Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Sacramento universal de salvação

Igreja Católica

A missão da Igreja é divina: Anunciar e instaurar no meio de todos os povos o Reino de Deus inaugurado por Jesus Cristo até a sua volta. Por isso podemos dizer que ela é na tera o germe do Reino de Deus.

Entendemos o germe como embrião, como a parte da semente que dá origem a planta jovem, como a causa ou origem de alguma coisa. É certo que sabemos que Jesus é a origem de tudo. Mas sabemos que no embrião repousa o DNA daquilo que há de ser. Na Igreja Católica Apostólica Romana, repousa o DNA de Cristo.

O Reino de Deus começa na Igreja e depois se espalha para os quatro cantos da terra. A Igreja é o “start” para a implantação o Reino de Deus. E com isso não quero dizer do espaço físico das igrejas e capelas, mas da Religião Católica Apostólica Romana. A Igreja quanto espaço físico é importante para que os homens se reúnam para prestar culto a Deus. É importante porque ali repousa o Cristo sob a forma do Pão e do Vinho – Santíssimo Sacramento. É importante por que é lá que recebemos a Santíssima Eucaristia que é o alimento para a nossa caminhada rumo a Jerusalém Celeste.

A igreja (espaço físico) não é importante por causa apenas da comunidade. Não é importante para fazermos meros contatos sociais e comerciais. AIgreja não é (e nem pode ser) uma ONG e muito menos um sindicato ou associação de moradores. Não é isso que faz a igreja ser igreja e portanto germe do Reino de Deus. A partir do momento em que os homens a ela se dirigem para prestar culto a Deus, a igreja se torna semente de um mundo novo, pois o visível e o invisível se unem. Ali acontece o mistério salvífico do Pai. Na igreja (espaço físico) que vemos, se torna Igreja quando o aspecto místico e espiritual está presente. Isto é um mistério de fé.

“A palavra grega mysterion foi traduzida em latim por dois termos: mysterium e sacramentum. Na segunda interpretação, o termo sacramentum exprime prevalentemente o sinal visível da realidade oculta da salvação, indicada pelo termo mysterium. Neste sentido, o próprio Cristo é o mistério da salvação: ‘Nem há outro mistério senão Cristo. A obra salvífica da sua humanidade santa e santificadora é o sacramento da salvação, que se manifesta e actua nos sacramentos da Igreja (que as Igrejas do Oriente chamam também os santos mistérios)’. Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo derrama a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja que é o seu Corpo. A Igreja possui, pois, e comunica a graça invisível que significa: e é neste sentido analógico que é chamada ‘sacramento'”. (CIC§774)

Por isso afirmamos sem medo que a Igreja Significa sinal, instrumento da reconciliação e da comunhão de toda a humanidade com Deus, e da unidade de todo o gênero humano. Nela, esta unidade já começou, pois reúne homens de toda a nação, raça, povo e língua.

Eu não sei se você já viveu a experiência de participar de uma Santa Missa no Rito Romano em outra língua que não a sua, seja no inglês, n espanhol, no alemão ou até no latim. Eu vivi esta experiência já e foi muito legal perceber que ainda que eu não soubesse a língua em que a missa estava sendo celebrada, eu sabia distinguir todos os momentos vividos na Santa Missa. Isso por que o Rito é o mesmo! Na Santa Missa todos podem celebrar juntos, viver a fé em harmonia. Nada impede a Igreja de ser sinal do Reino de Deus.

A Igreja é, ao mesmo tempo, sinal e instrumento da plena realização desta unidade, que ainda há de vir. Se você é católico, alegre-se: Você faz parte de uma instituição criada por Deus, linda e cheia de riquezas!

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Livro Maria Sempre Virgem e SantaVeja também o livro do Cadu (Administrador do Blog Dominus Dominus Vobiscum): Maria Sempre Virgem e Santa. Nele você vai encontrar ensinamentos seguros da doutrina da Igreja a respeito da Santíssima Virgem Maria, além das orações mais tradicionais da nossa Igreja à Virgem Mãe de Deus. Vendas apenas pela internet nos sites Clube de Autores e Agbook. Um livro para quem deseja ser mais íntimo de Nossa Senhora.

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Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Mistério da união dos homens com Deus

Igreja Católica

Nos tempos de hoje, onde se cria uma religião a cada dia que passa, é importante para nós católicos entendermos a verdade sobre a Igreja Católica Apostólica Romana. A nossa igreja não é mais uma, e não pode ser comparada com qualquer uma. A nossa Igreja é a mesma Igreja que Jesus chamou de “Minha Igreja”.

A nossa Igreja (entenda Igreja Católica Apostólica Romana) é a mesma que o próprio Jesus instituiu pensando em algo muito maior do que quatro paredes. A Igreja Católica Apostólica Romana é além de tudo e acima de tudo, sinal da união entre Deus e os homens.

Assim como a aliança é sinal de um compromisso sacramental entre o homem e a mulher, a Igreja é o sacramento da união do homem com Deus.

É na Igreja que Cristo realiza e revela o seu próprio mistério, como a meta do desígnio de Deus: “recapitular tudo Nele” (Ef 1, 10). São Paulo chama “grande mistério” (Ef 5, 32) à união esponsal de Cristo e da Igreja. Porque está unida a Cristo como a seu esposo, a própria Igreja, por seu turno, se torna mistério. E é contemplando nela este mistério, que S. Paulo exclama: “Cristo em vós — eis a esperança da glória!” (Cl 1, 27). (CIC§772)

A Igreja é o projeto visível do amor de Deus pela humanidade. O Senhor Jesus nos ama tanto, que instituiu, fundamentou e deixou para nós a Igreja. Nela o mistério acontece, pois o pão se transforma no Corpo de Cristo, o vinho se transforma em Sangue de Cristo e ambos alimentam a nossa alma. Nela acontece o perdão dos pecados. Ali acontecem os sacramentos. Nós criaturas através do batismo, nos tornamos Filhos de Deus quando passamos a fazer parte do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja.

A Igreja é a visualização mais completa da Caridade de Jesus, que ama a Igreja como o esposo ama a esposa. Ele ama com um amor eterno. Por ela sofreu a paixão e derramou o seu sangue. Ele a ama como um Esposo apaixonado:

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo, para apresentá-la a si mesmo toda glorificada, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27).

Essas palavras expressam o amor profundo de Jesus para com a “sua” Igreja. Esse amor é tão grande e tão fundamental, que Deus quis que cada casal na terra, pelo amor mútuo, refletisse na realidade cotidiana do matrimônio, esse amor. É por isso que São Paulo ao falar aos efésios, do matrimônio, diz que “é grande esse mistério, quero dizer, com referência a Cristo e a Igreja”. A vida cotidiana do casamento nos ajuda a compreender melhor o amor de Cristo para com a sua Esposa – a Igreja – e, vice-versa.

São Paulo, que entendeu profundamente essa maravilha, exortou os maridos a amarem as suas esposas, “como a seu próprio corpo” (Ef 5,28). Com isto, quer dizer também que a Igreja é o próprio Corpo de Cristo. “Quem ama a sua mulher ama a si mesmo” (28). Quem ama a Igreja, ama a Cristo; é a mesma realidade.

