Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [O problema do Assentimento]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum!

Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.

O problema do assentimento

Voltemos, pois, àquela parte onde Alípio parece ainda ter dúvidas. E em primeiro lugar vejamos o que te perturba de maneira tão aguda e te inspira tanta cautela. Pois se a tua descoberta que nos obriga a confessar que é muito mais provável que o sábio conhece a sabedoria, abala a opinião dos Acadêmicos, fortalecida por tantos e tão fortes razões (tu mesmo disseste isto), de que o sábio nada sabe, devemos suspender ainda mais o assentimento. Pois exatamente isso mostra que não há nenhuma proposição, por mais numerosos e sutis que sejam os argumentos aduzidos, a que não se possa resistir com argumentos não menos fortes ou até mais fortes da parte contrária. Daqui resulta que, quando é vencido, o Acadêmico é vencedor. Oxalá seja vencido! Nenhum artifício dos gregos fará com que ele se aparte de mim ao mesmo tempo vencido e vencedor. Certamente, se não houver outra coisa a dizer contra esses raciocínios, espontaneamente me darei por vencido. Pois aqui não tratamos de buscar a glória, senão de encontrar a verdade. A mim me basta transpor de qualquer modo este obstáculo que se opõe aos que querem ingressar na filosofia, retendo-os em não sei que tenebrosos esconderijos; ameaça fazer crer que toda filosofia é tal e não permite esperar que nela se possa encontrar a luz. Se é provável que o sábio sabe alguma coisa, nada mais tenho a desejar. Pois nenhuma razão me fazia julgar verossímil que o sábio devia suspender o seu assentimento, senão a de que era verossímil que nada se pode conhecer. Eliminada esta dificuldade, pois como se concede, conhece pelo menos a sabedoria, já não resta nenhuma razão para o sábio não dar o seu assentimento pelo menos à sabedoria. Com efeito é sem dúvida mais absurdo para o sábio não aprovar a sabedoria que não conhecê-la.

Imaginemos, por um instante, se podemos, o seguinte espetáculo:  uma disputa entre o sábio e a sabedoria. O que diz a sabedoria senão que ela é a sabedoria? Mas o sábio diz: não creio. Quem diz à sabedoria: não creio na existência da sabedoria? Quem, senão aquele com o qual ela pode falar e em quem se dignou habitar, isto é, o sábio? Vinde, portanto, pedir-me que lute com os Acadêmicos. Já tendes um novo gênero de luta: o sábio e a sabedoria disputam entre si. O sábio não quer dar assentimento à sabedoria. Convosco espero tranquilamente o resultado. Pois quem não acredita que a sabedoria é invencível? Todavia, vamos munir-nos de algum dilema. Neste certame, ou o Acadêmico vencerá a sabedoria e será vencido por mim, pois não será sábio, ou será vencido por mim, pois não será sábio, ou será derrotado por ela e afirmaremos que o sábio dá seu assentimento à sabedoria. Portanto, ou o Acadêmico não é sábio, ou o sábio dará seu assentimento a alguma coisa. A menos que quem teve vergonha de dizer que o sábio ignora a sabedoria não tenha vergonha de dizer que o sábio não dá assentimento à sabedoria. Mas, se já é verossímil que pelo menos o conhecimento da sabedoria compete ao sábio, e ele não tem nenhuma razão de não dar seu assentimento ao que se pode perceber, concluo que o que eu queria é verossímil, ou seja, que o sábio dará seu assentimento à sabedoria. Se perguntares onde ele encontra a sabedoria, responderei: em si mesmo. Se disseres que o sábio não sabe o que possui, voltas ao absurdo de que o sábio não conhece a sabedoria. Se negares que é possível encontrar um sábio, já não é com os Acadêmicos, mas contigo, quem quer que pensas assim, que será necessário instituir outra discussão. Pois os Acadêmicos, quando discutem essas questões, é evidentemente do sábio que tratam. Cícero declara que ele mesmo tem muitas opiniões, mas que sua busca se refere ao sábio. Se ainda não o sabeis, caros jovens, certamente lestes no Hortênsio: “Se nada há de certo e não convém ao sábio opinar sobre nada, o sábio nunca aprovará nada”. É, portanto, evidente que é do sábio que os Acadêmicos tratam nas suas discussões, contra as quais dirigimos nossos esforços.

Julgo, portanto, que o sábio tem certeza da sabedoria, isto é, que o sábio conhece a sabedoria e que por isso ele não opina quando dá seu assentimento à sabedoria. Pois ele dá seu assentimento a uma coisa tal que se não a conhecesse com certeza, não seria sábio. Os próprios Acadêmicos negam que se deva recusar o assentimento senão a coisas que não se podem perceber. Ora a sabedoria não é algo que não é nada. Portanto, ao conhecer a sabedoria e dar-lhe se assentimento, não se pode dizer que ele não conhece nada nem que ele dá seu assentimento a nada. O que mais quereis? Ou falaremos daquele erro que, segundo eles, se evita completamente quando o assentimento não faz pender o espírito para nenhum lado. Erra, com efeito, dizem eles, quem aprova não só uma coisa falsa, mas também uma coisa dúbia, ainda que esta seja verdadeira. Ora não há nada que não seja duvidoso. Mas o sábio, como dizíamos, encontrar a sabedoria.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos | Livro III – O problema da certeza em Filosofia

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [O problema da certeza em Filosofia]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.

O problema da certeza em filosofia

O que acabamos de dizer, salvo engano, é suficiente para a vitória, mas talvez não o seja para uma vitória completa. Os acadêmicos sustentam duas coisas, contra as quais decidimos lutar. Nada se pode conhecer e não se deve dar assentimento a nada. Do assentimento trataremos adiante. Agora falemos um pouco mais sobre o conhecimento. Dizeis que não se pode conhecer absolutamente nada? Aqui desperta Carnéades, afinal ninguém de todos ele dormiu  menos profundamente que ele, e observa a evidência das coisas. Imagino que fale assim consigo mesmo, como sói acontecer. “Então, Carnéades, dirás que não sabes se és homem ou formiga? Ou Crisipo triunfará sobre ti? Digamos que ignoremos o que se indaga entre os filósofos. O resto não nos diz respeito. Se eu tropeçar na luz cotidiana e ordinária, apelarei para as trevas dos ignorantes, onde só veem certos olhos divinos, os quais ainda que uma vejam vacilando e caindo, não podem entregar-me à zombaria dos cegos, sobretudo dos arrogantes e dos que têm vergonha de ser ensinados.

Na verdade avanças, ó habilidade grega, elegantemente vestida e bem preparada. Mas não reparas que aquela definição é obra de um filósofo, fixada e estabelecida no próprio vestíbulo da filosofia. Se tentares cortá-la, o machado de dois gumes recairá em tuas pernas. Porque, uma vez que a abalaste se não ousares destruí-la completamente, segue-se que não só se pode perceber algo, mas que também se pode perceber o que é muito semelhante ao falso.

É na verdade o teu esconderijo, donde saltas e atacas veementemente os incautos que querem passar adiante. Mas virá algum Hércules que te sufocará na tua caverna como ao semi-homem, esmagando-te sob as suas ruínas e ensinando-te que há em filosofia algo que não pode ser reduzido à incerteza por ser semelhante ao falso.

Na verdade eu me apressava em busca de outras coisas. Quem nisso insiste, Carnéades, afronta-te, tomando –te por morto que pode ser por mim vencido em qualquer lugar e de qualquer maneira. Se não pensa assim, é cruel obrigando-me a deixar a fortaleza e lutar contigo em campo raso. Quando comecei a descer a campo, aterrado só pelo teu nome, arredei o pé e de um lugar mais alto lancei alguma cosia. Vejam os que presenciam nossa luta se te atingiu ou que outro efeito produziu. Mas por que temo, inepto? Se bem me lembro, estás morto e nem Alípio tem o direito de lutar pela sua sepultura. Deus me ajudará facilmente contra tua sombra.

Afirmas que nada se pode saber ao certo em filosofia. E para difundir amplamente o teu discurso apelas para as rixas e dissensões entre os filósofos, acreditando que te fornecem armas contra eles.

