdade do Mistério que se celebra na Liturgia. Nesta perspectiva, na Carta aos Artistas escrevo: “Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério! Crentes sem número alimentaram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia ou pelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus” (Ed. port. de L’Osserv. Rom. n. 18, pág. 211, n. 12).
    Portanto, é necessária uma renovada e mais profunda consideração dos princípios que devem estar na base da formação e da difusão de um repertório de qualidade. Somente assim se poderá permitir que a expressão musical sirva de modo apropriado a sua finalidade última, que “é a glória de Deus e a santificação dos fiéis”.
    Sei ainda que também hoje não faltam compositores capazes de oferecer, neste espírito, a sua contribuição indispensável e a sua colaboração competente para incrementar o património da música, ao serviço da Liturgia cada vez mais intensamente vivida. Dirijo-lhes a expressão da minha confiança, unida à exortação mais cordial, para que se empenhem com esmero em vista de aumentar o repertório de composições que sejam dignas da excelência dos mistérios celebrados e, ao mesmo tempo, aptas para a sensibilidade hodierna.
    13. Por fim, gostaria ainda de recordar aquilo que São Pio X dispunha no plano prático, com a finalidade de favorecer a aplicação efectiva das indicações apresentadas no Motu proprio. Dirigindo-se aos Bispos, ele prescrevia que instituíssem nas suas dioceses “uma comissão especial de pessoas verdadeiramente competentes em matéria de música sacra”. Onde a disposição pontifícia foi posta em prática, não faltaram os frutos. Actualmente, são numerosas as Comissões nacionais, diocesanas e interdiocesanas que oferecem a sua contribuição preciosa para a preparação dos repertórios locais, procurando realizar um discernimento que considere a qualidade dos textos e das músicas. Faço votos a fim de que os Bispos continuem a secundar o esforço destas Comissões, favorecendo-lhes a eficácia no âmbito pastoral.
    À luz da experiência amadurecida nestes anos, para melhor assegurar o cumprimento do importante dever de regulamentar e promover a sagrada Liturgia, peço à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos que intensifique a atenção, segundo as suas finalidades institucionais, aos sectores da música sacra litúrgica, valendo-se das competências das diversas Comissões e Instituições especializadas nesse campo, como também da contribuição do Pontifício Instituto de Música Sacra. É importante, de facto, que as composições musicais utilizadas nas celebrações litúrgicas correspondam aos critérios enunciados por São Pio X e sabiamente desenvolvidos, quer pelo Concílio Vaticano II quer pelo sucessivo Magistério da Igreja. Nesta perspectiva, estou persuadido de que também as Conferências episcopais hão-de realizar cuidadosamente o exame dos textos destinados ao canto litúrgico, e prestar uma atenção especial à avaliação e promoção de melodias que sejam verdadeiramente aptas para o uso sacro.
    14. Ainda no plano prático, o Motu proprio do qual se celebra o centenário, aborda também a questão dos instrumentos musicais a serem utilizados na Liturgia latina. Dentre eles, reconhece sem hesitação a prevalência do órgão de tubos, sobre cujo uso estabelece normas oportunas. O Concílio Vaticano II acolheu plenamente a orientação do meu Predecessor, estabelecendo: “Tenha-se grande apreço, na Igreja latina, pelo órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de trazer às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito a Deus e às coisas celestes”.
    Deve-se, porém, reconhecer que as composições actuais utilizam frequentemente modos musicais diversificados não desprovidos da sua dignidade. Na medida em que servem de ajuda para a oração da Igreja, podem revelar-se como um enriquecimento precioso. É preciso, porém, vigiar a fim de que os instrumentos sejam aptos para o uso sacro, correspondam à dignidade do templo, possam sustentar o canto dos fiéis e favoreçam a sua edificação.
    15. Desejo que a comemoração centenária do Motu proprio Tra le sollecitudini, por intercessão do seu santo Autor, conjuntamente com Santa Cecília, Padroeira da música sacra, sirva de encorajamento e estímulo para aqueles que se ocupam deste importante aspecto das celebrações litúrgicas. Os cultores da música sacra, dedicando-se com impulso renovado a um sector de relevância tão vital, contribuem para o amadurecimento da vida espiritual do Povo de Deus. Os fiéis, por sua vez, expressando de modo harmónico e solene a sua própria fé com o canto, experimentarão cada vez mais profundamente a riqueza e harmonizar-se-ão no esforço em vista de traduzir os seus impulsos nos comportamentos da vida quotidiana. Poder-se-á, assim, alcançar, graças ao compromisso concorde dos pastores de almas, dos músicos e dos fiéis, aquilo que a Constituição Sacrosanctum concilium qualifica como verdadeira “finalidade da música sacra”, isto é, “a glória de Deus e a santificação dos fiéis”.
    Nisto, sirva também de exemplo e modelo a Virgem Maria, que soube cantar de modo único, no Magnificat, as maravilhas que Deus realizou na história do homem. Com estes bons votos, concedo-vos a todos a minha afectuosa Bênção.
    Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 22 de Novembro de 2003, memória de Santa Cecília, no vigésimo sexto ano de Pontificado.
    IOANNES PAULUS II

  14. Gostei muito deste texto . Sereno, bem amparado nos documentos da Igreja e com bom uso sa razão e bom senso. Sou coordenador de canto em no há comunidade e ontem o cerimonialisra levantou justamente esta questão a respeito do uso do “dá ” carron” na missa argumentando com alguns dos documentos que você citou. Penso que seu texto vai iluminar nosso debate. Só peço a gentileza de você deixar aqui qual é a sua formação e função dentro da Igreja pois achei o conteúdo muito edificante. A paz de Jesus

  15. Muito bom o artigo. Precisamos ter a consciência a respeito de nosso serviço na Sagrada Liturgia Eucarística. Essas orientações são muito eficazes para nós, animadores de Liturgia. Pertenço a Diocese de Nova Iguaçu(RJ), Paróquia Santa Luzia e Comunidade Santa Teresinha e gostei das informações contidas no texto porque nós enriquece muito a medida que percebemos aquilo que fazemos com outros irmãos e irmãs em Louvar ao Nosso Senhor.

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