O Papa Paulo VI, cujo amor à Igreja era imenso, assim se referiu a ela:

“A Igreja! Ela é nosso amor constante, nossa solicitude primordial, nosso pensamento fixo… Não se ama a Cristo se não se ama a Igreja; e não amamos a Igreja se não a amamos como a amou o Senhor: “Amou a Igreja e por ela se entregou” (Ef 5,25)”.

É preciso destacar o que disse o Papa: “Não se ama Cristo se não se ama a Igreja”, e podemos ir mais longe ainda e dizer: não se conhece a Cristo, se não se conhece a Igreja; não se serve a Cristo, se não se serve a Igreja; não se obedece a Cristo se não se obedece à Igreja; não se sujeita a Cristo, se não se sujeita à sua Igreja, não está na verdade de Cristo quem não está na verdade da Igreja.

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Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Igreja Católica visível e espiritual. Humana e Divina

Igreja Católica

Quando falamos da nossa Igreja, é preciso explicar alguns conceitos que são fundamentais a nossa fé. Veja bem, a Igreja Católica é uma instituição fantástica e muito mais complexa do que imaginamos. Ela é algo muito maior que qualquer outra instituição do mundo em todos os tempos. Nenhuma outra instituição durou tanto tempo com o mesmo prestígio. Nem os maiores impérios da história conseguiram a façanha que a Igreja Católica conseguiu. Provavelmente muita coisa mudará no mundo em que vivemos, mas a Igreja Católica permanecerá de pé, por que esta é a vontade de Deus a nosso respeito.

Não se pode realizar uma análise completa da Igreja como olhos puramente humanos, pois existe uma parte dela que é espiritual e portanto invisível. Também não podemos analisá-la com olhos puramente espirituais, pois parte dela é visível e tocamos nela dia a dia. A Igreja Católica Apostólica Romana é visível e espiritual ao mesmo tempo. E esta ligação é tão íntima que mesmo se olhamos os órgãos hierárquicos da Igreja, vemos que diariamente o visível e o invisível convivem em todos os momentos. No dia a dia da igreja, o divino e o humano se tocam, se misturam e se completam.

Se você prestar um pouco mais de atenção nisso, você verá que na própria comunidade paroquial que você frequenta existem diversos momentos onde a Igreja terrestre é ornada com os bens celestes.

A Igreja é simultaneamente humana e divina. Por isso que o cristão precisa basear a sua vida de fé na ação, mas também na contemplação. As duas dimensões da Igreja convivem também em nós.

É importante perceber que a Igreja Católica Apostólica Romana não é mais uma instituição entre tantas instituições. Não é mais uma Igreja entre tantas igrejas que existem por ai. Ela foi instituída pelo próprio Jesus Cristo e com isso se criou algo que começa no céu, toca na nossa humanidade e volta ao Pai.

E por ser assim, ninguém tem o direito de reduzir a nossa Igreja a um grupinho de fiéis, a uma ONG ou a um grupo social. A Igreja é o corpo místico de um Cristo que é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Como diz o São Bernardo de Bernardo de Claraval:

Humildade! Sublimidade! Tenda de Cedar e santuário de Deus; habitação terrena e palácio celeste; casa de barro e corte real; corpo mortal e templo de luz; enfim, objeto de desprezo para os orgulhosos e esposa de Cristo! Ela é morena mas bela, ó filhas de Jerusalém; ela que, empalidecida pela fadiga e sofrimento dum longo exílio, tem, no entanto, por ornamento a beleza celeste (São Bernardo de Bernardo de Claraval, In Canticum sermo 27, 7, 14: Opera, ed. J. Leclercq-C.H. Talbot-H. Rochais, V. I (Romae 1957) p. 191.)

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Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Divina e Humana, santa e santificadora

Igreja Católica

A cada dia que passa, mais eu tenho a certeza que a Igreja Católica Apostólica Romana é o maior presente que Jesus Cristo deixou para a humanidade. Quando penso na complexidade dela, mais eu me encanto. Sua riqueza é incalculável! Não sei se podemos medir o valor da Igreja Católica, mas basta saber que é o próprio Jesus que a sustenta. Ele a criou e ele se compromete em sustentá-la.

O Catecismo da Igreja Católica nos diz que:

“O Mediador único, Cristo, constituiu e incessantemente sustenta aqui na terra sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e caridade, como um ‘todo’ visível pelo qual difunde a verdade e a graça a todos.” A Igreja é ao mesmo tempo:

– Sociedade provida de órgãos hierárquicos e Corpo Místico de Cristo;
– Assembléia visível e comunidade espiritual;
– Igreja terrestre e Igreja enriquecida de bens celestes.

Essas dimensões constituem “uma só realidade complexa em que se funde o elemento divino e humano”: Caracteriza-se a Igreja por ser humana e ao mesmo tempo divina, visível, mas ornada de dons invisíveis, operosa na ação e devotada à contemplação presente no mundo e, no entanto, peregrina. E isso de modo que nela o humano se ordene divino e a ele se subordine, o visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura, que buscamos. (CIC§771)

É preciso entender que estas três dimensões da Igreja são independentes e ao mesmo tempo interligadas. A Igreja em sua complexidade é santa e ao mesmo tempo santificadora. É humana e divina ao mesmo tempo, pois se constitui de santos e pecadores. Não conheço nenhuma instituição no mundo que possua em seu corpo tal complexidade. Nela se fundem o mundo visível e o mundo espiritual, e é justamente por isso que encontramos nela um modelo tão incrível a ponto de caminhar nela.

Quem caminha apenas no mundo visível, vê apenas as falhas, os erros que como já disse anteriormente não são da Igreja, mas dos filhos da igreja. Quem caminha apenas no invisível se perde no ufanismo de seus pensamentos, pois o visível norteia o invisível. A Igreja se confunde em uma só frase: “Pés no chão e coração ao alto!”.

Como dizia São Bernardo:

Ó humildade! Ó sublimidade! Tabernáculo de Cedar e santuário de Deus; morada terrestre e palácio celeste; casa de barro e sala régia; corpo de morte e templo de luz; finalmente, desprezo para os soberbos e esposa de Cristo! És negra, mas formosa, ó filha de Jerusalém: ainda que desfigurada pelo labor e pelado longo exílio, a beleza celeste te adorna. (São Bernardo)

Fazer parte da verdadeira e única Igreja de Cristo é fazer parte de um mistério lindo e transformador! Deus abençoe a você que é Igreja e que ama a Igreja Católica Apostólica Romana!

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Livro Maria Sempre Virgem e SantaVeja também o novo livro do Cadu (Administrador do Blog Dominus Dominus Vobiscum): Maria Sempre Virgem e Santa. Nele você vai encontrar ensinamentos seguros da doutrina da Igreja a respeito da Santíssima Virgem Maria, além das orações mais tradicionais da nossa Igreja à Virgem Mãe de Deus. Vendas apenas pela internet nos sites Clube de Autores e Agbook. Um livro para quem deseja ser mais íntimo de Nossa Senhora.

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [O problema do Assentimento]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum!

Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.