Como julgaremos a contenda entre Demócrito e os físicos antigos sobre se o mundo é uno ou se há muitos mundos, quando não houve acordo entre ele e seu herdeiro Epicuro? Pois este voluptuoso, ao permitir que os átomos como seus servos, isto é, os corpúsculos, que alegremente abraça as trevas, não sigam o seu caminho, e se desviem espontaneamente para além de limites, dissipou todo o patrimônio em contendas. Mas nada disso me interessa. Pois se é próprio da sabedoria saber algo dessas coisas, este conhecimento não pode faltar ao sábio. Se é outra coisa, o sábio conhece a sabedoria e despreza estas. Eu, todavia, que ainda estou longe até da proximidade do sábio, sei alguma coisa dessas questões físicas. Efetivamente tenho por certo que o mundo é uno ou não é uno. Se não é uno, é de número finito ou infinito. Venha Carnéades dizer que esta proposição é semelhante a uma proposição falsa! Sei igualmente que este nosso mundo está assim disposto ou pela natureza dos corpos ou por alguma providência, e que nunca terminará, ou não tendo começado, terá um fim, ou que começou a existir e não permanecerá para sempre. Tenho ainda inúmeros outros conhecimentos físicos deste gênero referentes ao mundo. Estas proposições disjuntas são verdadeiras e ninguém pode confundi-las com alguma semelhança com o falso.

– Mas toma isoladamente uma delas, diz o Acadêmico.

– Não aceito, pois o teu pedido equivale a dizer: deixa o que sabes e afirma o que ignoras.

– Então a tua opinião está em suspenso.

– É melhor que esteja em suspenso do que caia, porque está completa e pode chamar-se falsa ou verdadeira. Digo que sei estas proposições. Tu que não negas que elas pertencem à filosofia e afirmas que nada delas se pode saber, mostra-me que não as sei. Dize que estas proposições disjuntivas são falsas ou têm algo em comum com o falso ou têm algo em comum com o falso, que torna absolutamente impossível discerni-las.

Se os sentidos enganam, diz o Acadêmico, como sabes que este mundo existe?

Nunca os vossos raciocínios puderam enfraquecer a força do testemunho dos sentidos a ponto de convencer-nos que nada nos aparece e jamais ousastes tentar fazê-lo. Mas empenhastes-vos em persuadi-nos que uma coisa pode ser diferente do que parece. Eu, porém, chamo mundo a tudo isso, digo, que aparece a meus olhos e é por mim percebido como comportando terra e o céu, ou o que parece terra e céu. Se disseres que o que me aparece não é nada, nunca poderei errar. Pois erra quem temerariamente aprova o que lhe parece aos sentidos como verdadeiro, mas não negais o fato de parecer. Não restaria absolutamente nenhuma razão para toda essa discussão em que vos aprazeis em triunfar, se não só nada sabemos como também nada nos aparece. Mas se negas que o que me parece é o mundo, trata-se de uma questão de palavras, pois eu disse que chamo mundo o que me parece.

Perguntarás: também quando dormes o mundo é este que vês? Já disse que chamo mundo o que me aparece, seja o que for. Mas, se quiseres chamar mundo só o que é visto pelos que estão acordados ou pelos sãos de espírito, afirma, se podes, que os que dormem ou deliram não dormem ou deliram no mundo! Portanto, digo que toda esta massa de corpos e esta máquina na qual nos encontramos, seja dormindo ou delirando, despertos ou sãos de espírito, é uma ou não é uma. Explica como pode ser falsa esta proposição. Da mesma forma, se durmo é possível que eu não tenha dito nada, ou que, se no sono me escaparam palavras da boca, como sói acontecer, pode ser que não as tenha dito aqui, sentado como estou, nem  diante destes ouvintes. Mas é impossível que isso falso [isto é, que falei ou não falei durante o sono]. E não digo que percebi isso por estar desperto, pois poderias objetar que isso poderia parecer-me também no sono e consequentemente pode ser muito semelhante ao falso. Mas se há um mundo e seis mundos, é evidente que há sete mundos, qualquer se seja o meu estado, e eu afirmo sem temeridade saber isso. Demonstra-me que o sono ou a loucura ou as ilusões dos sentidos podem tornar falsa esta conclusão ou as suposições  disjuntivas. Então, se, depois de desperto me lembrar delas, me darei por vencido. Pois creio que já é suficientemente claro que as falsas aparências produzidas pelo sono ou pela demência pertencem ao domínio dos sentidos corporais. Mas que três vezes três é nove ou o quadrado destes números é necessariamente verdadeiro, mesmo que ronque todo o gênero humano. Entretanto, também vejo que se podem dizer em favor dos sentidos muitas coisas que, quanto sabemos, não foram censuradas pelos próprios Acadêmicos. Creio que não se deve acusar os sentidos nem das imaginações falsas experimentadas pelos dementes, nem das coisas falsas que vemos nos sonhos. Pois se informam coisas verdadeiras aos desperto e aos sãos de espírito, não se pode pedir-lhes conta do que forja o ânimo de quem dorme ou está demente.

Resta averiguar se o que os sentidos informam é verdadeiro. Suponhamos que diga algum Epicurista:

Não tenho do que me queixar contra os sentidos, pois é injusto exigir deles mais do que podem dar. O que os olhos podem ver, se o veem, é verdadeiro.

– Logo é verdade o que veem do remo imerso na água?

– Absolutamente verdadeiro, pois havendo uma nova causa pela qual as coisas aparecem como se vê, se o remo imerso na água aparecesse reto, eu acusaria meus olhos de testemunho falso: de fato não veriam o que deveriam ver, havendo tais causas. Para que multiplicar os exemplos? A mesma coisa se pode dizer do movimento das torres, das asas das aves, de inúmeros outros casos.

Todavia, engano-me se der meu assentimento, dirá alguém:

Não dês um assentimento que vá além do que dita a tua persuasão de quem assim aparece, e não haverá engano. Pois não vejo como o Acadêmico possa refutar alguém que diz: sei que isso me parece branco, sei que isso deleita meus ouvidos, sei que aquilo é frio para mim.

– Mas, dize-me antes se são amargas em si mesmas as folhas do oleastro que tanto apetecem à cabra!

– Ó homem petulante! Não é mais modesta a cabra? Não sei o que as folhas são para o animal. Para mim são amargas. O que mais queres?

– Mas talvez também há algum homem para quem não são amargas.

– Queres cansar-me? Por acaso eu disse que são amargas para todos? Disse que são amargas para mim, e não afirmo que isso é sempre assim. Não acontece que por uma causa ou outra, a mesma coisa uma vez tem gosto doce, outra vez amargo? Afirmo o seguinte: quando um homem saboreia alguma coisa, pode jurar de boa fé que sabe que tal coisa é suave ou não ao seu paladar e não há sofisma grego que possa retirar-lhe esse conhecimento. Quem teria o descaramento de dizer-me, quando estou saboreando alguma iguaria: talvez não estás saboreando, mas é apenas um sonho? Por acaso estou dizendo contrário? Pois mesmo em sonho isso me deleitaria.

Assim nenhuma semelhança com o falso pode anular o fato que declarei conhecer. Os Epicuristas e os Cirenaicos talvez digam a favor dos sentidos muitas outras coisas que não me consta terem sido rebatidas pelos Acadêmicos. Mas o que me importa? Se quiserem e puderem, que os Acadêmicos refutem esses argumentos, até com a minha ajuda. Pois o que alegam contra os sentidos não vale contra todos os filósofos. Há os que julgam que todas as impressões que a alma recebe pelos sentidos podem produzir opinião, mas não a ciência a qual querem que seja contida na inteligência e vive na mente, longe dos sentidos. Talvez entre eles se encontre o sábio que procuramos. Mas este tema será tratado em outra ocasião. Passemos agora aos outros pontos, de que, à luz do que já foi dito, salvo engano, trataremos em poucas palavras.

Em que os sentidos são uma ajuda ou um obstáculo para quem trata de moral? Se nem o pescoço da pomba, nem a voz incerta, nem um fardo que é pesado para o homem e ao mesmo tempo leve para os camelos e mil outras coisas do gênero impedem aqueles que colocaram o sumo bem do homem no prazer de dizer que se sabem deliciados por aquilo que os delicia ou molestados por aquilo que os molesta – e não vejo como se poderia refutá-los neste ponto. Será então que tais argumentos impressionarão aquele que encerra na mente o bem do homem? O que escolhes? Se me perguntas o que acho, julgo que é na mente que reside o sumo bem do homem. Mas agora a nossa indagação diz respeito ao conhecimento. Interroga, portanto, o sábio, que não pode ignorar a sabedoria. Entretanto, é-me lícito, a mim por mais limitado e ignorante que seja, saber que o fim do bem humano, em que consiste a felicidade, ou não existe, ou existe e neste caso ou na alma, ou no corpo, ou em ambos. Convence-me, se fores capaz, de que não sei isso. Vossos famosos argumentos não o conseguem. Se não o podes, pois não encontrarás falsidade à qual se assemelhe, hesitaria eu em concluir que é com razão que o sábio me parece saber tudo o que há de verdadeiro na filosofia, uma vez que eu mesmo dela hauri tantos conhecimentos verdadeiros?