O problema do assentimento

Voltemos, pois, àquela parte onde Alípio parece ainda ter dúvidas. E em primeiro lugar vejamos o que te perturba de maneira tão aguda e te inspira tanta cautela. Pois se a tua descoberta que nos obriga a confessar que é muito mais provável que o sábio conhece a sabedoria, abala a opinião dos Acadêmicos, fortalecida por tantos e tão fortes razões (tu mesmo disseste isto), de que o sábio nada sabe, devemos suspender ainda mais o assentimento. Pois exatamente isso mostra que não há nenhuma proposição, por mais numerosos e sutis que sejam os argumentos aduzidos, a que não se possa resistir com argumentos não menos fortes ou até mais fortes da parte contrária. Daqui resulta que, quando é vencido, o Acadêmico é vencedor. Oxalá seja vencido! Nenhum artifício dos gregos fará com que ele se aparte de mim ao mesmo tempo vencido e vencedor. Certamente, se não houver outra coisa a dizer contra esses raciocínios, espontaneamente me darei por vencido. Pois aqui não tratamos de buscar a glória, senão de encontrar a verdade. A mim me basta transpor de qualquer modo este obstáculo que se opõe aos que querem ingressar na filosofia, retendo-os em não sei que tenebrosos esconderijos; ameaça fazer crer que toda filosofia é tal e não permite esperar que nela se possa encontrar a luz. Se é provável que o sábio sabe alguma coisa, nada mais tenho a desejar. Pois nenhuma razão me fazia julgar verossímil que o sábio devia suspender o seu assentimento, senão a de que era verossímil que nada se pode conhecer. Eliminada esta dificuldade, pois como se concede, conhece pelo menos a sabedoria, já não resta nenhuma razão para o sábio não dar o seu assentimento pelo menos à sabedoria. Com efeito é sem dúvida mais absurdo para o sábio não aprovar a sabedoria que não conhecê-la.

Imaginemos, por um instante, se podemos, o seguinte espetáculo:  uma disputa entre o sábio e a sabedoria. O que diz a sabedoria senão que ela é a sabedoria? Mas o sábio diz: não creio. Quem diz à sabedoria: não creio na existência da sabedoria? Quem, senão aquele com o qual ela pode falar e em quem se dignou habitar, isto é, o sábio? Vinde, portanto, pedir-me que lute com os Acadêmicos. Já tendes um novo gênero de luta: o sábio e a sabedoria disputam entre si. O sábio não quer dar assentimento à sabedoria. Convosco espero tranquilamente o resultado. Pois quem não acredita que a sabedoria é invencível? Todavia, vamos munir-nos de algum dilema. Neste certame, ou o Acadêmico vencerá a sabedoria e será vencido por mim, pois não será sábio, ou será vencido por mim, pois não será sábio, ou será derrotado por ela e afirmaremos que o sábio dá seu assentimento à sabedoria. Portanto, ou o Acadêmico não é sábio, ou o sábio dará seu assentimento a alguma coisa. A menos que quem teve vergonha de dizer que o sábio ignora a sabedoria não tenha vergonha de dizer que o sábio não dá assentimento à sabedoria. Mas, se já é verossímil que pelo menos o conhecimento da sabedoria compete ao sábio, e ele não tem nenhuma razão de não dar seu assentimento ao que se pode perceber, concluo que o que eu queria é verossímil, ou seja, que o sábio dará seu assentimento à sabedoria. Se perguntares onde ele encontra a sabedoria, responderei: em si mesmo. Se disseres que o sábio não sabe o que possui, voltas ao absurdo de que o sábio não conhece a sabedoria. Se negares que é possível encontrar um sábio, já não é com os Acadêmicos, mas contigo, quem quer que pensas assim, que será necessário instituir outra discussão. Pois os Acadêmicos, quando discutem essas questões, é evidentemente do sábio que tratam. Cícero declara que ele mesmo tem muitas opiniões, mas que sua busca se refere ao sábio. Se ainda não o sabeis, caros jovens, certamente lestes no Hortênsio: “Se nada há de certo e não convém ao sábio opinar sobre nada, o sábio nunca aprovará nada”. É, portanto, evidente que é do sábio que os Acadêmicos tratam nas suas discussões, contra as quais dirigimos nossos esforços.

Julgo, portanto, que o sábio tem certeza da sabedoria, isto é, que o sábio conhece a sabedoria e que por isso ele não opina quando dá seu assentimento à sabedoria. Pois ele dá seu assentimento a uma coisa tal que se não a conhecesse com certeza, não seria sábio. Os próprios Acadêmicos negam que se deva recusar o assentimento senão a coisas que não se podem perceber. Ora a sabedoria não é algo que não é nada. Portanto, ao conhecer a sabedoria e dar-lhe se assentimento, não se pode dizer que ele não conhece nada nem que ele dá seu assentimento a nada. O que mais quereis? Ou falaremos daquele erro que, segundo eles, se evita completamente quando o assentimento não faz pender o espírito para nenhum lado. Erra, com efeito, dizem eles, quem aprova não só uma coisa falsa, mas também uma coisa dúbia, ainda que esta seja verdadeira. Ora não há nada que não seja duvidoso. Mas o sábio, como dizíamos, encontrar a sabedoria.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos | Livro III – O problema da certeza em Filosofia

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [O problema da certeza em Filosofia]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III.

O problema da certeza em filosofia

O que acabamos de dizer, salvo engano, é suficiente para a vitória, mas talvez não o seja para uma vitória completa. Os acadêmicos sustentam duas coisas, contra as quais decidimos lutar. Nada se pode conhecer e não se deve dar assentimento a nada. Do assentimento trataremos adiante. Agora falemos um pouco mais sobre o conhecimento. Dizeis que não se pode conhecer absolutamente nada? Aqui desperta Carnéades, afinal ninguém de todos ele dormiu  menos profundamente que ele, e observa a evidência das coisas. Imagino que fale assim consigo mesmo, como sói acontecer. “Então, Carnéades, dirás que não sabes se és homem ou formiga? Ou Crisipo triunfará sobre ti? Digamos que ignoremos o que se indaga entre os filósofos. O resto não nos diz respeito. Se eu tropeçar na luz cotidiana e ordinária, apelarei para as trevas dos ignorantes, onde só veem certos olhos divinos, os quais ainda que uma vejam vacilando e caindo, não podem entregar-me à zombaria dos cegos, sobretudo dos arrogantes e dos que têm vergonha de ser ensinados.

Na verdade avanças, ó habilidade grega, elegantemente vestida e bem preparada. Mas não reparas que aquela definição é obra de um filósofo, fixada e estabelecida no próprio vestíbulo da filosofia. Se tentares cortá-la, o machado de dois gumes recairá em tuas pernas. Porque, uma vez que a abalaste se não ousares destruí-la completamente, segue-se que não só se pode perceber algo, mas que também se pode perceber o que é muito semelhante ao falso.

É na verdade o teu esconderijo, donde saltas e atacas veementemente os incautos que querem passar adiante. Mas virá algum Hércules que te sufocará na tua caverna como ao semi-homem, esmagando-te sob as suas ruínas e ensinando-te que há em filosofia algo que não pode ser reduzido à incerteza por ser semelhante ao falso.

Na verdade eu me apressava em busca de outras coisas. Quem nisso insiste, Carnéades, afronta-te, tomando –te por morto que pode ser por mim vencido em qualquer lugar e de qualquer maneira. Se não pensa assim, é cruel obrigando-me a deixar a fortaleza e lutar contigo em campo raso. Quando comecei a descer a campo, aterrado só pelo teu nome, arredei o pé e de um lugar mais alto lancei alguma cosia. Vejam os que presenciam nossa luta se te atingiu ou que outro efeito produziu. Mas por que temo, inepto? Se bem me lembro, estás morto e nem Alípio tem o direito de lutar pela sua sepultura. Deus me ajudará facilmente contra tua sombra.

Afirmas que nada se pode saber ao certo em filosofia. E para difundir amplamente o teu discurso apelas para as rixas e dissensões entre os filósofos, acreditando que te fornecem armas contra eles.

Como julgaremos a contenda entre Demócrito e os físicos antigos sobre se o mundo é uno ou se há muitos mundos, quando não houve acordo entre ele e seu herdeiro Epicuro? Pois este voluptuoso, ao permitir que os átomos como seus servos, isto é, os corpúsculos, que alegremente abraça as trevas, não sigam o seu caminho, e se desviem espontaneamente para além de limites, dissipou todo o patrimônio em contendas. Mas nada disso me interessa. Pois se é próprio da sabedoria saber algo dessas coisas, este conhecimento não pode faltar ao sábio. Se é outra coisa, o sábio conhece a sabedoria e despreza estas. Eu, todavia, que ainda estou longe até da proximidade do sábio, sei alguma coisa dessas questões físicas. Efetivamente tenho por certo que o mundo é uno ou não é uno. Se não é uno, é de número finito ou infinito. Venha Carnéades dizer que esta proposição é semelhante a uma proposição falsa! Sei igualmente que este nosso mundo está assim disposto ou pela natureza dos corpos ou por alguma providência, e que nunca terminará, ou não tendo começado, terá um fim, ou que começou a existir e não permanecerá para sempre. Tenho ainda inúmeros outros conhecimentos físicos deste gênero referentes ao mundo. Estas proposições disjuntas são verdadeiras e ninguém pode confundi-las com alguma semelhança com o falso.

– Mas toma isoladamente uma delas, diz o Acadêmico.

– Não aceito, pois o teu pedido equivale a dizer: deixa o que sabes e afirma o que ignoras.

– Então a tua opinião está em suspenso.

– É melhor que esteja em suspenso do que caia, porque está completa e pode chamar-se falsa ou verdadeira. Digo que sei estas proposições. Tu que não negas que elas pertencem à filosofia e afirmas que nada delas se pode saber, mostra-me que não as sei. Dize que estas proposições disjuntivas são falsas ou têm algo em comum com o falso ou têm algo em comum com o falso, que torna absolutamente impossível discerni-las.

Se os sentidos enganam, diz o Acadêmico, como sabes que este mundo existe?

Nunca os vossos raciocínios puderam enfraquecer a força do testemunho dos sentidos a ponto de convencer-nos que nada nos aparece e jamais ousastes tentar fazê-lo. Mas empenhastes-vos em persuadi-nos que uma coisa pode ser diferente do que parece. Eu, porém, chamo mundo a tudo isso, digo, que aparece a meus olhos e é por mim percebido como comportando terra e o céu, ou o que parece terra e céu. Se disseres que o que me aparece não é nada, nunca poderei errar. Pois erra quem temerariamente aprova o que lhe parece aos sentidos como verdadeiro, mas não negais o fato de parecer. Não restaria absolutamente nenhuma razão para toda essa discussão em que vos aprazeis em triunfar, se não só nada sabemos como também nada nos aparece. Mas se negas que o que me parece é o mundo, trata-se de uma questão de palavras, pois eu disse que chamo mundo o que me parece.

Perguntarás: também quando dormes o mundo é este que vês? Já disse que chamo mundo o que me aparece, seja o que for. Mas, se quiseres chamar mundo só o que é visto pelos que estão acordados ou pelos sãos de espírito, afirma, se podes, que os que dormem ou deliram não dormem ou deliram no mundo! Portanto, digo que toda esta massa de corpos e esta máquina na qual nos encontramos, seja dormindo ou delirando, despertos ou sãos de espírito, é uma ou não é uma. Explica como pode ser falsa esta proposição. Da mesma forma, se durmo é possível que eu não tenha dito nada, ou que, se no sono me escaparam palavras da boca, como sói acontecer, pode ser que não as tenha dito aqui, sentado como estou, nem  diante destes ouvintes. Mas é impossível que isso falso [isto é, que falei ou não falei durante o sono]. E não digo que percebi isso por estar desperto, pois poderias objetar que isso poderia parecer-me também no sono e consequentemente pode ser muito semelhante ao falso. Mas se há um mundo e seis mundos, é evidente que há sete mundos, qualquer se seja o meu estado, e eu afirmo sem temeridade saber isso. Demonstra-me que o sono ou a loucura ou as ilusões dos sentidos podem tornar falsa esta conclusão ou as suposições  disjuntivas. Então, se, depois de desperto me lembrar delas, me darei por vencido. Pois creio que já é suficientemente claro que as falsas aparências produzidas pelo sono ou pela demência pertencem ao domínio dos sentidos corporais. Mas que três vezes três é nove ou o quadrado destes números é necessariamente verdadeiro, mesmo que ronque todo o gênero humano. Entretanto, também vejo que se podem dizer em favor dos sentidos muitas coisas que, quanto sabemos, não foram censuradas pelos próprios Acadêmicos. Creio que não se deve acusar os sentidos nem das imaginações falsas experimentadas pelos dementes, nem das coisas falsas que vemos nos sonhos. Pois se informam coisas verdadeiras aos desperto e aos sãos de espírito, não se pode pedir-lhes conta do que forja o ânimo de quem dorme ou está demente.

Resta averiguar se o que os sentidos informam é verdadeiro. Suponhamos que diga algum Epicurista:

Não tenho do que me queixar contra os sentidos, pois é injusto exigir deles mais do que podem dar. O que os olhos podem ver, se o veem, é verdadeiro.

– Logo é verdade o que veem do remo imerso na água?

– Absolutamente verdadeiro, pois havendo uma nova causa pela qual as coisas aparecem como se vê, se o remo imerso na água aparecesse reto, eu acusaria meus olhos de testemunho falso: de fato não veriam o que deveriam ver, havendo tais causas. Para que multiplicar os exemplos? A mesma coisa se pode dizer do movimento das torres, das asas das aves, de inúmeros outros casos.

Todavia, engano-me se der meu assentimento, dirá alguém:

Não dês um assentimento que vá além do que dita a tua persuasão de quem assim aparece, e não haverá engano. Pois não vejo como o Acadêmico possa refutar alguém que diz: sei que isso me parece branco, sei que isso deleita meus ouvidos, sei que aquilo é frio para mim.

– Mas, dize-me antes se são amargas em si mesmas as folhas do oleastro que tanto apetecem à cabra!

– Ó homem petulante! Não é mais modesta a cabra? Não sei o que as folhas são para o animal. Para mim são amargas. O que mais queres?

– Mas talvez também há algum homem para quem não são amargas.