Mas talvez o sábio receie escolher o sumo bem dormindo. Não há nenhum perigo. Quando acordar, se não lhe agradar, o rejeitará, se lhe agradar, o aceitará. Pois quem terá o direito de repreendê-lo por te visto em sonho algo de falso? Talvez tema perder a sabedoria enquanto dorme, se tomar o falso por verdadeiro? Mas nem quem está dormindo ousará sonhar que deve chamar sábio um homem acordado e negar-lhe este título quando dorme. O mesmo se pode dizer da demência. Mas urge passar a outras considerações. Entretanto não deixarei esta questão sem uma conclusão certíssima: ou a sabedoria se perde pela demência e aquele de quem dizeis que ignora a verdade não será mais sábio, ou seu conhecimento permanece na inteligência, ainda que outra parte da alma se represente como em sonho o que recebeu pelos sentidos.

Resta à dialética, que o sábio certamente conhece bem. Ora, ninguém pode saber o falso [portanto a dialética é verdadeira]. Se o sábio não a conhece, o conhecimento da dialética não pertence à sabedoria, pois pôde sem ela tornar-se sábio. Neste caso será supérfluo indagar se é verdadeira e se pode ser conhecida. Aqui talvez alguém me diga: Estulto, costumas ostentar o que sabes. Não conseguiste aprender nada de dialética? Ao contrário, muito mais que de qualquer outra parte da filosofia. Em primeiro lugar, a dialética me ensinou que são verdadeiras todas as proposições acima. Além disso, através dela aprendi muitas outras verdades. Enumerai-as, se fordes capazes: se há quatro elementos no mundo, não são cinco, se há um sol, não há dois, uma mesma alma não pode ao mesmo morrer e ser imortal, um homem não pode ser ao mesmo tempo feliz e infeliz; aqui não é ao mesmo tempo dia e noite. No mesmo momento ou estamos acordados ou dormindo; o que creio ver ou é um corpo ou não é um corpo. Estas e outras coisas, que seria demasiadamente longo lembrar, foi pela dialética que aprendi serem verdadeiras, qualquer que seja o estado dos nossos sentidos, verdadeiras em si mesmas. Ela me ensinou que, se for admitida a antecedente nas proposições que citei, segue-os necessariamente a consequente. Quanto às que enunciei em forma de oposição ou disjunção, elas são de tal natureza que, quando se nega uma ou várias delas, a que resta é estabelecida pela negação das outras. Ensinou-me ainda que, quando há acordo sobre algo em questão, não se de discutir sobreas palavras e se o que o faz é por ignorância, que o faz, deve-se instruí-lo; se por maldade deve-se abandoná-lo; se for incapaz de ser instruído, deve-se adverti-lo que faça qualquer outra coisa em vez de perder tempo e trabalho em coisas supérfluas; se não obedecer, deixa-lo de lado. Quanto aos raciocínios capciosos e falaciosos, há uma regra breve: se forem baseados numa concessão imprudente, deve-se voltar a examinar o que foi concedido. Se o verdadeiro e o falso conflitam numa mesma conclusão, deve-se tomar o que se pode compreender e deixar o que não se pode explicar. Se, ao contrário, em algumas questões escapa inteiramente ao homem o “modo (modus)”, deve-se renunciar ao seu conhecimento. Todas estas e outras coisas, que é desnecessário lembrar devo-as à dialética, pois não deve ser ingrato a ela. Mas o sábio de que falamos ou despreza essas coisas, ou, se a dialética é realmente a ciência da verdade, conhece-a o suficiente para desprezar e acabar sem piedade com esta mentirosa calúnia: se é verdadeiro, é falso, se é falso é verdadeiro. Julgo que isso é suficiente sobre o conhecimento, pois quando tratar do assentimento, retornarei a questão.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

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Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [As implicações da definição de Zenão]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III. Agostinho nos faz refletir acerca da definição de Zenão sobre a verdade. Boa Leitura!

As implicações da definição de Zenão

Mas deixemos este tribunal litigioso por um lugar onde não nos moleste a multidão. Oxalá fosse a escola de Platão, que segundo se diz, recebeu seu nome do fato de ser separada do povo. Aqui discutamos, segundo nossas forças, não sobre a glória, que é coisa vã e pueril, mas sobre a própria vida e a esperança da alma feliz. Os Acadêmicos negam que se pode saber algo. Em que vos baseais para dizer isso, homens diligentíssimos e doutíssimos? Na definição de Zenão, respondem. Mas por quê? Se ela é verdadeira, aquele que a conhece sabe alguma coisa, se é falsa, não deveria abalar homens tão fortes. Mas vejamos o que diz Zenão. Segundo ele, só se pode compreender e perceber o que é de tal natureza que não tenha características comuns com o falso. Foi isso, discípulo de Platão, que te levou a envidar todos os esforços para desviar os desejosos de saber de toda esperança de aprender, de modo que, ajudados ainda por uma lamentável preguiça espiritual, abandonem todo estudo filosófico?

Mas como não seria ele abalado, se, de uma parte, não se pode encontrar nada que seja tal [isto é, conforme o que exige Zenão] e, de outra, só se pode conhecer com certeza o que é tal? Se assim fosse, seria melhor dizer que o homem não pode alcançar a sabedoria que dizer que o sábio não sabe por que vive, como vive, nem se vive, enfim, o que ultrapassa tudo o que se pode dizer ao mesmo tempo ser sábio e ignorar a sabedoria. Pois, o que é mais chocante: dizer que o homem não pode ser sábio ou dizer que o sábio ignora a sabedoria? Portanto, não há nada a discutir, se a questão assim colocada não é suficiente para resolvê-la. Mas talvez este modo de falar afastaria totalmente os homens da filosofia. Entretanto, é necessário atraí-lo pelo dulcíssimo e augustíssimo nome da sabedoria, para que, chegados à idade avançada sem nada terem aprendido, te persigam com as piores imprecações, a ti que terão seguido após terem renunciado aos prazeres corporais para tormento do espírito.

Mas vejamos quem os afasta mais da filosofia. Será quem diz: Escuta, amigo, a filosofia não é sabedoria, mas o estudo da sabedoria. Se a ela te aplicares, não serás sábio enquanto viveres aqui – pois a sabedoria pertence a Deus e não pode chegar ao homem – mas depois que tiveres executado e purificado bastante por este tipo de estudo, depois desta vida, isto é, quando tiveres deixado de ser homem, tua alma facilmente desfrutará desta sabedoria. Ou será aquele que diz: Vinde, mortais, para a filosofia, porque nela há grande proveito. Pois o que há de mais caro ao homem que a sabedoria? Vinde, portanto, para que sejais sábios e ignoreis a sabedoria! Eu não falaria assim, diz o Acadêmico. Isso é enganar, pois não encontrarão outra coisa em ti. Se dissesses isso, fugiriam de ti como de um louco. Se os levasses à tua opinião por outros meios, tu os tornarias loucos. Mas admitamos que ambas as opiniões afastam igualmente os homens do filosofar. Se a definição de Zenão obrigava a dizer algo de prejudicial à filosofia, havia necessidade, meu amigo, de dizer o que é objeto de tristeza para outro homem ou o que para ti é motivo de escárnio?

Todavia, na medida em que no-lo permite nossa ignorância, discutamos o que Zenão definiu. Segundo ele, só pode ser compreendida aquela representação que apareça de tal modo que o falso não possa mostrar-se. É evidente que fora disso nada se pode perceber.

Também eu penso assim, diz Arcesilau, e é por isso que ensino que não se percebe nada, pois não se pode encontrar nada que reúna tais condições.