– Queres cansar-me? Por acaso eu disse que são amargas para todos? Disse que são amargas para mim, e não afirmo que isso é sempre assim. Não acontece que por uma causa ou outra, a mesma coisa uma vez tem gosto doce, outra vez amargo? Afirmo o seguinte: quando um homem saboreia alguma coisa, pode jurar de boa fé que sabe que tal coisa é suave ou não ao seu paladar e não há sofisma grego que possa retirar-lhe esse conhecimento. Quem teria o descaramento de dizer-me, quando estou saboreando alguma iguaria: talvez não estás saboreando, mas é apenas um sonho? Por acaso estou dizendo contrário? Pois mesmo em sonho isso me deleitaria.

Assim nenhuma semelhança com o falso pode anular o fato que declarei conhecer. Os Epicuristas e os Cirenaicos talvez digam a favor dos sentidos muitas outras coisas que não me consta terem sido rebatidas pelos Acadêmicos. Mas o que me importa? Se quiserem e puderem, que os Acadêmicos refutem esses argumentos, até com a minha ajuda. Pois o que alegam contra os sentidos não vale contra todos os filósofos. Há os que julgam que todas as impressões que a alma recebe pelos sentidos podem produzir opinião, mas não a ciência a qual querem que seja contida na inteligência e vive na mente, longe dos sentidos. Talvez entre eles se encontre o sábio que procuramos. Mas este tema será tratado em outra ocasião. Passemos agora aos outros pontos, de que, à luz do que já foi dito, salvo engano, trataremos em poucas palavras.

Em que os sentidos são uma ajuda ou um obstáculo para quem trata de moral? Se nem o pescoço da pomba, nem a voz incerta, nem um fardo que é pesado para o homem e ao mesmo tempo leve para os camelos e mil outras coisas do gênero impedem aqueles que colocaram o sumo bem do homem no prazer de dizer que se sabem deliciados por aquilo que os delicia ou molestados por aquilo que os molesta – e não vejo como se poderia refutá-los neste ponto. Será então que tais argumentos impressionarão aquele que encerra na mente o bem do homem? O que escolhes? Se me perguntas o que acho, julgo que é na mente que reside o sumo bem do homem. Mas agora a nossa indagação diz respeito ao conhecimento. Interroga, portanto, o sábio, que não pode ignorar a sabedoria. Entretanto, é-me lícito, a mim por mais limitado e ignorante que seja, saber que o fim do bem humano, em que consiste a felicidade, ou não existe, ou existe e neste caso ou na alma, ou no corpo, ou em ambos. Convence-me, se fores capaz, de que não sei isso. Vossos famosos argumentos não o conseguem. Se não o podes, pois não encontrarás falsidade à qual se assemelhe, hesitaria eu em concluir que é com razão que o sábio me parece saber tudo o que há de verdadeiro na filosofia, uma vez que eu mesmo dela hauri tantos conhecimentos verdadeiros?

Mas talvez o sábio receie escolher o sumo bem dormindo. Não há nenhum perigo. Quando acordar, se não lhe agradar, o rejeitará, se lhe agradar, o aceitará. Pois quem terá o direito de repreendê-lo por te visto em sonho algo de falso? Talvez tema perder a sabedoria enquanto dorme, se tomar o falso por verdadeiro? Mas nem quem está dormindo ousará sonhar que deve chamar sábio um homem acordado e negar-lhe este título quando dorme. O mesmo se pode dizer da demência. Mas urge passar a outras considerações. Entretanto não deixarei esta questão sem uma conclusão certíssima: ou a sabedoria se perde pela demência e aquele de quem dizeis que ignora a verdade não será mais sábio, ou seu conhecimento permanece na inteligência, ainda que outra parte da alma se represente como em sonho o que recebeu pelos sentidos.

Resta à dialética, que o sábio certamente conhece bem. Ora, ninguém pode saber o falso [portanto a dialética é verdadeira]. Se o sábio não a conhece, o conhecimento da dialética não pertence à sabedoria, pois pôde sem ela tornar-se sábio. Neste caso será supérfluo indagar se é verdadeira e se pode ser conhecida. Aqui talvez alguém me diga: Estulto, costumas ostentar o que sabes. Não conseguiste aprender nada de dialética? Ao contrário, muito mais que de qualquer outra parte da filosofia. Em primeiro lugar, a dialética me ensinou que são verdadeiras todas as proposições acima. Além disso, através dela aprendi muitas outras verdades. Enumerai-as, se fordes capazes: se há quatro elementos no mundo, não são cinco, se há um sol, não há dois, uma mesma alma não pode ao mesmo morrer e ser imortal, um homem não pode ser ao mesmo tempo feliz e infeliz; aqui não é ao mesmo tempo dia e noite. No mesmo momento ou estamos acordados ou dormindo; o que creio ver ou é um corpo ou não é um corpo. Estas e outras coisas, que seria demasiadamente longo lembrar, foi pela dialética que aprendi serem verdadeiras, qualquer que seja o estado dos nossos sentidos, verdadeiras em si mesmas. Ela me ensinou que, se for admitida a antecedente nas proposições que citei, segue-os necessariamente a consequente. Quanto às que enunciei em forma de oposição ou disjunção, elas são de tal natureza que, quando se nega uma ou várias delas, a que resta é estabelecida pela negação das outras. Ensinou-me ainda que, quando há acordo sobre algo em questão, não se de discutir sobreas palavras e se o que o faz é por ignorância, que o faz, deve-se instruí-lo; se por maldade deve-se abandoná-lo; se for incapaz de ser instruído, deve-se adverti-lo que faça qualquer outra coisa em vez de perder tempo e trabalho em coisas supérfluas; se não obedecer, deixa-lo de lado. Quanto aos raciocínios capciosos e falaciosos, há uma regra breve: se forem baseados numa concessão imprudente, deve-se voltar a examinar o que foi concedido. Se o verdadeiro e o falso conflitam numa mesma conclusão, deve-se tomar o que se pode compreender e deixar o que não se pode explicar. Se, ao contrário, em algumas questões escapa inteiramente ao homem o “modo (modus)”, deve-se renunciar ao seu conhecimento. Todas estas e outras coisas, que é desnecessário lembrar devo-as à dialética, pois não deve ser ingrato a ela. Mas o sábio de que falamos ou despreza essas coisas, ou, se a dialética é realmente a ciência da verdade, conhece-a o suficiente para desprezar e acabar sem piedade com esta mentirosa calúnia: se é verdadeiro, é falso, se é falso é verdadeiro. Julgo que isso é suficiente sobre o conhecimento, pois quando tratar do assentimento, retornarei a questão.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Qual a diferença entre a Igreja e os Filhos da Igreja?

Igreja Católica

Para entender bem este texto, é necessário ler o texto anterior – Estudo sobre a Igreja Católica Apostólica Romana:: Por que dizemos que a Igreja é santa? – Fiquei de exibir este texto e acabei esquecendo. Peço perdão. Adiante…

A Igreja é santa e santificadora, porém, muitos dos seus filhos são pecadores. A Igreja, consciente disso, não exclui os pecadores de seu seio, salvo em casos extremos. Dizia Pio XII:

“Que todos aborreçam o pecado. Porém, quem pecou e não se tornou indigno, por sua contumácia, da comunhão dos fiéis, seja acolhido com amor… Pois mais vale, como adverte o Bispo de Hipona, ‘ser curado permanecendo no corpo da Igreja, do que serem cortados dela como membros incuráveis. Porque não é desesperada a cura daquilo que ainda está unido ao corpo, enquanto que, tendo sido amputado, já não pode ser curado nem sanado’”.

A Igreja nos ensina algo que é duro, mas que precisa ser dito: Os pecadores são membros da Igreja, mas não o são no mesmo grau nem do mesmo modo que o justo; e assim é rigorosamente exato o que disse o Cardeal Journet:

“Quanto mais se peca, menos se pertence à Igreja. Por isso, a maioria dos autores é categórica em afirmar que é inconcebível uma Igreja integrada exclusivamente por pecadores.”

Se os pecadores são membros da Igreja, o são não por causa dos seus pecados, mas em virtude dos valores espirituais que subsistem neles e em cuja virtude, todavia, permanece viva de alguma forma: valores espirituais pessoais (fé e esperança teologais informes, caráteres sacramentais, aceitação da hierarquia etc.), aos quais é preciso acrescentar os impulsos interiores do Espírito Santo e a influência da comunidade cristã que os envolve e arrasta em seu seio, tal como uma mão paralisada, que nada pode fazer por si, ainda assim participa de todos os deslocamentos e mudanças de toda a pessoa humana.

É justamente por isso que  dizemos: A Igreja é santa e imaculada? Sim! A Igreja continua sendo a Igreja dos Santos, apesar do pecado e inclusive em seus membros pecadores. Como isto pode ser possível? Porque, assim como a santidade é uma realidade da Igreja e que, como tal, não está só na Igreja, mas também procede da Igreja, o pecado não é uma realidade “da Igreja”; mesmo quando o pecado estiver na Igreja, não procede dela, precisamente por ser o ato com que alguém nega a influência da Igreja.

Mais ainda: Quando se aceita permanecer na Igreja santificadora, mesmo que seja apenas por fé e sem caridade, esta (=a Igreja) o ajuda em sua luta contra o pecado. Por isso, Journet dizia:

“A Igreja carrega, dentro de seu coração, Cristo lutando contra Belial”.

Por isso, o pecado não pode impedir que a Igreja seja santa, mas pode impedir que seja tão santa quanto deveria! Dizia Santo Ambrósio:

“Não nela, mas em nós é ferida a Igreja. Vigiemos, pois, para que a nossa falta não constitua uma ferida para a Igreja.”

Assim, então, termina o Cardeal Journet:

“A Igreja divide em nós o bem e o mal. Fica com o bem e deixa o mal… [A Igreja] não está livre de pecadores, mas está sem pecado. Por isso, não é pecadora nem pode pedir perdão por seus pecados. Pede, ao contrário, perdão para os pecados de seus filhos e por isso ‘a Igreja [é] santa e, por sua vez, necessitada da purificação’ em seus filhos”.

Monsenhor Tihamer Toth dizia:

 “A Igreja somos nós: eu, tu, nós, todos… e quanto mais bela é a nossa alma, mais bela a Igreja“.

Maritian (1930, p.60) afirma:

“A Igreja é um mistério: tem sua cabeça oculta no céu, sua visibilidade não a manifesta mais do que de um modo sumamente inadequado; se procurais o que a representa sem traí-La, contemplai ao Papa e ao Episcopado, que nos ensinam nas coisas de fé e costumes; contemplai aos seus santos no céu e na terra; não vos fixeis em nós, pecadores. Ou melhor: vede como a Igreja cura as nossas chagas e nos conduz com dificuldades à vida eterna… A grande glória da Igreja é constituída pelo fato de ser santa com membros pecadores”

Bibliografia: Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, nº 39. | Encíclica Mystici Corporis, nº 30. | De Virginitate 8,48; PL 16,278-D. | Constituição Dogmática Lumen Gentium, nº 8. | J. Maritain. Religião e Cultura. Paris, 1930, p.60.

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Livro Maria Sempre Virgem e SantaVeja também o novo livro do Cadu (Administrador do Blog Dominus Dominus Vobiscum): Maria Sempre Virgem e Santa. Nele você vai encontrar ensinamentos seguros da doutrina da Igreja a respeito da Santíssima Virgem Maria, além das orações mais tradicionais da nossa Igreja à Virgem Mãe de Deus. Vendas apenas pela internet nos sites Clube de Autores e Agbook. Um livro para quem deseja ser mais íntimo de Nossa Senhora.

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [As implicações da definição de Zenão]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III. Agostinho nos faz refletir acerca da definição de Zenão sobre a verdade. Boa Leitura!

As implicações da definição de Zenão

Mas deixemos este tribunal litigioso por um lugar onde não nos moleste a multidão. Oxalá fosse a escola de Platão, que segundo se diz, recebeu seu nome do fato de ser separada do povo. Aqui discutamos, segundo nossas forças, não sobre a glória, que é coisa vã e pueril, mas sobre a própria vida e a esperança da alma feliz. Os Acadêmicos negam que se pode saber algo. Em que vos baseais para dizer isso, homens diligentíssimos e doutíssimos? Na definição de Zenão, respondem. Mas por quê? Se ela é verdadeira, aquele que a conhece sabe alguma coisa, se é falsa, não deveria abalar homens tão fortes. Mas vejamos o que diz Zenão. Segundo ele, só se pode compreender e perceber o que é de tal natureza que não tenha características comuns com o falso. Foi isso, discípulo de Platão, que te levou a envidar todos os esforços para desviar os desejosos de saber de toda esperança de aprender, de modo que, ajudados ainda por uma lamentável preguiça espiritual, abandonem todo estudo filosófico?

Mas como não seria ele abalado, se, de uma parte, não se pode encontrar nada que seja tal [isto é, conforme o que exige Zenão] e, de outra, só se pode conhecer com certeza o que é tal? Se assim fosse, seria melhor dizer que o homem não pode alcançar a sabedoria que dizer que o sábio não sabe por que vive, como vive, nem se vive, enfim, o que ultrapassa tudo o que se pode dizer ao mesmo tempo ser sábio e ignorar a sabedoria. Pois, o que é mais chocante: dizer que o homem não pode ser sábio ou dizer que o sábio ignora a sabedoria? Portanto, não há nada a discutir, se a questão assim colocada não é suficiente para resolvê-la. Mas talvez este modo de falar afastaria totalmente os homens da filosofia. Entretanto, é necessário atraí-lo pelo dulcíssimo e augustíssimo nome da sabedoria, para que, chegados à idade avançada sem nada terem aprendido, te persigam com as piores imprecações, a ti que terão seguido após terem renunciado aos prazeres corporais para tormento do espírito.

Mas vejamos quem os afasta mais da filosofia. Será quem diz: Escuta, amigo, a filosofia não é sabedoria, mas o estudo da sabedoria. Se a ela te aplicares, não serás sábio enquanto viveres aqui – pois a sabedoria pertence a Deus e não pode chegar ao homem – mas depois que tiveres executado e purificado bastante por este tipo de estudo, depois desta vida, isto é, quando tiveres deixado de ser homem, tua alma facilmente desfrutará desta sabedoria. Ou será aquele que diz: Vinde, mortais, para a filosofia, porque nela há grande proveito. Pois o que há de mais caro ao homem que a sabedoria? Vinde, portanto, para que sejais sábios e ignoreis a sabedoria! Eu não falaria assim, diz o Acadêmico. Isso é enganar, pois não encontrarão outra coisa em ti. Se dissesses isso, fugiriam de ti como de um louco. Se os levasses à tua opinião por outros meios, tu os tornarias loucos. Mas admitamos que ambas as opiniões afastam igualmente os homens do filosofar. Se a definição de Zenão obrigava a dizer algo de prejudicial à filosofia, havia necessidade, meu amigo, de dizer o que é objeto de tristeza para outro homem ou o que para ti é motivo de escárnio?