Talvez tu e outros tolos. Mas por que não o poderia o sábio? Acho que o próprio tolo não poderias responder nada, se te pedisse refutar, com tua famosa sutileza, a definição de Zenão e mostrar que também ela pode ser falsa. Se não puderes, já tens uma proposição que percebes como certa. Mas se a refutares, então é que não há nada como se possa refutá-la e julgo-a totalmente verdadeira. Assim, ao conhecê-la, ainda que seja estulto, sei alguma coisa. Vê se consegues que a definição ceda às tuas argúcias! Usarei de um dilema seguríssimo: ou a definição é verdadeira ou falsa. Se é verdadeira, mantenho minha posição, se é falsa, é possível perceber algo, ainda que tenha características comuns com o falso.

– Como pode ser isso? – perguntou ele.

– Zenão definiu, portanto, com muito acerto e não errou quem lhe deu assentimento neste ponto. Consideraremos de pouco valor e vigor uma definição que contra aqueles que haveriam de aduzir muitos argumentos contra a percepção, ao designar as características do que pode ser percebido, se apresenta a si mesma com tais características? Assim, ela é, ao mesmo tempo, definição e exemplo de coisas compreensíveis.

– Não sei, diz Arcesilau, se ela é verdadeira, mas como é provável, demonstro, apoiando-me nela, que não existe nada do que ela declarou ser possível de ser conhecido.

– Talvez o demonstres para tudo, menos para ela. Acho que vês a consequência. Mesmo que não tenhamos certeza da definição, nem por isso ficamos privados do conhecimento, pois sabemos que ou ela é verdadeira, ou é falsa. Logo, não ficamos sem nada saber. Ainda que isso nunca consiga tornar-me ingrato, julgo que esta definição é totalmente verdadeira. Pois ou é possível perceber mesmo as coisas falsas, hipótese da qual os Acadêmicos têm verdadeiro pavor e realmente é absurda, ou tampouco podem perceber-se as coisas que são muito semelhantes às falsas. Logo aquela definição é verdadeira. Mas vejamos o restante.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Refutação do assentado primado dos Acadêmicos]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III. Boa Leitura!

Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

Ao perceber que era isso o que também eles esperavam, comecei como uma espécie de novo exórdio, dizendo:

– Cederei aos vossos desejos. Depois das grandes fadigas da escola de retórica, eu esperava poder descansar um pouco sob uma armadura leve, tratando este assunto mais sob forma de interrogações que de discurso. Todavia, como somos poucos e não preciso de forçar minha voz em detrimento da saúde e, de outra parte, por causa disso resolvi que o estilo seja uma espécie de condutor e moderador do meu discurso, para não me deixar levar a falar com mais entusiasmo do que permite o cuidado do meu estado físico, ouvi em discurso contínuo, como desejais, o que penso.

Primeiramente, vejamos o que dá aos seguidores dos Acadêmicos motivo para tanto gloriar-se. Há, efetivamente, nas obras que Cícero escreveu em defesa deles, uma passagem que a meu ver, é de admirável elegância e, segundo outros, também de rara solidez. É difícil não impressionar-se com o que diz: “Os seguidores de todas as outras seitas que julgam ser sábios concedem o segundo lugar ao sábio Acadêmico, pois cada um deles reserva necessariamente para si o primeiro. Daqui se pode concluir com probabilidade que com direito se julga primeiro aquele que é o segundo no juízo de todos os outros.

Suponhamos, por exemplo, aqui presente um sábio estóico, pois foi principalmente contra eles que se exerceu a engenhosidade dos Acadêmicos. Se perguntarmos a Zenão ou a Crisipo quem é sábio, responderá que é aquele que ele próprio descreveu. De seu lado, Epicuro, ou algum outro adversário negará tal afirmação e sustentará que para ele sábio é o mais hábil caçador de prazeres. Começa a discussão. Clama Zenão e todo o Pórtico, em alvoroço, grita que o homem não nasceu senão para a virtude, que esta atrai a si as almas com o seu esplendor, sem oferecer absolutamente nenhuma vantagem exterior, sem nenhum atrativo de recompensa, que o prazer de Epicuro é próprio somente dos animais e que é ímpio lançar o homem e o sábio à companhia destes. Epicuro, por sua vez, qual outro Liber de seus jardins, convoca em seu auxílio a turba dos discípulos embriagados, mas que, no seu furor de bacantes, procuram a quem dilacerar com suas unhas sujas e seus dentes ásperos. Com o testemunho da turba, acumula as palavras prazer, suavidades e repouso, insistindo enfaticamente que ninguém pode ser feliz sem o prazer. Se no meio da disputa se apresentar um Acadêmico, ouvirá as duas partes, cada qual tentando atraí-lo para o seu lado. Se se inclinar para um dos partidos, será chamado de insensato, ignorante e temerário pelos sequazes do partido contrario. Assim, depois de ter ouvido os dois partidos, interrogado sobre o que pensa, dirá que está em dúvida. Pergunta agora ao estóico quem é melhor, se Epicuro, o qual diz que o estóico delira, ou o Acadêmico, que declara que ainda precisa refletir sobre a questão tão grave. Ninguém duvida que o preferido será o Acadêmico. Dirige-te então a Epicuro e pergunta-lhe quem prefere, Zenão, por quem é chamado animal, ou Arcesilau, que lhe diz: talvez tens razão, mas preciso examinar isso melhor. Não é evidente que Epicuro julgará que todo o Pórtico é louco e que em comparação com este os Acadêmicos são homens modestos e cautelosos?”. Assim Cícero, com grande eloquência faz desfilar diante de seus leitores, como que num agradabilíssimo espetáculo, quase todas as seitas, mostrando que se nenhum representante delas deixa de atribuir-se o primeiro lugar, o que é inevitável, todos concordam em dar o segundo a quem não lhes é contrário, mas duvida. Não me oporei a eles neste ponto, nem pretendo diminuir-lhes a glória.

Alguns, é certo, acham que aqui Cícero não quis brincar, mas, por detestar a frivolidade dos gregos, colher e reunir alguns argumentos vãos e ocos. Mas o que me impede a mim, se quiser resistir a esta impostura acadêmica, mostrar, o que farei facilmente, que é um mal menor se ignorante (indoctum) que ser incapaz de instruir-se (indocilem)? Assim, quando esse presunçoso Acadêmico se apresenta como discípulo a cada um dos filósofos e ninguém consegue convencê-lo do que crê saber, todos acabam concordando em rir-se dele. Cada qual pensará que, se nenhum dos seus adversários aprendeu alguma coisa, o Acadêmico, este é incapaz de aprender. Consequentemente, será expulso de todas as escolas, não a golpes de férula, o que seria mais vergonhoso que modesto, mas com as clavas e bastões daqueles homens vestidos de manto. Na verdade não será grande trabalho reclamar contra um flagelo comum o socorro, por assim dizer, hercúleo, dos Cínicos.

Mas se eu quiser disputar com os Acadêmicos uma glória tão miserável, o que mais facilmente se concederá ao filosofante que sou, ainda não sábio, o que poderão alegar? Suponhamos que eu e um Acadêmico entremos numa dessas disputas dos filósofos, que todos estejam presentes e todos exponham brevemente sua doutrina, segundo convém. Pergunta-se a Carnéades o que pensa. Dirá que duvida. E cada qual o preferirá aos demais. Portanto, todos o preferirão a todos. Uma grande e altíssima glória! Quem não quererá imitá-lo? E se me perguntarem responderei a mesma coisa. O louvor será igual. Logo o sábio goza de uma glória pela qual o estulto se torna seu igual. E que dizer se o último até  facilmente o superar? Nada fará a vergonha? Deterei o Acadêmico no momento em que estiver para deixar o tribunal, pois afinal a estultícia é ávida desse tipo de vitória. Retendo-o, mostrarei aos juízes o que ignoram e direi: “Excelentíssimos senhores, tenho em comum com este homem a dúvida sobre quem de nós segue a verdade. Mas também temos opiniões pessoais e peço-vos que as julgueis. Ainda que vos tenha ouvido, ignoro onde está a verdade, mas isso vem do fato de eu não saber quem de vós é sábio. Este, porém, nega que o próprio sábio conhece alguma coisa ao certo, nem mesmo a sabedoria, donde o sábio deriva o seu nome. Quem não vê a quem caberá a palma? Se meu adversário disser isso, vencerei em glória; se, envergonhado, confessar que o sábio conhece a sabedoria, terei vencido pela minha opinião.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Balanço da discussão e plano subsequente]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.  Neste capítulo, iremos ler como São Agostinho relata o balanço de toda a discussão acerca da verdade encontrada ou não pelos sábios. Boa Leitura!

Balanço da discussão e plano subsequente

Ainda que te conceda, disse Alípio, o que , seguindo vejo, tanto te esforças por conseguir, isto é, que o sábio conhece a sabedoria e que ambos descobrimos uma coisa que o sábio pode perceber, não creio que esteja totalmente vencida a posição dos Acadêmicos. Efetivamente, vejo que lhes resta uma linha de defesa não desprezível, nem lhes foi tirada a razão da suspensão do assentimento, pois não podem abandonar sua causa só pelo argumento com o qual os julgas vencidos. Dirão que é tão certo que não se pode conhecer nada e que a nada se deve dar o assentimento, que até o princípio de que estavam convencidos por quase toda a vida até aqui como de uma coisa provável, agora acaba de lhes ser tirado pela tua conclusão. Assim, então como agora, a força deste argumento continua invicta, seja por causa da lerdeza da minha inteligência, seja realmente pela força do próprio argumento, e não é possível desalojá-los da sua posição, pois podem continuar a afirmar audazmente que nem agora se deve assentir a nada. Talvez algum dia conta a tua posição poderão eles ou outros encontrar alguma argumento que sustentarão com razões sutis e prováveis. Devemos ver sua imagem, como que num espelho, naquele Proteu, do qual se conta que costumava ser capturado onde menos se podia esperar e que os que o procuravam só conseguiam apoderar-se dele pelas indicações de alguma divindade. Que ela nos assista e se digne mostrar-nos aquela verdade que nos é tão cara. E então também eu confessarei que os Acadêmicos, ainda que contra a sua vontade, o que não creio, foram vencidos.

Muito bem, disse eu. Não desejava nada mais que isso. Vede quantas vantagens obtive! Em primeiro lugar, afirma-se que os Acadêmicos foram de tal modo vencidos, que para a sua defesa só lhes resta o argumento de que toda defesa é impossível. Ora, que poderá de qualquer modo entender ou crer que alguém que foi vencido, pelo fato de ter sido vencido, se glorie de ser vencedor? Em segundo lugar, se ainda há alguma razão de conflito com eles, esta não está em que dizem que nada podemos saber, mas na sua pretensão de que não se deve dar assentimento a nada. Portanto agora estamos de acordo. Pois, tanto a eles como a mim parece que o sábio conhece a sabedoria. Todavia lhe recomendam moderar o assentimento. Dizem que apenas lhes parece, mas que de nenhum modo sabem. Como seu eu afirmasse que sei! Digo que também a mim parece que é assim, pois somos insensatos, tanto eles como eu, se ignorarmos a sabedoria. Mas julgo que há algo que negam isso, isto é, se julgam que não se deve dar assentimento à verdade. Jamais dirão isso, mas afirmarão que não se pode encontrar a verdade. Portanto, por um certo lado me têm como aliado, enquanto não discordamos, e portanto necessariamente concordamos, que se deve dar assentimento à verdade. Mas quem a demonstrará? – perguntarão. Sobre este ponto não me preocupo em discutir com eles. Basta-me que já não seja provável que o sábio não conhece nada para não serem forçados ao absurdo de dizer que a sabedoria não é nada ou que o sábio ignora a sabedoria.

Quem pode mostrar-nos a verdade? Explicaste-o tu, Alípio, e preciso esforçar-me muito para não discordar do que disseste. Com efeito, disseste de modo não somente conciso, mas também e sobretudo religiosamente que só uma divindade pode mostrar ao homem a verdade. Ao longo  desta nossa discussão não ouvi nada mais agradável, espero, nos assiste, nada mais verdadeiro. Com que elevação de espírito e atenção ao que há de melhor em filosofia evocaste o célebre Proteu. Proteu – e aqui notai, jovens, que os poetas não devem ser totalmente desprezados pela filosofia – Proteu, digo, é a imagem da verdade. Nos poemas, Proteu assume e representa o papel da verdade, que ninguém pode alcançar, se enganado pelas falsas aparências, afrouxar ou abandonar os nós da compreensão. Pois são essas aparências que, pelo nosso hábito de ocupar-nos de  coisas corporais, por meio dos sentidos, que usamos para as necessidades desta vida, procuram enganar-nos e iludir-nos, mesmo quando estamos de posse da verdade e, por assim dizer, a temos nas mãos. E este é o terceiro êxito que obtive, que não sei como apreciar devidamente. Pois meu mais íntimo amigo concorda comigo não só no que há de provável na vida humana, mas também na própria religião, o que é o sinal mais evidente da verdadeira amizade. Com efeito, a amizade foi definida como muito acerto e santidade como “um consenso benévolo e caritativo sobre as coisas divinas e humanas”.

Todavia, para que os argumentos dos Acadêmicos não pareçam obnubilar nossa questão nem se julgue que orgulhosamente resistimos à autoridade de homens doutíssimos, entre os quais não pode deixar-nos indiferentes Túlio, começarei, se o permitir, dissertando um pouco contra aqueles que acreditam que essas discussões são dirigidas contra a verdade. A seguir, explicarei qual foi, a meu ver, a razão pela qual os Acadêmicos ocultaram seu verdadeiro pensamento. Assim, Alípio, embora te veja  completamente passado para o meu lado, assume por um momento a causa dos Acadêmicos e responde-me.

Alípio: – Como hoje avançaste, segundo se costuma dizer, sob bons auspícios, não impedirei a tua vitória completa e tratarei de assumir a defesa dos Acadêmicos  com tanto mais segurança que és tu que me impões a tarefa. Mas isso desde que, se o achares cômodo, transformes em discurso contínuo a argumentação que, segundo indicas, pretendes desenvolver em forma de perguntas, para que eu, como adversário pertinaz, prisioneiro teu, não seja crivado com teus dardos, coisa muito contrária a teus sentimentos de humanidade.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.  Como vimos no capítulo anterior, há um embate de entendimento e este ainda não será aqui resolvido. São Agostinho nos mostra que, para tudo que fazemos com afeição será prioridade a nós mesmo que este “trabalho” não nos seja a prioridade maior.

O título do capítulo de hoje é um termo não muito utilizado em nossa vida, para os irmãos de cadeira jurídica já tem muita familiaridade com este tal de “Irrazoabilidade”. Podemos entender aqui como sendo um processo para resolução de uma colisão, para o nosso contexto, um conflito de entendimento que lhe são passados somados à uma falta do “querer” aprender.

Precisamos estar vigilantes para que estejamos sempre, para as coisas do Alto (principalmente), com o máximo de afeição e zelo. Boa Leitura!!!

Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio

Em nossa volta, encontramos Licêncio, cuja sede nem Helicon poderia matar, todo ocupado em compor versos. Quase no meio da refeição, que todavia foi tão rápida que mal começou já terminou, saiu despercebidamente sem nada beber. Disse-lhe eu:

– Desejo que enfim possuas plenamente a arte poética que tanto desejas, não que esta perfeição me agrade muito, mas vejo que é tamanho o teu ardor que só a saciedade poderá libertar-te dessa paixão, o que costuma acontecer depois de atingida a perfeição. Além disso, como tens uma bela voz, eu preferiria ouvir-te declamar os teus versos a ouvir-te cantar, como aves presas em gaiolas, as palavras das tragédias gregas que não compreendes. Entretanto, aconselho-te que vás beber, se quiseres e depois voltes à nossa escola, se ainda tens alguma estima de Hortênsio e da filosofia, à qual já consagraste agradáveis primícias naquela discussão com Trigécio. Ela efetivamente já te havia inflamado mais ardentemente que a tua arte por ética para a ciência das coisas grandes e realmente frutíferas. Mas, ao desejar trazer-vos às disciplinas com as quais se cultiva o espírito, receio introduzir-vos num labirinto e quase me arrependo de ter freado o teu ímpeto poético.

Ele corou e retirou-se para beber, pois estava com muita sede e aproveitou a ocasião para evitar que eu lhe dissesse outras coisas mais duras.

Depois que ele voltou, todos atentos, recomecei com estas palavras:

– Não é verdade, Alípio, que discordamos a respeito de algo que me parece totalmente evidente?

– Não é nada estranho, disse ele, que o que dizer ser claro para ti seja obscuro para mim, pois o que é evidente para alguns pode sê-lo mais ainda para outros, do mesmo modo como o que é obscuro para alguns pode sê-lo mais ainda para outros. Se a coisa é clara para ti, acredita-me que há alguém para o qual ela é ainda mais clara e alguém para o qual é ainda mais obscuro o que é obscuro para mim. Mas como não quero passar mais tempo por obstinado aos teus olhos, peço-te que expliques mais claramente o que é evidente.

– Escuta com atenção, respondi, deixando por um momento de lado a preocupação da resposta. Se conheço bem a mim e a ti, o que vou dizer, se houver esforço, será claro e um logo convencerá o outro. Afinal, disseste, ou talvez eu estava surdo, que o sábio acreditava conhecer a sabedoria?

Ele fez sinal que sim.

– Deixemos por um momento de lado esse sábio, disse eu. Tu mesmo és sábio ou não?

– Todavia, retornei, gostaria que me dissesses o que pensas do sábio Acadêmico, parece-te que conhece a sabedoria?

Retrucou Alípio:

– Perguntas se ele crê conhecê-la ou se a conhece, ou outra coisa? Pois temo que esta ambiguidade sirva de subterfúgio para algum de nós.

Isso, respondi, é o que se costuma chamar de querela toscana: a uma questão colocada não se dá uma solução, mas se responde com outra objeção. Para agradar um pouco os ouvidos de Licêncio, é o que também o nosso poeta nas Bucólicas julga comum entre os camponeses e pastores: um deles pergunta ao outro onde o céu não tem mais que três côvados. O outro responde: “dize-me em que terra nascem flores em que estão inscritos os nomes dos reis?”. Peço-te, Alípio, não penses que isso nos seja permitido no campo, pois estes banhos, por modestos que sejam, nos lembram um pouco a beleza dos ginásios. Responde ao que te pergunto: a teu ver, o sábio dos Acadêmicos conhece a sabedoria?

Alípio:

– Para não ir demasiado longe, comentando palavras com palavras, parece-me que ele acredita que conhece.

– Portanto, disse eu, parece-te que ele não a conhece? Não estou perguntando o que te parece que o sábio acha, mas se tu achas que o sábio conhece a sabedoria. Creio que podes simplesmente afirmar ou negar.

– Oxalá, retorquiu Alípio, isso fosse tão fácil para mim como é para ti ou tão difícil para ti quanto o é para mim. Assim não serias tão importuno e não alimentarias nenhuma esperança de resposta. Pois, quando me perguntaste o que eu achava do sábio Acadêmico, respondi que me parecia que ele achava que conhecia a sabedoria, para não afirmar temerariamente que eu o sabia ou sustentar não menos temerariamente que o sábio sabia.

Peço-te o grande favor, retruquei, de responder ao que eu perguntei e não à pergunta que tu mesmo te fazes e, além disso, de deixar um pouco de lado a minha esperança que, segundo sei, não te preocupa menos que a tua – certamente se me deixar enganar por esta interrogação, passarei para o teu lado e logo terminaríamos a discussão – finalmente, peço-te expulsar não sei que inquietação que vejo dominar-te e prestar mais atenção para entender facilmente o que desejo que me respondas. Dissestes que não afirmavas nem negavas – como devias fazer para responder à minha pergunta – com receio de afirmar temerariamente saber o que não sabes. Como se eu te perguntasse o que sabes e não o que te parece! Assim, agora volto a perguntar-te mais claramente – se for possível ser mais claro: achas que o sábio conhece a sabedoria, ou achas que não?

– Se há um sábio como o apresenta a razão, respondeu Alípio, posso crer que ele conhece a sabedoria.

– Portanto, respondi, a razão te apresenta um sábio que não ignora a sabedoria. Até aqui respondeste perfeitamente, pois nem poderias ter outra opinião.

Agora te pergunto se é possível encontrar um sábio. Em caso afirmativo, ele também pode conhecer a sabedoria, e toda a questão entre nós está resolvida. Se, ao contrário, disseres que não se pode encontrar um sábio, já não perguntaremos se o sábio sabe alguma coisa, mas se alguém pode ser sábio. Assentado isso, deixemos de lado os Acadêmicos e discutamos esta questão entre nós como todo afinco e cautela possíveis. Pois os Acadêmicos julgavam, ou antes, opinavam que o homem pode ser sábio, mas que não é dado ao homem o conhecimento. Tu, porém achas que o sábio conhece a sabedoria, o que evidentemente não é não saber nada. Ao mesmo tempo concordamos, como todos os antigos e os próprios Acadêmicos, que ninguém pode ter conhecimento de coisas falsas. Donde se segue que deves afirmar que a sabedoria nada é ou admitir que o sábio descrito pelos Acadêmicos não é o sábio apresentado pela razão. Omitindo essas questões, vejamos se o homem pode alcançar a sabedoria tal como a descreve a razão. Pois não há outra sabedoria que devamos ou possamos corretamente chamar com este nome.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [O sábio e o conhecimento da sabedoria]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês!

Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.  Como vimos na sessão anterior à sabedoria pode estar intrinsecamente relacionada ao quanto dispomos para investir à sua busca, contudo São Agostinho nos remete a inverter essa tese. Hoje Alípio e Agostinho travam uma discussão sob a luz do sábio e o filósofo. Vamos conferir o desfecho?

Boa Leitura!!!

O sábio e o conhecimento da sabedoria

Gostaria que me explicasses um pouco qual a diferença que, a teu ver, existe entre o sábio e o filósofo.

Alípio: – A única diferença entre o sábio e o aspirante à sabedoria é que as coisas que o sábio possui como certo hábito, o aspirante à sabedoria só as tem em desejo.

Insisti: – Mas afinal em que consistem essas coisas? Pois a única diferença que me parece existir é que um conhece a sabedoria (scit sapientiam ), enquanto o outro deseja conhece-la ( scire desiderato )

Alípio: – Se desses uma breve definição da ciência, explicarias mais claramente a questão.

– Qualquer que seja a definição que eu der, respondi, todos concordam que não pode haver ciência de coisas falsas.

– Acreditei dever fazer-te esta objeção, temendo que, por um imprudente assentimento de minha parte, teu discurso galopasse sem obstáculo nos campos dessa questão fundamental.

– Francamente, retorqui, não me deixaste nenhum espaço para cavalgar. Pois, se não me engano, já chegamos ao termo que há tempo estou perseguindo. Pois, se a única diferença entre o aspirante à sabedoria e o sábio, como disseste com sutileza e verdade, é que o primeiro ama, enquanto o último possui a disciplina da sabedoria – razão pelo qual não hesitaste em dar-lhe o nome que lhe convém, isto é, certo hábito – e, por outro lado, ninguém pode possuir em seu ânimo uma disciplina ( disciplinam ) sem nada ter aprendido ( didicit ) e nada aprender quem nada  sabe e, além disso, ninguém, pode conhecer o falso, segue-se que o sábio, o qual admitiste ter disciplina da sabedoria, isto é, o hábito da sabedoria, conhece a verdade.

Alípio: – Seria muita audácia minha querer negar que reconheci que o sábio possui o hábito da pesquisa das coisas divinas e humanas. Mas não vejo como poder sustentar que não há hábito das probabilidades encontradas.

– Concedes, retorqui, que ninguém sabe o falso?

– Sem dificuldade, respondeu.

– Atreve-te, pois, a dizer que o sábio ignora a sabedoria, continuei.

– Mas por que, disse Alípio, encerras tudo nestes limites, de modo que não possa  “parecer” ao sábio que ele conhece a sabedoria?

Respondi: – Dá-me a mão direita. Pois, se ti recordas, foi isso que prometi ontem que demonstraria e agora me alegro que esta conclusão não seja minha, mas espontaneamente apresentada por ti. Com efeito, dizia eu que a diferença entre mim e os Acadêmicos era que a eles parecia provável que não se pode encontrar a verdade, enquanto a mim, se bem que ainda não encontrei, parece que pelo menos o sábio possa encontra-la. Agora, pressionado por minha pergunta se o sábio ignora a sabedoria respondeste que lhe parece que ele a conhece.

– E o que se segue daqui – inquiriu ele.

– É que, disse eu, se lhe parece que conhece a sabedoria, não lhe parece que o sábio pode saber nada. Ou então serás obrigado a dizer que a sabedoria não é nada.

Alípio: – Em verdade, eu acreditava que tínhamos chegado à conclusão, mas de repente, ao nos apertarmos as mãos, vejo que já uma grande oposição entre nós e que nos afastamos muito um do outro. Ontem, ao que parece, não havia entre nós outra questão senão que o sábio pode chegar à compreensão do verdadeiro segundo tua opinião, contrária à minha. Mas agora não me parece ter-te concedido mais que isso: que pode parecer ao sábio que conseguiu a sabedoria das coisas prováveis, sendo fora de dúvida para nós ambos que eu fiz consistir a sabedoria na busca das coisas divinas e humanas.

– Não é complicando que explicarás as coisas, respondi. Parece-me que estás disputando só para te exercitar. E como sabes muito bem que estes jovens dificilmente podem discernir as sutilezas da discussão, de certa forma estás abusando da ignorância dos teus juízes, e assim podes falar quanto quiseres sem que ninguém proteste. Pouco antes, quando eu te perguntei se o sábio conhece a sabedoria, disseste que lhe parecia, a ele sábio, que a conhecia. Portanto, a quem parece que o sábio conhece a sabedoria não lhe parece que o sábio não conhece nada. Só poderia afirmar isso que ousasse dizer que a sabedoria não é nada. Donde se segue que a tua opinião é a mesma que a minha, pois eu acho que o sábio sabe algo e creio que tu pensas assim, pois julgas que ao sábio parece que o sábio conhece a sabedoria.

Alípio: – Julgo não ter a intenção de exercitar mais meu engenho que tu, o que me surpreende, pois tu não tens nenhuma necessidade de exercitar-te nisso. A mim, talvez ainda cego, parece-me haver uma diferença entre crer que se sabe e saber, como entre a sabedoria que consiste na busca, e a verdade. Não vejo como concordar estas opiniões diferentes sustentadas por nós.

Como já nos chamastes para o almoço, disse eu: – Não me desagrada a tua resistência, pois ou ambos não sabemos o que estamos dizendo, e devemos esforçarmos para evitar tal vergonha, ou isso se aplica somente a um de nós, e não seria menos vergonhoso tolera-lo ou negligencia-lo. Mas a isso voltaremos depois do meio-dia. Quando me parecia que já tínhamos concluído, mostras-me os punhos!

Todos riram e retiramo-nos.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Necessidade da fortuna para tornar-se sábio]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, inicializar o livro III. A temática deste capítulo, que iremos estudar, é refletindo sobre a pergunta de que para nos tornarmos sábio, temos que ter dinheiro? Se trazermos isso para os nossos tempos, esta máxima é verdadeira? Qual é o valor do “investimento” necessário para adquirirmos alguma ‘sabedoria’?

Boa Leitura!!!

Necessidade da fortuna para tornar-se sábio

No dia seguinte ao daquela discussão contida no segundo livro, reunimo-nos nos banhos, pois o tempo estava muito sombrio para descer ao campo. Comecei assim:

– Creio que já entendestes suficientemente bem qual a questão que resolvemos discutir. Mas, antes de abordar a minha tese, peço que de bom grado ouçais algumas palavras, não alheias ao nosso assunto, sobre a esperança, a vida, o propósito que nos anima. Creio que nossa tarefa, não banal ou supérflua, mas necessária e suprema, é procurar a verdade com todo empenho. Nisso estamos de acordo Alípio e eu. Com efeito, os outros filósofos julgaram que o seu sábio encontrara a verdade. Os Acadêmicos afirmaram que o sábio deve fazer todo o esforço para encontra-la e de fato o faz com toda a dedicação. Mas, como a verdade está oculta ou confusa, para orientar a sua vida, devia seguir o que lhe parecesse provável ou verossímil. Tal foi também o resultado da vossa discussão de ontem. Efetivamente, um afirma que o homem alcança a felicidade pela descoberta da verdade, enquanto para outro basta busca-la diligentemente. Portanto, está fora de qualquer dúvida para qualquer um de nós que não há nada que devamos antepor a essa tarefa. Assim, pergunto-vos: como foi o dia que tivemos ontem? Quisestes dedica-los aos vossos estudos. Tu, Trigécio, deleitaste-te com os poemas de Virgílio, e Licêncio dedicou-se à composição de versos, paixão que o inflama, de tal modo que foi principalmente por causa dele que julguei necessário instituir este discurso, para que a filosofia ocupe e reclame no seu espírito – pois já é tempo – um espaço maior que a poesia e qualquer outra disciplina.

Mas dizei-me, não lamentastes a nossa sorte de ontem? Fomos dormir com a ideia de levantar-nos no dia seguinte para nos dedicarmos à questão adiada e a nada mais. Todavia apareceram tantos afazeres domésticos inadiáveis que nos ocuparam de tal modo que mal nos restaram as duas últimas horas do dia para nos recolhermos. Assim, sempre foi minha opinião que o homem que já alcançou a sabedoria não tem necessidade de nada, mas para tornar-se sábio a fortuna lhe é muito necessária. Mas talvez Alípio tenha outra idéia.

Alípio: – Ainda não entendi bem qual a importância que atribuis à fortuna. Se para desprezá-la julgas que ela mesma é necessária, acompanho-te nesta opinião. Se, ao contrário, o que concedes à fortuna consiste em dizer que sem sua permissão não se pode prover às necessidades corporais, não concordo. Pois, ou quem ainda não é sábio mas aspira à sabedoria pode, apesar da oposição da fortuna, adquirir o que é necessário para a vida, ou devemos conceder que a fortuna domina também a vida, ou devemos conceder que a fortuna domina também toda a vida do sábio, visto que este não pode renunciar às coisas necessárias ao corpo.

Dizes, portanto, repliquei que a fortuna é necessária a quem procura a sabedoria, mas não ao sábio.

– Não é inoportuno, tornou Alípio, repetir as mesmas coisas. Assim, vou agora perguntar-te se, a teu ver, a fortuna ajuda a desprezá-la a ela mesma. Se pensas assim, digo-te que o aspirante à sabedoria tem grande necessidade da fortuna.

– Penso isso, repliquei, pois é por ela que o aspirante à sabedoria será tal que possa desprezar a fortuna. E isso não é absurdo. Quando somos crianças, temos necessidade do seio materno, graças ao qual podemos depois viver e crescer sem ele.

– Para mim está claro, disse Alípio, que nossas opiniões concordam, se realmente exprimem nossas concepções, a menos que talvez alguém julgue necessário observar que não é o seio nem a fortuna, mas outra coisa que nos faz desprezar esta e aquele.

– Não é difícil encontrar outra comparação, retomei eu. Ninguém atravessa o mar Egeu sem navio ou algum outro meio de transporte ou se não quiser temer o próprio Dédalo em pessoa, sem instrumento adequados a essa travessia ou sem a ajuda de algum poder oculto. Todavia, não tem outro desejo que chegar ao término e,  uma vez alcançado o seu destino, está pronto a rejeitar e desprezar tudo o que lhe serviu para a travessia. Do mesmo modo, quem quiser chegar ao porto da sabedoria e, por assim dizer, à terra totalmente firme e tranquila da sabedoria – pois, para calar outras coisas, se for cego ou surdo não o poderá, o que depende da fortuna – parece-me necessária a fortuna para alcançar o que deseja. Uma vez conseguido este fim, ainda que julgue necessitar de certas coisas relativas ao bem-estar corporal, é certo que não precisa dessas coisas para ser sábio, mas apenas para viver entre os homens.

– Mais que isso, interrompeu Alípio, se for cego e surdo, a meu ver, com razão desprezará tanto a aquisição da sabedoria como a vida para a qual se busca a sabedoria.

Todavia, disse eu, como a nossa vida presente está sob o poder da fortuna e só quem vive pode tornar-se sábio, não devemos admitir que temos necessidade do seu favor para chegar à sabedoria?

– Mas como a sabedoria só é necessária aos vivos, replicou Alípio, e eliminada a vida não há nenhuma necessidade de sabedoria, não temo a fortuna ao avançar na vida, pois é porque vivo que quero a sabedoria, e não é porque desejo a sabedoria que quero a vida. Consequentemente, se a fortuna me tirar a vida, me privará do motivo de buscar a sabedoria. Assim, para ser sábio, não tenho por que desejar o favor da fortuna ou temer seus revesses, a não ser que me apresentes outras razões.

– Portanto, repliquei, não achas que o aspirante á filosofia pode ser impedido pela fortuna de alcançar a sabedoria, mesmo que não lhe tire a vida?

– Julgo que não, respondeu.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [Elucidação do problema a ser discutido]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, finalizar o livro II.

Como Licêncio, ruborizado, temesse o ataque de Alípio, intervim:

– Preferiste dizer tudo de uma vez, Alípio, a discutir, como se deve com estes jovens que não sabem falar.

Respondeu Alípio:

– De há muito tanto eu como os demais sabemos todos, e agora demonstrastes com o exercício da tua profissão, que és perito na arte da palavra. Assim, gostaria que primeiro explicasse a utilidade da pergunta de Licêncio. A meu ver, ou é supérflua, e neste caso seria igualmente supérfluo dar-lhe uma resposta mais longa, ou parece oportuna e eu não sei responder a ela, e neste caso te peço que não te moleste exercer o ofício de mestre.

– Recordas-te, disse eu, que ontem prometi que trataríamos mais tarde da questão das palavras. Agora o sol manda recolher nas cestas o que ofereci como jogos aos rapazes, tanto mais que o exponho mais como ornato que para venda. Mas antes que as trevas, que costumam proteger os Acadêmicos, nos impeçam  de escrever, quero que decidamos claramente entre nós a questão de que devemos tratar amanhã. Assim, responde-me se achas que os Acadêmicos tiveram uma doutrina certa sobre a verdade e não quiseram transmiti-la imprudentemente a desconhecidos ou a espíritos não purificados, ou realmente tiveram as opiniões que resultam das suas discussões.

Alípio: – Não quero afirmar levianamente o que eles pensavam. Quanto ao que se pode deduzir dos livros, sabes melhor que eu em que termos costumavam propor sua doutrina. Mas se me perguntares pela minha opinião pessoal,  creio que ainda não se encontrou a verdade. Acrescento ainda, para responder ao que me perguntavas com relação aos Acadêmicos, que julgo que não se pode encontrar a verdade. Esta não é somente a minha opinião arraigada que quase sempre professei como sabes, mas também a de grandes e excelentes filósofos, perante os quais nos obrigam a curvar a cabeça tanto a fraqueza do nosso espírito como a sagacidade deles, impossível, ao que parece, de superar.

– É isso o que eu queria, disse eu. Pois temia que fôssemos da mesma opinião e assim nossa discussão resultasse incompleta, por falta de alguém que, tomando o partido contrário, nos obrigasse a discutir e examinar a questão com toda a diligência possível. Se assim fosse, eu já estava pensando em pedir-te que assumisses a defesa dos Acadêmicos, afirmando que não só disputaram, mas também pensaram que não se pode conhecer a verdade. Trata-se, portanto, de saber entre nós se, segundo os argumentos deles, é provável que nada se pode conhecer e a nada se deve dar assentimento. Se conseguires demonstrar isso, sem dificuldade me darei por vencido. Mas se eu demonstrar que é muito mais provável que o sábio pode chegar à verdade e que não se deve sempre suspender o assentimento, creio que não terás como recusar-te a passar para a minha opinião.

A proposta agradou Alípio e aos presentes. Já envolvidos pelas sombras da noite, voltamos para casa.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P. I |Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.II | Livro II – Segundo Prólogo a Romaniano P.III | Livro II – Síntese da Doutrina Acadêmica | Livro II – Gênese da nova Academia e sua relação com a antiga | Livro II – Verossimilhança e conhecimento do verdadeiro | Livro II – Importância do problema da possibilidade de encontrar a verdade | Livro II – Caráter substancial e não meramente verbal da controvérsia sobre o “verossímil” | Livro II – O autêntico significado do conceito acadêmico de “verossímil”

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro II [O autêntico significado do conceito acadêmico de “verossímil”]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, dar continuidade ao tema “verossímil” em relação ao conceito Acadêmico.

Quinta Discussão – O autêntico significado do conceito acadêmico de “verossímil”

O dia seguinte não amanheceu menos agradável e sereno. Todavia, foi difícil desembaraçar-nos das ocupações domésticas, pois consumimos grande parte do dia escrevendo cartas. Quando já restavam apenas duas horas, fomos ao campo, pois convidava-nos a extrema limpidez do céu e não queríamos perder o pouco tempo que ainda tínhamos. Depois que chegamos à arvore costumeira e todos se tinham acomodado, comecei:

 – Rapazes, como hoje não podemos tratar de uma grande questão, gostaria que me recordassem como ontem Alípio respondeu à perguntinha que vos perturbou.

Respondeu Licêncio: – A resposta foi tão curta, que não há problema em recordá-la. Mas cabe a ti julgar o seu peso. Parece-me que, sendo clara a questão, ele te impediu de levantar uma discussão de palavras.

 – Percebestes bem, tornei eu, o sentido e o alcance dessa resposta?

Licêncio: – Creio ter entendido o que significa, mas peço-te que a expliques um pouco mais. Pois muitas vezes te ouvi dizer que numa discussão é vergonhoso deter-se em questões de palavras, quando já não há dúvida quando às coisas em si. Mas isso é demasiado sutil para que se me peça uma explicação a mim.

Ouvi, pois, continuei, de que se trata. Os Acadêmicos chamam provável ou verossímil agir sem assentimento. Quando digo sem assentimento, quero dizer de tal modo que sem ter por verdadeiro o que fazemos e julgando ignorar a verdade, não deixamos de agir. Por exemplo, se na noite passada, com o céu tão desanuviado e puro, alguém nos perguntasse se hoje nasceria um sol tão radioso, creio que teríamos respondido: não sabemos, mas parece que sim. Tal me parece ser, diz o Acadêmico, tudo o que julguei dever chamar provável ou verossímil.  Se quiseres chama-lo com outro nome, não me oponho. Basta-me saber que entendeste bem o que digo, isto é, a que coisas dou estes nomes. “Pois o sábio não deve ser um artífice de palavras, mas um investigador da realidade”. Compreendestes como me foram arrancados das mãos os brinquedos com que vos exercitava?

Ambos responderam que sim, mas a expressão do rosto deles pedia uma resposta minha. Disse lhes então: – Por acaso pensais que Cícero, de quem são estas palavras, era tão ignorante da língua latina que desse nomes pouco adequados às coisas que tinha em mente?

Trigécio: – Agora que a questão real está clara, não queremos levantar nova discussão de palavras. Vê, antes, o que tens a responder àquele que nos libertou, em vez de tentar novamente atacar-nos.

Licêncio: – Um momento, por favor, pois me vem à mente uma luz pela qual vejo que não se deveria ter-te arrebatado um argumento tão forte.

Depois de refletir um momento em silêncio, continuou:

– Nada me parece mais absurdo que alguém dizer que segue o verossímil quando ignora a verdade. E neste ponto nem a tua comparação me perturba. Se me perguntarem se a presente condição do tempo não ameaça chuva para amanhã, respondo que não é verossímil, porque não nego que conheço alguma verdade. Pois sei que esta árvore não pode subitamente tornar-se uma árvore de prata e há muitas outras coisas que sem temeridade afirmo conhecer, às quais vejo serem semelhantes às que chamo verossímeis. Mas tu, Carnéades, ou outra peste grega, para não falar dos nossos – pois por que hesitarei em passar para o partido de quem sou prisioneiro por direito de vitória? – quando dizes não conhecer nenhuma verdade, donde saber que segues o verossímil? Efetivamente não posso dar-lhe outro nome. O que discutir com um homem que não pode sequer falar?

Tomou a palavra Alípio: – Não temo os desertores. E muito menos os teme Carnéades, contra quem, levado por uma leviandade, não sei se juvenil ou pueril, julgaste dever lançar maldições em vez de um argumento. Pois, para confirmar a sua opinião que sempre se apoiou somente no provável, lhe seria fácil e suficiente alegar contra ti que nos encontramos tão longe de encontrar a verdade, que tu mesmo podes ser uma prova decisiva disso, visto que de tal modo foste abalado por uma simples pergunta, que não sabias da certeza que há pouco afirmavas ter em relação à arvore, deixemo-lo para outra ocasião. Embora já tenhas escolhido outro partido, contudo deves instruir-te diligentemente sobre o que eu disse um pouco antes. Pois parece-me que ainda não penetramos no âmago da questão de saber se é possível encontrar a verdade. Mas achei que no umbral da minha defesa devia ser proposta a questão em relação à qual eu te vira abatido e prostrado. Isto é, se não se deve procurar o verossímil ou o provável – ou outro nome que se lhe queira dar – com que se dão por satisfeitos os Acadêmicos. Pois se tu já te consideras um perfeito conhecedor da verdade, pouco me importa. Se depois não fores ingrato ao meu patrocinador, talvez me ensinarás essas coisas.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

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