Todavia, na medida em que no-lo permite nossa ignorância, discutamos o que Zenão definiu. Segundo ele, só pode ser compreendida aquela representação que apareça de tal modo que o falso não possa mostrar-se. É evidente que fora disso nada se pode perceber.

Também eu penso assim, diz Arcesilau, e é por isso que ensino que não se percebe nada, pois não se pode encontrar nada que reúna tais condições.

Talvez tu e outros tolos. Mas por que não o poderia o sábio? Acho que o próprio tolo não poderias responder nada, se te pedisse refutar, com tua famosa sutileza, a definição de Zenão e mostrar que também ela pode ser falsa. Se não puderes, já tens uma proposição que percebes como certa. Mas se a refutares, então é que não há nada como se possa refutá-la e julgo-a totalmente verdadeira. Assim, ao conhecê-la, ainda que seja estulto, sei alguma coisa. Vê se consegues que a definição ceda às tuas argúcias! Usarei de um dilema seguríssimo: ou a definição é verdadeira ou falsa. Se é verdadeira, mantenho minha posição, se é falsa, é possível perceber algo, ainda que tenha características comuns com o falso.

– Como pode ser isso? – perguntou ele.

– Zenão definiu, portanto, com muito acerto e não errou quem lhe deu assentimento neste ponto. Consideraremos de pouco valor e vigor uma definição que contra aqueles que haveriam de aduzir muitos argumentos contra a percepção, ao designar as características do que pode ser percebido, se apresenta a si mesma com tais características? Assim, ela é, ao mesmo tempo, definição e exemplo de coisas compreensíveis.

– Não sei, diz Arcesilau, se ela é verdadeira, mas como é provável, demonstro, apoiando-me nela, que não existe nada do que ela declarou ser possível de ser conhecido.

– Talvez o demonstres para tudo, menos para ela. Acho que vês a consequência. Mesmo que não tenhamos certeza da definição, nem por isso ficamos privados do conhecimento, pois sabemos que ou ela é verdadeira, ou é falsa. Logo, não ficamos sem nada saber. Ainda que isso nunca consiga tornar-me ingrato, julgo que esta definição é totalmente verdadeira. Pois ou é possível perceber mesmo as coisas falsas, hipótese da qual os Acadêmicos têm verdadeiro pavor e realmente é absurda, ou tampouco podem perceber-se as coisas que são muito semelhantes às falsas. Logo aquela definição é verdadeira. Mas vejamos o restante.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente | Livro III – Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!

O Aborto e suas consequências psicológicas

consequencias-abortoVoltando a trabalhar a questão do aborto, estou tentando agora responder algumas questões sobre o tema. A de hoje é: O Aborto traz consequências psicológicas para a mulher que pratica?

Após um estudo feito pelo Instituto Jérôme Lejeune os especialistas chegaram a conclusão que as mulheres que abortam (ainda que de forma livre e espontânea), no geral, manifestam um estado depressivo e diversos distúrbios: culpa, perda de auto estima, depressão, impulsos suicidas, ansiedade, insônia, revolta, transtornos sexuais, pesadelos em que o bebê a odeia ou a chama…

Atualmente estas conseqüências são bem conhecidas. São identificadas como “Síndrome Pós-Aborto”. No geral, estes sintomas se agravam sempre em que a mulher encontra uma grávida, vê um bebê em um carrinho, passa diante de uma clínica ou pensa no aniversário da criança.  Enganam-se aqueles que pensam que isto é um assunto novo. Encontramos, na obra “A psicopatologia da vida cotidiana”, de Sigmund Freud, descrições sobre o assunto. Também, no livro “Além do princípio de prazer”, Freud salienta:

“Fica-se também estupefato com os resultados inesperados que se podem seguir a um aborto artificial, à morte de um filho não nascido, decidido sem remorso e sem hesitação.”

Em um estudo com 331 mulheres russas e 217 mulheres norte-americanas,19 foram encontradas os seguintes sintomas ¹:

  • 65% das mulheres norte-americanas sondadas experimentou múltiplos sintomas de desordem de stress pós-traumático, os quais atribuíam ao seu aborto.
  • 64% das mulheres norte-americanas sentiram-se pressionadas por outros a escolher o aborto, em comparação com 37% das mulheres russas.
  • De um modo geral, as mulheres referiram mais reações negativas do que positivas.
  • A reação positiva mais mencionada foi o alívio, mas apenas 7% das mulheres russas e 14% das americanas a mencionaram.
  • As mulheres norte-americanas eram mais propensas a atribuir aos seus abortos pensamentos subsequentes de suicídio (36%), um aumento de consumo de drogas e álcool (27%) problemas sexuais (24%), problemas relacionais (27%), sentimento de culpa (78%) e incapacidade de auto-perdão (24%).
  • Aproximadamente 2% das mulheres americanas atribuíram ao seu aborto uma hospitalização psiquiátrica subsequente.

No Estados Unidos, Brenda Major, professora de Psicologia na Universidade do Sul da Califórnia, em Santa Bárbara, não argumenta contra a síndrome pós-parto, porém considera que o tratamento psicológico é fundamental para a sua recuperação das mulheres que passam por algum abalo. Um outro estudo recente publicado no British Journal of Psychiatry concluiu que mulheres que fizeram aborto têm 30% mais chances e desenvolverem problemas mentais.

No entanto engana-se quem pensa que Síndrome Pós-Aborto se restringe unicamente a mulher. Ela muitas vezes acontece nos familiares ligados à mulher que praticou o aborto (marido, pais, irmãos e outros)…

1. Rue, V. M., P. K. Coleman, J. J. Rue and D. C. Reardon (2004). Induced abortion and traumatic stress: A preliminary comparison of American and Russian women. Medical Science Monitor 10(10): SR5-16.

Veja também:: A história de um pequeno ser humano… | A Odisséia da vida | Perguntas e respostas sobre os fetos e embriões à Luz da Igreja Católica |O que a Igreja Católica diz a respeito do aborto? | A violência dos métodos abortivos | A origem do Movimento abortista e da cultura de morte | O aborto como instrumento de controle demográfico | A Mãe do Aborto | Planned Parenthood: A Maior organização abortista do mundo | O que a ONU tem a ver com o aborto? | A origem dos grandes movimentos abortistas no Brasil | O aborto e a política brasileira | Integrante de organização que luta pelos direitos de afrodescendentes afirma: A PLC 03/2013 (lei do aborto) é um lixo imposto a população mais carente. | Por que para a Igreja Católica a mulher não pode escolher entre o aborto ou não? | Não tenho condições financeiras para criar um filho. Por que a Igreja não permite que eu aborte? | A menina engravida… mas e o pai? | A solidão de uma gravidez indesejada

Vida de Santo Agostinho de Hipona :: Contra os Acadêmicos – Livro III [Refutação do assentado primado dos Acadêmicos]

Santo Agostinho de Hipona (4)Pax et Bonum! Amigos, que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vocês! Dando continuidade aos estudos do livro “Contra os Acadêmicos“, hoje iremos, continuar lendo o livro III. Boa Leitura!

Refutação do assentado primado dos Acadêmicos

Ao perceber que era isso o que também eles esperavam, comecei como uma espécie de novo exórdio, dizendo:

– Cederei aos vossos desejos. Depois das grandes fadigas da escola de retórica, eu esperava poder descansar um pouco sob uma armadura leve, tratando este assunto mais sob forma de interrogações que de discurso. Todavia, como somos poucos e não preciso de forçar minha voz em detrimento da saúde e, de outra parte, por causa disso resolvi que o estilo seja uma espécie de condutor e moderador do meu discurso, para não me deixar levar a falar com mais entusiasmo do que permite o cuidado do meu estado físico, ouvi em discurso contínuo, como desejais, o que penso.

Primeiramente, vejamos o que dá aos seguidores dos Acadêmicos motivo para tanto gloriar-se. Há, efetivamente, nas obras que Cícero escreveu em defesa deles, uma passagem que a meu ver, é de admirável elegância e, segundo outros, também de rara solidez. É difícil não impressionar-se com o que diz: “Os seguidores de todas as outras seitas que julgam ser sábios concedem o segundo lugar ao sábio Acadêmico, pois cada um deles reserva necessariamente para si o primeiro. Daqui se pode concluir com probabilidade que com direito se julga primeiro aquele que é o segundo no juízo de todos os outros.

Suponhamos, por exemplo, aqui presente um sábio estóico, pois foi principalmente contra eles que se exerceu a engenhosidade dos Acadêmicos. Se perguntarmos a Zenão ou a Crisipo quem é sábio, responderá que é aquele que ele próprio descreveu. De seu lado, Epicuro, ou algum outro adversário negará tal afirmação e sustentará que para ele sábio é o mais hábil caçador de prazeres. Começa a discussão. Clama Zenão e todo o Pórtico, em alvoroço, grita que o homem não nasceu senão para a virtude, que esta atrai a si as almas com o seu esplendor, sem oferecer absolutamente nenhuma vantagem exterior, sem nenhum atrativo de recompensa, que o prazer de Epicuro é próprio somente dos animais e que é ímpio lançar o homem e o sábio à companhia destes. Epicuro, por sua vez, qual outro Liber de seus jardins, convoca em seu auxílio a turba dos discípulos embriagados, mas que, no seu furor de bacantes, procuram a quem dilacerar com suas unhas sujas e seus dentes ásperos. Com o testemunho da turba, acumula as palavras prazer, suavidades e repouso, insistindo enfaticamente que ninguém pode ser feliz sem o prazer. Se no meio da disputa se apresentar um Acadêmico, ouvirá as duas partes, cada qual tentando atraí-lo para o seu lado. Se se inclinar para um dos partidos, será chamado de insensato, ignorante e temerário pelos sequazes do partido contrario. Assim, depois de ter ouvido os dois partidos, interrogado sobre o que pensa, dirá que está em dúvida. Pergunta agora ao estóico quem é melhor, se Epicuro, o qual diz que o estóico delira, ou o Acadêmico, que declara que ainda precisa refletir sobre a questão tão grave. Ninguém duvida que o preferido será o Acadêmico. Dirige-te então a Epicuro e pergunta-lhe quem prefere, Zenão, por quem é chamado animal, ou Arcesilau, que lhe diz: talvez tens razão, mas preciso examinar isso melhor. Não é evidente que Epicuro julgará que todo o Pórtico é louco e que em comparação com este os Acadêmicos são homens modestos e cautelosos?”. Assim Cícero, com grande eloquência faz desfilar diante de seus leitores, como que num agradabilíssimo espetáculo, quase todas as seitas, mostrando que se nenhum representante delas deixa de atribuir-se o primeiro lugar, o que é inevitável, todos concordam em dar o segundo a quem não lhes é contrário, mas duvida. Não me oporei a eles neste ponto, nem pretendo diminuir-lhes a glória.

Alguns, é certo, acham que aqui Cícero não quis brincar, mas, por detestar a frivolidade dos gregos, colher e reunir alguns argumentos vãos e ocos. Mas o que me impede a mim, se quiser resistir a esta impostura acadêmica, mostrar, o que farei facilmente, que é um mal menor se ignorante (indoctum) que ser incapaz de instruir-se (indocilem)? Assim, quando esse presunçoso Acadêmico se apresenta como discípulo a cada um dos filósofos e ninguém consegue convencê-lo do que crê saber, todos acabam concordando em rir-se dele. Cada qual pensará que, se nenhum dos seus adversários aprendeu alguma coisa, o Acadêmico, este é incapaz de aprender. Consequentemente, será expulso de todas as escolas, não a golpes de férula, o que seria mais vergonhoso que modesto, mas com as clavas e bastões daqueles homens vestidos de manto. Na verdade não será grande trabalho reclamar contra um flagelo comum o socorro, por assim dizer, hercúleo, dos Cínicos.

Mas se eu quiser disputar com os Acadêmicos uma glória tão miserável, o que mais facilmente se concederá ao filosofante que sou, ainda não sábio, o que poderão alegar? Suponhamos que eu e um Acadêmico entremos numa dessas disputas dos filósofos, que todos estejam presentes e todos exponham brevemente sua doutrina, segundo convém. Pergunta-se a Carnéades o que pensa. Dirá que duvida. E cada qual o preferirá aos demais. Portanto, todos o preferirão a todos. Uma grande e altíssima glória! Quem não quererá imitá-lo? E se me perguntarem responderei a mesma coisa. O louvor será igual. Logo o sábio goza de uma glória pela qual o estulto se torna seu igual. E que dizer se o último até  facilmente o superar? Nada fará a vergonha? Deterei o Acadêmico no momento em que estiver para deixar o tribunal, pois afinal a estultícia é ávida desse tipo de vitória. Retendo-o, mostrarei aos juízes o que ignoram e direi: “Excelentíssimos senhores, tenho em comum com este homem a dúvida sobre quem de nós segue a verdade. Mas também temos opiniões pessoais e peço-vos que as julgueis. Ainda que vos tenha ouvido, ignoro onde está a verdade, mas isso vem do fato de eu não saber quem de vós é sábio. Este, porém, nega que o próprio sábio conhece alguma coisa ao certo, nem mesmo a sabedoria, donde o sábio deriva o seu nome. Quem não vê a quem caberá a palma? Se meu adversário disser isso, vencerei em glória; se, envergonhado, confessar que o sábio conhece a sabedoria, terei vencido pela minha opinião.

(Postagem: Paulo Praxedes – Equipe do Blog Dominus Vobiscum – Referências: Veritatis  Suma Teológica  Ordem de Santo Agostinho  Patrística vol.24)

Veja Também:: Vida de São Agostinho | Livro I | Livro II | Livro III – Necessidade da fortuna para tornar-se sábio | Livro III – O sábio e o conhecimento da sabedoria | Livro III – Irrazoabilidade da descrição acadêmica do sábio | Livro III – Balanço da discussão e plano subsequente

Até o próximo post! E divulguem/compartilhem este estudo com seus amigos para que juntos possamos aprender com os doutores da nossa Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana!